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	<title>Arquivos inteligencia artificial - Paulo Delgado</title>
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		<title>O MUNDO EM RISCO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Aug 2019 23:46:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
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<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 18 de agosto de 2019.</em></p>



<p><strong>O</strong> mundo passa por um momento muito conturbado e a maioria dos países está calada, refletindo e agindo. Nem todos. “Os EUA fazem o que fazem porque são uma grande potência. O Brasil não é”, afirmou, em artigo grosseiro, o expoente do neo-realismo estadunidense, Stephen Walt. Mas as consequências virão para todos, sem exceção.<br></p>



<p>Todavia, em um mundo cada vez mais conturbado, não podemos tirar a atenção do principal. A integridade nacional somente será preservada se o país aprender a ser governado no dia a dia, independente de eleições, partidos, ideologias&#8230; Vivemos um tempo de redobrada atenção no que é primordial aos poderes do Estado. Especialmente, diante da forte e veloz atualização tecnológica.</p>



<p><br>O Brasil é um grande encontro de civilizações a caminho de formar uma civilização própria. Isto é nossa maior característica. Na hipótese de nova crise financeira, inexiste hoje no mundo um grau de pensamento minimamente solidário para resolver um problema a partir da ação coletiva internacional, como existia em 2008. Se naquela época já não foi bem-feito, hoje talvez sequer fosse feito algo estruturado em conjunto, suficiente para amenizar a queda. Cada país está se achando senhor das suas ideias e partindo para experimentações sem levar em conta que o que nos salva é a harmonia da ação.</p>



<p><br>O aumento da automação resultante da revolução tecnológica em curso exige se arquitetar um futuro em que todos sejam servidos e se beneficiem das máquinas de inteligência artificial. Do contrário, o mundo da oferta não vai encontrar o mundo da demanda que estará desempregado e sem dinheiro.</p>



<p><br>A fim de se compreender o que vai se passar nas próximas décadas no mundo do trabalho, é importante ver o se passou no século 19. O trabalho escravo, que existia desde tempos imemoriais — todos os povos da Terra já foram escravizados em uma altura ou outra de sua história — foi substituído globalmente pelo trabalho assalariado.</p>



<p><br>Por mais que o movimento abolicionista representasse um avanço moral, cultural e intelectual da sociedade humana, havia questões práticas da lógica econômica sustentando o movimento. As revoluções tecnológicas que deram sequência à revolução industrial transferiram cada vez mais dinheiro e poder para setores industriais da sociedade que viam necessidade de ampliar seu mercado consumidor. Afinal, qual a lógica de produzir bens de consumo em larga escala se não existem consumidores em larga escala? Para isso, era fundamental incorporar o maior contingente possível de pessoas ao trabalho assalariado. Era preciso acabar com a escravidão, essa modalidade de trabalho em que o capitalista investe pesado apenas uma vez na aquisição e depois só faz manutenções básicas de subsistência. Pois bem, robôs de inteligência artificial também não recebem salários, podem ser caros para se adquirir, mas consomem pouco para subsistir.</p>



<p>Num controverso estudo de história econômica escrito por Robert Fogel e Stanley Engerman, na década de 1970 (o primeiro receberia o Nobel 20 anos mais tarde), a escravidão no sul dos EUA foi descrita como “investimento altamente lucrativo”, superior mesmo “às melhores oportunidades de investimento na manufatura”. Nos EUA, foi uma guerra civil que mudou essa balança e definiu que as pessoas passassem a receber salários em troca de trabalhos que geravam os produtos a serem consumidos em larga escala pelos próprios assalariados. Foi a boa lógica econômica que aboliu a escravidão, mais do que as razões morais.</p>



<p><br>No princípio do século 20, Henry Ford ficou famoso pela revolução organizacional representada pela introdução da linha de montagem, que racionalizava e barateava a produção em massa. Mais relevante ainda era a sua lógica de que seus trabalhadores precisavam ganhar bem o suficiente para que pudessem adquirir os carros que produziam. Ou seja, na sua indústria, Ford criava não apenas a oferta, mas também a demanda por seus produtos.</p>



<p><br>Há uma lógica que o ser humano também conhece há milênios e que, no último século, passou a ser conhecida como “paradoxo da parcimônia”, segundo o qual o indivíduo que mais poupa tem ganhos intertemporais maiores na sociedade, mas, se todos os indivíduos e organizações pouparem demais, a sociedade empobrece. Há uma adaptação possível para o pagamento de salário: para o empregador que paga o salário, quando mais baixo ele for, maior será o seu lucro; no entanto, se todos os empregadores pagarem salários baixos, as perdas de lucro se alastrarão pela economia real por conta do enfraquecimento do consumo.</p>



<p>Governar com palavras não vai deter a automação que ameaça o mundo e prepara a próxima grande crise econômica.</p>
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