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	<title>Arquivos Desenvolvimento - Paulo Delgado</title>
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		<title>ASSIM QUE NÓS VIVEMOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Oct 2018 01:25:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
		<category><![CDATA[Africa do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[Congresso Nacional Africano]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<div><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 14 de outubro de 2018.</em></div>
<div></div>
<div>Dias atrás, o ministro das finanças da África do Sul, Nhlanhla Nene, foi forçado a pedir sua exoneração. Nene representa a mais recente baixa causada pelas espúrias relações mantidas pela classe política sul-africana com a família Gupta. Os Gupta são originários da Índia, mas enxergaram na África do Sul, saindo do apartheid, 25 anos atrás, o país para se prosperar a partir daquele momento de grande comoção global. Para quem acompanha a turbulenta relação entre política e riqueza, sabe que nessa área a fortuna é rival da ética e, no caso dos Gupta, a promiscuidade é total.</div>
<div></div>
<div>A posse de Cyril Ramaphosa como presidente do país, em fevereiro deste ano, deu vazão a amplo entusiasmo, apelidado de Ramaphoria. Nascido em Soweto, Ramaphosa ascendeu politicamente dentro de sindicatos, colaborou de perto com Mandela e se tornou um homem muito rico. Dada à completa inadequação de seu antecessor, Jacob Zuma, o entusiasmo com Ramaphosa foi total. Bastou dizer que não aceitava o impacto negativo da corrupção de seu partido sobre a economia do país e afirmar seu compromisso de colaborar com as investigações para estancar práticas ilegais de captura do Estado. Todavia, a dificuldade de se encontrar uma solução de fato para os problemas cruciais do país passou a se alinhar ao longo do ano com uma forte onda de crise financeira, que ameaça contagiar grande parte dos países emergentes.</div>
<div></div>
<div>
<div>País com o maior parque industrial do continente africano, a terra de Nelson Mandela é, provavelmente, a que mais semelhanças tem, no todo, com o Brasil. Durban, Cidade do Cabo, Johanesburgo e Pretoria podiam ser cidades brasileiras. Um Brasil negro, com 80% da população negra, 9% branca, 2% asiática e apenas 9% parda.</div>
<div></div>
<div>Em outubro de 1993, a Assembleia Geral da ONU cancelou a maior parte das sanções que mantinha contra Pretória por conta do regime de apartheid, e declarou que eram claros os sinais de que o país caminhava com firmeza para uma democracia multirracial e que, portanto, não seria mais tratado como um Estado racista.</div>
<div></div>
<div>No ano seguinte, Mandela começaria a governar o país, coroando uma das lutas mais bonitas e conhecidas de emancipação de um povo. O partido dentro do qual a África do Sul democrática se organizou foi o Congresso Nacional Africano (CNA), que, desde então, governa o país contando, eleição após eleição, com mais de 60% dos votos na Assembleia Nacional que redige as leis e indica o presidente da República.</div>
<div></div>
<div>O Relatório Mundial da Desigualdade de 2018 traz que, “a despeito das muitas reformas focando nos mais pobres e combatendo a herança de segregação, a raça ainda é um determinante-chave das diferenças em nível de renda, formação educacional, oportunidades de trabalho e riqueza”. Os 10% mais ricos do país têm uma renda comparável aos 10% mais ricos de países como Espanha, Itália e França. Enquanto todo o restante, 90%, tem, em média, uma renda comparável aos 16% mais pobres da França. O fim do apartheid fez com que muitos negros entrassem entre os 10% mais ricos — e isso sem desalojar os brancos — mas, até hoje, foi incapaz de mudar essa estrutura. Pelo contrário, somando crise e corrupção, o que se percebe é um agravamento da desigualdade.</p>
<div></div>
<div>Enquanto isso, o governo vive desde agosto pressionado pelas investigações promovidas pela “Comissão de Inquérito sobre a Captura do Estado”. O foco é a fraudulenta cumplicidade do ex-presidente Jacob Zuma com a família Gupta, uma Lava-Jato local.</div>
</div>
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<div></div>
<div>
<div>Em março de 2015, a estátua de Cecil John Rhodes na Universidade da Cidade do Cabo foi coberta de excremento humano, num protesto contra o que muitos estudantes identificam como um símbolo do colonialismo supremacista branco. Forma de protesto inspirada nos ativistas da comunidade de Khalyelitsha, na periferia da Cidade do Cabo, que, injuriados com os fedorentos banheiros portáteis com os quais o governo procurava responder à falta de saneamento do bairro, resolveram despejar o conteúdo de tais latrinas no aeroporto internacional da cidade, em algumas avenidas de grande fluxo e nas escadarias do Poder Legislativo local. No mundo em que as pessoas têm WhatsApp, Facebook e Instagram, sem contarem ainda nem com banheiro ou água tratada, não se deve brincar em não resolver os problemas básicos do povo, pois sua explosão nunca foi tão fácil de organizar.</div>
<div></div>
<div>As comunidades sentem na pele que precisam de solução imediata e andam sem paciência diante da falta de higiene moral de políticos. Ou o mundo anda rápido para resolver o básico para todos, ou descambará para viver sob o medo do progresso para poucos e as incontroláveis reações do desespero dos que parecem dizer “assim que nós vivemos aqui, autoridades”.</div>
</div>
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		<title>A Índia vai à Lua</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Aug 2019 23:29:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
		<category><![CDATA[brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Chandrayaan]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[Programa Espacial]]></category>
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<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 4 de agosto de 2019.</em></p>



