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	<title>Arquivos Artigos Capital Político - Paulo Delgado</title>
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		<title>A ROUPA BRANCA DE GUEDES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2020 00:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
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<p>Capital Político &#8211; 26.04.2020</p>



<p><strong>A</strong> enxurrada de notícias ruins dos últimos dias não deveria ser outra coisa senão as ações e paixões dos seres humanos na vida em sociedade. Os costumes políticos são impostos por homens com garras. As regras, ou a palavra, nunca foram entre nós o ponto de partida. Quem quiser entender nossa história procure com afinco personagens do passado. Os dos últimos dias não nos ensinam muita coisa, salvo a má fisionomia do espírito de nosso tempo adoecido.</p>



<p>Da queda de Mandetta por nada, apenas por defender a saúde, à delação premiada de Moro por sentir que tudo conspirava contra a justiça, à eficiência surpreendente de Aras como se tivesse familiarizado com o bater do relógio, tudo é tão incompreensível como a passividade de viuvez indiana da camisa branca de Guedes. Mas reunir todos os ministros para justificar a demissão de um é declarar guerra à credibilidade de sua própria decisão.</p>



<p>O presidente deve achar que a raiva é um veneno que mata o outro. Não, a raiva é um sintoma, um monstro cheio de olhos que o discurso presidencial revela.&nbsp;&nbsp;Primeiro pela plástica do palanque, um sinal de desespero pela verdadeira aglomeração sem etiqueta ou protocolo. Um comichão que tenta ser autêntico, mas francamente não é sofrido. A voz parece cheia de poder, mas para quem sabe que o poder já é uma taça vazia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Como ninguém pode viver no passado o discurso, no entanto pode. É repetitivo ver discurso oficial de presidentes brasileiros, um dos países mais ricos do mundo, tentar ser intimista e não significar nada para nosso povo. Parecem ser discursos de encomenda, na maioria das vezes para amigos.&nbsp;&nbsp;Mas ver um presidente chamar filho por número é a primeira vez. E não se encaixa no sistema de potências que tanto orgulha nossas Forças Armadas. Os militares brasileiros são intelectuais, estrategistas, seu alto comando e hierarquia é sofisticado e sabem bem que nenhuma camaradagem populista inspira reverência no mundo civilizado. Vira piada de salão.&nbsp;&nbsp;O que temo é o mais perfeito cenário de penumbra, medo e frio neste início de inverno.&nbsp;</p>



<p>Por último, mas não menos importante, se quer ser ouvido é preciso mandar parar imediatamente com a ideia de Brasil 30 anos ou, seja lá como chamam tal disparate. O estrangulamento externo, a recessão interna, a pandemia e o ambiente político de conflito exigem sim mudança temporária na gestão da economia na crise, mas não mudança de filosofia da economia a longo prazo. Ora meu, não é o modelo econômico que o vírus contaminou.&nbsp;&nbsp;O apetite do mundo para gastos emergências é uma realidade aceita e não precisa de muitos discursos para colocá-la em vigor. Se as conexões do governo com o mundo econômico são fracas é um agravante pior inventar um plano econômico sem a equipe econômica presente.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Aviso ao Palácio. O que vai acontecer é que ninguém vai ajudar ao Brasil a se salvar se a política econômica emergencial não tiver relação com a pandemia. Foram importantes os 600 reais. Mas para não precisar de mais é urgente ajudar os empresários brasileiros a manterem de pé seus negócios. Só o fato de querer impor ao país qualquer coisa para daqui a 30 anos justifica Guedes ser o único de branco e máscara naquela foto.&nbsp;&nbsp;</p>
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		<title>Jair, Judas e o talismã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2020 11:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capital Político &#8211; 3 de maio 2020 Ninguém criou, impôs ou usou em causa própria, mas o talismã existe e conduz nossa história. O clima é<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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<p><em>Capital Político &#8211; 3 de maio 2020</em></p>



<p><strong>N</strong>inguém criou, impôs ou usou em causa própria, mas o talismã existe e conduz nossa história. O clima é de não acelerar nada, mas também de não deixar parar qualquer coisa. É difícil ser simples, mas seu modelo é muito simples. É um dom nacional. Dar tempo ao tempo.</p>



<p>Enigma de racionalização não subordinado a qualquer paixão neste país colonizado por interpretações econômicas, políticas, ideológicas. Como entre nós a palavra não tem poder, a mágica cria as saídas. Estamos, outra vez, com velório na política. Abracadabra resolverá. Este o ofício do talismã.</p>



<p>Um paradoxo ver a pátria, essa mãe culpada, governada por um filho indiferente aos sentimentos humanos. Um privilegiado dando tão inconsistente e alta valorização aos seus atos – quais atos? Um crítico de tudo com baixa tolerância às frustrações pelas críticas que recebe.</p>



<p>Por sua inexpressividade nacional suas ações parlamentares sempre tiveram baixo custo político. Mas o talismã não achou justo vetar um, pois nunca achou ridícula a boa-fé do povo com demagogos. E deixou passar: de tanto encher linguiça, o homem sem imagem, que somente culpa os outros em busca transtornada por admiração, venceu a eleição. O povo nunca age preventivamente à má pronúncia da palavra. É apenas um troca-letras que fará mais um governo descoordenado.</p>



<p>Eis que ocorre o inesperado: uma crise de saúde mundial sincroniza com uma crise econômica geral agravada no Brasil somente porque ele, um sodado, quer transformá-la em guerra política particular. Encontra um economista dogmático, que também não sabe fazer curva. Dois caranguejos, bizarros e simétricos, capa dura, em linha reta para o muro.</p>



<p>O talismã então se movimenta. Como a autoridade faz o gênero traquina-insensível-às-conveniências, seu fim não prevê combate. A pátria tem outras finalidades que não as dele. O isolamento social mudou a história da polarização vazia da política, a força agora é a solidariedade, a ciência, a valorização dos sérios e bons de fato.</p>



<p>O talismã sabe que com os partidos e as instituições tecendo um círculo de artimanhas em torno da política eleitoral desde os anos 1990, chegamos em 2018 com o motor da insensatez no giro mais alto. De tanto ouvir não-é-esse-não-pode-ser-aquele, o iconoclasta virou ídolo. E assim, sentindo a negação da negação o povo jogou o jogo sem querer explicação. É do contra que eles são, é o contra que terão.</p>



<p>O tempo passa, e às apalpadelas, o talismã vai se esfregando no meio dos que estão na rua da amargura em desvantagem, os mais pobres de todo o gênero humano, os ricos enganados, os juízes engomados, os políticos anestesiados, e os faz continuar a acreditar nas coisas, sem por elas se interessar.</p>



