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	<title>Artigos Estadão - Paulo Delgado</title>
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		<title>A PSICO-HISTÓRIA DE UM LÍDER</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 May 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo &#8211; 10/05/2017 Não há defesa para quem viola leis da admiração. A frustração é a desrealização de um desejo. Com insinceridade<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo &#8211; 10/05/2017</em></p>
<p><strong>N</strong>ão há defesa para quem viola leis da admiração. A frustração é a desrealização de um desejo. Com insinceridade a história não será interpretada de forma apropriada a nenhum roteiro. Comparando sua vida com o destino do País, imaginou-se um escoteiro autoglorificado. E avançou no erro de querer a alma da Nação.</p>
<p>Quando um líder popular se dispõe a errar, supõe ser invisível. Só ele sabe da súplica secreta que dirige a Deus. Sedutor seduzido acusa o alfaiate de o vestir com o pano que o revela.</p>
<p>Ele não foi bem um líder novo. Desenvolveu com habilidade temas velhos, mas, por não querer ir além do “mundo do seu eu”, não formou uma estrutura cultural sólida, diversificada, que o afastasse de praticar o pecado que imitou. E agora, tentando uma saída para o grande narcisismo com que se conduziu no poder, mais se enrosca, na proporção e nos detalhes, para explicar a dessublimação que marcou o seu governo.</p>
<p>A cada dia nos oferece uma atitude puramente imatura, visão aduladora e insegura de quem flutua em realidade que não existe mais. Como personagem à procura de um autor, ocupa advogado com a bazófia de pedir ao juiz para fazer da audiência filme de um martírio, souvenir da súmula delirante em que vive.</p>
<h3>Uma história à deriva</h3>
<p>A dificuldade que encontra para conseguir apoio para sua história é que ela não está mais ancorada no seu tempo. Estão esgotadas, por culpa dele, as forças da mudança que o escolheram. E sem se renovar, escravo de fraquezas, quer convencer o País de que não é dele o que ele usa. Sem autocrítica, não vê que modos privados, valores, são mais universais do que normas públicas.</p>
<p>A maldade fabrica o tormento contra si mesmo. Pesquisas de opinião mudam humores, mas não temperamento. Não há como esquecer alguém que foi eleito por dizer não aceitar “tudo isso que está aí”, mas desfrute dos expedientes próprios do uso do poder, como criticava. Como não foi perguntado sobre suas atitudes, na época certa, por graus mais elevados da hierarquia dos juízes, não aceita que agora, que não tem mais influência para determinar o que quer ouvir, um juiz de fora da capital federal, rompa a tradição e anuncie a morte de um período histórico com seu principal personagem ainda vivo. Para ele, perseguição a um herói; para o Brasil não é o destino final: o barco do mito não tem mais a simpatia do vento!</p>
<p>Freud não gostava muito de aplicar a psicanálise ao entendimento da personalidade de um líder. Lacan justificou-o: muitos são canalhas e, se analisados, pioram. William Bullit, um diplomata, convenceu Freud a analisar Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos, e o mal que fez à Europa. O estudo que saiu dali mostra que os processos psíquicos vividos pelo presidente durante sua vida suplantaram os processos sociais vividos pelo mundo. Como benfeitor “desinformado, superficial e manipulador”, Wilson neurotizou a América e levou ao colapso da democracia na Europa.</p>
<h3>Presidentes da República não gostam de ser ouvidos por juízes.</h3>
<p>Luiz, o Verde, não gosta de ouvir a sua consciência. Prefere acusar os outros por suas dores. Mas gosta de deixar todos esperando, sempre aplaudindo, como se um microfone perdoasse todas as ofensas. Usa a entrega e o silêncio do interlocutor, essa autoanulação coletiva que o cerca, para dar os comandos sem explicitar as ordens. Assim, emocionalmente protegido, alimenta o processo inconsciente que o remete à vantagem de chefiar. Não adianta querer descobrir se não quiser entender. Wilson enfrentou zombarias na sua formação, e zombarias incitam à falsidade e à violência.</p>
<p>Tire do homem a autodeterminação e leve dele a majestade. Isso o torna incapaz de repelir gestos de consolo e manipulação. Luiz, como idealista imaturo, protege sua personalidade com o silêncio dos outros e sofre porque não pede ajuda para saber por que não aceita dizer que errou. Nunca ouviu falar em Wilson, que embrulhou sua admiração pelas pessoas no esconderijo em que a motivação para o poder foi a forma de se livrar da opressão que o cercava.</p>
<p>Ajustou o Estado à sua maneira de ver a vida e, confundindo carências pessoais com programa de governo, modos de rua com popularidade, improvisação com criatividade, transparência com burocracia, direito à diferença com diferença de direitos, fez da indolência de maneiras uma ginga.</p>
<h3>Com ela enfiou ideologia na cobiça: as exigências ao rico eram desejos do pobre.</h3>
<p>Superestimado, alimenta-se da reputação dos que o apoiam. Importunado, apela aos auditórios indulgentes como a doença procura pelo remédio. Não terá paz enquanto continuar a crer que discurso tem poder de forjar a realidade. Tomando tempo do País com suas desculpas, quer convencê-lo de que a amizade que usufruía, para fazer aumentar sua influência, deve ser considerada inimizade. E sofismando sobre sua responsabilidade, desdenha dos encarcerados, culpando o rio pela inundação do mar.</p>
<p>Supondo fazer o bem, transformou o Estado numa instituição de sacrifício para a Nação. Assim, dar o que não lhe pertencia passou a ser a mais magistral compreensão da arte de governar. Desse modo, só mapeando a planura de críticos em que acomoda o território ao seu redor é possível entender como um líder leva para casa bens ofertados ao chefe de Estado do País.</p>
<p>120 anos antes, de tão magro, “o jagunço degolado não verte uma xícara de sangue e morto não pesa mais do que uma criança”. Não pode ser engano de toda uma geração um líder popular envergonhar Antônio Conselheiro por peripécias nas mansões da encosta de Salvador. Euclides da Cunha não escreveria Os Sertões se, na Bahia de Todos os Santos, o “oprimido” passeasse de short na canoa do “opressor”.</p>
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		<title>Diálogo noturno com um homem vil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Jun 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo &#8211; 14/06/2017 No Palácio Alto, olhos abertos refletiam nos espelhos. No Palácio Baixo, melhorar a economia arrefecia a crise da democracia.<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo &#8211; 14/06/2017</em></p>
<p><strong>N</strong>o Palácio Alto, olhos abertos refletiam nos espelhos. No Palácio Baixo, melhorar a economia arrefecia a crise da democracia.</p>
<p>O país poderia voltar a lutar pela normalidade, se pedantes da ordem não preparassem uma desordem. O partidarismo tudo domina, as instituições sumiram atrás das pessoas, na metafísica política um Poder ataca o outro sem partilhar o segredo que o motiva.</p>
<p>Foi assim, como num paraíso perdido, que poderosos se uniram aos que os odeiam para envenenar o governante.</p>
<p>– Como pode, você na minha presença?</p>
<p>– Ora, autoridade. Use com outro sua astúcia. Quem se sente só em Palácio de Espelho? O poder reflete também o objeto caído. Somos eco um do outro.</p>
<p>– Por que a audácia de argumento tão vertiginoso?</p>
<p>– A profundeza sem fundo das altas autoridades do período. Somos o arquétipo do bem-sucedido pelas facilidades do poder. Preciso agregar meu interesse particular a seu juízo individual. Sabe você que a exploração pessoal das ligações funcionais é toda nossa cultura. Você é um axioma. Eu tenho dono. Meu cifrão é mar sombrio, usufruto vulgar dessa sina que preciso proteger.</p>
<p>– Sou da Justiça, por que me impõe a tirania da tal conversação?</p>
<p>– Afeição pela dissidência. Jogamos com ambiguidade, sentimento de aversão, o esporte preferido da política, a mesma índole do acusador. Hospitaleiramente, entrei pela garagem. Assim o farei mais tarde para aplicar nele o veneno. Mas como minha liberdade está nas mãos dos que acuso, entregarei, com indecente pressa, a prova que combinamos construir.</p>
