Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 14 de outubro de 2018.
Dias atrás, o ministro das finanças da África do Sul, Nhlanhla Nene, foi forçado a pedir sua exoneração. Nene representa a mais recente baixa causada pelas espúrias relações mantidas pela classe política sul-africana com a família Gupta. Os Gupta são originários da Índia, mas enxergaram na África do Sul, saindo do apartheid, 25 anos atrás, o país para se prosperar a partir daquele momento de grande comoção global. Para quem acompanha a turbulenta relação entre política e riqueza, sabe que nessa área a fortuna é rival da ética e, no caso dos Gupta, a promiscuidade é total.
A posse de Cyril Ramaphosa como presidente do país, em fevereiro deste ano, deu vazão a amplo entusiasmo, apelidado de Ramaphoria. Nascido em Soweto, Ramaphosa ascendeu politicamente dentro de sindicatos, colaborou de perto com Mandela e se tornou um homem muito rico. Dada à completa inadequação de seu antecessor, Jacob Zuma, o entusiasmo com Ramaphosa foi total. Bastou dizer que não aceitava o impacto negativo da corrupção de seu partido sobre a economia do país e afirmar seu compromisso de colaborar com as investigações para estancar práticas ilegais de captura do Estado. Todavia, a dificuldade de se encontrar uma solução de fato para os problemas cruciais do país passou a se alinhar ao longo do ano com uma forte onda de crise financeira, que ameaça contagiar grande parte dos países emergentes.
País com o maior parque industrial do continente africano, a terra de Nelson Mandela é, provavelmente, a que mais semelhanças tem, no todo, com o Brasil. Durban, Cidade do Cabo, Johanesburgo e Pretoria podiam ser cidades brasileiras. Um Brasil negro, com 80% da população negra, 9% branca, 2% asiática e apenas 9% parda.
Em outubro de 1993, a Assembleia Geral da ONU cancelou a maior parte das sanções que mantinha contra Pretória por conta do regime de apartheid, e declarou que eram claros os sinais de que o país caminhava com firmeza para uma democracia multirracial e que, portanto, não seria mais tratado como um Estado racista.
No ano seguinte, Mandela começaria a governar o país, coroando uma das lutas mais bonitas e conhecidas de emancipação de um povo. O partido dentro do qual a África do Sul democrática se organizou foi o Congresso Nacional Africano (CNA), que, desde então, governa o país contando, eleição após eleição, com mais de 60% dos votos na Assembleia Nacional que redige as leis e indica o presidente da República.
O Relatório Mundial da Desigualdade de 2018 traz que, “a despeito das muitas reformas focando nos mais pobres e combatendo a herança de segregação, a raça ainda é um determinante-chave das diferenças em nível de renda, formação educacional, oportunidades de trabalho e riqueza”. Os 10% mais ricos do país têm uma renda comparável aos 10% mais ricos de países como Espanha, Itália e França. Enquanto todo o restante, 90%, tem, em média, uma renda comparável aos 16% mais pobres da França. O fim do apartheid fez com que muitos negros entrassem entre os 10% mais ricos — e isso sem desalojar os brancos — mas, até hoje, foi incapaz de mudar essa estrutura. Pelo contrário, somando crise e corrupção, o que se percebe é um agravamento da desigualdade.

Enquanto isso, o governo vive desde agosto pressionado pelas investigações promovidas pela “Comissão de Inquérito sobre a Captura do Estado”. O foco é a fraudulenta cumplicidade do ex-presidente Jacob Zuma com a família Gupta, uma Lava-Jato local.
Em março de 2015, a estátua de Cecil John Rhodes na Universidade da Cidade do Cabo foi coberta de excremento humano, num protesto contra o que muitos estudantes identificam como um símbolo do colonialismo supremacista branco. Forma de protesto inspirada nos ativistas da comunidade de Khalyelitsha, na periferia da Cidade do Cabo, que, injuriados com os fedorentos banheiros portáteis com os quais o governo procurava responder à falta de saneamento do bairro, resolveram despejar o conteúdo de tais latrinas no aeroporto internacional da cidade, em algumas avenidas de grande fluxo e nas escadarias do Poder Legislativo local. No mundo em que as pessoas têm WhatsApp, Facebook e Instagram, sem contarem ainda nem com banheiro ou água tratada, não se deve brincar em não resolver os problemas básicos do povo, pois sua explosão nunca foi tão fácil de organizar.
As comunidades sentem na pele que precisam de solução imediata e andam sem paciência diante da falta de higiene moral de políticos. Ou o mundo anda rápido para resolver o básico para todos, ou descambará para viver sob o medo do progresso para poucos e as incontroláveis reações do desespero dos que parecem dizer “assim que nós vivemos aqui, autoridades”.
Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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