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	<title>Arquivos crise - Paulo Delgado</title>
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		<title>&#8220;O Brasil está embalsamado&#8221;, diz Paulo Delgado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Jun 2018 20:37:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>5 de junho de 2018 &#8211; VALOR ECONÔMICO Entrevistadores: Rosângela Bittar e Raymundo Costa Quando a crise é abertamente política, como é a atual, aumenta a força do<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div><em>5 de junho de 2018 &#8211; VALOR ECONÔMICO</em></div>
<div><em>Entrevistadores: Rosângela Bittar e Raymundo Costa</em></div>
<div></div>
<div>
<p><strong>Q</strong>uando a crise é abertamente política, como é a atual, aumenta a força do tagarela e do superficial &#8220;Os serviços de entrega do que é errado são mais eficientes do que os públicos. Ninguém fica na fila para comprar droga&#8221;</p>
<p>No momento em que muito se fala de renovação, a greve dos caminhoneiros serviu para mostrar velhos políticos em ação, uma pauta carcomida e que parecia superada &#8211; a concessão de subsídios &#8211; e certo descompromisso com as normas legais, algo que os sociólogos classificam como anomia. O país não está preparado para a economia de mercado, escreveu uma publicação estrangeira.</p>
<p>&#8220;O Brasil está embalsamado&#8221;, sintetiza o sociólogo Paulo Delgado, ex-deputado pelo PT de Minas Gerais, hoje presidente do Conselho de Sociologia e Política da Fecomercio e coordenador nacional do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee). Delgado não aponta soluções definitivas. No Congresso, vigora, na sua opinião, o estatuto da gafieira &#8211; &#8220;quem está dentro não sai, quem está fora não entra&#8221;.</p>
<p>Para o ex-militante histórico do PT, a força da política é &#8220;tirar a revolta do povo e não agravá-la&#8221;. E os políticos, testemunha, &#8220;estão em campanha e não fizeram nada para solucioná-la&#8221;. Ao contrário. Um candidato (Luiz Inácio Lula da Silva) faz campanha preso. &#8220;Há um componente atlético e uma escuridão na política que confunde o eleitor e aproxima os extremos.&#8221;</p>
<p>O sociólogo vê saída numa Constituinte, desde que exclusiva: &#8220;A Constituição virou uma peteca nas mãos do STF. E não vê solução no candidato espetacular, mágico: &#8220;O presidente tem que ser normal e previsível.&#8221;</p>
<p>Sobram críticas ao gigantismo do Estado, que não consegue mais se financiar nem funcionar de modo a atender a população. O tráfico, na sua avaliação, funciona com mais agilidade. &#8220;Não existe o aviso cocaína disque 1, maconha disque 2, crack disque 3&#8221;, ironiza.</p>
<p>Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor:</p>
<p><strong>Valor: O país atravessa uma de suas piores crises e a política não dá uma resposta. O que aconteceu com os nossos políticos?</strong></p>
<p>Paulo Delgado: Se encapsularam negando até a lei da evolução das espécies. A lei eleitoral garante a autofecundação das oligarquias partidárias concentrando tempo de televisão e fundo partidário nos donos de legenda. Será a maior não renovação do Congresso desde os anos 80. Um estatuto da gafieira: quem está dentro não sai, quem está fora não entra. O presidencialismo de cooptação tornou o parlamento consanguíneo e hereditário.</p>
<p><strong>Valor: A política está em baixa em todo o mundo.</strong></p>
<p>Delgado: De maneira diferente em cada país. Onde há parlamentarismo há mais controle e eficácia. Nos Estados Unidos, o excêntrico [Donald] Trump é controverso, mas governa como um republicano. Na Itália, no entanto, a vitória dos políticos não políticos está um desastre, mas não é estática. A América Latina é que continua o ninho de cobra do presidencialismo de conchavos.</p>
<p><strong>Valor: O que diferenciou a última greve dos caminhoneiros das anteriores?</strong></p>
<p>Delgado: Embora decretada por organizações sindicais foi pilotada de forma descentralizada por líderes avulsos. Através do WhatsApp foram criados os grupos de ação, definidos os pontos de bloqueio, indicados os líderes da operação. Os caminhões são naves espaciais interconectadas, o caminhoneiro é um narrador natural que anda longe e tem mais o que contar do que os meios de comunicação. Em toda estrada tem líder, pelos mais diferentes motivos e lealdades locais, comunitárias. Quem confere sua liderança é a estrada. A política de frete e pedágios extorsivos aumentou a bronca. A insensibilidade monopolista da Petrobras compôs o enredo.</p>
<p><strong>Valor: Pesquisas dizem que mais de 80% da população apoia a greve de caminhoneiros, apesar dos prejuízos para ela própria. Não é um paradoxo?</strong></p>