<p>– Tonto, cala a boca. São desvios humanos o que parece índole. Aparência não é similitude. Fizeram-me duro, mas sem a companhia do poder sou descosido. Quanto a você, sua força é essa moral molenga do interesseiro. Falas como se estivesses ciente da sentença&#8230;</p>
<p>– Estão dessacralizados todos os Poderes. A sordidez nos une. O processo mental de vocês mira o talento dos desregrados. Acaba fazendo bem e mal cúmplices na intenção de julgar. Mas se tal virtude visa a infelicidade da política, faça a conta de quem somos e fique tranquilo de tomar nosso partido.</p>
<p>– Compreendo. Precisamos do Palácio dos Olhos Vendados para definir a exceção. Eles gostam de ser vistos separados para impor sua própria versão das coisas. Vou lisonjear esse egoísmo. Quando ficar claro que “não é na prisão que se deplora a perfídia dos homens: é na roda dos príncipes”, sentirão vergonha do jogo de dados que praticam com a nação.</p>
<p>Apesar da luva de pelica foi possível ouvir o argumento.</p>
<p>– Somos os autos. Individuais somos rápidos. Não nos devemos amoldar às mistificações. Mas entendi que era praxe condenar o criminoso, não o recalcar em nosso meio. Sinto um certo fascínio na ideia de colocar o mais alto cargo no solo do delito. E a moral, em tudo isso? Será que estamos na idade de aplicar um golpe tão baixo no país?</p>
<p>– Não seja anjo, é uma conjuração para apagar a esquisita benevolência de financiar desonestos. Não há risco, vamos atacar políticos, a parte maldita desse tempo. Basta os acusar, nasce o transgressor. Vamos fazer o crime travar o combate para a Justiça. Vigiamos a fronteira do futuro, desmoralizamos o boçal que crê na lei. Somos o privilégio, o passado que não passa. A confusão também ajuda a deter o rigor do jovem juiz e sua alcateia moralista que ameaça bisbilhotar o grande banco.</p>
<p>– Oh, Deus, topo, farei da erosão de regras a sentença. Do susto sumário, um rito, grau zero do discernimento.</p>
<p>– Obrigado. Me dê carga de cavalaria que te dou a cabeça que me pede. Troco o expurgo pela minha alma.</p>
<p>– Verás a feiura da desordem de que a cobiça é capaz. Vamos empanturrar a plebe com flagrantes. Comer o crime de forma ostentatória, perpetuar o círculo intimidatório. E levaremos ao exílio seu iate. (Risos.)</p>
<p>– Show. Sou de vocês a última hora. Como a maldade do poder exala bem suas exigências emocionais. Tudo aceito, até subornei seus auxiliares. Mas por que tenho de assumir tal empreitada de envenenar quem nós três queremos morto?</p>
<p>– Não subestime o que é estarmos tão perto do fedor do vil encargo. Entenda, seu celerado, renunciamos ao privilégio de fazer sozinhos. Há maior glória do que o crime compartir com a Justiça a injustiça?</p>
<p>– Necessito outro desatino. Protejam quem me fez bilionário e tornem secundários os problemas do charlatão que ao povo agrada&#8230;</p>
<p>– Construiremos um Gulag para ele! O chefe da Fazenda guardará moeda suja. Mas como confiar no seu silêncio?</p>
<p>– Ora, ele nos fez escandalosamente ganhadores. Aproveite, que a honra está em grande dispersão.</p>
<p>– Como é estranha a coincidência de propósitos. Foi ele que me deu a cortiça, eu fiz a rolha. Recebi numa moeda, converti na outra. Tirou do banco do povo, depositei no banco de outro povo. É mais do que na Paz Romana. Juízo, todos sabem que ele não lê currículos, escolhe por temperamento, espera ser bem tratado&#8230;</p>
<p>– Como assim, seu tenebroso&#8230;?</p>
<p>– Mantenha a forma escorregadia como o tratam, aceitando que escarneça da Justiça. Há gente demais para devolver o excesso que o fez cativante. Ofereça logo a taça enfeitiçada, o fluxo desejante da cadeira que cobiçam.</p>
<p>– Saia daqui, faça sua parte.</p>
<p>Pouco tempo depois ele chegou excitado com a fruta mordida.</p>
<p>– Está feito! Eis o gravador, nossa maçã, igual fortuna nos une, não há grau onde o destino nos desuna.</p>
<p>Quando vozes de um jogral ensaiado vieram à tona, os elos da dissimulação formaram a corrente que insultou a razão. Os opostos se uniram e um só comentário aprisionou a pátria na versão.</p>
<p>Sem o menor embate, e são, ele deu adeus à autoridade. E os tranquilizou:</p>
<p>– O mundo da explicação não é o mundo da verdade. Realizamos grande missão, para homens pequenos que somos.</p>
<p>E o que parecia ser um fato jurídico era um fato da má civilização que nos domina.</p>
<p>***********************</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também em: <a href="http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,dialogo-noturno-com-um-homem-vil,70001839929">O Estado de S. Paulo</a>.</p>
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		<title>FECHADO PARA A VERDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Aug 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 12/07/2017 Grupo contra-reformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 12/07/2017</em></p>
<p><em><strong>G</strong>rupo contra-reformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na chancelaria, ligado ao Ministério Público, que lidera a operação, desertou.  Abrigou-se num aparelho advocatício para receber algo como um resgate pago a sequestrador. Mensagem de gravador descreve o método maldoso.  Divulgada de forma reiterada, anestesia o país, como se alguém estivesse com uma arma na cabeça, obrigado a oferecer exigências ao malfeitor, não cumpridas integralmente pelo tribunal receptor da ação. A autoridade judicial que dá seriedade a trama não informou que o sogro da sua filha é chefe na organização acusada do mataboi, nome da operação de extermínio. A malta foi beneficiada por dois ex-presidentes com a desnacionalização do banco de fomento, através de empréstimos a compadre. Mesmo assim enviou a extravagante denúncia para servir ao esquartejamento do presidente no plenário da bacia maior. Com avidez de servir, fugindo de flechas de bambu, o relator parlamentar largou sua tribo e se entregou a do procurador. (Radio Mariel, Baia dos Porcos)</em></p>
<p>O Brasil continua mergulhado na imundice da desavença entre justiça e política. A rivalidade mais forte do que a lei e a moral. A glória do deboche dos signos e valores da justiça é afirmada pelo Procurador Geral que denuncia com provas ruins, adora a perspectiva útil do caso grande e se comparar a carrasco de São Sebastião. Um jogo mais poderoso do que o mundo das pessoas de bem.</p>
<p>A energia do vício de acusar distorce fatos, perverte sentidos, libera a energia imoral do espetáculo onde cresce o gênio maléfico de simular. A razão insensata prefere a vitória da condenação política à justiça da condenação jurídica.</p>
<p>Ninharias, urtigas, intrigas dão ao ciúme entre instituições uma significação moral. O discernimento entre verdade e erro é impossível. Com a supercodificação ético-penal do carcereiro resta à sociedade o medonho consolo de apoiar.</p>
<p>A teatralidade da acusação fez a desordem dominar o fato e sua aparência. A dança macabra da honestidade-desonestidade usufrui do êxtase da transgressão à norma, um jogo de irresponsabilidade. Não é déficit de socialização que estamos assistindo, é socialização diferente e preocupante. A revolta que preparam é de quem nada sabe da enfermidade de ânimo que é o desprezo pela justiça.</p>
<p>Está em curso o crime absoluto, apressado, distante da justiça metódica. Misturado com a mediocridade da disputa política vira linchamento. Alguém ameaçado é obrigado a fazer a confissão do outro. Cada um que apoia a denúncia, apoia como se estive sob a faca do pecado. A <em>marca </em>intimidadora que manda pensar daquele jeito lembra o caudilho, notório regional que enlaça e encadeia crime e benefício, elementos da desordem que domina.</p>
<p>Nem todos os procuradores usam o poder para sujar mais a política. Mas dentro dos que querem um motor gira sem controle, a moral, enfiada de ilegalismos que domina o Brasil nos últimos tempos.</p>
<p>A divulgação criminal em curso é a teoria da imitação e  associação diferencial entre interessados.  Uma interação entre cometer erro e o propagar como acerto, conduta estudada que favorece a desobediência à lei. Não é bem o crime do investigado que está em questão, mas a decisão de incriminar previamente um Presidente.</p>