<p>Vem o vírus. Logo abre conta na Caixa e a faz dar um show para frear a comoção. Empurra em poucos dias 600 reais na vida de 55 milhões de ocupados, desocupados e invisíveis e os encontra, 90% pela internet. Só o povo pré-pago vive no presente, sem futuro ou passado. Os incrédulos apertam a mão do presidente que simula estar bem.</p>



<p>Felizmente o talismã nutre nosso povo com qualidades singulares de passividade e não-cooperação ostensiva. Toca sua vida desemparado sem preocupação com a sociedade que o limita em sua mobilidade. Não quer ser inserido nada – ele já está muito mal inserido – o que quer é não ser pobre. Pesquisado, diz o que a pesquisa quer saber. Com esta particular forma de paz no coração desmascara a hipocrisia e deixa nua a retórica das frases que falam em poder do povo e interesse nacional.</p>



<p>No Congresso, no Supremo chovem denúncias. Assentam em cima, deixa o outro Poder avançar, suspender nomeação, testar positivo, freia ou acelera o tempo. Um velho toga dá entrevista para remoer ferida. Outros, a favor/contra/não sei não. O decano manda limpar logo o ouvido. O militar, no dispositivo, não gosta. Quer descer devagar, no andar do caranguejo. Golpe nimim não dá, choraminga o líder dislalias de sua alma.</p>



<p>A reportagem ao vivo aperta, solta, não encara o burlesco, respeita o desrespeitador. É o bolero de Ravel do talismã preparando o povo para esquecer devagarinho o desamor que lhe é dedicado por quem fala uma coisa na campanha e faz outra depois de eleito.</p>



<p>Pode até existir uma crença nos extremos da violência como forma redentora de desobediência civil. Porém, observando as saídas brasileiras para enfrentar a embromação e o caos provocado pela elite institucional, a calma não acordada contém muito mais sabedoria do que os que desdenham do Brasil conseguem captar.</p>



<p>É verdade que nossa ordem e progresso avança devagar e cheia de pendências. Mas aos trancos e barrancos o Brasil conseguiu em paz o que nenhum país conseguiu sem guerra. Este o nosso talismã, que sabe que a guerra é a pior doença.</p>



<p>Não é crime a frieza do coração. Ainda mais quando veste de poder um homem nulo e consegue revelar as formas desagradáveis que esconde. Mas o presidente se desesperou de fato quando o talismã informa que na linha de frente da batalha não há soldado. São enfermeiros, médicos, farmacêuticos, balconistas, entregadores, motoristas de taxis, governadores e prefeitos.</p>



<p>A pandemia desmilitarizou o patriotismo, tirou o monopólio do presidente armado, que passou a praticar tiro ao alvo nos ministros populares.</p>



<p>A ambição desmedida do poder combate-se com a ambição pelo ato mínimo, o fiador da justiça. E o mínimo é aplicar a lei, demovê-lo para investigação, pois quem o acusa é que o fez presidente. Não é traidor, pois, em política, Judas é quem não desconfia. A confiança absoluta é da ética das relações privadas, familiares.</p>



<p>Nos últimos anos quem se enforcou na política o fez com corda que ele próprio teceu. O talismã dos brasileiros é sonhador, não age com fins materiais. Nem acredita na consistência das declarações dos que não querem fazer a vigília do fim que se anuncia.</p>



<p>Leia também no <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/jair-judas-e-o-talisma-por-paulo-delgado/">blog do Noblat na Revista Veja</a>.</p>
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		<title>Fábulas improvisadas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2020 00:43:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Capital Político &#8211; 10 maio de 2020</em>.</p>



<p>Conta a lenda que um cabrito atrevido durante anos dizia impropérios contra todos na planície em que vivia. Nenhum bicho com aquilo se assustava. Um certo dia, porém, o puseram na torre mais alta do lugar e de lá ele berrava agressões e zombarias contra a maioria. O carneiro, que nunca o levou a sério, finalmente se incomodou. E o alertou: ei, meu caro, não é você que me injuria, mas o lugar onde você está. Preste atenção, as circunstâncias mudaram, não você. E o que conta na vida são as circunstâncias.</p>



<p>De fato, circunstancias mal compreendidas costumam favorecer atrevimentos. No escuro do cinema tímidos ficam destemidos. Em altos cargos maquinações de um fraco sugerem força de um afoito. Em camionete grande traficante acha que é polícia. Atitudes previsíveis que são um desperdício.</p>



<p>Como revela outra história de um bode que atravessava um rio levando ao pescoço uma faixa que dizia que ele era dono da pastagem do lugar. Ao observar na água sua própria imagem engrandecida, mas convencido de que era outra de maior tamanho o que via destorcido, e isso significasse algo bem maior a competir com ele, largou a faixa que possuía e avançou alucinado para tomar a outra. A ambição cega, ele fica sem as duas. Sem a que não alcançou porque não existia, e sem a sua que foi por água abaixo.</p>



<p>É nesse diapasão que ele vai fagocitando seus ministros mais populares e atentos a valores. Se livra da pressão das virtudes e desentendimentos éticos. Pouca valia tem a lei para o cavalo que corre sem os freios. O tempo é sempre circular e opera em eterno retorno. E reconhece apologias: riacho dos lobos, onda da espada.</p>



<p>Enquanto isso um conselho de pavões se reúne para reivindicar para seus iguais a condição de sábios do terreiro. Todos os alados que foram consultados se dispuseram a votar neles, menos dois, o galo e o sabiá, representantes das mais populares aves do lugar. Reconheço em vocês a formosura com que vestem esta toga, mas quando a águia voa solta e nos ameaça o melhor adorno não é a vaidade, mas sabedoria no uso do poder. O atrito entre os 11 superiores e o direito de esconder a saúde por decisão de um 12 aspirante é um alerta: a sentença é um testamento dos anticorpos que as aves pequenas não possuem para se proteger dos amigos das águias.</p>



<p>Na selva da política, muitas espécies-subespécies, família, subfamílias, sem expressão nacional, vivem no Centrão de seus habitats locais aprontando sem serem incomodados. Como geralmente são políticos desconhecidos ou sem imagem nacional, o custo político do que fazem é baixo e por isso nunca são vigiados de perto em seus rolos regionais.</p>



<p>Costumam passar muitos anos com mandatos de pastor, bajulando pavões e cordeiros. Andando tão perto do rebanho no qual concentram o apetite principal que as ovelhas entendem que se trata mais de um protetor do que de um embusteiro. Quando aproveita a chance e sobe mais, só aí que a floresta conhece bem o predador.</p>



<p>Ideias amplamente minoritárias sempre agiram contra a democracia mesmo em períodos democráticos. Mas metódico, objetivo e persistente no seu caos, somente esse no script de Pedro Malasartes.</p>