<p>Delgado: Quem quis dar uma de líder foi logo desmoralizado. O rosto da greve é o diesel S-50/10 que deste outubro de 2016 tem seu preço definido pela Bolsa de Valores. A política de alinhamento a preços internacionais está errada. Os países-baleia, continentais como o Brasil, é que deveriam ser a referência. Entidades de classe alertaram ao governo da bomba-relógio armada. Do lado da Petrobras não havia líder também não. Uma alienação dos três monopólios: combustível estatal, matriz de transporte ultrapassada, império da rodovia. A greve acabou pela ação do Palácio, a identificação do locaute oportunista, o risco de convulsão por desabastecimento. Quanto ao prejuízo, seu horizonte é tão distante para o homem comum que ele realiza a dificuldade contando piada das peripécias sobre a corrida aos postos. Os militares usaram sua experiência em operações de paz. Quando encontraram a Polícia Militar de alguns Estados pegando carona na greve não quiseram confrontar, operaram como diplomatas da desobstrução. Demorou mais, mas me pareceu mais adequado do que a ação incisiva.</p>
<p><strong>Valor: O senhor vem dizendo que os partidos trabalham com públicos quando a indignação é da sociedade de massa. O que fazer?</strong></p>
<p>Delgado: O Brasil não devia ser um salão de baile onde cada um dança como quer. O diagnóstico do desregramento está feito e não temos tempo a perder. Nosso problema é interno, costumes ruins enraizados na dinâmica institucional que desequilibra a relação Estado-sociedade. Estamos numa encruzilhada. As profissões produtivas foram suplantadas por funções improdutivas de ofícios públicos que oneram a todos, a sociedade de favores. O contracheque humilhou a carteira de trabalho e os jovens estão adoecendo estudando para concurso público sem terem vocação pública.</p>
<p><strong>Valor: Os candidatos ao Planalto responderam adequadamente à greve?</strong></p>
<p>Delgado: Não estamos em guerra, estamos em crise. E a crise é do Estado muito forte, guloso, tributador impune, monopolista e concentrado em sua folha de pagamento e despesas correntes crescentes versus uma política fraca, um governo de transição ameaçado diariamente pelo canibalismo judicial e partidário. Por isso, se a energia dessa eleição continuar sendo a de querer abordar os problemas do país pelo lado da dependência individual e subordinação ao Estado teremos um outubro paralisante. A depreciação do político é fruto da sua dissolução no meio econômico, pendurado no Estado. A campanha é até secundária, importante é saber quem tem perfil e capacidade para, de fato, assumir a governabilidade do país. Até agora o que temos visto é papo de bajulador de eleitor. Acabou o tempo do candidato espetacular, mágico. O presidente tem que ser normal e previsível.</p>
<p><strong>Valor: O presidente da Petrobras caiu. O Brasil não está preparado para as leis de mercado ou o governo é que está fraco?</strong></p>
<p>Delgado: São coisas diferentes. [Pedro Parente] É um técnico reconhecido, mau gestor de emergência. Depois, prejuízo à sociedade não é considerado prejuízo no Brasil. O que prevalece é que cada um luta com seus próprios sentimentos. É certo que o interesse político não pode se sobrepor ao domínio técnico da questão, mas não é bom presidente de estatal que é cego diante da angústia de uma sociedade prisioneira de petróleo.</p>
<p><strong>Valor: Nesse Brasil anômico como o senhor vê o fato de um candidato a presidente fazer campanha de dentro da cadeia?</strong></p>
<p>Delgado: Mais um capítulo triste do desregramento geral. Todos estão fingindo que não estão vendo que o objetivo é deformar o entendimento do caso e desmoralizar a Justiça. Os visitadores usam as entrevistas para mandar recado eleitoral. A velha fixação publicitária de explicar como glória a contraglória. Só que, ao impedir que a realidade venha à tona, mais ampliam seu autoengano e tornam inútil seu partido. Este talvez seja o centro do diagnóstico de nosso tempo, não seremos uma sociedade livre se cada um puder criar o seu próprio contexto. Há muita gente que não está ligada à lei dos outros. Possuem suas próprias leis. Será que ninguém se dá conta de que se um líder político não aceita a coerção legal agir sobre ele, num país em que o crime é dirigido das penitenciárias, nada melhor para o mundo do Marcola do que um ex-presidente esculhambar o sistema penal aumentando a tolerância ao delito? Num mundo de plateias quem aplaude o erro também alarga a indolência diante da lei.</p>
<p><strong>Valor: O surgimento de uma direita orgânica no Brasil, que lidera as pesquisas na ausência de Lula, é resultado do fracasso da esquerda no governo?</strong></p>
<p>Delgado: Há um componente atlético e uma escuridão na política que confunde o eleitor e aproxima os extremos. O país não é uma cômoda em que um candidato acha que pode ir enfiando e tirando de suas gavetas o que quiser. Quando a crise é abertamente política, como é a atual, aumenta a força do tagarela e do superficial. Logo, logo, se quiser ter chance, terá que desacelerar e escrever uma carta aos brasileiros dizendo que entendeu. O Brasil não é de esquerda nem de direita. Somos social-democratas mambembes e autoritários, o que confunde os conceitos e os candidatos ligeiros.</p>