<p>Um script aplicado nos anos 1990 contra o governo. Disse um bambambam da época: “Sob segredo de fonte a gente conta pro repórter o que a gente quer. Ele publica e a gente usa a matéria como prova e se o juiz resistir colocamos em cima dele a imprensa amiga. Nenhum juiz aguenta”. Agora é pior. Embrulhamos tudo junto. Bolero de Ravel, espiral que gira sobre políticos fracos e partidos invertebrados.</p>
<p>A lenta recuperação econômica, a necessidade de que privilegiados se enquadrem em normas previdenciárias mais justas; o apoio à lei que permita ao trabalhador liberdade para enriquecer sem intermediário, levou a elite do setor público a arrancar o pino da granada. O ataque de guerra ao governo transitório revela a violenta prática das hierarquias não eletivas do Estado contra a autonomia da representação popular.</p>
<p>O cenário desaba todo dia. De manhã, depois de levantar, ônibus, quatro horas de trabalho, comer, quatro horas de trabalho, ônibus, sopa, sono. Agitado pelo som do jogo da autoridade formando time. O absurdo da vida do cidadão concentrou-se no Estado que obriga a sociedade a engolir a jubilosa autoridade brilhar, por nada, no circo da novela-crise-política</p>
<p>O despotismo jurídico reproduz o populismo na sociedade e seus interesses. E a despensa jurídico-político armazenada no Supremo não é diferente da formação econômico-social que os fez escolhidos.</p>
<p>O Supremo está <em>congelado</em> no tempo de quem compôs sua maioria.  O que nos permite supor que as necessidades específicas que interessam ao poder, e faz um ministro do Supremo, continuam vigorando depois que o governo acaba. Ou seja, o Supremo é hoje poder reacionário, a principal forma como se manifesta a formação jurídica-ideológica-social-econômica do período popular-populista. Principal espaço de poder do tempo derrotado.  E está intacto, como bússola quebrada, conspirando contra o futuro para salvar o passado.</p>
<p>Joesley, JBS, são siglas indexadas. Testas-de-ferro do tempo velho onde o Ministério Público aceitou ser o código de barra. Grave é infiltrar-se no Supremo e impor sua saga: sem prova objetiva para sustentar a incriminação ofereceu o perdão absoluto ao criminoso que esnobou a corte com a armadilha que envenenou o presidente. Sem força para parar o erro o tribunal gira seu relógio na direção do estado de absurdo que é usufruir do poder sem exercê-lo.</p>
<p>O Estado nos impôs seu presente, indiferente ao que vivemos.  Não indica o lugar da razão. E o parlamento liquidará de vez com a política se a cabeça do Presidente for entregue na bandeja a autoridades embrulhadas em mistérios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PAULO DELGADO</strong> <em>é Sociólogo</em></p>
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		<title>Fechado para a verdade</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/fechado-para-a-verdade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Aug 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 12/07/2017 Grupo contra-reformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 12/07/2017</em></p>
<p><em><strong>G</strong>rupo contra-reformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na chancelaria, ligado ao Ministério Público, que lidera a operação, desertou.  Abrigou-se num aparelho advocatício para receber algo como um resgate pago a sequestrador. Mensagem de gravador descreve o método maldoso.  Divulgada de forma reiterada, anestesia o país, como se alguém estivesse com uma arma na cabeça, obrigado a oferecer exigências ao malfeitor, não cumpridas integralmente pelo tribunal receptor da ação. A autoridade judicial que dá seriedade a trama não informou que o sogro da sua filha é chefe na organização acusada do mataboi, nome da operação de extermínio. A malta foi beneficiada por dois ex-presidentes com a desnacionalização do banco de fomento, através de empréstimos a compadre. Mesmo assim enviou a extravagante denúncia para servir ao esquartejamento do presidente no plenário da bacia maior. Com avidez de servir, fugindo de flechas de bambu, o relator parlamentar largou sua tribo e se entregou a do procurador. (Radio Mariel, Baia dos Porcos)</em></p>
<p>O Brasil continua mergulhado na imundice da desavença entre justiça e política. A rivalidade mais forte do que a lei e a moral. A glória do deboche dos signos e valores da justiça é afirmada pelo Procurador Geral que denuncia com provas ruins, adora a perspectiva útil do caso grande e se comparar a carrasco de São Sebastião. Um jogo mais poderoso do que o mundo das pessoas de bem.</p>
<p>A energia do vício de acusar distorce fatos, perverte sentidos, libera a energia imoral do espetáculo onde cresce o gênio maléfico de simular. A razão insensata prefere a vitória da condenação política à justiça da condenação jurídica.</p>
<p>Ninharias, urtigas, intrigas dão ao ciúme entre instituições uma significação moral. O discernimento entre verdade e erro é impossível. Com a supercodificação ético-penal do carcereiro resta à sociedade o medonho consolo de apoiar.</p>
<p>A teatralidade da acusação fez a desordem dominar o fato e sua aparência. A dança macabra da honestidade-desonestidade usufrui do êxtase da transgressão à norma, um jogo de irresponsabilidade. Não é déficit de socialização que estamos assistindo, é socialização diferente e preocupante. A revolta que preparam é de quem nada sabe da enfermidade de ânimo que é o desprezo pela justiça.</p>
<p>Está em curso o crime absoluto, apressado, distante da justiça metódica. Misturado com a mediocridade da disputa política vira linchamento. Alguém ameaçado é obrigado a fazer a confissão do outro. Cada um que apoia a denúncia, apoia como se estive sob a faca do pecado. A <em>marca </em>intimidadora que manda pensar daquele jeito lembra o caudilho, notório regional que enlaça e encadeia crime e benefício, elementos da desordem que domina.</p>
<p>Nem todos os procuradores usam o poder para sujar mais a política. Mas dentro dos que querem um motor gira sem controle, a moral, enfiada de ilegalismos que domina o Brasil nos últimos tempos.</p>
<p>A divulgação criminal em curso é a teoria da imitação e  associação diferencial entre interessados.  Uma interação entre cometer erro e o propagar como acerto, conduta estudada que favorece a desobediência à lei. Não é bem o crime do investigado que está em questão, mas a decisão de incriminar previamente um Presidente.</p>
<p>Um script aplicado nos anos 1990 contra o governo. Disse um bambambam da época: “Sob segredo de fonte a gente conta pro repórter o que a gente quer. Ele publica e a gente usa a matéria como prova e se o juiz resistir colocamos em cima dele a imprensa amiga. Nenhum juiz aguenta”. Agora é pior. Embrulhamos tudo junto. Bolero de Ravel, espiral que gira sobre políticos fracos e partidos invertebrados.</p>
<p>A lenta recuperação econômica, a necessidade de que privilegiados se enquadrem em normas previdenciárias mais justas; o apoio à lei que permita ao trabalhador liberdade para enriquecer sem intermediário, levou a elite do setor público a arrancar o pino da granada. O ataque de guerra ao governo transitório revela a violenta prática das hierarquias não eletivas do Estado contra a autonomia da representação popular.</p>
<p>O cenário desaba todo dia. De manhã, depois de levantar, ônibus, quatro horas de trabalho, comer, quatro horas de trabalho, ônibus, sopa, sono. Agitado pelo som do jogo da autoridade formando time. O absurdo da vida do cidadão concentrou-se no Estado que obriga a sociedade a engolir a jubilosa autoridade brilhar, por nada, no circo da novela-crise-política</p>
<p>O despotismo jurídico reproduz o populismo na sociedade e seus interesses. E a despensa jurídico-político armazenada no Supremo não é diferente da formação econômico-social que os fez escolhidos.</p>
