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	<title>Arquivos redes sociais - Paulo Delgado</title>
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		<title>MILHÕES DE  WHATSAPP E BRUXAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Aug 2018 17:36:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas &#8211; domingo, 5 de Agosto de 2018.</em></p>
<p><strong>N</strong>arendra Modi, primeiro-ministro da Índia desde 2014, fazia um discurso no interior do estado de Bengala Ocidental quando uma tenda que protegia o público da chuva desabou, levando quase 100 pessoas para o hospital. O evento ocorreu no dia 16 de julho, semana anterior ao embarque de Modi para a cimeira dos Brics em Joanesburgo. Ao retornar a Nova Délhi, as investigações sobre o acidente já estavam sobre sua mesa.</p>
<p>A parte central do inquérito está focada no fato de que as principais autoridades locais de alto escalão responsáveis pela segurança não estavam presentes no comício, algo estranho em se tratando de uma visita do chefe do governo nacional.</p>
<p>No momento que a tenda desabou, Modi vociferava contra a principal liderança política do estado, Mamata Banerjee, uma das mais famosas dissidentes bem-sucedidas do Partido do Congresso. Mamata é a ministra-chefe da Bengala Ocidental, o que corresponde ao principal cargo executivo dos estados regionais na Índia.</p>
<p>A partir da capital, Calcutá, Mamata comanda um estado com a quarta maior população do país. Seu partido, o Trinamool, foi fundado em 1998 com dissidentes da agremiação vinculada à família Gandhi. Hoje em dia, ela busca formar com os Gandhi, derrotados pelo Partido do Povo Indiano (BJP) de Modi nas últimas eleições nacionais em 2014, uma frente ampla de oposição ao atual primeiro-ministro.</p>
<p>As eleições nacionais indianas ocorrem no primeiro semestre do ano que vem, mas, com eleições nacional e regionais desvinculadas, todo ano é ano de eleição. Modi é um peixe n’água em tal ambiente. Seu mantra, repetido em comícios, é o de levar a Índia de um país lembrado no mundo por encantadores de serpente e feiticeiros para um de mestres da tecnologia da informação (TI). Parece um Rodrigues Alves buscando vacinar e sanear todo o Rio de Janeiro para combater a imagem de pestilência e insalubridade vinculada ao Brasil na época. A diferença é que Modi foca em habilidades tecnológicas e crescimento econômico. Sua briga é contra a visão da Índia como um lugar atrasado. E, em meio à revolução tecnológica atual, com sua hiperconectividade e grande importância da TI, a Índia está muito bem posicionada e desbancando a China no setor.</p>
<p>A briga pela condução do país está animadíssima. Mas não é nada tecnológica a versão do boicote no acidente do comício na Bengala Ocidental, governada por sua adversária. Impossível apurar a ação das bruxas da velha Índia, que sopram durante as chuvas para fazer os temporais.</p>
<p>Modi, enfático e hábil líder nacionalista hindu, tem um aplicativo por meio do qual divulga suas ideias e pede opiniões e sugestões da população inscrita. Ainda que ele só tenha sido baixado umas 5 milhões de vezes, já vem instalado em cerca de 40 milhões de celulares de baixo custo comercializados pela telefônica Reliance Jio. O uso e abuso de redes sociais criou o idiota transdisciplinar, o bruxo virtual do mundo sem lei.</p>
<p>Ao contrário do controle central que Pequim exerce sobre a circulação de notícias, na Índia o alastramento de rumores e (des)informação é avassalador. Algumas vezes com resultados deploráveis. Especialmente em meio aos 200 milhões de usuários do WhatsApp, o maior mercado no mundo para o aplicativo. O governo Modi anunciou no início de 2018 desejar colocar no Ministério da Informação uma central de acompanhamento das Mídias Sociais capaz de recolher dados que ajudem o governo a tomar o pulso do país e identificar focos de agitação criminosa. No ambiente democrático indiano, a proposta vem sendo rechaçada pelos riscos de descambar em vigilância em massa. Todavia, é interessante por ser proposta feita de forma pública e não oculta sob manto de segredo de segurança nacional como feito em outras democracias.</p>
<p>Como Modi tem o poder nas mãos sobre a maior democracia do mundo, o escrutínio sobre suas táticas atrai muita atenção. Inclusive para antever o lugar que nossa época realmente almeja para si e para líderes controversamente influentes enfiando veneno no caldeirão do Google, Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp.</p>
<p>“Seu estilo não é tão brutal quanto o de Putin ou Erdogan; nem tão selvagem quanto Trump ou do filipino Duterte. E ele está sujeito a muito mais pesos e contrapesos do que Xi Jinping”, avaliou recentemente Gideon Rachman para o Financial Times. Mas a forma como Modi buscará a reeleição em 2019 tem tudo para ficar no limite da interseção entre os ritos democráticos e a tecnologia atual, por um lado, com flertes autocráticos nas sombras cinzentas da lei. Se ele tiver sucesso em atravessar esse caminho continuando no campo democrático, será um alento para a democracia no mundo todo.</p>
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		<title>Como a razão acaba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Feb 2019 16:43:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
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<p><em>Estado de Minas e Correio Braziliense &#8211; domingo, 17 de fevereiro de 2019</em></p>



