“O Brasil está embalsamado”, diz Paulo Delgado

5 de junho de 2018 – VALOR ECONÔMICO
Entrevistadores: Rosângela Bittar e Raymundo Costa

Quando a crise é abertamente política, como é a atual, aumenta a força do tagarela e do superficial “Os serviços de entrega do que é errado são mais eficientes do que os públicos. Ninguém fica na fila para comprar droga”

No momento em que muito se fala de renovação, a greve dos caminhoneiros serviu para mostrar velhos políticos em ação, uma pauta carcomida e que parecia superada – a concessão de subsídios – e certo descompromisso com as normas legais, algo que os sociólogos classificam como anomia. O país não está preparado para a economia de mercado, escreveu uma publicação estrangeira.

“O Brasil está embalsamado”, sintetiza o sociólogo Paulo Delgado, ex-deputado pelo PT de Minas Gerais, hoje presidente do Conselho de Sociologia e Política da Fecomercio e coordenador nacional do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee). Delgado não aponta soluções definitivas. No Congresso, vigora, na sua opinião, o estatuto da gafieira – “quem está dentro não sai, quem está fora não entra”.

Para o ex-militante histórico do PT, a força da política é “tirar a revolta do povo e não agravá-la”. E os políticos, testemunha, “estão em campanha e não fizeram nada para solucioná-la”. Ao contrário. Um candidato (Luiz Inácio Lula da Silva) faz campanha preso. “Há um componente atlético e uma escuridão na política que confunde o eleitor e aproxima os extremos.”

O sociólogo vê saída numa Constituinte, desde que exclusiva: “A Constituição virou uma peteca nas mãos do STF. E não vê solução no candidato espetacular, mágico: “O presidente tem que ser normal e previsível.”

Sobram críticas ao gigantismo do Estado, que não consegue mais se financiar nem funcionar de modo a atender a população. O tráfico, na sua avaliação, funciona com mais agilidade. “Não existe o aviso cocaína disque 1, maconha disque 2, crack disque 3”, ironiza.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor:

Valor: O país atravessa uma de suas piores crises e a política não dá uma resposta. O que aconteceu com os nossos políticos?

Paulo Delgado: Se encapsularam negando até a lei da evolução das espécies. A lei eleitoral garante a autofecundação das oligarquias partidárias concentrando tempo de televisão e fundo partidário nos donos de legenda. Será a maior não renovação do Congresso desde os anos 80. Um estatuto da gafieira: quem está dentro não sai, quem está fora não entra. O presidencialismo de cooptação tornou o parlamento consanguíneo e hereditário.

Valor: A política está em baixa em todo o mundo.

Delgado: De maneira diferente em cada país. Onde há parlamentarismo há mais controle e eficácia. Nos Estados Unidos, o excêntrico [Donald] Trump é controverso, mas governa como um republicano. Na Itália, no entanto, a vitória dos políticos não políticos está um desastre, mas não é estática. A América Latina é que continua o ninho de cobra do presidencialismo de conchavos.

Valor: O que diferenciou a última greve dos caminhoneiros das anteriores?

Delgado: Embora decretada por organizações sindicais foi pilotada de forma descentralizada por líderes avulsos. Através do WhatsApp foram criados os grupos de ação, definidos os pontos de bloqueio, indicados os líderes da operação. Os caminhões são naves espaciais interconectadas, o caminhoneiro é um narrador natural que anda longe e tem mais o que contar do que os meios de comunicação. Em toda estrada tem líder, pelos mais diferentes motivos e lealdades locais, comunitárias. Quem confere sua liderança é a estrada. A política de frete e pedágios extorsivos aumentou a bronca. A insensibilidade monopolista da Petrobras compôs o enredo.

Valor: Pesquisas dizem que mais de 80% da população apoia a greve de caminhoneiros, apesar dos prejuízos para ela própria. Não é um paradoxo?