<p><strong>Valor: Nessa situação, como evitar os extremos?</strong></p>
<p>Delgado: Os espinhos da eleição cuidam disso. No parlamento o padrão do discurso e do voto da direita furiosa e da esquerda verbal é muito parecido. São estatistas, corporativos, gastadores, falam aos gritos e com o mesmo método de agir. A força da política é tirar a revolta do povo e não agravá-la. Tem uma saída: é certo que o afrouxamento moral dos últimos anos ampliou a crise da inteligência, mas como a contenção do dinheiro na campanha não permitirá comprar a eleição desta vez, essa é a eleição do eleitor livre. Só ele pode devolver a racionalidade à escolha. E espero que se dê conta que o pior candidato pode ser o melhor presidente.</p>
<p><strong>Valor: O que é preciso fazer para restabelecer a autoridade das instituições no Brasil?</strong></p>
<p>Delgado: Pé no chão. Falta talento de civilização às autoridades brasileiras. Olhando bem há menos arrogância numa reunião de prêmios Nobel do que no diálogo entre autoridades dos três Poderes. As instituições públicas impuseram seu monopólio sobre a gestão da sociedade para se autopreservarem. A vida é mais rica que o mundo oficial. A nação se move por fundamentos e hoje o Estado sufoca a criatividade da sociedade. O Brasil está embalsamado. A prioridade são as pessoas e sua vida, o contribuinte, não os interesses dos funcionários ricos do Estado. Nasceu no Estado uma classe alta escandalosamente privilegiada, um principado sem sentido.</p>
<p><strong>Valor: Executivo e Congresso estão em crise, atropelados pela LavaJato. Mas o Judiciário também não está ajudando a tencionar a crise?</strong></p>
<p>Delgado: A Constituição virou uma peteca nas mãos do Supremo, que tirou o caráter normativo do Direito e fez da interpretação da lei objeto de fruição pessoal. São maus costureiros, encheram o país de alfinetes. São as botas togadas do Estado, parecem gostar mais de triunfar do que julgar. Extravagância e exibicionismo moral não ficam bem na Justiça.</p>
<p><strong>Valor: Está na hora de rever a Constituição?</strong></p>
<p>Delgado: Há sim necessidade de simplificação constitucional, uma nova explanação, mas não vejo nenhuma centelha de sabedoria disponível. Se for para fazer outra tem que ser exclusiva, com deputados constituintes avulsos presentes. É justo que nem todos queiram ser representados por partidos.</p>
<p><strong>Valor: O presidencialismo de coalizão se esgotou?</strong></p>
<p>Delgado: A crise é o esgotamento da Constituição de 1988. O modelo político brasileiro atual, de 1985 a 2018, conhecido como &#8220;Nova República&#8221;, com sua estranha combinação de estabilidade institucional precária e crises político-econômicas periódicas, chegou ao máximo de sua falta de virtude, e cai como folha seca. Produziu sete eleições presidenciais diretas com duas destituições de eleitos. É entender sua ruína que pode nos fazer encontrar uma saída melhor para o país. O Congresso está em frangalhos, o Executivo loteado e o Judiciário querendo ganhar com a confusão.</p>
<p><strong>Valor: Chegamos ao ponto de a minoria comandar a maioria.</strong></p>
<p>Delgado: Sempre foi assim, democracia é governo de minoria legítima. Onde o eleitor é amestrado nem sempre a eleição é capaz de formar bons governos. Porque eleição é um fato periódico onde a maioria do povo filtra, pelo voto livre, a minoria legítima que vai governar. Não é, pois, problema o mercado eleitoral ser volátil, fragmentado e autônomo. É da sua natureza. O eleitor não é o culpado pelo erro dos candidatos. Quem escolhe, registra e atesta a honorabilidade são os partidos, cartórios e o TSE [Tribunal Superior Eleitoral], o maior deles. Precisamos é de boas leis pois a eleição não é prova de honra. É pedir demais ao voto. Se um desonesto se eleger cabe à lei impedir que ele consiga ser ladrão.</p>
<p><strong>Valor: Neste ano não é maior o desafio por causa das investigações de corrupção?</strong></p>
<p>Delgado: Maior, o desafio é de reconstrução e simplificação com um eleitor historicamente desatento e pragmaticamente conservador. Ninguém dará ao brasileiro o que já não existe nele mesmo. Será uma eleição de escolha dura, e não de rejeição vulgar. Quem ganha uma eleição precisando governar contra o Estado? Como confiar na sinceridade se nenhum candidato está sob juramento? Existem bons candidatos, felizmente. Mas vai começar a hora da mentira e da manipulação. Quem está na frente vai começar a esconder o que é. Por isso acho que o melhor é desobedecer as estatísticas e votar &#8220;errado&#8221;, contra as pesquisas. De que adianta estar na frente se você está na estrada errada?</p>
<p><strong>Valor: A política fora dos partidos, a sociedade de massa que o senhor chama de nova oposição, não é muito anárquica?</strong></p>