<p>O Supremo está <em>congelado</em> no tempo de quem compôs sua maioria.  O que nos permite supor que as necessidades específicas que interessam ao poder, e faz um ministro do Supremo, continuam vigorando depois que o governo acaba. Ou seja, o Supremo é hoje poder reacionário, a principal forma como se manifesta a formação jurídica-ideológica-social-econômica do período popular-populista. Principal espaço de poder do tempo derrotado.  E está intacto, como bússola quebrada, conspirando contra o futuro para salvar o passado.</p>
<p>Joesley, JBS, são siglas indexadas. Testas-de-ferro do tempo velho onde o Ministério Público aceitou ser o código de barra. Grave é infiltrar-se no Supremo e impor sua saga: sem prova objetiva para sustentar a incriminação ofereceu o perdão absoluto ao criminoso que esnobou a corte com a armadilha que envenenou o presidente. Sem força para parar o erro o tribunal gira seu relógio na direção do estado de absurdo que é usufruir do poder sem exercê-lo.</p>
<p>O Estado nos impôs seu presente, indiferente ao que vivemos.  Não indica o lugar da razão. E o parlamento liquidará de vez com a política se a cabeça do Presidente for entregue na bandeja a autoridades embrulhadas em mistérios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PAULO DELGADO</strong> <em>é Sociólogo</em></p>
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		<title>O moralismo esgotado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Aug 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 09/08/2017 Queixoso e em disparada, apostando na agilidade verbal para fornecer réplica à ruína, o ator oco, aperta o passo.<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 09/08/2017</em></p>
<p><strong>Q</strong>ueixoso e em disparada, apostando na agilidade verbal para fornecer réplica à ruína, o ator oco, aperta o passo.</p>
<p>Os acontecimentos comprimem-se num único momento. Clássico da emoção massificada, o Cine Theatro da política nacional, encena mais um ato da peça “Um Inventário de Erratas”. O espetáculo esbarra na frieza da plateia que treinou os ouvidos e já distingui grito de argumento. A habilidade virou isolamento. O balanço geral da temporada confunde os críticos: um grande sucesso de bilheteria, enorme fracasso de público.</p>
<p>Muitos imaginam a política um teatro de iniciados, sem ordem, sem lei. Mistura diversidade de auditórios à disposição dos mesmos atores que se arrumam para serem vistos como prima-donas realçando suas vantagens. E vão em frente sem se dar conta que a demagogia é uma oferta irreal de intimidade. A tentação de infringir normas contamina os poderes. As aberrações querem se impor.</p>
<p>Sem aversão ao sensacionalismo, senhor da ideia de que vive uma saga de encantado, o ator cru é imprudente se aplaudido, estúpido se vaiado. Despreza as condições espirituais da companhia que o levou ao palco.</p>
<p>Não prestou atenção na causalidade histórica que produziu o seu sucesso. Só tem olhos para quem se aglomera na frente do tablado. Quer driblar o destino que colheu. Nessa afabilidade valiosa e recíproca, devedor, vira comprador. Velhos conhecidos de comédias e tragédias já encenadas fazem sua destreza avançar mais do que o cuidado. E cercado de afeto incapaz de sentimento verdadeiro, a trupe de atores acrobatas, acha que o teatro do poder ensina mais do que vida fora do palco.</p>
<p>Apostando na força inesgotável do faz de conta empanturra o cenário com excessos.  Até que acusado de impor um novo sistema moral à peça que representa, flagrado na glória de usar plumagem alheia, revela uma imagem insatisfatória de si mesmo. Fantasia que o consagra como diretor-ator-protagonista de um espetáculo refém do patrocinador.</p>
<p>Agora, que a cada dia um choque revela o contexto de todos as apresentações, diz que o teatro é de marionetes e que não é ele que movimenta os cordéis. “Somos fantoches incompreendidos, bonecos populares manipulados por animais ferozes”. Dissimulando, ameaça com o velho espalha brasa. Esconde o longo trecho que declamou adocicado e sem doutrina, que o fez ficar bem-quisto em todos os enredos.</p>
<p>Donos das companhias teatrais eleitorais não têm os mesmos problemas do público que os escolhe. Até zombam de quem os prestigia. Cargos escondem tudo, inclusive muitos vícios. Por isso, vendo a confusão que se avizinha na nova temporada, ele quer antecipar o carnaval para prevalecer a inversão permitida que domina seus festejos. Vamos lá, dominar o espectador, caravanas de delírio para controlar a realidade por meio de palavras.</p>
<p>Os candidatos a atores farão leis para conhecer o segredo do público, sem revelar o seu. O político-ator tornou-se um canastrão: ele não quer viver sob a consciência do outro que o olha. Como não aceita prova de erro que considera normal, não aceita juiz algum.</p>
<p>Sua origem pragmática recolhia sobras do que encontrava à esquerda, mas foram os fundadores moderados da Companhia que a vestiram de ideologia original. Foram estes que se organizaram para vencer por pontos e assim cresceram. Quando, <em>o só</em>, pisou no ringue, jogou fora a teoria, quis ganhar por nocaute. A incontinência lhe jogou a toalha. Deslumbrado com a lascívia do aplauso, aceitou o que o levou à lona, ajudando a fazer de “político” um xingamento.</p>
<p>Sempre disponível, ficou por cima da situação como ninguém. E se deixou a coisa pior do que encontrou é o único culpado. A mudança que o perturba é a mudança democrática. Passou a perna no pudor, singelo princípio elementar. Ventríloquo, foi condenado, por ampliar a voz do mau costume.</p>
<p>Atropelou argumentos de justiça social por estranha noção de distribuição de renda e infiltração de classe. Misturava intuições a uma fábrica de decisões improvisadas. Ofereceu a poderosos a aquiescência que aumentava o leite e o mel do privilégio; aos pobres a condescendência, que lhes abria o mundo da dívida e da dependência. Pressupondo a qualidade moral de todos os seus atos quer escolher quem vai julgá-lo.</p>
<p>Tudo no debate em torno de sua performance é  “atmosfera”. No papel de corajoso ou maltratado, a dinâmica é mais de espetáculo do que esclarecimento.  O objetivo é impressionar os inocentes e apontar o inimigo no juiz.  Como prova de gratidão, conferindo ardilosa superioridade à decisão de se sujeitar a alguém, atribui ao povo a inquietante tarefa de julgá-lo. Ideia tola, se no tribunal de multidão dá Barrabás.</p>
<p>Desde Plutarco aprende-se mais com a queda de um cavalo do que com o elogio de um adulador. Talvez, por isso, o juiz, ao perceber que ele não estava a altura de si mesmo, concedeu-lhe fiança. Tirando da sentença o caráter implacável de suprimir a liberdade, negada a seus parceiros, lhe deu o estribo para descer da sela e rever seu jeito de montar. Mas como não quer se afastar dos seus defeitos viu nisso um estímulo para cavalgar seus fãs. Montou um passeio por currais eleitorais que o livre de ler a peça que o condena. Ele quer degustar seu papel como narcótico, supondo que a dor falsa de um ator é mais verdadeira do que a dor real do espectador. Mas quando a plateia descobrir que não é ela a condenada nada oferecerá alívio à sua dor.</p>
<p>Nos burgos podres o ator do teatro antigo ouve excelências do resignado: <em>nunca reclamei de ninguém que me usa com promessas. Não sou governista porque sou pobre, sou pobre porque sou governista.</em></p>
<p>Não é a primeira vez que a ambição destrói sonhos de quem toma o poder por um gigante sem perceber nada do seu enfeitiçamento. E diante do desconcerto que é ver o ator se orgulhar de não admitir ninguém que o corrija, a peça em que atua deve sim corresponder inteiramente ao original da sua vida.</p>
<p><strong>         ****</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo.</strong></p>
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		<title>Paraiso perdido</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/paraiso-perdido/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Oct 2017 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 13/09/2017 Um secreto acordo, em secreta comunhão, prospera. A facilidade de transgredir e infringir leis, espécie de osmose em organismo<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 13/09/2017</em></p>