Delgado: Quem quis dar uma de líder foi logo desmoralizado. O rosto da greve é o diesel S-50/10 que deste outubro de 2016 tem seu preço definido pela Bolsa de Valores. A política de alinhamento a preços internacionais está errada. Os países-baleia, continentais como o Brasil, é que deveriam ser a referência. Entidades de classe alertaram ao governo da bomba-relógio armada. Do lado da Petrobras não havia líder também não. Uma alienação dos três monopólios: combustível estatal, matriz de transporte ultrapassada, império da rodovia. A greve acabou pela ação do Palácio, a identificação do locaute oportunista, o risco de convulsão por desabastecimento. Quanto ao prejuízo, seu horizonte é tão distante para o homem comum que ele realiza a dificuldade contando piada das peripécias sobre a corrida aos postos. Os militares usaram sua experiência em operações de paz. Quando encontraram a Polícia Militar de alguns Estados pegando carona na greve não quiseram confrontar, operaram como diplomatas da desobstrução. Demorou mais, mas me pareceu mais adequado do que a ação incisiva.

Valor: O senhor vem dizendo que os partidos trabalham com públicos quando a indignação é da sociedade de massa. O que fazer?

Delgado: O Brasil não devia ser um salão de baile onde cada um dança como quer. O diagnóstico do desregramento está feito e não temos tempo a perder. Nosso problema é interno, costumes ruins enraizados na dinâmica institucional que desequilibra a relação Estado-sociedade. Estamos numa encruzilhada. As profissões produtivas foram suplantadas por funções improdutivas de ofícios públicos que oneram a todos, a sociedade de favores. O contracheque humilhou a carteira de trabalho e os jovens estão adoecendo estudando para concurso público sem terem vocação pública.

Valor: Os candidatos ao Planalto responderam adequadamente à greve?

Delgado: Não estamos em guerra, estamos em crise. E a crise é do Estado muito forte, guloso, tributador impune, monopolista e concentrado em sua folha de pagamento e despesas correntes crescentes versus uma política fraca, um governo de transição ameaçado diariamente pelo canibalismo judicial e partidário. Por isso, se a energia dessa eleição continuar sendo a de querer abordar os problemas do país pelo lado da dependência individual e subordinação ao Estado teremos um outubro paralisante. A depreciação do político é fruto da sua dissolução no meio econômico, pendurado no Estado. A campanha é até secundária, importante é saber quem tem perfil e capacidade para, de fato, assumir a governabilidade do país. Até agora o que temos visto é papo de bajulador de eleitor. Acabou o tempo do candidato espetacular, mágico. O presidente tem que ser normal e previsível.

Valor: O presidente da Petrobras caiu. O Brasil não está preparado para as leis de mercado ou o governo é que está fraco?

Delgado: São coisas diferentes. [Pedro Parente] É um técnico reconhecido, mau gestor de emergência. Depois, prejuízo à sociedade não é considerado prejuízo no Brasil. O que prevalece é que cada um luta com seus próprios sentimentos. É certo que o interesse político não pode se sobrepor ao domínio técnico da questão, mas não é bom presidente de estatal que é cego diante da angústia de uma sociedade prisioneira de petróleo.

Valor: Nesse Brasil anômico como o senhor vê o fato de um candidato a presidente fazer campanha de dentro da cadeia?

Delgado: Mais um capítulo triste do desregramento geral. Todos estão fingindo que não estão vendo que o objetivo é deformar o entendimento do caso e desmoralizar a Justiça. Os visitadores usam as entrevistas para mandar recado eleitoral. A velha fixação publicitária de explicar como glória a contraglória. Só que, ao impedir que a realidade venha à tona, mais ampliam seu autoengano e tornam inútil seu partido. Este talvez seja o centro do diagnóstico de nosso tempo, não seremos uma sociedade livre se cada um puder criar o seu próprio contexto. Há muita gente que não está ligada à lei dos outros. Possuem suas próprias leis. Será que ninguém se dá conta de que se um líder político não aceita a coerção legal agir sobre ele, num país em que o crime é dirigido das penitenciárias, nada melhor para o mundo do Marcola do que um ex-presidente esculhambar o sistema penal aumentando a tolerância ao delito? Num mundo de plateias quem aplaude o erro também alarga a indolência diante da lei.

Valor: O surgimento de uma direita orgânica no Brasil, que lidera as pesquisas na ausência de Lula, é resultado do fracasso da esquerda no governo?