<p>Quando trabalhava só para si, abrindo vaga para a prole, não buscava sócio para seus duelos. Agora, percebendo que pode compor mais o figurino, imaginou um combo: quer assimilar seu nome a algum papel social e a valores para envernizar à fama de destemperado. O sistema heroico no qual quer se encaixar não se sustenta. Rente e sem verniz é assimétrico, mas nunca está às cegas. Nem parece sozinho. E presidente imprevisível faz governo perigoso.</p>



<p>A conversa de ser soldado fornece um encorajamento especial para valorizar o estilo street fighter. Anda vasculhando os três poderes atrás de uma fresta mole na convicção democrática em busca de amor à primeira vista. Marcha em passo de ganso sobre os poderes. Quer apoio para agir sem autorização. Vai cobrindo de saliva os militares para comê-los sem engasgar.</p>



<p>Nas fábulas tomadas de Esopo é possível perceber como estamos integrados ao mundo dos bichos. De todos os esforços obtidos pelos brasileiros até aqui para tolerar o presidencialismo, com qualquer um governando e, todos alterando a constituição a seu favor, o mandato atual é o que mais se aproxima da necessidade de um fim deste regime sem conserto. Não é possível algo tão desmoderno e fundamentalmente não sério.</p>



<p>Só no presidencialismo o Um consegue levar todo um país na conversa em momento de tragédia e incerteza como agora. Exclusivamente porque o presidencialismo permite que presidente confunda a atividade política com a natureza de um antropófago que cria vítima e faz festim no velório do eleitor.</p>



<p>Leia também no <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/fabulas-improvisadas-por-paulo-delgado/">blog do Noblat na Revista Veja</a>.</p>
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		<title>TRÊS DESESPEROS                   (Desafio, Abatimento, Afetação)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2020 20:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capital Político &#8211; 17 de maio de 2020. Dez para as sete da noite. Hora de atualizar a estatística dos mortos e mais uma vez pensar<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Capital Político &#8211; 17 de maio de 2020.</em></p>



<p><strong>D</strong>ez para as sete da noite. Hora de atualizar a estatística dos mortos e mais uma vez pensar no improvável. Desbloquear as sensações ruins e meditar sobre a melhor forma de não lutar, para que a corda esticada por ele devolva o tranco que o neutralize.&nbsp;</p>



<p>Dando caráter pejorativo ao próprio nome preferiu esconder-se em código, revelando medo de associar sua identidade ao cargo que ocupa. Fez do HFA, Sabin, Fiocruz, aparelhos clandestinos da era democrática.</p>



<p>Bomba relógio em país sem paz. Há cada vez mais sócios para a vontade de transgredir. O importante não é mais o que faz, é saber como um sujeito cindido põe no bolso os&nbsp;<em>bambambans</em>&nbsp;do pedaço federal.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A democracia se afasta pouco a pouco da realidade seguindo a rota da subversão oblíqua da cabeça do chefe. Embora a distribuição de benefícios não contributivos de caráter emergencial para os mais necessitados deva ser louvada, quando combinada com a leniência em relação à falta de garantia de crédito para as empresas obrigadas a fechar para ajudar a combater a pandemia surge um escândalo. Está ficando cada vez mais com cara de compra de base de desassistidos a equação de ajudar desempregados e esquecer empregadores. Crédito é crer, e se o governo não ajuda dando garantias e liquidez a quem dá emprego é ele que está enterrando a economia, não o coronavirus.&nbsp;</p>



<p>Por isso, passou a ser uma eventualidade plausível acordar na mão de capatazes e feiticeiros, pela presença de enfermidade nas instituições político-judiciais e ocultismo na saúde e na economia. Todas tratadas com magia e drogas experimentais. O trabalho dele é se misturar. Toda as manobras são a de um operador de desejos ocultos, a carne que sempre diz sim. Ó Deus lacrimejante, a quem me queixo?</p>



<p>Digam o que quiserem: tosco, tolo, simplório, rude, a mente pequena de um Hobgoblin vilão. Mas foi ele que já vestiu a roupa em todos que o servem. Insistam em classificá-lo: governo monstro, desarrumadinho, imenso em atrevimento e de pouca opinião. OK.&nbsp;&nbsp;Só que a carapuça antidemocrática serve bem, também, às instituições, de terno ou de farda.&nbsp;&nbsp;Nada redime as autoridades constituídas nesta hora: estamos a Deus dará, os mandachuvas não desconfiam de que o latido antecede a mordida.&nbsp;</p>



<p>Todos os envolvidos que podem parar o arbítrio sabem que já foram ultrapassados todos os limites e se comportam como peixes pequenos no aquário federal. Como se ali só coubesse quem aceita ocupar cargo acima da sua capacidade. Tudo está cada vez mais nivelado, supurado, coçando, azedo, gástrico. Mas como é um magnata da política, não importa que se ache acima da morte.</p>



<p>Uma confluência de perigos entrou na vida do país e a democracia não está tendo alcance para proteger a sociedade. As instituições não cuidam dos grandes desafios de interesse geral, somente dos detalhes operacionais sustentados pelo orçamento próprio que é a vida no poder. Distraídos, ou aderindo aos poucos, falta estatura para perceber como um inimigo da Poliarquia distribui cartas marcadas do jogo para enterrá-la durante a pandemia.&nbsp;</p>



<p>A seriedade fraudulenta de corporações, públicas e privadas, envolvidas no carteado nos dá o direito de não aceitar o peso do sofrimento. O que consola é que até podem derrotar o Brasil, mas não o farão se render. Os Três Poderes são partidários de uma espécie de crença sem reciprocidade e seus membros, especialmente os mais altos na hierarquia, atolados em seu mundinho de problemas, não têm consciência do destino espiritual de um verdadeiro líder.&nbsp;</p>



<p>Crime, quando está à vista, pede que se instaure o inquérito. Prescinde de análise para isto.&nbsp;&nbsp;Mas como os delitos presentes parecem ser praticados com estilos e ênfases diferentes, por ação ou omissão por todos os poderes, não podem contar com o luxo da moralidade pessoal da autoridade como motivação da ação. E como só há incômodo em relação à uma abstrata moralidade coletiva, não há quem possa instaurar o inquérito. Quando chegar a hora tardia o processo terá que se estender para apurar o apodrecimento dos Poderes da União.</p>



<p>Resta aos brasileiros, para sobreviver, não se deixar contaminar e tentar praticar o&nbsp;<em>desespero como desafio</em>, um engajamento na autonomia e na esperança de viver em paz e progredir. Não merece o cidadão viver a enfermidade do outro e se tornar um fatalista que aceita o<em>&nbsp;desespero como abatimento&nbsp;</em>pessoal.&nbsp;</p>