<p><strong>U</strong>m secreto acordo, em secreta comunhão, prospera. A facilidade de transgredir e infringir leis, espécie de osmose em organismo combalido, é a prévia manifestação do delito que marca o período. Curvado à adulação e ao cifrão tudo vem como uma escritura que atraí quem já tem em si o germe desse temperamento. A ambição é uma intuição, o interesse estrutura a intenção. O anjo cobiçoso usufrui do paraíso a qualquer preço. Beneficiários de dádivas excessivas não veem víboras na lisonja, convencidos que o carisma que os protege é o de um rei.</p>
<p>O nome da dinastia é apelido. Nada freia sua mania de honorários e autopercepção das coisas. Oferta de intimidade a quem não faz questão de identidade formou público adequado à sua má percepção da realidade. Não foram obrigações do poder ou sorteios impessoais que azedaram. Foi um estilo de oferta inconfundível que abriu fendas na conciliação nacional e cuja prova do encontro é o ávido sigilo e o insulto que ameaça toda testemunha. Somado à soberba com que o rei largou no cadafalso seus amigos.</p>
<p>O estranho familiar – o beneficiário da aura e da névoa do período &#8211; é ele a prova, a saída do enigma. Mas enquanto a conduta pessoal do julgador não contiver vigor igual a honra; não for a mesma em todas as instâncias e nem à revelia da balança em que pesa seus amigos, não haverá, para acusado, medo de punição, nem glória em reconhecer a transgressão. E não havendo medo do erro, ou orgulho de fazer o certo, não haverá arrependimento.</p>
<p>O sagrado negativo do período é o desfrute do afeto do poder, sem exigir vigor ao seu comportamento. O privilégio vê por fora o que a pessoa não precisa ter por dentro alimentando o sucesso indevido.</p>
<p>Que pare de escorrer a náusea de maus juízes, dissimulados procuradores, podres políticos, poderosos acusados. <em>Abominavelmente, venci,</em> não é boa sina para ninguém.</p>
<p>Sem nenhum imporem o caos juntou tentadoras perversões. A desordem ordenou e a ganância se uniu. O maligno concedeu familiaridade ao presunçoso, garantiu preferência ao poder estupendo do dinheiro. Tão alto erguido e logo cercado de submissão, impôs quitar sua dívida com favores, desprezando a gratidão gratuita do convicto. Não se deu conta que para quem é doente de dinheiro, o que parece um inferno é quase um céu, até deixar de sê-lo.</p>
<p>E foi quando deslumbrados trapaceiros, do lado da lei e do delito, começaram a fraudar a si próprios que o procedimento do pecado se impôs e envolvidos se enrolaram.</p>
<p>Com a moral recurvada do perdedor nato a pátria assiste seus filhos poderosos desovarem répteis sobre a honra da nação. O puro unido ao impuro em forçosa convivência, sem que alguém dê um basta à transgressão dos influentes. Os prediletos de toga se fazem de ingênuos e continuam, de degrau em degrau, com seus pensamentos e palpites, a descer, obedientes, voluntários, à jaula de lobos vorazes, persuasivos, cravejados de compromissos.</p>
<p>Tudo escapa a Deus que tudo vê e o mal da terra se universaliza na última dinastia popular. Sem estorvo, um rei do improviso, que tudo pode, se uniu a uma regicida improvisada, que nada deve, para gozar da doçura de impor sua maneira obstinada de agradar. Sem refrear seus impulsos deram precedência à ambição e aos seus trocos. A linguagem e a conduta pública se arruinaram.</p>
<p>Burlando a boa-fé do mundo culto o pior foi oferecido como certo. Desdenhando da capacidade humana de vencer fez a grana pública parecer o fim da boa vida.  Testando a gloria de esmagar o pobre com o Leviatã, feroz manipulador, anunciou que renda doada era classe conquistada. E o que parecia calor de cobertor, tornou-se febre. O cuspidor de fogo fez filhotes. A fanfarrice tomou conta da nação jactando de quem sabe o mal que é direito servido como esmola.</p>
<p>Paixão pura sem razão, o anjo do mal se agarrou ao nosso tempo e pregou na política a queda para o abismo; fez o mal e a mentira de uma vez por todas. E rastejou como serpente para dentro do palácio dos acusadores iluminando o obediente procurador de dupla face. Escancarou na casa da justiça o compadrio agropastoril do feio traidor, do mal acusador e do fraco relator, zombeteiros frios como a noite unânime.</p>
<p>Exposto o dogma do período, de que pela mão de incautos governantes é difícil alguém sair da escuridão para a celebridade, o fluxo da osmose  inundou todas as células.  Tirou do parlamento o senso do dever, impôs às duas casas, do promotor e do juiz, um porte cambaleante de quem não anda bem. Tal pandemônio os levou a dar-se ao espetáculo, como se fossem manequins.</p>
<p>Vendo tudo falso, postiço, o pai da fraude, mandou Baco lavar, e cuspir aos poucos, a hipocrisia. Mas nenhum tempero de tal culminação afeta o padrão de decisão imperfeita que brota de poder encurralado, onde seus membros não dialogam temendo conhecer do outro a confidência.</p>
<p>Enquanto isso, se esquecendo de levar em conta a carta magna seguem rendidos à mania de dar entrevista ambiental, internacional, policial, racial, sexual. Só pensam em serem bons, não conseguem ser legais. Esculhambados por ébrios sedutores convocam com cuidado o bon-vivant. Algemas de pelica são usadas, pantufas alisam pisos de casas visitadas. Tudo isso para proteger o dique, represar a osmose e manter seca a mão suja que autorizou a inseminação artificial de tudo que virou crime.</p>
<p>As trombetas avisam: não veja nosso povo alienado, é o poder que se anestesiou de vez e mudou a natureza da admiração que tem por seu papel.</p>
<p>Ao perceber que é filmado, um juiz, procurador ou um político, não é mais eficaz e verdadeiro. Seu gesto é uma espécie de mentira demonstrativa, como alguém que lava a louça sem olhar o prato. O juiz julgando na TV é um objeto desarrazoado. Esvanecido, vive o langor de ser visto pelo tempo concedido à consistência da manteiga.</p>
<p>Será árdua a regeneração em uma terra onde a justiça tem segredos e despacha em botequim. E teremos perdido o paraíso onde essa gente consegue ser elite.</p>
<p><strong>****</strong></p>
<p><strong><em>PAULO DELGADO</em> é Sociólogo. </strong></p>
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		<title>Adoradores do infortúnio</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/adoradores-do-infortunio/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2017 14:52:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 11/10/2017 O Supremo e o Congresso transbordam contradição. Poderiam ser dois poderes essenciais à renovação da vida democrática se deixassem o<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 11/10/2017</em></p>
<p><strong>O</strong> Supremo e o Congresso transbordam contradição. Poderiam ser dois poderes essenciais à renovação da vida democrática se deixassem o país suspender a credulidade pelo período fracassado. Há uma impressão de que o discernimento da sociedade não interessa quando a autoridade gasta seus defeitos supondo ter qualidades superiores à de quem critica. O Brasil não pode sucumbir ao sintoma de transtorno patriótico que a influência desses dois maus terapeutas institucionais anda favorecendo. Um poder que não se arrepende de falar não sabe a hora de calar. A metáfora negativa de segredo e vaidade, domina. Nem na guerra a ira no ofício se aconselha.</p>
<p>Será que chegamos ao vaticínio do presidente Harry Truman: quer um amigo em Washington ? Arranje um cachorro.</p>
<p>O modelo econômico ainda não domina, mas se recompõe. Se por um lado diminuiu a percepção de risco na atividade econômica; a convergência de inflação e juros baixos pontifica; os fluxos de capital internacional retomam sua rotina em direção ao país; os níveis de inadimplência estão estáveis; o consumidor recupera sua confiança e volta ao mercado; a incerteza empresarial quanto a investimento arrefece; o índice de desemprego começa a recuar; na vida de quem trabalha e produz riqueza os pepinos estão sendo provisionados. Por outro lado, o modelo político é o velho que não mais predomina, inapto para a responsabilidade coletiva. O descontrole da voracidade está levando muito tempo para passar porque o Supremo escolheu o governo para por canga e, assim, esfregar urtiga na mudança.</p>