<p><strong>N</strong>a quinta-feira, a Amazon anunciou que desistiu de prosseguir com seus planos de abrir uma segunda sede para a empresa no bairro nova-iorquino do Queens. A decisão veio como reconhecimento de que a gigante das compras on-line sentiu o baque das ferozes contestações sobre as mudanças indesejadas que ela traria ao Queens e a Nova York como um todo.<br>A esnobada que a Amazon levou remete aos problemas que grandes multinacionais enfrentam ao pedirem incentivos públicos demasiados para se instalarem em alguma cidade. E é a mania de “botar na rede” para engajar fanáticos de tudo. O caso da Amazon, empresa que mês passado atingiu a posição de mais valiosa do mundo, tem a ver com o processo de seleção, um verdadeiro circo de publicidade manipulada, fazendo com que cidades americanas se digladiassem para convencer a empresa que eram as melhores pretendentes. Ao escolher Nova York, se esqueceu de que a própria tecnologia de hiperconectividade, base do sucesso de empresas como a Amazon, provoca efeito negativo do mesmo tamanho.</p>



<p>Tentando ser engraçada, em pleno dia dos namorados nos EUA, a empresa anunciou que o caso de amor com o Queens não iria mais para frente. Para quem se achava a queridinha de todos, bastou o povo atento de Nova York ficar sabendo que ela receberia US$ 3 bilhões de incentivos para ali se instalar, que a difamação superou o entusiasmo.<br>A mal-sucedida história de amor e dinheiro da Amazon com o Queens é um suave suspiro da conexão entre grandes negócios e sociedade, em um mundo de internautas, e que estoura como crise quando envolve sociedade e política.<br>Basta acompanhar essa irracionalidade se desenvolver mais longe e ver a brigalhada entre França e Itália atualmente. Tristes aqueles que veem ali o que fazer, mais do que o exemplo perfeito de o que não fazer. A Itália vive um período em que o presidente, além de ser apenas um chefe de Estado com características de rainha da Inglaterra, tem um primeiro-ministro com poderes reais de tocar o país, como um figurante de baixa relevância política.<br>O país acéfalo é governado, de fato, por duas figuras adoradoras de internet. Salvini e Di Maio representam grupos que tiveram sucesso eleitoral na base do ódio contra tudo, projetado a partir de redes sociais.</p>



<p>Salvini é o mais acabado tipo de idiota on-line. Usa redes sociais para tudo. Inclusive para se mostrar banhando em piscinas de propriedades de chefes mafiosos que o Estado confiscou sob sua ordem. A tosca ideia é a de mostrar que a piscina em que ele agora nada é do povo. Populismo extravagante que só convence uma minoria da população italiana, mas que vai dando ibope até deixar de dar. Ou então, como fez semana passada, usando diferentes redes, deu palpite “político” no resultado do festival de San Remo deste ano. Segundo o vice-primeiro-ministro, o festival, vencido pelo brasileiro Roberto Carlos em 1968, é uma clara demonstração da distância entre povo e elite. Isso porque ele preferia que o vencedor fosse outro. No fundo, pura contestação da italianidade do cantor vencedor que tem pai egípcio. Ele quer voto popular para decidir o vencedor do festival.<br>Um governante que se dá ao desfrute de um papelão desses pode ser um prato cheio para galhofa nas mídias sociais. Todavia, mais do que um problema de mau gosto, quando envolve identidades nacionais — Salvini, afinal, tem tanta cara de egípcio quanto o tal cantor Mahmood — há um perigo real de o circo pegar fogo.</p>



<p>Outro fato é que, pela primeira vez desde o início da Segunda Guerra Mundial, a França convocou de volta a Paris seu embaixador em Roma no dia 7 deste mês. Tudo por conta de extenso, variado e alucinado falatório por meio de mídias sociais por parte de Di Maio e Salvini a respeito da França. Ações que culminaram com o intolerável ato anunciado por Di Maio em seu Facebook: “O vento da mudança cruzou os Alpes” […] “Hoje, demos um pulo na França para nos encontrar com o líder dos ‘coletes amarelos’ Christophe Chalençon e candidatos às eleições europeias”. Paris, obviamente, fumegou.<br>Em recente artigo, o ex-secretário de Estado americano, hoje nonagenário, Henry Kissinger, apontou que “a ênfase do mundo digital na velocidade inibe a reflexão; seu incentivo da força ao radical sobre o pensativo; seus valores são moldados pelo consenso do subgrupo”. Tudo vai bem até que uma hora dá tudo errado e a apropriação desse mundo digital se vira contra quem faz uso dele. Os dois conectados líderes italianos podem levar França e Itália a romperem relações para atingir o objetivo mais profundo de naufragar a União Europeia. Políticos precisam mais é de razão do que a tolice que anda sobrando nas redes sociais.</p>
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