<p>Nem levar à sério os que podem resolver a questão política e econômica nos marcos democráticos, e não o fazem. Estes, como carecem de coragem e não tomam decisão, andam escondendo a culpa em entrevistas com ar de irritação, a alma falsa de quem vive o&nbsp;<em>desespero como afetação.</em></p>



<p>Leia também no&nbsp;<a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/tres-desesperos-por-paulo-delgado/">blog do Noblat na Revista Veja</a>.</p>



<p>*Ilustração conforme publicado na Veja.</p>
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		<title>ALÉM DE ONDE A VISTA ALCANÇA: Ensaio sobre a imperfeição na política</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/alem-de-onde-a-vista-alcanca-ensaio-sobre-a-imperfeicao-na-politica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 May 2020 21:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capital Político &#8211; domingo, 24 de maio de 2020. Em um local onde não aportam nem os piratas chineses nem o barco pintado de branco da<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Capital Político &#8211; domingo, 24 de maio de 2020.</em></p>



<p><strong>E</strong>m um local onde não aportam nem os piratas chineses nem o barco pintado de branco da Fundação Rockefeller, um certo senhor conta a história de um moleque normal que viu tiro na praça e ia de canoa roubar mexerica na fazenda do poderoso do lugar. É certo que o desacordo que brota das confusões da vida impulsiona temperamentos e deixa marcas na memória. Nada que justifique confundir lei com fora da lei.</p>



<p>Cinquenta anos depois, vivendo em um labirinto que invade todos os dias a vida do lugar é possível ver um Scaramouche dançando alegremente em um capinzal cheio de corpos. Ele é o entrevisto, tem codinomes, um numérico, como placa fria. Confessou naturalmente que conta extraoficialmente com a colaboração de espiões, uma coisa dele, através de um sistema particular de informações que funciona. Pela forma oculta,&nbsp;<em>coisa nossa.&nbsp;</em>Superou todos seus iguais no mundo desprezando a glória da longevidade como se fosse um Herodes dos velhos. Bajulador do americano, foi barrado na alfandega: sorry, mão suja não carimba passaporte.</p>



<p>Aqui mora um povo que espanta a solidão com a corda que tem nas vozes. Há coisas esplendidas acontecendo, mas não é a razão que traz a alegria.</p>



<p>Mesmo não sendo palco de nenhuma comédia de arte é possível ver sua cabeça sair do ombro de vez em quando dando a falsa impressão de que é uma marionete. Como pessoa marcada pelas sombras e o medo das coisas imprevisíveis mesmo quando sopra, morde. Já não distingue a verdade do aparente.&nbsp;</p>



<p>O melhor que é possível tirar da máscara agravada pelo isolamento de agora é confiar que algumas construções históricas revelam que algo menos burlesco algum dia irá nos ajudar. Enquanto não é possível saber quem foi, de fato, para os outros um bom governante, contarei o que sei sobre este inverno que se antecipou.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;II&nbsp;</p>



<p>Quem vive neste local há mais tempo sabe que as obras parecem concluídas e abandonadas e viraram foco de uma doença misteriosa que mata de fora para dentro e de repente passou a ser de dentro para dentro por obra e deleite de um colecionador de soldadinhos de chumbo. Há bizarras criaturas humanas no comando do lugar com sorrisos de animais bem à mostra, tudo se conduz sem carrascos, não há execuções por pelotões, salvo uma recente nota nodosa e ameaçadora à nação escrita por força do instinto inconsistente de um tratador de zoológico querendo se fazer simpático na jaula do leão. Mas a rotina opressiva é a de uma contínua supressão em massa dos vagalumes, aqueles lampejos inocentes que não conseguem clarear a escuridão, mas dão uma mínima orientação que seja para quem quer se salvar.&nbsp;</p>



<p>Muitos já escreveram contos, preces, romances, fizeram filmes sobre tal engenhoca política que funciona maquinalmente como as marés, especialmente porque ninguém se dá conta que a onda está avançando a cada dia como uma inundação. Talvez porque a sensação que causa esses períodos infames &#8211; que dominam valores, gestos, corpos, a alma das pessoas &#8211; somente seja percebida depois, com o que não sobra. Se deixar chegar depois, o depois é nada.</p>



<p>Do jeito que tudo está, tão sem contradição interna verdadeira, como uma fórmula matemática velha, é possível perceber um ritual medieval profano, com um ator sem vocabulário dirigindo um jogral digital e, geometricamente observando, a peça já evoluiu para a jactância geral. Está tão sem ação o setor sacro mais tradicional que melhor inverter as coisas:&nbsp;&nbsp;o que parece estar sendo apresentada é uma sátira, um show de fantoches, mas não no palco onde está acontecendo o ensaio do governo alegórico, o nome da coisa por enquanto. O verdadeiro espetáculo está ocorrendo na arquibancada onde a maioria balança a cabeça desconfiada da metáfora.&nbsp;</p>



<p>No palco há os políticos de sempre, alguns empresários vendedores de carne moída no pão, um bilionário dono de armazém, pastores evangélicos vendendo indulgencias sanitárias, padres perdidos, militar sem nitidez histórica procurando um reforço de representatividade sem notar que troca por miúdo sua carreira, pessoas bombadas, intimidadoras em seus carros com roda grande e buzinas horríveis. Parece que a gerencia de administração da coisa achou alguns ministros saídos da cabeça do apocalipse de João, querendo transformar em sangue a terça parte do mar.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;III&nbsp;</p>



<p>O pior é que a coisa tem muito a cara do lugar, um amontoado de pessoas que está deixando de ser um país, sem nenhum ímpeto profundo dominado pela turma do vamos ver. Como o poder não foi conquistado com glória, nada pode ser lembrado com glória. Há até um remédio para mosquito empurrado como formicida para acelerar a catástrofe.&nbsp;</p>



<p>Em um ato recente do governo divulgado pelo Instituto Nacional de Criminalística que ficou conhecido como<em>&nbsp;Laudo de Perícia Criminal Federal,&nbsp;</em>registrando áudios e vídeos obscenos ocorridos em uma boate da capital, a China é tratada como os brancos tratavam os quilombolas no vale do rio onde também vivem os caiçaras.</p>



<p>Mas é o economista chefe que surpreende. Disse que para se livrar do banco oficial, que tem mais de 200 anos e ele acha que funciona como banco de sêmen, é preciso associar a operação de venda à secreção do órgão sexual masculino, uma vez que é essencial para se manter no cargo, ao falar na produção da próstata, o fazer de modo chulo, pressuposto que o identifica melhor com as fantasias de seu chefe. Como mora em um barco que nunca atraca em terra anda dizendo que não precisa fazer nada, é só esperar a ressaca quando então todos os barcos vão subir.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Está difícil escolher uma saída para o tamanho constrangimento que se anuncia para o futuro dos habitantes do local: morrer pela peste ou continuar prisioneiro de quem a manipula.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Para quem está em casa com os filhos que não podem ir à escola lembro o verso de Du Fu:&nbsp;<em>penso nas crianças pequenas demais para compreenderem a saudade que sentem</em>.</p>



