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	<title>Arquivos saúde mental - Paulo Delgado</title>
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		<title>O tempo e o vento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Feb 2019 02:58:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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		<category><![CDATA[delgado]]></category>
		<category><![CDATA[Lei 10.216/2001]]></category>
		<category><![CDATA[mistério da saúde]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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<p><em>O Estado de S. Paulo &#8211; 13 de fevereiro de 2019.</em></p>



<p><em><strong>S</strong></em>e quer entender bem um assunto, vá devagar. Evite a fúria das redes sociais. A pessoa mal conectada é uma potência decrescente. Há mais de 48 trilhões de páginas publicadas na internet por ano. A maioria é zombaria e puro veneno. Muitas perturbações do espírito dominam a mais tecnológica forma de controle pessoal. Seu papel é aumentar a assimetria do poder, colocar a pessoa numa bolha para vender seus acessos egoístas, radicalizar o usuário para impor um produto, acumulando notícias para dissipar a verdade. Ela customizou o caráter, deu potência ao insulto, acabou com a transparência dos atos humanos. </p>



<p>Um jogo de manipulação que explora ansiosos, impõe notícias fora do contexto e faz tolos terem seguidores. O idiota <em>online</em>, que só presta atenção no que chama a sua atenção, é um verbete falso. Como alvo do modificador dos outros, seguidor-seguido, engajado no mundo digital você não tem credibilidade, tem classificação. Viciados em aparelhos eletrônicos tornaram-se aplicativos. O conectado é sempre plataforma de alguém. </p>



<p>A velocidade das redes sociais é um contrassenso: se tudo fosse um sufoco e pudesse ou devesse acontecer de uma só vez, não haveria tempo, nem vento. </p>



<p>A internet é uma máquina de isolamento e depressão. E por falar nisso, a saúde mental também. Muitos jovens têm medo de dormir. Quantos pais não podem descansar. A sociedade pressiona o governo para internar, marca da cultura do abandono. E nesta dinâmica de legitimação/deslegitimação saiu a última resolução do Ministério da Saúde com críticas a decisões antigas na área da saúde mental. A forma, que pretende esquadrinhar o arcabouço da política do setor, provoca um confuso debate que mistura hospital, droga e nova hegemonia política. </p>



<p>Infelizmente, o texto não separa o debate sobre a doença mental do calor que envolve o usuário de droga. É certo que a realidade é móvel, e com demanda social não se brinca. Os hospitais psiquiátricos agonizantes ficaram atentos aos novos ventos quando a política nacional de enfrentamento do crack e outras drogas, uma urgência e emergência, se valeu da força política das igrejas evangélicas para se tornar, por meio das comunidades terapêuticas, um braço da reforma psiquiátrica. Conexões legítimas, embora forçadas pela política dos tempos da crise e pela queda do confuso governo de esquerda, lideradas à época por seus prestigiados ministros da Casa Civil e da Justiça. Uma governante sem capacidade de formular claramente nada fez a saúde mental virar moeda de troca política. Foi aquele governo ruim que enfraqueceu os fundamentos da reforma. Ouvia-se um “<em>fora Valencius</em>”. <br></p>



<p>Não vejo, assim, sentido de a resolução desconhecer sua própria história de corresponsabilidade política, pois o que temos agora é uma adaptação híbrida, iniciada antes do impeachment, a Lei 10.216/2001. Concordo que, se a terapia é psicossocial, é certo envolver o Ministério da Cidadania no viés do cuidado dos usuários de droga. O retrocesso é outro: é a Saúde convidar à mesa um interlocutor antiquado que é o hospital fechado, mesmo dispondo da ala psiquiátrica no hospital geral, terapeuticamente mais correto. O tempo dirá &#8211; a história é mais forte do que o vento da política. Estão exumando um fracasso institucional e clínico. </p>



<p>O texto evita a discussão cara à mais moderna psiquiatria mundial que é a busca do cuidado em liberdade, essencial para acolher o paciente-doente-cidadão, sua autonomia e a resolutividade da qualidade da sua vida e de sua família. É um atalho evitável ofertar um mercado de enfermos financiado pelo governo. Onde o Caps funciona não há crise no território. Tenho muitos amigos nos dois campos da polêmica, respeitados profissionais em todos os partidos, que não contestam que a ética do cuidado em hospital é largamente superada pela ética do cuidado em sociedade. Assim decidiu a geriatria, assim faz a boa pediatria. A internação compulsória é sempre exceção e não precisa aparato hospitalar. Não vejo sentido em desqualificar a história do modelo sanitário só para ressuscitar o dogma hospitalar de um setor arcaico incapaz de cuidar bem do sofrimento psíquico: doença, bactéria, droga, leito, isolamento, esse é um roteiro equivocado para tratar uma doença que não é contagiosa. </p>