<p>Delgado: É um grande paradoxo. A tecnologia vai derrubar todos os cartórios. A internet nos libertou dos donos externos tradicionais, mas fez um curral em nossas cabeças. É o lugar ideal para a política da ira, o padrão de todo oposicionista brasileiro. Facebook, Google, Twitter, WhatsApp não são mais empresas de comunicação. São agências de incerteza, distração e velocidade que, com suas conexões, estão produzindo um cidadão novo, uma comunidade de públicos vociferantes e ativos. São mitos fortes contra a onipotência da política. Nem sempre é o melhor, concordo.</p>
<p><strong>Valor: Explique melhor o que o senhor define como mitos fortes criados pelos movimentos fora da política: reclamação e fiscalização.</strong></p>
<p>Delgado: É uma sociedade incivil. Para o brasileiro, reclamar e fiscalizar tem mais prestígio do que empregar e trabalhar. São milhares de plateias, essa sociedade de públicos e guetos que podem se encontrar inesperadamente como meteoros sobre a terra. A Europa acordou agora para a questão. A China, que tem 200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, não brinca em serviço, não deixa rede social surfar na cabeça do povo assim. Porque também sabe, por tradição e senso de dever com sua multidão de pessoas, que nenhum planeta novo tem o poder de alterar o horóscopo. O que falta ao Brasil é cultura do dever, coesão, propósito e um Estado menos alienado e fechado em si mesmo.</p>
<p><strong>Valor: A nova oposição tem resposta para esses problemas?</strong></p>
<p>Delgado: A maioria dos cidadãos está livre como um táxi. Pressiona com indiferença calculada o mundo dos partidos que não representam classes nem movimentos sociais reais. Seu papel é ampliar a fronteira da autonomia e desmoralizar a mentira eleitoral. Há centenas de grupos independentes de partidos debatendo o Brasil. Ninguém menospreza o que quer comprar, mas o preço da política vai ter que abaixar.</p>
<p><strong>Valor: Até que ponto a questão fiscal é responsável pela ruína? O Rio não é um exemplo preocupante, onde quem manda é o narcotráfico, a milícia. as denominações evangélicas?</strong></p>
<p>Delgado: Essa cultura da mão para a boca, sem poupança, déficit em conta corrente, sem previsibilidade e persistência é o conceito de prosperidade que predomina no Estado. É preciso mudar o sistema de funcionamento do poder simplificando a vida e a rotina do funcionário público. Quem quiser ficar rico deve sair do mundo dos três Poderes. Outra coisa é a burocracia. Os serviços de entrega do que é errado são mais eficientes do que os serviços públicos. Ninguém fica na fila para comprar droga ou se meter em corrupção. Não existe nada do tipo cocaína disque 1, maconha disque 2, crack disque 3, o traficante atrasou, não chegou, já saiu, deixe recado com uma das 15 secretárias, seu pedido ainda não foi analisado&#8230; Se para o mal tudo é rápido, para o bem a demora inutiliza seu valor. E há um escandaloso e lucrativo mercado dos pobres disputado por igrejas e partidos.</p>
<p><strong>Valor: É possível apontar um responsável por essa situação de desgoverno total?</strong></p>
<p>Delgado: Vários. Há muita hipocrisia no ar. Ninguém ousa admitir o que ganha com a desgraça dos outros. Nenhum governante deveria supor que a soberania simbólica da sua autoridade pressupõe a legalidade de qualquer dos seus atos. No Brasil, essa pretensão produziu a maioria das suas crises. Como pode um servidor público lucrar com aplicação de uma multa ou receber honorário de causa ganha pelo Estado? Auxílio-moradia para quem tem casa própria? É o fim do mundo. Do lado dos políticos é triste não compreenderem que são cedidos pela sociedade ao Estado. Ou seja, o bom político não está lotado no Estado, como um tijolo na parede.</p>
</div>
<p>Leia também no site do<a href="http://www.valor.com.br/politica/5569969/o-brasil-esta-embalsamado-diz-paulo-delgado"> jornal</a>:</p>
<p><a href="http://www.valor.com.br/politica/5569969/o-brasil-esta-embalsamado-diz-paulo-delgado"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-5073 aligncenter" src="https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado-300x245.png" alt="" width="300" height="245" srcset="https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado-300x245.png 300w, https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado-179x146.png 179w, https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado-50x41.png 50w, https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado-92x75.png 92w, https://paulodelgado.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Embalsamado.png 618w" sizes="(max-width:767px) 300px, 300px" /></a></p>
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		<title>Dias piores virão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Apr 2019 23:11:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 28 de abril de 2019. Volodymyr Zelensky, de 41 anos, tomará posse como presidente da Ucrânia no fim<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 28 de abril de 2019.</em></p>