<p>A saga do lugar que acompanho neste ensaio melancólico, em determinado momento tem o personagem conciliador e pessimista que diz de um fôlego só: quem sabe que o fato de não podermos compreender nada fora do tempo e do espaço talvez sugira que nossa vida não é apreciavelmente distinta da sobrevivência oferecida por esse momento assustador.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;IV</p>



<p>Vendo por outro ângulo a mesma coisa olho para um hotel desta mesma ilha onde aquele senhor do início descreve a angustia que relata. Por ali também circula o jovem europeu observando uma plateia congelada, imóvel esperando o tempo passar. Parece filmar uma não-festa cheia de não-pessoas entorpecidas. Eis que nosso personagem aparece<em>,&nbsp;</em>como sempre excitado, apreciador do exercício ilegal da influência, aborda a mulher misteriosa insistindo que já a conhecia de um outro lugar onde ele já havia conseguido penetrar há muito tempo. Tão elegante, tão bonita, deve ser uma princesa.</p>



<p>O interesse por ela foi paralisado por um flashback em sua vida.&nbsp;&nbsp;Lembrou que desde quando andou por aí com uma bomba debaixo do braço e os oficiais superiores não acharam nada interessante nele, nem naquilo, e para ajudá-lo a enfrentar a frustação, consultaram um psicanalista de televisão que prescreveu a pena.&nbsp;&nbsp;&#8220;A patologia do aspirante não deve ser vista como uma situação, mas um processo. Foi tomado por um procedimento de alerta que o corpo envia a rapazes metidos ou revoltados e o levou, ao invés de brigar num baile, se meteu a fazer bomba. É preciso compreender, não o combater. Deve se refugiar na doença e se para se tratar está condenado a ser deputado a vida toda&#8221;.&nbsp;</p>



<p>Desde então não mais viveu, antes passou a ser vivido por aquele personagem furioso como um cobrador de dívidas antigas enterradas no seu corpo como espinha no rosto de adolescente do interior. Lembranças maléficas no coração atormentado de quem acha que não caiu da cama, foi empurrado.&nbsp;</p>



<p>Voltando ao salão do hotel talvez ela o estivesse esperando, pois nunca se sentiu assim menos rejeitado, do que as lembranças que tinha de festas no passado. Ela, discreta, educada e com a graça de uma bailarina escolhida pelo voto sabia que sempre a maltrataram naquela região.&nbsp;&nbsp;E que cada vez mais gente parecia dissimulado como ele, mas desconfiava que ele, especificamente, a quisesse para ir mais longe e adaptá-la ao seu fim.&nbsp;&nbsp;Sugere que ele talvez esteja enganado e nega esse conhecimento prévio, observando seus tiques abruptos e outros estereótipos&nbsp;<em>masculinistas</em>&nbsp;banais de virilidade destorcida como declarar amor a quem acabou de conhecer ou detesta.&nbsp;</p>



<p>Um outro homem no fundo do salão conta umas fichas sem parecer incomodado com a movimentação em torno da mulher. Pisca para ela e, parecendo um jogador inveterado se dirige ao cassino onde parece nunca perdeu uma partida.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;V</p>



<p>Sei que a história está ficando longa. Mas aproveite o isolamento para viajar em pensamento concedendo-me a honra de continuar a ler o que escrevo, enquanto espera voltar o movimento do mundo.&nbsp;</p>



<p>Os diversos lugares desta ilha sem ilusões e onde se tira proveito de todos os jogos e de todas as mentiras que um engenhoso pregador viu na Colônia portuguesa quando morou por aqui, têm uma característica escandalosamente comum: como continuam ruins os atuais colonizadores vestidos de governantes.&nbsp;</p>



<p>Todos que dizem fazer o que acham que é o certo não escutam quem lhes diz que estão totalmente errados. Pois foi exatamente esta confiança depositada no lugar, hora, pessoa errada, que levou os moradores dali a perderem a perspectiva e ficarem em dúvida sobre defeito e perfeição. Com ela alimentam a autocomplacência de achar que a ignorância diminui, e não aumenta a culpa.&nbsp;&nbsp;E como sempre foi assim, arrumaram um zelo próprio de dizer&nbsp;<em>sem essa</em>&nbsp;de achar que existe regra sem exceção.</p>



<p>Se não há majestade, não deveria haver piedade. Mas não. É desconcertante e bisonho o descaso com o lugar. O que é irrevogável parece presidir a vida e o destino como se fosse conversa de afogado conformado por nunca chegar a nadador. É que o lugar fica mais tempo submerso do que vem à tona e nem o melhor peixe voador consegue virar a pior das gaivotas. Mesmo reconhecendo que a maioria é fácil de amansar, domesticar e distrair por qualquer palhaço que monte seu picadeiro no lugar, é bom ficar sabendo que a maioria não acha que é obrigada a ouvir qualquer sermão passada a eleição. Por isso a sabedoria da plateia&nbsp;&nbsp;é prometer ser sempre governista, até que mude o governo, por qualquer motivo.&nbsp;</p>



<p>Ninguém chora no enterro da astúcia. Porque quando se vê algum político furioso dizer que &#8220;foi com verdadeira indignação e mesmo revolta que vi a imprensa publicar exatamente o que eu disse&#8221;, é verdade, confirme tal sandice com Millôr.&nbsp;</p>



<p>Então, voltando ao pregador da época colonial, melhor falar aos peixes pois eles não ouvem, nem falam besteira, nem dá para converter. Sem ressentimento, há tanto vício nos homens, como virtude nos peixes. O padre irado perde a cabeça com tanta cobiça e antropofagia que vê nesta terra de gente mofina. Percebe que uns comem aos outros e vê nisso uma natureza perversa: os grandes têm mais apetite, comem sem dó os pequenos. E bate o prego no caixão da hipocrisia: basta senhor, que eu porque roubei em um barco sou ladrão, e vós porque roubais em um iate, imperador. Assim é. Pouco poder faz o desonesto, muito poder a honestidade.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;V&nbsp;</p>



<p>Por exemplo, é costume entre juízes daquele canto no sul do mundo, quando perguntados sobre costumes, leis e princípios específicos a seguir, não conseguirem responder nada objetivamente e, para ganharem tempo, iniciarem a explicação pelas complicações derivadas dos desejos do primeiro casal naturista descrito no Gênesis. Quando parecem se aproximar da pergunta, não se sabe mais para que serve a resposta.&nbsp;&nbsp;Assim, governante sem virtude, como registra o clima da política atual, aproveita o tempo demorado da distribuição dos talheres no banquete sem sentido da justiça para ir comendo com a mão e lambuzando o prato com os pedaços que rejeita.</p>



