Como a razão acaba

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 17 de fevereiro de 2019

Na quinta-feira, a Amazon anunciou que desistiu de prosseguir com seus planos de abrir uma segunda sede para a empresa no bairro nova-iorquino do Queens. A decisão veio como reconhecimento de que a gigante das compras on-line sentiu o baque das ferozes contestações sobre as mudanças indesejadas que ela traria ao Queens e a Nova York como um todo.
A esnobada que a Amazon levou remete aos problemas que grandes multinacionais enfrentam ao pedirem incentivos públicos demasiados para se instalarem em alguma cidade. E é a mania de “botar na rede” para engajar fanáticos de tudo. O caso da Amazon, empresa que mês passado atingiu a posição de mais valiosa do mundo, tem a ver com o processo de seleção, um verdadeiro circo de publicidade manipulada, fazendo com que cidades americanas se digladiassem para convencer a empresa que eram as melhores pretendentes. Ao escolher Nova York, se esqueceu de que a própria tecnologia de hiperconectividade, base do sucesso de empresas como a Amazon, provoca efeito negativo do mesmo tamanho.

Tentando ser engraçada, em pleno dia dos namorados nos EUA, a empresa anunciou que o caso de amor com o Queens não iria mais para frente. Para quem se achava a queridinha de todos, bastou o povo atento de Nova York ficar sabendo que ela receberia US$ 3 bilhões de incentivos para ali se instalar, que a difamação superou o entusiasmo.
A mal-sucedida história de amor e dinheiro da Amazon com o Queens é um suave suspiro da conexão entre grandes negócios e sociedade, em um mundo de internautas, e que estoura como crise quando envolve sociedade e política.
Basta acompanhar essa irracionalidade se desenvolver mais longe e ver a brigalhada entre França e Itália atualmente. Tristes aqueles que veem ali o que fazer, mais do que o exemplo perfeito de o que não fazer. A Itália vive um período em que o presidente, além de ser apenas um chefe de Estado com características de rainha da Inglaterra, tem um primeiro-ministro com poderes reais de tocar o país, como um figurante de baixa relevância política.
O país acéfalo é governado, de fato, por duas figuras adoradoras de internet. Salvini e Di Maio representam grupos que tiveram sucesso eleitoral na base do ódio contra tudo, projetado a partir de redes sociais.

Salvini é o mais acabado tipo de idiota on-line. Usa redes sociais para tudo. Inclusive para se mostrar banhando em piscinas de propriedades de chefes mafiosos que o Estado confiscou sob sua ordem. A tosca ideia é a de mostrar que a piscina em que ele agora nada é do povo. Populismo extravagante que só convence uma minoria da população italiana, mas que vai dando ibope até deixar de dar. Ou então, como fez semana passada, usando diferentes redes, deu palpite “político” no resultado do festival de San Remo deste ano. Segundo o vice-primeiro-ministro, o festival, vencido pelo brasileiro Roberto Carlos em 1968, é uma clara demonstração da distância entre povo e elite. Isso porque ele preferia que o vencedor fosse outro. No fundo, pura contestação da italianidade do cantor vencedor que tem pai egípcio. Ele quer voto popular para decidir o vencedor do festival.
Um governante que se dá ao desfrute de um papelão desses pode ser um prato cheio para galhofa nas mídias sociais. Todavia, mais do que um problema de mau gosto, quando envolve identidades nacionais — Salvini, afinal, tem tanta cara de egípcio quanto o tal cantor Mahmood — há um perigo real de o circo pegar fogo.

Outro fato é que, pela primeira vez desde o início da Segunda Guerra Mundial, a França convocou de volta a Paris seu embaixador em Roma no dia 7 deste mês. Tudo por conta de extenso, variado e alucinado falatório por meio de mídias sociais por parte de Di Maio e Salvini a respeito da França. Ações que culminaram com o intolerável ato anunciado por Di Maio em seu Facebook: “O vento da mudança cruzou os Alpes” […] “Hoje, demos um pulo na França para nos encontrar com o líder dos ‘coletes amarelos’ Christophe Chalençon e candidatos às eleições europeias”. Paris, obviamente, fumegou.
Em recente artigo, o ex-secretário de Estado americano, hoje nonagenário, Henry Kissinger, apontou que “a ênfase do mundo digital na velocidade inibe a reflexão; seu incentivo da força ao radical sobre o pensativo; seus valores são moldados pelo consenso do subgrupo”. Tudo vai bem até que uma hora dá tudo errado e a apropriação desse mundo digital se vira contra quem faz uso dele. Os dois conectados líderes italianos podem levar França e Itália a romperem relações para atingir o objetivo mais profundo de naufragar a União Europeia. Políticos precisam mais é de razão do que a tolice que anda sobrando nas redes sociais.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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