<p>Quando não vislumbramos a existência de um capitalismo compassivo e são frágeis as rédeas do Estado diante da pressão do mercado de doenças, a medicina é de matar. Ao definir o financiamento de hospitais psiquiátricos o texto aponta, em linguagem dissoluta, para o interesse em “mudar o procedimento faturado” e melhor definir contabilmente para onde os corpos e as almas em crise devem seguir codificados. Ora, todo doente tem um perigoso vizinho: a insensibilidade do sadio, indiferente ao tempo de guarda de refugos sociais irrecicláveis.  </p>



<p>Há no texto um tom, desnecessário, de ofensa à honra de gestores públicos desde os anos 1990. É leviandade, uma fraude sem dados, dizer que “a política de saúde mental dos últimos 20 anos é responsável pela superpopulação das prisões; pelo aumento das taxas de suicídio; pelo abandono das populações de rua; proliferação das cracolândias; morte dos dependentes químicos; pelo aumento do afastamento ao trabalho”. É de lascar, alguém assinar, em nome do Estado, uma agressão pessoal dessa ordem. </p>



<p>Pessoas adoecidas por razões psiquiátricas não são mutilados neurológicos. Fiquei espantado com o uso de tabelas e escalas de doenças coronarianas de submetidos a revascularização cirúrgica para definir planos terapêuticos em portadores de transtorno mental. É assombroso anunciar a oferta de procedimentos da complexidade tecnológica da eletroconvulsoterapia sem ponderar sobre o imaginário negativo que cerca o eletrochoque. </p>



<p>Ninguém será mais poderoso do que a natureza, tampouco agradará a toda a sociedade, nem vai conseguir deter a debilidade do corpo. A pregação política deve estar à altura da realidade, sem queda para a autodestruição, como se vê nas redes sociais, uma novidade entupida de incompreensão e de maldade. </p>



<p></p>
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		<title>Autor da Reforma Psiquiátrica Brasileira conta bastidores da criação da lei que acabou com manicômios no país</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Administrador]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 May 2019 22:54:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Matérias]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
		<category><![CDATA[lei 10216]]></category>
		<category><![CDATA[paulo delgado]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma Psiquiátrica]]></category>
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<p><em>Por Equipe <a href="http://novamentesaude.org.br">NovaMente</a></em><br></p>



<p><a href="http://novamentesaude.org.br/noticias/autor-da-reforma-psiquiatrica-brasileira-conta-bastidores-da-criacao-da-lei-que-acabou-com-manicomios-no-pais.html">http://novamentesaude.org.br/noticias/autor-da-reforma-psiquiatrica-brasileira-conta-bastidores-da-criacao-da-lei-que-acabou-com-manicomios-no-pais.html</a></p>



<p><em>Paulo Delgado explica em bate-papo a primeira reação ao texto que propôs e comenta resistência dos colegas políticos</em></p>



<p>“Era um apartamento cheio de gatos, em uma rua de Botafogo, bairro tradicional do Rio de Janeiro”, conta o ex-deputado e sociólogo Paulo Delgado, sobre o cenário da primeira vez que ele apresentou o projeto que daria origem à Reforma Psiquiátrica Brasileira e lei que acabou com os manicômios no país.</p>



<p>A psiquiatra Nise da Silveira foi a primeira a ver o texto. Questionou a palavra cidadão usada tantas vezes na justificativa. “Por que cidadão? Você se chama Paulo, eu me chamo Nise, ele se chama Antônio, o outro José”, lembra Delgado.</p>



<p>No mês da luta antimanicomial, o sociólogo e constituinte esteve no Centro de Atendimento e Estudos da Saúde do Servidor do Distrito Federal (Caessp-DF) para contar sobre os bastidores do projeto que marcou a luta. Neste vídeo ele relata a trajetória, conquistas, desafios e o que esperar em relação a saúde mental.</p>



<p>Confira o vídeo.</p>



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</div><figcaption>Paulo Delgado conta bastidores da Reforma Psiquiátrica brasileira</figcaption></figure>



<p></p>
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		<title>Os que têm a hora marcada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Jun 2019 00:44:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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<p><em>O Estado de S. Paulo &#8211; 12 de junho de 2019.</em></p>



<p><strong>Q</strong>uantos amigos podemos perder até que não tenhamos mais nenhum? Qual o grau de fervor se põe numa discussão até que tudo vá por água abaixo? Depois que o contrato é imposto, quem é responsável pelo erro; como é possível voltar ao estado anterior? Qual nível de alienação uma nação suporta? A evidência científica e a diversidade brasileira não podem ser devoradas por supremos conselhos. Nem é justo nos defrontarmos com uma lacuna na sensibilidade para diminuir o sofrimento humano. Os ganhos com a desumanidade têm sido tão grandes que parecem compensar a perda de bons interlocutores das políticas públicas. Não é conflito com paradigmas novos. É que o insucesso da bondade está tornando malsucedida qualquer ponderação sobre os riscos da certeza excessiva.&nbsp;</p>