<p>Essa acentuada intensidade para influenciar errado, e a superstição jurídica que a alimenta, submete a vida a uma hierarquia de interesses oficiais que não dá folga aos brasileiros. Estamos presos a uma teia de aranha nascida da falta de ordem do Estado que age como se fosse diretor de teatro, distribuísse os papeis e a posição de cada um no espetáculo. Quem se queixa da intenção excessiva é informado que aderiu inconscientemente ao script. Ninguém é o que é. Cumpre ter paciência e agradecer. Como espectador desprezível de um tempo passado que não passa o povo é da peça a aflição.</p>
<p>O esforço da maioria dos brasileiros em manter sua independência, ser dono do próprio negócio, ter autonomia, esbarra sempre na conspiração da autoridade para oferecer-se como refúgio de amigos. Perdão Marx, mas aqui, o ópio do povo é o Estado.</p>
<p>Todos que brincavam de ser justos, imersos em seu cânone de sucesso, deveriam recear o incômodo que causam à justiça. Os erros se acumularam e suas falanges se infiltraram na alma das decisões. Em que esferas invisíveis andam formando opinião nossos juízes? Quem cava o poço profundo do subterrâneo de onde saem as atitudes de nossos políticos?</p>
<p>A amizade de muitos membros do legislativo e do judiciário por si mesmos tem levado a Constituição a viver essa vida melancólica de rainha desrespeitada. Nunca foi possível dizer <em>“A Constituição é”. </em>Na cultura jurídica atual ninguém é seu filho. Nossas autoridades preferem ser descendentes de quem as nomeou e, talvez sem se darem conta, aplicam os arquétipos da amizade às suas decisões. Esse sentimento preexiste às normas. O afeto que serve de escada ao poder, a circunstância que produz simpatia/antipatia, é tutelar, mais do que as leis estáveis. Sua consciência é inapreensível. Aquoso e verboso o ministro conjuntural é um escavador de temporais. Seu compromisso com o passado preenche o presente e o definha.</p>
<p>Onze juízes nomeados, vitalícios, recebem, de 50 senadores eleitos, amedrontados, o engano lícito que enterra em uma noite dois poderes entupidos de apetite avinagrado. A primeira turma de um deles, fanáticos para equilibrar o jogo político usando o erro do senador caído, contorna a lei com a matemática. Servem aos seus fantasmas que, como se fosse deles o porteiro, abriu a corte a fatalidade de negar sua condição de poder superior. Usando ferramenta de casa já quebrada, conscientes que o medo de políticos processados oferece imensidades a visão ilimitada de poder, empilham réus a Deus-dará.</p>
<p>A função do conhecimento é diminuir a força da opinião. É preciso superar o governo improvisador,  considerado genial, ousado, carismático. Bravata é ranço e o ranço se acumula e logo se revela.</p>
<p>Seguimos confortáveis e desatentos ao que acontece. A política, como está, não é mais a corneteira da alvorada. Se fizeram a <em>vã-guarda</em> do passado. Seu escombro serve a dois líderes da tropa dos improvisadores, desbocados e caluniosos que só crescem se cresce a violência.  Um criou do outro a moldura, são estatistas fanáticos, esquerda/direita. A cara do conflito mais velho da política, o fundo do poço. E como em todo fundo sempre existe um fundo mais baixo assim. Não sendo líderes livres de preconceito não querem que ninguém seja. Freiam a mudança, são espora no cavalo de raça que é a razão.  Seguram a rédea do senso comum, tiram a grandeza da justiça para não deixar o passado clarear. Quarados ao sol, passarão. Pois um se decapitou, mas ainda não lhe cortaram a cabeça. O outro pede para ser degolado, fantasma de uniforme que usa de tempos em tempos o corpo de alguma mula sem cabeça.</p>
<p>Um êxito errado, festejado como humanitário, prejudica a análise do período.  O alívio temporário do sofrimento e a devoção excessiva ao arranjo político sem princípio agravou a injustiça estrutural e produziu consequências funestas na análise política de longo prazo. Foi um tempo onde predominou o tratamento errado de erros levando a sociedade a demorar a notar que sem amparar economicamente ninguém será soerguido socialmente.</p>
<p>Se alguém chega ao poder é porque existe algo&#8230;algo de bom, algo de podre. Quando sai, pela forma que sai, os fatos nos comunicam alguma coisa, feridas curadas, sintomas de doenças represadas ou silenciosamente alimentadas. Se o Supremo, o poder que decifra a Constituição, por razões políticas não consegue fazer a coisa certa, que pelo menos procure errar melhor.</p>
<p><strong>          *****</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo</strong></p>
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		<title>ARMADILHAS DO DESEJO</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/armadilhas-do-desejo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2017 18:25:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 09/11/2017. Conflitos dentro de nações nem sempre confrontam a balança de poder mundial. Cancela afetos, insulta o sangue. Assim, é<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 09/11/2017.</em></p>
<p><strong>C</strong>onflitos dentro de nações nem sempre confrontam a balança de poder mundial. Cancela afetos, insulta o sangue. Assim, é meio existencialista o desafio de fazer diferentes culturas conviverem num sistema comum. Vale a pena tentar, pois, “nada pode ser bom para nós que não seja para todos”.</p>
<p>Sentimentos humanos não são suficientes para decidir disputas políticas. São várias as possibilidades de gerar e resolver o mal-estar entre regiões. O comercio, a diplomacia, costumes e leis ajudam na busca do reequilíbrio interno. Todavia, nunca se deve subestimar os protagonistas inúteis que surgem no meio de crises políticas tentando dar um significado de ruptura aos fluxos normais de poder na sociedade de massa. Maquinações políticas não convivem bem com o direito de fazer pergunta. Muitas vezes escondem do público os verdadeiros motivos, articulados nas sombras de interesses restritos e privilegiados, que buscam converter pretensões de legitimidade em separatismo.  Aberto o debate, reveladas as confidências, felizmente prevalecem vozes de quem acredita no progresso e sabe que o presente não é o destino final da história de ninguém.</p>
<p>Há um caminho muito estreito para as nações passarem. A sociedade anda certa que está pagando aos governos uma conta muito acima do que devia.   É essa maré de desilusão-iludida que vem carregando inúmeras regiões para falseados romantismos. Diferente da explosão nacionalista do século XIX, que formou os Estados Nacionais, os movimentos atuais não são resultado da descoberta da autoestima afirmadora da individualidade cultural. Nem, felizmente, reúnem capacidade militar capaz de rivalizar e se impor pela força. Mas o mundo está repleto de angústias e perspectivas morais contraditórias. E, vez ou outra, em nome da liberdade, expressa como pode, suas intuições.</p>
<p>Vivemos era ultra individualista, sem espírito-criativo-coletivo, onde nada cessa em quietude. Com o avanço democrático e a abolição da distância e do tempo, na economia, na tecnologia, basta identificar um desejo para que logo se exija um direito. Mas desejo é falta que nem sempre está ao alcance da vontade. Embora a oferta de bens seja cada vez mais homogênea a sociedade se finge heterogênea e exige distinção. O individualismo libertário exagerado lembra alpinistas agarrados uns aos outros empurrados para seu gueto, criando novas hierarquias para seu usufruto. Pois, quanto mais se pede ao Estado, mais ele oferece, sorrateiramente, instituições, burocracias que manipulam a sua vida. A liberdade, em anúncios intermináveis, é a maior prisão em que vive o mundo atual. Fábrica de esperanças malogradas tão ao gosto da crispação política.  Poder fazer o que quiser não muda ninguém, desmascara. Pois o todo de uma coisa exagerada sempre vem como doença.</p>
<p>A Catalunha separada da Espanha, mais do que o Brexit, que separou a Grã-Bretanha da União Europeia, assusta pela culpa que carrega a Europa sobre a imposição de força que usou nos casos da Croácia, Bósnia e do Kosovo. Todos se perguntam o que é autoderminação em uma região multilinguística e tão pouco homogênea, material e culturalmente, como o continente europeu.</p>