<p>A ilha tem uma paciência impressionante com o pessoal que anda armado e de farda. Todos os poderosos parecem ter esquemas pessoais de proteção e informação revelados agora neste<em>Laudo de Perícia Criminal Federal</em>, assinado por peritos criminais. Nenhum inocente tem mais proteção do que um criminoso de encomenda. Quem sabe por isso nunca se apurou direito nenhum tiro saído daqueles trabucos. O serviço de informação particular do chefe é certamente para flagrar aliados em traição. O mais na repartição é empurrado para debaixo do tapete. Se um crime é considerado perfeito ou insolúvel é bom começar a pensar que tem alguém do time no rolo. Embora aos gritos, todos os flagrados por incompetência ao praticarem de forma errada o erro são devidamente rotulados &#8220;ponta-solta&#8221;. A cocaína do teco-teco oficial encontrada na bagagem daquele ombro com divisas é fruto desse horizonte sem limite.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;VI&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não é de se estranhar que naquele dia da aproximação fatal, esse balaio de gato todo descrito desde a primeira frase sobre os piratas chineses, estivesse acompanhando aquele traquina, que carregava num saco grãos como se fosse um agricultor procurando local para plantar. Ele cortejava a atraente jovem no saguão do hotel onde o europeu fez seu filme e parecia ter a intenção de plantar nas terras da donzela uma lavoura familiar. Traumatizado desde a infância por se sentir o soldadinho perneta da sua coleção confundiu o&nbsp;<em>fouetté</em>&nbsp;da bailarina com a perna só do saci-pererê. E viu o folclore como um chicote na formosura da moça. Desinformação, imperfeição e ousadia, a tríade mortal de nosso conto de bruxas.&nbsp;</p>



<p>E foi em frente com seu saco de maldades. Pois o que pretendia, pobre desde a origem, era somente colher uma safra recorde com as sementes dos seus filhos, todas brotando naquele primeiro domingo de outubro, para garantir as quatro aposentadorias de uma vez. Poucos observam a sombra da alma simplória dos poderosos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Eis senão quando um idiota com uma faca enfia na colheita garantida o plantador sem pretensões a vencedor. E ele agoniza no hospital sem ser visitado por ninguém que disputa com ele a admiração da bailarina, transformando em conspiração de todos a estupidez de um.&nbsp;&nbsp;Tamanha tolice é o retrato fiel de como na terra de um gigante sem compostura que é o país tanto faz ser vermelho ou ser azul na política. Não consigo entender tal sortilégio: abram a cova, me deixem deitar.</p>



<p>Ela é francesa, filha de um nobre da Aquitânia, região de vinhos maravilhosos que ninguém fez coisa melhor para alegrar a convivência humana. Na propriedade do seu pai foi criado o princípio da divisão dos poderes e a genética multiétnica e humanitária a fez musa, dando forma ao seu corpo cobiçado e que hoje cada vez menos países do mundo o admiram. A dúvida sobre se são ou não verdadeiras as intenções de desfrutar indevidamente dos seus passos por suas terras existem.&nbsp;&nbsp;Porque assim como música que não seja de amor não faz sentido, os excitados de poder gostam de parecer o que não são mentindo sobre os seus propósitos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Outra razão para ser precavido é que a moça pressentia a enorme diferença daquele lugar para outros que a festejavam e seguiam suas normas. Ela não precisava de provas para desconfiar que nos palcos desta parte mais baixa do mundo tudo é permitido. E onde tudo é permitido, nada é importante.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;VII</p>



<p>O sistema que a chama de democracia a fez discreta e paciente mesmo quando se vê tomada pelas orgias dos que a usam. Por isso não estranhem a maneira como gente de crachá e uniforme evita falar dela diretamente preferindo jurar lealdade a uma harmonia entre o triângulo dos poderes. Mais como se fosse uma instalação à parte no mobiliário do dispositivo, do que uma responsabilidade de proteger o perímetro todo onde se localiza o teatro da vida em sociedade que a justifica. E mesmo parecendo atentos a sutileza com que a cobra de fogo os brinda andam partidários de sempre apregoar normas para o fraco, e de vez em quando insinuar algo&nbsp;&nbsp;para o forte. Na ilha, que muitos supõem ser um continente, todos sabem como funciona o protocolo da democracia e o nome completo dela. Ela se arrisca pela liberdade, o castigo se arrisca contra as duas.</p>



<p>O transtornado e oportunista amor envolto em fogo que o personagem que a usufrui diz ter por ela faz de sua ação um vai e vem de serviçal que quebra pratos. Penumbra que mistura impunidade, segredo, avança, nome falso, recua, exercício ilegal da medicina, com livre arbítrio como o obscuro que nunca está ao sol. Vale-se dela, a democracia, para arruinar os seus valores.</p>



<p>Só que, como um misturado e surpreendido com a vitória graciosa, decidiu não vir às cegas para governar o lugar. Chamou caçadores, pastores, fanfarras e supondo que são como ele, robôs familiares. O epiceno imaginava que não podia fazer alegações falsas contra a bailarina de sangue francês sem o consentimento da confraria de farda, definida no protocolo como a que vai defende-la. Por isso pediu o apoio deles para destruir aqueles que invejam o sucesso que tem sido sua forma ostensiva de abordá-la. Convencido, pela fixação do soldadinho do conto infantil, que não é confusão misturar a graça da moça com seus próprios defeitos, se põe a profanar sem pudor os seus princípios.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;VIII</p>



<p>A angústia tem agenda própria e se acha no topo da cadeia alimentar. Assim como distorceu o evangelho para se purificar, se finge de porta bandeira para se misturar sem ordem e passar a mão suja sobre a fome de tudo. O prejudicial fantasiou a vida do governante que se põe fora da lei como se pensasse viver em terra de crime sem castigo onde é possível fazer o mal sem ser punido. Só que parece que queimou todas as pontes, mesmo as que ainda não passou.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;***</p>



<p><em>Não sei se Adolfo Bioy Casares, Alain Resnais, Hans Christian Andersen e Padre Antônio Vieira zombariam do grande cego que me tornei. Quando veio a quarentena reencontrei em A invenção de Morel, O Ano Passado em Marienbad, O Soldadinho de Chumbo e no Sermão de Santo Antônio aos Peixes e do Bom Ladrão, uma forma de ver o que anda me intrigando: o Brasil continua grande, pode ser derrotado, sei que não vai se render, mas nunca soube se comportar em público. É esse gigante tolerante com modos feios que não sabe mais o que é bonito. Nem vale a pena voltar ao lugar de onde partiu o seu fracasso.</em></p>