<p>Volodymyr Zelensky, de 41 anos, tomará posse como presidente da Ucrânia no fim de maio. O comediante fez sua campanha nas onipresentes redes sociais com um discurso já sintetizado no último verso do soneto 121 de Shakespeare: “O homem é mau e reina na maldade”. Ganhou de lavada. A Ucrânia, de 45 milhões de habitantes, está no centro das disputas que ocorrem no mundo desde a crise econômica iniciada em 2008. Foi na Ucrânia que a Rússia usou o Exército para mandar um recado para a Otan: tirem as botas do Leste Europeu. Em 2014, Moscou anexou a Crimeia, península ucraniana no Mar Negro. Recentemente, Putin foi à península homenagear a “reunificação da Crimeia com a Rússia”.</p>



<p><br>A ascensão de Zelensky é mais um dos sintomas de uma baita crise sem solução. E um presságio de que dias piores virão. Tudo começou quando Ben Shalom Bernanke, presidente do Banco Central Americano, o FED, de 2006 a 2014, quis parecer a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo. Estudioso das recessões econômicas, Bernanke afirmou que não estava disposto a permitir uma segunda grande depressão nos EUA. No meio de um mundo desorientado, Bernanke tirou da cartola uma ideia chamada Afrouxamento Quantitativo.</p>