<p>Qual o sentido de se pleitear ser pequeno no mundo de gigantes? Não há uma grande visão que sustente uma Catalunha melhor, divorciada. As liberdades identitárias estão asseguradas e há benefícios diversos de se ter escala e poder se sentar à mesa com os que deliberam sobre as questões mais universalmente relevantes do globo.  Ser uma voz secundária e proforma na Europa? Abdicar de Forças Armadas relativamente baratas e eficientes?  Estabelecer uma inimizade regional imprevisível? Tudo isso por conta de um desacordo com a política fiscal da nação, apimentado por retórica nacionalista que não encontra justificativa no contexto atual. Após a ditadura de Franco é impossível argumentar que Madrid, e o resto das regiões dessa colcha de retalhos medieval, não tenham cumprido os acordos firmados para garantir a união em torno do Estado central.</p>
<p>Colocando tudo na balança &#8211; a rivalidade, os amores imperfeitos, a vontade de afirmar a diferença e a autopercebida superioridade de cada parte &#8211; nada isso justifica uma Espanha moderna sem a coexistência de Barcelona e Madrid, indissociáveis da própria noção de pátria para os dois.</p>
<p>A questão catalã lança luz sobre uma realidade mais ampla. A visão de autonomia ancora-se, atualmente, numa profunda crise identitária pela qual regiões, mas também pessoas, estão passando. O que move as multidões incendiárias não é um projeto social amplo, inclusivo, acima dos indivíduos e visando um direcionamento para um destino romântico, altruísta e desapegado de pátria. É, antes de mais nada, a expressão, tecida e tornada possível pelas novas tecnologias da informação, do grito gutural de defesa dos interesses individuais. Alimentado por certa má-fé de detentores do poder regional que se esquivam de sua responsabilidade misturando-se à paixão da multidão de concidadãos/eleitores. O poder legítimo, para ser exercido, precisa de distanciamento. De que vale nas crises um político de horizonte igual ao do seu eleitor? Foram os políticos que afetaram os cálculos separatistas diminuindo a confiança do povo no diálogo.</p>
<p>A inclinação humana para a sobrevivência alargou seu horizonte de tal forma que o sentimento de viver-mais-separadamente, se alastrou. Até na vida privada essa ilusão de ser feliz sozinho e poder tocar trombeta para as nuvens tem levado a desejos incontidos. Que impulsionam filhos a reivindicarem já a herança a um pai vivo.</p>
<p>Essa dramática situação separatista, de contornos bíblicos, é recepcionada pelo direito internacional que admite a precedência da integridade territorial sobre a autodeterminação.  Ainda que ambas tenham igual legitimidade. Mas nem sempre as razões para querer ser um, legitimam a quebra da integridade territorial que acolhe todos.</p>
<p><strong>  ****</strong></p>
<p><strong><em>PAULO DELGADO</em> é Sociólogo e Co-Presidente do Conselho de Economia, Sociologia e Política da Fecomercio/SP               </strong></p>
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		<title>E ENTÃO, QUE QUEREIS ?&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2017 18:57:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 13 de Dezembro de 2017. Em um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 13 de Dezembro de 2017.</em></p>
<p><strong>E</strong>m um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de Joseph Schumpeter, dois amigos, um liberal e um comunista, jantavam.  Ao ouvir gritos de uma briga de rua seguidos de silêncio, o de esquerda disse:  perdemos! Como assim, se você nem sabe do que se trata, indagou o de direita ? Amanhã saberemos. Mas adianto, o lado que perdeu, esse sempre somos nós. Dessemelhanças, o desconforto diante das coisas que não se encaixam.</p>
<p>A alegoria acima que, como professor, gostava de contar aos meus alunos assustados com o sucesso do capitalismo no mundo, nunca perdeu a atualidade.</p>
<p>Desde que a idéia do Estado forte montou guarda na porta da imaginação política a superficialidade de análise minou a autoconsciência da esquerda. Fez a glória de cálculos frustrados, chamou de consciência confusos sentimentos ideológicos, supôs a animosidade uma forma de virtude.  O narcisismo pela causa perdida se confundiu com compaixão. Sem defesa, a melancólica grandeza do crédulo militante juntou-se à intolerância esperta do chefe de partido. E aquele tabuleiro de peças arrumadas, monopolizado por favores e  temores, produziu ligação sentimental tão dessarrumada no povo que o nome do afeto que o sustenta não é alegria, mas o medo.</p>
<p>E, assim, a base na qual a vida soviética se afirmava, não enchia taça de liberdade que pudesse umedecer o deserto de ideias que imperava. Uma história em tres atos, de um compridissimo período de portas fechadas reunindo a notável esperança do início, a vulgaridade brutal do meio, a insignificância profética do fim.</p>
<p>Porque nem a misericórdia perdoa o carater economicamente atrasado e filosoficamente estéril de sociedades em que a vontade humana não é recurso renovável. Ninguém será livre cobrando do Estado a exoneração das dificuldades da vida.</p>
<p>O fato de um sistema de produção ser coletivo, não garante que o aspecto econômico do esforço e da  satisfação humana tenham sido melhor alcançados.</p>
<p>O homem é mais criativo usando a imaginação, o sonho e o pensamento do que os braços, corpo e o suor como fator de produção. Produzir não é criar, é transformar o que já existe. O capitalismo avançou mais do que o socialismo porque percebeu primeiro que o sonho dos homens é descobrir a desutilidade do trabalho, sua penosidade. A União Soviética sumiu na poeira do tempo quando passou a confundir a disciplina para o trabalho obrigatório e coletivo com uma teoria geral da escolha e da felicidade.  A ilusão de se atingir um padrão invariável  de comportamento pressupõe a  supressão  dos orgãos sensoriais humanos.</p>
<p>Qualquer regime politico fracassa se não confia nas possibilidades contidas na sociedade. Um senso comum soberano das ações humanas para se organizar e sobreviver com autonomia. Não foi defeituoso o método que os líderes da revolução russa de 1917 usaram para se manter no poder. Foi inaceitável. Seu maior problema é inventar um sistema produtivo cujo custo de implantação e funcionamento foi infinitamente maior do que a satisfação que possibilitou. Nenhum operário, astronauta, comerciante ou fazendeiro torna-se mais criativo e livre com o crachá de um departamento do governo.</p>
<p>O aniversário da revolução bolchevique bem poderia ter passado incólume. Afinal, qual o horizonte oferece às gerações atuais ?. O fato de ser necessário algum controle para qualquer atividade humana não significa que ele deva ser estatal.  Se o campo do que é legítimo só pode ser certificado pelo Estado não sobra papel para o cidadão. E foi essa confusão liberdade-estado-indivíduo-sociedade que afastou sonhadores, políticos, intelectuais e entusiastas das causas democráticas da defesa de uma Moscou vermelha.</p>
<p>Com o fim da União Soviética; com a estraçalhadoramente pragmática adesão da China ao capitalismo; com a alienação mundial que a globalização escancarou no rosto das novas gerações; com a cada vez menos idealizada e charmosa Cuba;  com o silêncio mundial diante da solução arbitrária do conflito na antiga Iugoslávia; com a patética Coreia do Norte; com tudo isso e mais um pouco, o comunismo, como sonho, perdeu influência nos lares, nos estudos de organizações e instituições. O leão se reduziu a gato, deixando um vazio na função de contraponto aceitável para formadores de opinião. E é pelos olhos de um  deles que o desastre foi pressentido: &#8220;nada de novo há no rugir das tempestades&#8221;, alertou Maiokóvski  no poema<em>, E então, que quereis?..,</em> pouco tempo antes de receber o tiro que o matou.</p>
<p>Ainda que não se observe grandes mudanças do padrão de distribuição de renda no mundo há em curso uma tendência, não-cíclica, de acumulação muito significativa da riqueza disposta no planeta. O fenômeno popularizado por um contundente livro de Thomas Piketty, até então um economista francês que fazia carreira distante das discussões econômicas de impacto global, mostrou força, pois, mesmo quando combatido, nunca o foi de forma que fragilizasse diretamente o cerne de sua análise.</p>