<p><strong>C</strong>handrayaan-2 é o nome da missão indiana que está voando no espaço. A nave não tripulada está prevista para pousar no polo sul da Lua no dia 7 de setembro. Chandrayaan quer dizer veículo lunar. O robô, em forma de veículo, a ser deixado por lá é chamado Pragyan, que, em sânscrito, significa sabedoria. Em português, sabedoria significa extraordinário discernimento, meio fora de moda em nosso país.</p>



<p>A missão atual é um desenrolar coerente da missão Chandrayaan-1, lançada em 2008 da mesma ilha costeira na Baía de Bengala, na parte sudeste do país, com o objetivo de mapear o único satélite natural da Terra, produzindo atlas em três dimensões e um mapa mineralógico. O ponto de maior entusiasmo da missão foi a identificação da presença de água, especialmente nos polos.</p>



<p>A confirmação foi obtida através de uma sonda lançada pela Chandrayaan-1, enquanto orbitava a Lua, para colidir com uma cratera em seu polo sul e provocar o levantamento de matéria do subsolo. De posse dessas informações, o país asiático se concentrou em desenvolver a tecnologia necessária para pousar no polo sul do lado escuro da Lua. O lado escuro é aquele que não é visto da Terra, cujo solo foi explorado pela primeira vez, agora em 2019, pela China.</p>



<p>China e Índia são exemplos de países que não trapaceiam com o futuro. A China tomou para si, com clareza de raciocínio, estratégia e sacrifício, o fim da era industrial de 1980 para cá. Transformou-se na fábrica do mundo. Tinham abundância incomparável de mão de obra e forte capacidade de gestão por parte do governo.  Soube, com maestria, ganhar o jogo mundial do desenvolvimento.</p>



<p>O caso indiano é distinto. Outra estratégia, ainda em desenvolvimento, mas igualmente baseada em clareza de raciocínio, compreensão do mundo e sacrifício.</p>



<p>Ao perceber, lá na década de 1970, que havia perdido o jogo da industrialização e que a indústria, como maior empregador e concentrador de capital, estava com os dias contados, a Índia resolveu preparar suas novas gerações para o setor de serviços, em especial, para a alta tecnologia. Ou seja, os indianos sabem que a luta pelo desenvolvimento é uma guerra, e, ao perceberem que perderam a batalha da era industrial e que a China tinha mais condições de se oferecer como braço operário do mundo, o caminho a seguir era enfrentar a globalização liberal e o desemprego tecnológico, separando o&nbsp; futuro da polarização ideológica.</p>



<p>E não deu outra. Como diz o professor do Instituto de Altos Estudos do Desenvolvimento, em Genebra, Richard Baldwin, estamos em pleno “levante da globótica”. Uma nova fase da globalização focada em forte exportação de serviços, robôs e inteligência artificial. Os tipos de trabalho e “produtos” a serem comercializados são softwares, robôs e ciência dos dados. Vai faltar emprego convencional e países que não arrumarem formas de enfrentar a desigualdade vão falir miseravelmente. Há uma espécie de economia imoral por trás da falta de progresso para todos nos dias de hoje.</p>



<p>É para esse futuro da nova produtividade, que já é presente, que a Índia está se preparando para ser vanguarda. Por isso, investe no seu programa espacial — entra governo e sai governo, independentemente de ideologia. Está se reestruturando no mais elevado nível da prosperidade atual, que é o mundo da tecnologia da informação e o desafio do emprego moderno.</p>



<p>A Índia desenvolveu seu primeiro satélite nos anos 1970. Lançou-o da então URSS, em 1975. Em 1980, conseguiu pôr no ar, a partir da Índia, seu primeiro satélite experimental através de um Veículo Lançador de Satélites próprio. Seu primeiro satélite de comunicação foi lançado no mesmo ano, mas da Guiana Francesa. Ou seja, desde cedo, um histórico de eclética colaboração internacional para desenvolver tecnologia própria. Em 1984, o primeiro indiano foi ao espaço em uma nave da URSS. Em 2007, a Índia criou seu programa para lançar uma nave tripulada de fabricação nacional. Está projetada para ir ao espaço em 2021.</p>



<p>EUA, Rússia (incluindo a antiga URSS), União Europeia, Japão, China e Índia são os países que já exploraram a Lua com sondas. É esse o clube das grandes potências mundiais que são livres para decidir não só o seu destino, mas como será o futuro da existência humana. É uma pena o Brasil se comportar como um Estado que escolheu fracassar, sem políticas duradouras e instituições fortes. Chandrayaan-2 custou à Índia US$ 140 milhões. Menos do que custa a aquisição de um jogador de futebol entre os 10 mais valiosos. O investimento maior é em desenvolver a inteligência daqueles que serão os cientistas e engenheiros tocando o projeto e lhes garantir estrutura de trabalho e suporte estratégico.</p>



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