<p>Leia também no <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/alem-de-onde-a-vista-alcanca-por-paulo-delgado/">blog do Noblat na Revista Veja.</a></p>
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		<title>SINAL DE ALERTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2020 02:01:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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<p><em>Capital Político &#8211; 15 de julho de 2020.</em></p>



<p><strong>Q</strong>uando isso tudo passar o brasileiro não vai se espantar com o que aconteceu, mas sim de que tenha terminado sem ficar enfermo. Poderá se surpreender mais ainda com um segredo que nos inviabiliza como nação que é a falta da cultura de corregedoria para as grandes autoridades.</p>



<p>Contudo, se for instalado o Tribunal Penal Especial do Covid-19 e os Processos de Brasília começarem a julgar os crimes diretos e correlatos derivados da conduta do Presidente durante a pandemia, confirmará a advertência de Obadias na Bíblia hebraica: <strong>ainda que subas no alto como águia e faça teu ninho entre as estrelas, precisamente lá Eu te alcançarei.</strong></p>



<p>Evidencias, fatos disponíveis que comprovam a veracidade da violação deliberada do cuidado com os brasileiros, desprotegidos de qualquer auditoria eficaz que contenha o presidente, ele próprio um fator de transmissão, revelam a tragédia fora de controle e suas cumplicidades.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>É por isso que ele pode ser acusado de coagir o povo a tomar a atitude errada com desestímulo à medidas de proteção, veto ao uso de máscara, proibição de proteção especial aos índios, invadir hospitais, estimular aglomerações, manipular dados oficiais da infecção, usar codinome em exame, trocar técnicos de saúde por militares sem formação adequada, descuidar de nomear seu titular no Ministério da Saúde, exercício ilegal da medicina com prescrição de remédio e depravar o sistema de saúde o tornando uma arma política causadora de mais infecção e morte.&nbsp;</p>



<p>A qualidade jurídica incontestável das provas de que pratica reiterado crime contra a saúde pública e a humanidade dos brasileiros aponta para a real circunstância de julgamento técnico-criminal, mais do que político-administrativo. Sua transgressão, muito mais grave pela eficácia imediata, pode se configurar como crime comum cometido por político no poder, não se compara ao de Collor ou Dilma, crime de responsabilidade, não sendo necessária a complexidade política de um processo de impeachment. Trata-se de caso para notícia crime ou interdição com seu afastamento imediato para apuração.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A gravidade que é ter um presidente com o dever juramentado de coordenar ações de proteção à integridade do nosso povo preferir o ameaçar com sua visão particular e desinformada do problema é que contém a consequência penal tipificada, fato que ficou mais claro esta semana. Quando o Ministro da Defesa expressou, com indisfarçável paixão política, seu temor diante de alerta de um juiz, esperava-se que imediatamente dissesse que seu comando tem mais diferença do que analogia com as práticas do governo. Mas ao ser despertado para o fato de que os militares poderão ser envolvidos nos atos contestados do governo iniciou uma ação contra o Ministro do Supremo.&nbsp;</p>



<p>Não será de todo ruim somente se servir para abrir a possibilidade da investigação sobre a má condução da política sanitária pelo governo federal. Ao iniciar a ação judicial preventiva, contra uma advertência feita sobre o fato de não ser razoável o exército estar associado a políticas que conduzem à leitura de genocídio, certamente só poderia o Ministro da Defesa recorrer à justiça se fosse para explicar porque este raciocínio tornou-se possível.</p>



<p>Melhor recodificar normas internas e tornar sem força o interesse de militares da ativa em servir a dois senhores. Sempre tivemos excelentes militares, felizmente também tivemos Ulysses Guimarães que organizou os direitos constitucionais e temos Gilmar Mendes, que exige sua preservação.</p>



<p>Não parece exagero o presidente ainda poder ser acusado de ameaçar a ordem interna ao servir-se de militares sob sua subordinação imediata para praticar abuso de poder durante a pandemia.&nbsp;Há o risco real de se instrumentalizar as Forças Armadas a agir contra a saúde e os direitos sociais dos brasileiros se a política de saúde do governo for a mesma das Forças Armadas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>São agravantes da atitude presidencial não nomear ministro para a Saúde, envolver as Forças Armadas em política e descrédito e contribuir para a imagem negativa do país. O presidente lidera um governo que está crescentemente sendo acusado, por governos e grandes investidores, de praticar delitos humanitários relacionados à desproteção dos indígenas e responsabilizado pelo agravamento da degradação ambiental.&nbsp;</p>



<p>Sua conduta faz do país um Estado pária na comunidade internacional punido com desinvestimento e bloqueio da circulação dos brasileiros pelo mundo. Quando o Brasil receber o selo negativo de país de insustentabilidade total caracterizado por má gestão pública que conduz ao apartheid sócio-sanitário-ambiental as barreiras sanitárias e as cláusulas democráticas nos levarão ao chão. Não teremos dinheiro nem para pagar para ver.&nbsp;</p>



<p>A informação errada aos infectados e não infectados, a desproteção a povos minoritários, se originados de atos reiterados do presidente da República, aumenta a desvantagem dos fracos, leva ao genocídio dos doentes. A lei da obediência devida, a banalidade de achar que o mal é normal levou diversos governos a não se importar com a dor dos outros conduzindo militares ao erro.&nbsp;&nbsp;Pesando o que deve ser pesado diante da história de cada nação a perversidade e o sadismo de governante, quando se espalham como matéria-prima e alimentam o arbítrio institucional pode levar o país a uma tragédia humanitária.&nbsp;</p>



<p>Tragédia evitável, mas previsível pela decisão de somente julgar os atos do governante depois da catástrofe. Sem freios institucionais e parâmetros constitucionais qualquer presidente pode nos levar ao desastre moral como nação. Não é certamente crime alguém nos alertar sobre isto.</p>



<p></p>



<p>Leia também no site do <a href="https://capitalpolitico.com/sinal-de-alerta/">Capital Político</a> e na <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/sinal-de-alerta-por-paulo-delgado/">Revista Veja</a>.</p>
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		<title>CAVALEIROS DO DELITO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2020 02:11:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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<p><em>Capital Político &#8211; 26 de julho de 2020</em></p>



<p><strong>M</strong>ais do que por um mero mau cristão o Brasil é governado por destino incerto tendo a cada dia um morto certo. Tal estado de coisas é possível porque o país não tem freio que contenha a autoridade no momento em que erra ou comete o crime. Quem se  beneficia com o caos não se importa em saber que motivações sustentam tais atitudes. Aproveita da situação e negocia na baixa o controle da alta autoridade. </p>



<p>A realidade da autoridade fora da lei é de ampla e genérica tolerância e cumpre o papel amargo de infantilizar a sociedade diante do Estado. Qualquer negligência de um Tribunal de Justiça com a conduta de seus membros é sinal de decadência. Um desastre civilizatório. Pois são essas autoridades descontroladas que moldam o mundo que vivemos.</p>