Delgado: Há um componente atlético e uma escuridão na política que confunde o eleitor e aproxima os extremos. O país não é uma cômoda em que um candidato acha que pode ir enfiando e tirando de suas gavetas o que quiser. Quando a crise é abertamente política, como é a atual, aumenta a força do tagarela e do superficial. Logo, logo, se quiser ter chance, terá que desacelerar e escrever uma carta aos brasileiros dizendo que entendeu. O Brasil não é de esquerda nem de direita. Somos social-democratas mambembes e autoritários, o que confunde os conceitos e os candidatos ligeiros.

Valor: Nessa situação, como evitar os extremos?

Delgado: Os espinhos da eleição cuidam disso. No parlamento o padrão do discurso e do voto da direita furiosa e da esquerda verbal é muito parecido. São estatistas, corporativos, gastadores, falam aos gritos e com o mesmo método de agir. A força da política é tirar a revolta do povo e não agravá-la. Tem uma saída: é certo que o afrouxamento moral dos últimos anos ampliou a crise da inteligência, mas como a contenção do dinheiro na campanha não permitirá comprar a eleição desta vez, essa é a eleição do eleitor livre. Só ele pode devolver a racionalidade à escolha. E espero que se dê conta que o pior candidato pode ser o melhor presidente.

Valor: O que é preciso fazer para restabelecer a autoridade das instituições no Brasil?

Delgado: Pé no chão. Falta talento de civilização às autoridades brasileiras. Olhando bem há menos arrogância numa reunião de prêmios Nobel do que no diálogo entre autoridades dos três Poderes. As instituições públicas impuseram seu monopólio sobre a gestão da sociedade para se autopreservarem. A vida é mais rica que o mundo oficial. A nação se move por fundamentos e hoje o Estado sufoca a criatividade da sociedade. O Brasil está embalsamado. A prioridade são as pessoas e sua vida, o contribuinte, não os interesses dos funcionários ricos do Estado. Nasceu no Estado uma classe alta escandalosamente privilegiada, um principado sem sentido.

Valor: Executivo e Congresso estão em crise, atropelados pela LavaJato. Mas o Judiciário também não está ajudando a tencionar a crise?

Delgado: A Constituição virou uma peteca nas mãos do Supremo, que tirou o caráter normativo do Direito e fez da interpretação da lei objeto de fruição pessoal. São maus costureiros, encheram o país de alfinetes. São as botas togadas do Estado, parecem gostar mais de triunfar do que julgar. Extravagância e exibicionismo moral não ficam bem na Justiça.

Valor: Está na hora de rever a Constituição?

Delgado: Há sim necessidade de simplificação constitucional, uma nova explanação, mas não vejo nenhuma centelha de sabedoria disponível. Se for para fazer outra tem que ser exclusiva, com deputados constituintes avulsos presentes. É justo que nem todos queiram ser representados por partidos.

Valor: O presidencialismo de coalizão se esgotou?

Delgado: A crise é o esgotamento da Constituição de 1988. O modelo político brasileiro atual, de 1985 a 2018, conhecido como “Nova República”, com sua estranha combinação de estabilidade institucional precária e crises político-econômicas periódicas, chegou ao máximo de sua falta de virtude, e cai como folha seca. Produziu sete eleições presidenciais diretas com duas destituições de eleitos. É entender sua ruína que pode nos fazer encontrar uma saída melhor para o país. O Congresso está em frangalhos, o Executivo loteado e o Judiciário querendo ganhar com a confusão.

Valor: Chegamos ao ponto de a minoria comandar a maioria.

Delgado: Sempre foi assim, democracia é governo de minoria legítima. Onde o eleitor é amestrado nem sempre a eleição é capaz de formar bons governos. Porque eleição é um fato periódico onde a maioria do povo filtra, pelo voto livre, a minoria legítima que vai governar. Não é, pois, problema o mercado eleitoral ser volátil, fragmentado e autônomo. É da sua natureza. O eleitor não é o culpado pelo erro dos candidatos. Quem escolhe, registra e atesta a honorabilidade são os partidos, cartórios e o TSE [Tribunal Superior Eleitoral], o maior deles. Precisamos é de boas leis pois a eleição não é prova de honra. É pedir demais ao voto. Se um desonesto se eleger cabe à lei impedir que ele consiga ser ladrão.

Valor: Neste ano não é maior o desafio por causa das investigações de corrupção?

