Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de agosto de 2019.

O mundo passa por um momento muito conturbado e a maioria dos países está calada, refletindo e agindo. Nem todos. “Os EUA fazem o que fazem porque são uma grande potência. O Brasil não é”, afirmou, em artigo grosseiro, o expoente do neo-realismo estadunidense, Stephen Walt. Mas as consequências virão para todos, sem exceção.

Todavia, em um mundo cada vez mais conturbado, não podemos tirar a atenção do principal. A integridade nacional somente será preservada se o país aprender a ser governado no dia a dia, independente de eleições, partidos, ideologias… Vivemos um tempo de redobrada atenção no que é primordial aos poderes do Estado. Especialmente, diante da forte e veloz atualização tecnológica.


O Brasil é um grande encontro de civilizações a caminho de formar uma civilização própria. Isto é nossa maior característica. Na hipótese de nova crise financeira, inexiste hoje no mundo um grau de pensamento minimamente solidário para resolver um problema a partir da ação coletiva internacional, como existia em 2008. Se naquela época já não foi bem-feito, hoje talvez sequer fosse feito algo estruturado em conjunto, suficiente para amenizar a queda. Cada país está se achando senhor das suas ideias e partindo para experimentações sem levar em conta que o que nos salva é a harmonia da ação.


O aumento da automação resultante da revolução tecnológica em curso exige se arquitetar um futuro em que todos sejam servidos e se beneficiem das máquinas de inteligência artificial. Do contrário, o mundo da oferta não vai encontrar o mundo da demanda que estará desempregado e sem dinheiro.


A fim de se compreender o que vai se passar nas próximas décadas no mundo do trabalho, é importante ver o se passou no século 19. O trabalho escravo, que existia desde tempos imemoriais — todos os povos da Terra já foram escravizados em uma altura ou outra de sua história — foi substituído globalmente pelo trabalho assalariado.


Por mais que o movimento abolicionista representasse um avanço moral, cultural e intelectual da sociedade humana, havia questões práticas da lógica econômica sustentando o movimento. As revoluções tecnológicas que deram sequência à revolução industrial transferiram cada vez mais dinheiro e poder para setores industriais da sociedade que viam necessidade de ampliar seu mercado consumidor. Afinal, qual a lógica de produzir bens de consumo em larga escala se não existem consumidores em larga escala? Para isso, era fundamental incorporar o maior contingente possível de pessoas ao trabalho assalariado. Era preciso acabar com a escravidão, essa modalidade de trabalho em que o capitalista investe pesado apenas uma vez na aquisição e depois só faz manutenções básicas de subsistência. Pois bem, robôs de inteligência artificial também não recebem salários, podem ser caros para se adquirir, mas consomem pouco para subsistir.

Num controverso estudo de história econômica escrito por Robert Fogel e Stanley Engerman, na década de 1970 (o primeiro receberia o Nobel 20 anos mais tarde), a escravidão no sul dos EUA foi descrita como “investimento altamente lucrativo”, superior mesmo “às melhores oportunidades de investimento na manufatura”. Nos EUA, foi uma guerra civil que mudou essa balança e definiu que as pessoas passassem a receber salários em troca de trabalhos que geravam os produtos a serem consumidos em larga escala pelos próprios assalariados. Foi a boa lógica econômica que aboliu a escravidão, mais do que as razões morais.


No princípio do século 20, Henry Ford ficou famoso pela revolução organizacional representada pela introdução da linha de montagem, que racionalizava e barateava a produção em massa. Mais relevante ainda era a sua lógica de que seus trabalhadores precisavam ganhar bem o suficiente para que pudessem adquirir os carros que produziam. Ou seja, na sua indústria, Ford criava não apenas a oferta, mas também a demanda por seus produtos.


Há uma lógica que o ser humano também conhece há milênios e que, no último século, passou a ser conhecida como “paradoxo da parcimônia”, segundo o qual o indivíduo que mais poupa tem ganhos intertemporais maiores na sociedade, mas, se todos os indivíduos e organizações pouparem demais, a sociedade empobrece. Há uma adaptação possível para o pagamento de salário: para o empregador que paga o salário, quando mais baixo ele for, maior será o seu lucro; no entanto, se todos os empregadores pagarem salários baixos, as perdas de lucro se alastrarão pela economia real por conta do enfraquecimento do consumo.

Governar com palavras não vai deter a automação que ameaça o mundo e prepara a próxima grande crise econômica.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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