<p><br>A ideia foi comprada pelos sete países mais ricos. E empurrada garganta abaixo do G20 como uma generosa decisão de fraternidade internacional. O Brasil não reagiu estrategicamente e saiu comprando carro sem ter garagem. Os bancos centrais da Europa, Inglaterra, Japão e dos EUA, passaram de cerca de US$ 3 trilhões de crédito a receber do mercado, em 2007, para mais de US$ 14 trilhões, em 2018. Essas operações de empréstimo a juro zero ou mesmo negativo eram o mantra. Quem recebeu o esplendoroso “afrouxamento” foi o sistema&nbsp;financeiro e suas conexões. Bernanke não era mal-intencionado e acreditava piamente que inundar os ricos de dinheiro faria o cifrão descer e evitar, assim, a estagnação econômica e o empobrecimento da população.</p>



<p>Como a economia não secou em 2008, funcionou artificialmente encharcada alguns anos até virar o estopim da crise global como a que vivemos hoje. O vaso da economia mundial se estilhaçou e não voltará a ser como antes. A crise não passa porque o mundo está querendo enfrentar ideias antigas com mágica, ancorando gratuidade na concentração de renda.</p>



<p><br>Por quê? Porque o mundo que funciona não é o mundo de graça. A globalização, a imigração e a produção são coisas reais e trazem inteligência, inovação e desenvolvimento. Por isso mesmo, os US$ 14 trilhões emprestados ao mercado foram tragados pelo laguinho egoísta do sistema financeiro e dos parasitas nacionais diversos. Agentes e grupos transnacionais vão intensificar suas brigas dentro de todos os países para impedir a cooperação internacional. Mesmo que não botem a cara de fora, protegidos pela invulnerabilidade das redes sociais, usadas como inocentes úteis e baratos. Enquanto isso, os dois lados vão aperfeiçoando os sistemas de mísseis, para botar ordem na bagunça criada pela economia sem lei. Anomias que engolem anomias e produzem novas anomias. Estamos vivendo as várias etapas de uma Revolução Francesa, em que quem ajuda a destruir o primeiro círculo é destruído pela segunda onda, que será, então, pela terceira, quarta, até chegar outro&#8230; Napoleão. Tudo isso sem reflexão substantiva. Tudo em nome da facilidade, simplesmente porque depois da internet ninguém olha para os pés.</p>



<p><br>Aqui, voltamos à Rússia e à Ucrânia que, agora, será governada por um contador de anedotas. O governo russo, desde 2008, é o mais estável do mundo. Com Putin, o maior apoiador dos movimentos digitais anti-establishment na Europa. Aliás, líderes desestabilizadores e estáveis somente ele e Netanyahu em Israel, outro homem das nuvens. A alemã Merkel está fora desse benefício de estabilidade porque faz das tripas coração para manter a Alemanha no topo da Europa, ao preço da destruição da União Europeia. Algo que, paradoxalmente, a aproxima de Putin e Trump, outro parceiro desse jogo eletrônico de comando-controle, na guerra para limar a confiança do mundo em suas regras comuns e instituições coletivas.</p>



<p><br>O afrouxamento quantitativo leva Moscou a semear a discórdia onde pode para abalar as estruturas do disponível homem das redes. O apoio vai para qualquer grupo comprometido com avacalhar e dilapidar o mundo que está aí. Inclusive com a eleição de Zelensky, que recebeu apoio de Israel, inimigo da Síria, aliada da Rússia&#8230;</p>



<p><br>Zelensky é outra nuvem. Com a simpatia da Otan e a aceitação deslumbrada da população, veio para desestabilizar o que ainda resta dos contornos do mundo pós Guerra-Fria. Confusões nada liberais para provocar a inflexão final — quando será? —, aproveitando o rastilho de pólvora que queima desde 2008.</p>



<p></p>
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		<title>FMI NO OLHO DO FURACÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Oct 2019 02:20:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
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<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 27 de Outubro de 2019</em><a href="http://www.cbdigital.com.br/correiobraziliense/27/10/2019/p14#"></a><a href="http://www.cbdigital.com.br/correiobraziliense/27/10/2019/p14#"></a><a href="http://www.cbdigital.com.br/correiobraziliense/27/10/2019/p14#"></a></p>



<p><strong>N</strong>este mês, a búlgara Kristalina Georgieva assumiu o posto de diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Georgieva não quebra o acordo de cavalheiros que prevê sempre um europeu na direção do Fundo. É assim desde a criação do órgão, em 1944, na Conferência de Bretton Woods, bairro da cidade de Carroll, no estado New Hampshire (EUA), onde as 44 nações aliadas decidiram dar uma organizada no capitalismo para quando acabasse a 2ª Guerra Mundial. O primeiro diretor-gerente foi um belga e, nos 73 anos de vida do Fundo, em 44 deles algum francês ocupou o posto principal. Quem vê política em tudo diz que Georgieva é a primeira de um país em desenvolvimento.</p>