<p>Desde 2013, quando a falta de conhecimento governou a imprecisão, cresceu o bloco que prega o colapso continuado do contexto e imagina ser simples enfrentar problemas complexos. Muitos se esquecem de que não é possível gerar na terra um sistema complexo como a alma humana. A política nacional antidrogas sofreu com essa confusão estatal e se arrisca a não ver a visão subjetiva como parte essencial de toda objetividade. Assim, não devia o Estado continuar a dar circulação a modelos de intervenção terapêuticos em que predomina, misturado à engenharia de poder, o risco de a classificação arbitrária de pacientes somar-se à possibilidade de lucro na abordagem do problema. Mesmo quem pode pagar internações e terapias caras está decepcionado com o que anda fazendo a alta medicina psiquiátrica. A contabilidade do Estado deve ir além da abordagem em círculo que gira droga-doente-leito-tempo-fatura. Se, por causa da crise econômica prolongada, a pressão por novos serviços pagos vira o centro da política sanitária, é certo que não haverá a capacidade de estabelecer uma interconexão segura que separe os desejos individuais da indecência social que impõe droga às cidades, na cara de todos.&nbsp;</p>



<p>Acreditar que o Estado pode e deve tudo é uma guerra perdida e mistura governos social-democratas, liberais ou populares. No caso do enfrentamento do crack, álcool e outras drogas, a imaginação é mais poderosa do que o conhecimento, especialmente porque o mundo é um mundo mesclado, cheio de dissociações e fragmentos, e qualquer técnica de abordagem que contenha resíduo de dominação ou opressão é uma técnica desorientadora e derrotada. Os usuários não estão camuflados, não são alvos a mirar. Decisões polêmicas atraem iguais inclinações adversas, assim, não se deve querer encaixar a doença mental e a dependência química em nenhum baralho do poder. É necessário reimaginar a ideia do estado de ânimo de quem sofre e não querer estocar nenhum poder sobre eles. Uma boa lei é aquela que pode ser compreendida e obedecida e, ao ser imposta, não causa dano desconhecido. Embora deva ser moralmente motivada, o mais importante é que esteja prudentemente redigida. E, hoje, loucura, álcool e drogas se tornaram um nó intransponível na edificação e classificação da qualidade dos ideais da sociedade democrática. Há pessoas que, mesmo fora da ordem penal e do crime, não têm afinidade com a sociedade na forma como ela está organizada e não podem ser moralmente condenadas por isso, ou forçadas a tratamentos morais.&nbsp;</p>



<p>Observando o fracasso das estruturas simbólicas dos jovens no mundo do crack, vê-se uma droga que não leva ninguém a San Francisco nem vislumbra no seu êxtase alguém gentil com flores no cabelo. Antes, produz no país uma vibração estranha, nenhum novo conhecimento, mas explicações contaminadas por doutrinas morais de grupos. Ninguém está autorizado a fazer o bem sem escrúpulos ou querer ajudar o outro sem consultá-lo. Sem contrapartida possível por parte do usuário, a bondade é um ato de poder como qualquer outro e, se imposto, é também violência. Num tempo em que os processos psíquicos suplantaram os processos sociais e políticos, é bom nunca ficar satisfeito com o que sabemos. Esta é uma área em que a maioria das explicações não explica e na qual o ponto de vista do paciente importa tanto quanto o dos técnicos.&nbsp;</p>



<p>Não se aborda de forma direta e frontal a alma de ninguém. A política antidrogas precisa ser reconhecida por toda a sociedade pela sua abordagem múltipla e indireta, sem nenhuma conotação de limpeza de edifícios pessoais. Dra. Nise da Silveira, que dizia que ninguém sabe ao certo onde se ancoram nossos alicerces, alertava para o risco de querer curar alguém além da conta. Qualquer política diferente disso pode agravar o irreconhecível. O usuário de droga é uma rede interligada de sofrimento, desejo, autonomia e prisão. Se a abordagem mirar um único aspecto, mesmo visando “somente” à desintoxicação, travará uma guerra perdida, interna-desinterna, aumentará tumultos e caos. Nenhuma infusão de dinheiro, sem catalisar as diferenças com criatividade, evitará a contaminação psíquica que se agrava com o confronto de opostos hostis em clínicas fechadas. A força errada, aplicada no lugar errado, poderá nos fazer voltar a épocas perdidas. Sem base holística, integral, confiança nos relacionamentos, não vamos conseguir mudar o parâmetro dos que são abordados como se tivessem a hora marcada.&nbsp;</p>



<p>A doença não é um fracasso. Fracasso é a ilusão carceral da terapia. A melhor maneira de não precisar de internar é internar menos, pois a lógica da contagem de corpos, com as incursões remuneradas na população-alvo, trará um Vietnã de equívocos. Não se bombardeia o usuário como se fez com Saigon. Há situações em que a incerteza é mais apropriada do que a certeza e evita o fracasso de guerras perdidas. Guerra que decidiu não concentrar o poder de fogo sobre os trens de suprimento que não param de chegar, dos depósitos dos distribuidores cada vez mais próximos do consumidor. Se o salmão está envenenado, melhor cuidar de também despoluir o rio.</p>
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