Delgado: Maior, o desafio é de reconstrução e simplificação com um eleitor historicamente desatento e pragmaticamente conservador. Ninguém dará ao brasileiro o que já não existe nele mesmo. Será uma eleição de escolha dura, e não de rejeição vulgar. Quem ganha uma eleição precisando governar contra o Estado? Como confiar na sinceridade se nenhum candidato está sob juramento? Existem bons candidatos, felizmente. Mas vai começar a hora da mentira e da manipulação. Quem está na frente vai começar a esconder o que é. Por isso acho que o melhor é desobedecer as estatísticas e votar “errado”, contra as pesquisas. De que adianta estar na frente se você está na estrada errada?

Valor: A política fora dos partidos, a sociedade de massa que o senhor chama de nova oposição, não é muito anárquica?

Delgado: É um grande paradoxo. A tecnologia vai derrubar todos os cartórios. A internet nos libertou dos donos externos tradicionais, mas fez um curral em nossas cabeças. É o lugar ideal para a política da ira, o padrão de todo oposicionista brasileiro. Facebook, Google, Twitter, WhatsApp não são mais empresas de comunicação. São agências de incerteza, distração e velocidade que, com suas conexões, estão produzindo um cidadão novo, uma comunidade de públicos vociferantes e ativos. São mitos fortes contra a onipotência da política. Nem sempre é o melhor, concordo.

Valor: Explique melhor o que o senhor define como mitos fortes criados pelos movimentos fora da política: reclamação e fiscalização.

Delgado: É uma sociedade incivil. Para o brasileiro, reclamar e fiscalizar tem mais prestígio do que empregar e trabalhar. São milhares de plateias, essa sociedade de públicos e guetos que podem se encontrar inesperadamente como meteoros sobre a terra. A Europa acordou agora para a questão. A China, que tem 200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, não brinca em serviço, não deixa rede social surfar na cabeça do povo assim. Porque também sabe, por tradição e senso de dever com sua multidão de pessoas, que nenhum planeta novo tem o poder de alterar o horóscopo. O que falta ao Brasil é cultura do dever, coesão, propósito e um Estado menos alienado e fechado em si mesmo.

Valor: A nova oposição tem resposta para esses problemas?

Delgado: A maioria dos cidadãos está livre como um táxi. Pressiona com indiferença calculada o mundo dos partidos que não representam classes nem movimentos sociais reais. Seu papel é ampliar a fronteira da autonomia e desmoralizar a mentira eleitoral. Há centenas de grupos independentes de partidos debatendo o Brasil. Ninguém menospreza o que quer comprar, mas o preço da política vai ter que abaixar.

Valor: Até que ponto a questão fiscal é responsável pela ruína? O Rio não é um exemplo preocupante, onde quem manda é o narcotráfico, a milícia. as denominações evangélicas?

Delgado: Essa cultura da mão para a boca, sem poupança, déficit em conta corrente, sem previsibilidade e persistência é o conceito de prosperidade que predomina no Estado. É preciso mudar o sistema de funcionamento do poder simplificando a vida e a rotina do funcionário público. Quem quiser ficar rico deve sair do mundo dos três Poderes. Outra coisa é a burocracia. Os serviços de entrega do que é errado são mais eficientes do que os serviços públicos. Ninguém fica na fila para comprar droga ou se meter em corrupção. Não existe nada do tipo cocaína disque 1, maconha disque 2, crack disque 3, o traficante atrasou, não chegou, já saiu, deixe recado com uma das 15 secretárias, seu pedido ainda não foi analisado… Se para o mal tudo é rápido, para o bem a demora inutiliza seu valor. E há um escandaloso e lucrativo mercado dos pobres disputado por igrejas e partidos.

Valor: É possível apontar um responsável por essa situação de desgoverno total?

Delgado: Vários. Há muita hipocrisia no ar. Ninguém ousa admitir o que ganha com a desgraça dos outros. Nenhum governante deveria supor que a soberania simbólica da sua autoridade pressupõe a legalidade de qualquer dos seus atos. No Brasil, essa pretensão produziu a maioria das suas crises. Como pode um servidor público lucrar com aplicação de uma multa ou receber honorário de causa ganha pelo Estado? Auxílio-moradia para quem tem casa própria? É o fim do mundo. Do lado dos políticos é triste não compreenderem que são cedidos pela sociedade ao Estado. Ou seja, o bom político não está lotado no Estado, como um tijolo na parede.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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