<p>De fato, a riqueza no planeta está concentrada e continua com uma dinâmica de mais concentração nas mãos de um reduzido número de indivíduos. Mas o mundo nunca foi tão rico quanto agora em que a recompensa pelos que apostam na livre iniciativa segue a regra em que o risco dos investimentos é menor do que o retorno que proporciona.</p>
<p>Se você quer ser dono dos seus desejos não deixe o Estado ser o único empregador. Nem dê seu tempo à emoções massificadas, fermento da fúria falsa do manipulador. Há um desconcertante defeito/virtude de origem na democracia. Ela é um filtro para produzir uma minoria legitima e confiável. Caso, tal elite, se torne desprovida de virtudes, que seja, constitucionalmente, deposta. A areia escorre garganta abaixo na ampulheta.</p>
<p>Com que santo e milagre será enfeitado o aniversário dos governos progressistas atuais pouco se pode antever. Para a União Soviética, basta o réquiem pela morte do enorme equívoco que foram seus governos arbitrários.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>                                      *****</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>PAULO DELGADO é sociólogo. Co-Presidente do Conselho de Economia, Sociologia e Politica da Fecomercio de SP.  </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também no <a href="http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,e-entao-que-quereis,70002118046">Estadão</a>.</p>
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		<title>O PENÚLTIMO MOMENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jan 2018 10:18:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 10 de janeiro de 2018.</em></p>
<p><strong>F</strong>ormar opinião própria e ter alguma independência crítica ajuda a não entrar desamparado nas eleições. Como a maioria do eleitorado desconhece o futuro presidente não chegamos ao último momento.</p>
<p>O Brasil conta com um brasileiro livre e desimpedido para deserdar a nação do instinto político que consolidou o sistema governamental predador que nos divide. Ainda não governou a República o herói de todas as épocas; os mais populares não foram modelo de pureza. Precisamos grandeza de espírito e amplitude de consciência para extirpar o azedume que ronda a eleição. Objetividade: olho nos políticos espertos capazes de juntar pessoa desonesta e personagem honesto. Observe a escandalosa sinceridade na mistura ruim dos dois.</p>
<p>A crista da sociedade, por onde surfa o mundo político, é muito frágil. Anda torcido e retorcido, em reciclagem automática, pelos mesmos atores que produzem a disfunção da política e da justiça. Uma saudável anomalia, juntando os que não estão dentro com os que querem pular fora, pode surpreender. Continuaremos à flor da pele se a política, como a marginalidade, insistirem em contornar a equação justiça e dever com motim, caravana ou entrevista.</p>
<p>A razão política deveria se realizar pela singularidade do bem se impondo sobre a negatividade do mal. Tudo que explode na nossa frente não é história. História é o que nos ultrapassa. É urgente um novo encantamento, nova perspectiva. Para isso é preciso perder algumas ilusões na funcionalidade de instituições demolidoras sem controle sobre seus membros. Implodem o edifício dá má fé,  preservam o terreno para erguer o da má consciência.</p>
<p>A cidadania tutelada, concedida à sociedade hipnotizada, deu à honestidade a aparência de uma rosa enferma.   Por isso o impulso da política para a corrupção aumentou, misturado aos mecanismos estatais de transparência. A honestidade, para uso de uma personalidade falsa, não é um desastroso papel a desempenhar, como seria para a pessoa real de natureza honesta.</p>
<p>O bom sentido que deu origem aos órgãos controladores, se não envolver o controle externo do &#8220;controlador&#8221; estatal, é um falso ideal. Fiscalizadores que não são fiscalizados jogam um jogo duplo entre o limpa-fossa e a água contaminada.  A aposta no mal aumentou e inundou todos os setores com o horror macabro que une legislação, regulação, controle e comando judicial, policial e advocatício. O que parece mais divulgado e limpo, sem controle social, pode estar é mais funcional e sujo. Pois ao mesmo tempo todas as redes da ilegalidade revigoraram a estruturação de seus negócios no período. Contracheque de juiz, patrimônio declarado de político, emenda parlamentar, obra pública, privilégios, tudo pode ser desonestamente transparente. O impostor percebeu que ética pública esterilizada é um modismo de fada politizada que esquece o papel do calor provinciano para atrair mosca. E como a ética privada foi adormecida na sombra da simpatia pela pitoresca luxúria do governo popular, a sociedade passou a dançar miudinho na mão do falso moralismo do Estado. O labirinto é a realidade e, é ele, que dá fôlego a corrupção. Quem for piedoso com esse modelo é um niilista. Quem dele for crítico é um otimista. Quem gosta da política não pode compreender o inaceitável.</p>
<p>Os entusiastas do controle, da purificação dos costumes, destruíram todo o sonho e a imaginação da sociedade para a boa determinação que a cultura política autônoma tem para a mudança. Com os quatro governos da dinastia de Luiz &#8211; que deixou de observar insubornavelmente os problemas do governo e se tornou imperdoavelmente afrontoso com o futuro do país -, ocorreu que &#8220;o máximo de confusão somado ao máximo de ordem parece um cálculo sublime&#8221; (<em>Humberto Eco, O nome da rosa</em>).</p>
<p>Não é incomum um país entregar seus sonhos nas mãos da pessoa errada. &#8220;A mais secreta cilada pode atingir o inventor, e a perfídia está voltada, muitas vezes, contra o autor&#8221; é um alerta antigo, muito útil para compreender o que se passa conosco. Usuários da liberdade cínica excitam a política ao rancor, dispensaram a admoestação, insultam a lei.</p>
<p>Líderes monopolizadores, cujo hábito é falar mais do que conversar, não sabem a hora de parar. Na política não pode haver afeição estacionária. É um <em>nonsense</em> continuar político quem produz evidências que sustentam uma mentira e acha melhor não falar logo a verdade.</p>
<p>2018 pode não ser o pântano que precisamos atravessar. Um longo trecho cercado de apelos traiçoeiros. Pode sim ser ultrapassado esse tempo onde tantos presunçosos, na economia, na política, na moral, enamorados de si, impuseram ao país tantas sentenças, leis e princípios que precisamos de calma e perspectiva para abolir esse baralho de cartas viciadas. Até agora o cenário não dá nenhuma prova de que será distinta da recorrente disputa grosseira, entre quem derruba mais garrafas de uma vez.</p>
<p><strong><em>TRF-4:</em></strong> Para ele tudo neste processo tem importância, menos o crime. A sociedade sonha mais do que a política fantasia. Mas é muito maior o poder que tem um político para emprestar a si mesmo uma personalidade fictícia do que tem a sociedade para viver fora da realidade. O desastre é quando a natureza da pessoa derrota o idealismo do personagem. O cenário marcante do desequilíbrio entre a grandeza da imaginação social e a limitação da imaginação política é a lei. E a lei é um mal tempero para a fantasia. A saga de um idealismo frustrante, que não pode mais possuir ou dominar, o mortifica. Adorna o processo com a afetação da política, supondo cortejar o castigo com ameaças. Quer marcar, com outro poder, um limite de identidade. Precisa anular a justiça como entidade concorrente com seu desejo. Pois foi esta a condição com que estruturou a força do seu governo. Subjugar todos, marcar o cenário da superioridade onde sua realidade ficou oculta pela sua fantasia. Só que a justiça descobriu a excessiva realidade da sua fantasia.</p>
<p><strong> *****</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO </strong><em>é Sociólogo. Co-Presidente do Conselho de Economia, Sociologia e Política da Fecomercio/SP.</em></p>
<p>Leia também <a href="http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-penultimo-momento,70002144878">aqui</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
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