Armistício

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 13 de novembro de 2011.

Onze horas do dia onze do mês onze. Foi sexta-feira passada a celebração política do Dia do Armistício, feriado nacional da França. À tarde, na Catedral de Notre Dame de Paris, igreja de 850 anos, a celebração religiosa foi entregue aos anglicanos da Legião Real Britânica. Homenagem à memória dos mais de um milhão de mortos da Commonwealth na 1ª Guerra Mundial, a maioria tombada na França. Transformado em Dia da Lembrança pelo mundo afora, incorporou ao longo do tempo a memória de todas as guerras. Mas a animosidade entre países e a crise de valores individuais continua sendo a marca do mundo.

“O que não é meu não pertence a mim”, expressou com simplicidade o jovem japonês da cidade de Miyako ao devolver aos seus donos o cofre encontrado nas ruas sujas de lama. O terremoto seguido de perigo atômico, que devastou o Japão, serviu para mostrar como a cultura ajuda a compreender as leis da economia em tempo de dificuldade. Os furacões que passam periodicamente pelas Américas Central e do Norte continuam a confirma a tendência ao surgimento de preços abusivos e exploração de desabrigados. É o que se lê depois da tragédia que atinge populações inteiras e o que vemos também nas enchentes brasileiras. A gravidade do comportamento ganancioso é que impulsiona a exploração dos desprotegidos. Ela é tão alta quanto considerar que a proteção da economia é mais importante do que orientar-se por ideias de justiça. Veja o caso do sistema financeiro. Mesmo quando quebram e recebem socorro dos governos – isto é, dinheiro público –, banqueiros não deixam de pagar aos seus executivos bônus e remunerações adicionais, como se os tempos de fracasso pudessem ser regidos pelas mesmas leis dos tempos de sucesso.

Eles ficarão velhos antes de ficarem ricos. Esta é a conclusão do estudo da agência do governo americano Census Bureau, que compila dados demográficos e socioeconômicos no país, quando afirma que a distância entre o patrimônio dos americanos mais novos e o dos mais velhos atingiu seu mais alto nível. A ideia do progresso, contida no princípio de que a geração seguinte faz melhor do que a anterior, evapora da vida de milhares de jovens sem oportunidade. Quando o aumento e a concentração da riqueza de alguns significam aumentar também o quinhão dos infelizes, a incerteza sobre a crença na força dos direitos individuais e sociais se amplia. Aí, então, é chegada a hora de o desespero predominar.

E o que era uma lei da economia vira lei política de consequências imprevisíveis. “São Estados párias”, a linguagem explosiva do egípcio ElBaradei, três vezes diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), não deixava saída para os novos sócios do clube atômico. Nações isoladas politicamente costumam encontrar na bomba atômica uma péssima maneira de recuperar influência em sua região. Hoje, é uma realidade: só a destruição mútua impede o início de um conflito nuclear. A inteligência para o uso de cálculos e códigos que levem ao uso duplo do programa nuclear – da energia para fins pacíficos à criação da bomba – é uma questão de gradação e direção das pesquisas. Assim como o duplo padrão moral da AIEA, tolerante com países nucleares e severo com os não nucleares, alimenta a polarização e a conspiração entre as nações. E reforça a ganância pelo conflito, que tem sua raiz na noção de paz imposta, sem diálogo ou identidade comum.

“Essa é a pedra prometida” , informou com humor judaico o guia turístico, apontando para colinas e desertos em torno de Jerusalém. Ao mesmo tempo, o sem graça governo ultraconservador de Israel, contrariando todas as vozes sensatas, anuncia o ataque ao Irã nuclear e seu programa de beneficiamento do urânio, que busca tornar a antiga Pérsia igual ao seu rival. Se houvesse sábios na política, certamente saberiam que contra o obscurantismo dos aiatolás só surtirá efeito uma primavera do protestantismo islâmico. Um Lutero maometano, para reformar a visão daquela fé e deter o fanatismo que é o mau uso do islamismo pelos governantes.

A defesa do interesse pessoal exige a preocupação com sua consequência para os outros. Pois as nações, como as pessoas, também estão submetidas a uma autonomia relativa nos seus desejos e possibilidades.

“Por que o mundo não é injusto em meu favor?”, disse o desolado Calvin ao seu tigre de pelúcia, personagens de Bill Watterson em uma tira de Calvin & Hobbes, refletindo o mal-estar a respeito da complicada natureza humana.

11-11-11:o décimo primeiro portão que liga os céus ao nosso mundo não se abriu, tragando a terra. Como nessa profecia fracassada, é difícil acreditar que estamos perto do dia do armistício. Por que, afinal, quem nunca pensou como Calvin?

Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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