<p>Todavia, o país de Georgieva — que, com 7 milhões de habitantes, tem uma população igual à do município do Rio de Janeiro — é parte da União Europeia desde 2007. Além disso, a nova diretora é uma burocrata tarimbada, com passagem tanto no sistema das Nações Unidas quanto na União Europeia. Assim, sua promoção é apenas o resultado de seleção de mérito dentro da própria Europa. De toda forma, é bom saber que Georgieva é unha e carne com o pensamento reinante em Paris.</p>



<p>A outra organização internacional criada em um resort de Bretton Woods foi o Banco Mundial. Desde sempre, a presidência do órgão foi exercida pelos EUA. Em 2012, ocorreu um movimento para ampliar o feudo estadunidense na instituição com as candidaturas de Ngozi Okonjo-Iweala, uma nigeriana de sangue real enviada para estudar nas mais poderosas universidades dos EUA ainda adolescente, e que chegou a número dois do Banco Mundial, e o colombiano José Antonio Ocampo, professor na principal universidade de Nova York e figura calejada do sistema ONU.</p>



<p>Numa atitude que tentava dialogar com a situação, os EUA de Obama escolheram promover um estadunidense nascido na Coreia do Sul como o máximo de avanço possível. Jim Yong Kim, o escolhido, apesar de bem-intencionado e com importante contribuição na área de saúde filantrópica, fez uma das mais conturbadas gestões que a organização já teve. Pediu para sair no início deste ano e foi substituído a toque de caixa pelo atual presidente, David Malpass. Quando Malpass chegou ao Banco Mundial, encontrou Georgieva atuando como diretora executiva.</p>



<p>Tanto o Banco Mundial quanto o FMI, para além de suas funções centrais de canalizar empréstimos e financiamentos para resolver desequilíbrios da economia mundial, também se organizam como grandes fábricas de diagnósticos, prognósticos e tratamentos aplicados às questões econômicas das diversas partes do mundo.&nbsp; Ambas as instituições são parte central da governança global, mesmo para países que não dependem delas. Apesar das brigas políticas que desanimam as organizações, as duas instituições são centros muito bem informados e com equipe da mais alta qualidade. Mas, hoje, enfrentam um furacão: com as atuais regras do jogo, a China vai ganhar o campeonato iniciado em Bretton Woods.</p>



<p>O primeiro relatório sobre a situação global publicado pelo FMI sob Kristalina Georgieva aponta para a economia mundial crescendo 3% em 2019. O mais baixo crescimento desde o epicentro da crise financeira nas economias centrais, entre 2008 e 2009. A perspectiva é de uma queda no crescimento tanto da China quanto dos EUA, por conta de belicosas decisões políticas tomadas em cada um dos dois países com relação ao outro.</p>



<p>A decisão dos governos desses dois países de ferir a economia um do outro é surreal, dado o nível de emaranhamento complexo entre as duas maiores economias do planeta. Ao ferir a China, os EUA ferem a si mesmos. Ao ferir Washington, Pequim fere a si mesma. Do jeito que os dois países estão se comportando, podemos sentir, talvez, a mais ousada tentativa do modelo econômico liberal — praticado pelos dois, a seu modo — de acabar com a intermediação política e desestabilizar as instituições democráticas. Sem confiança no horizonte, o resto da economia global é tratada como dano colateral. Dado o violento narcisismo paranoico de vários dos envolvidos, o efeito manada que a retórica nacionalista causa agrava a competição pura e desvairada. China e EUA podem sequestrar o mundo num longo processo revisionista, estimulados pela moda política de ver mais virilidade na grosseria do que na educação.</p>



<p>Em linguagem mais neutra e burocrática, como cabe a tais relatórios, o FMI, quem diria, aponta para a necessidade de se dar um basta nas tensões comerciais internacionais, revigorar a cooperação multilateral e prover apoio público à atividade econômica onde for necessário. Tendo como objetivo tornar o crescimento econômico socialmente mais justo e parar de apostar na incerteza das tensões geopolíticas.</p>



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