<p>Apesar da sensação de marcha a ré, com maior propensão ao interesse pelo mal do que pelo bem, não dá para culpar o povo inteiro quando se trata de crítica à governo ou a forma como funciona o Estado. No entanto parece que nossa relação com a verdade está desaparecendo da construção do raciocínio político. Talvez pelo cansaço diante da nova função que o ódio e a manipulação de notícias passaram a ter na escolha de assuntos e adversários.</p>



<p>Mas é fato diário e recorrente a mentira de que as instituições funcionam quando se trata de conter os impulsos danosos de muitos de seus membros. Magistrados ruins são o maior problema da justiça.&nbsp;&nbsp;Vejamos o caso do Tribunal de Justiça de São Paulo. Pede 10 dias ao corregedor nacional para dizer qual é a conduta do juiz com quem convive há anos. Com atitudes assim ficamos sabendo como funciona o Tribunal, nunca o juiz. Pelo mistério supomos os dois. Ou suspeitamos que algum segredo inapurável protege a autoridade de tantos sobrenomes e mais conhecido pelo diminutivo! Já suas vítimas o conhecem pela marca que deixa nos seus nomes. O agressor não sente a dor que provoca.&nbsp;<strong></strong></p>



<p>Muitos não se dão conta pelo fato de ser difícil encontrar alguma autoridade em nosso país disposta a refletir sobre as conexões entre pensar e agir, ser ou não ser pessoa pública.&nbsp;&nbsp;O universo pessoal da autoridade lembra um clube hípico fechado onde o cavaleiro só interessa pelo cavalo que o outro monta. Todos concordam que só perde a reputação quem quiser cair do cavalo, pois por má-fé, coice ou propina pouco se aplica. Por isso não é de agora que não existe interesse institucional em parar o erro no início.&nbsp;</p>



<p>O retraimento de uns, o silêncio de outros é a vitória da acomodação contra os inaptos, furiosos ou famintos que só pensam em vantagens.&nbsp;&nbsp;Claro que existe o caso que produz um vago mal-estar quando uma autoridade ameaça a posição do outro com seu temperamento independente, ou sua incontrolável opinião. A lógica é incorporar, desconversar e dar chance ao poder do tempo de forjar o esquecimento geral. Quando envolve delito são várias as redes de proteção, todos podem se salvar capturados pela astúcia dos que fazem bons negócios com o caos. Aqui é a erva daninha que faz a grama crescer.&nbsp;</p>



<p>O desembargador em questão&nbsp;<em>(semana passada rasga&nbsp;&nbsp;a multa&nbsp;&nbsp;que recebeu de um guarda na cidade de Santos, o ofende e oprime ligando do celular para o Secretário de Segurança pedindo a cabeça do agente</em>) é desse mesmo caldo azedo que domina o noticiário, um entrave ao progresso do Brasil, e sabe muito bem com quem está falando.&nbsp;&nbsp;Prepara mais um velório para o cadáver da justiça na casta estatal dos intocáveis.&nbsp;</p>



<p>Aliás, deveríamos perguntar porque cargas d&#8217;água é tão difícil saber como decide um juiz quando a pele do cidadão é que está em jogo. Ainda mais em país desacostumado a obter resposta para pergunta difícil. Há juízes que ligam a televisão antes escrever a sentença. Outros depois! É muito contraditória essa simbiose entre juiz e televisão combinada com o fato de não aceitarem o controle externo do judiciário. O controle remoto parecem aceitar. Meu conselho é de que retirem a libido da versão e a transfiram para a verdade do fato. Do contrário é possível supor que a situação é&nbsp;&nbsp;&nbsp;agravada por interesses conjunturais. Não pode ser magistrado quem se presta a pedir licença aos influentes de cada época.&nbsp;</p>



<p>Tal estado de coisas aumenta a raiva e a hostilidade das pessoas misturada a um desprezo pelo trabalho das autoridades. Cresce a recriminação pelo mundo exterior. Um juiz indiferente à razão&nbsp;&nbsp;provoca abatimento e auto-rebaixamento do cidadão.&nbsp;&nbsp;&nbsp;A baixa afeição pela responsabilidade do Estado, provocada pela presença ostensiva da autoridade errada na sua vida, levou o brasileiro, para se salvar, a ter que aprender a lidar bem com a rejeição a que está submetido.&nbsp;&nbsp;Vê a situação como causa perdida e mistura sentimentos ao passar a mão na cabeça do mal feito imaginado que o caráter é um mosaico onde não se vê de ninguém a imagem toda.</p>



<p>Sua indiferença só faz aumentar a frequência do poder equivocado. Uma situação profunda, inalcançável. Um estado em que ninguém é responsável pelos interesses nacionais. Em que verdade-mentira, nome-codinome, viver-morrer é a mesma coisa para o governante. Uma sociedade intrigante que leva cada um a precisar viver em seus próprios termos. Para se livrar do desconforto do assunto a pessoa justifica o erro da autoridade com a conversa de que todos são assim. Não, nem todos são assim, somente as autoridades que vivem nos termos de suas instituições complacentes.</p>



<p>Uma das coisas que mais diferencia as sociedades atuais é a transparência na ordem política e o ônus que paga a autoridade por seus atos &#8211; accountability &#8211; essencial para evitar a desestabilização das instituições. Pela má política muitos conseguem ornamentar melhor a biografia, alterar status, independente da capacidade e das restrições legais aos mecanismos de influência. No Brasil a estrutura política das instituições entra em suspensão utilitária quando se trata de punir seus membros.&nbsp;</p>



<p>Muitas famílias de autoridades se encastelaram no Estado como castas. Verdadeiros mandarinatos que estão se tornando máfias onde pais corrompem filhos com nomeações proibidas e sociedades indevidas. A amoralidade na relação com o Estado através do uso dos laços familiares pode comprometer a legitimidade das sentenças e certamente viola, junto aos tribunais, a evolução da justiça por bloquear ou restringir a participação autônoma e ação dos profissionais liberais. Quem não cala, mais sente a concorrência desleal.</p>



<p>Curiosamente as espetaculares repercussões na economia familiar não causam nenhum impacto no prestígio moral do alto funcionário. O que permite supor que não são fatores econômicos que levam tantos ilustres ao delito. O organizador do poder sem equidade são as ilusões morais de que alianças políticas absolvem e os protegem dele. É o coroamento deformado do êxito de uma mentira que a torna verdade e faz seu autor passar incólume por gerações. Pois como o Estado funciona como balsa em correnteza rio abaixo nunca cessa de atrair pessoas para o complô da incorporação à sua estrutura.</p>



<p>O círculo vicioso do compadrio predatório é o deslizamento moral que reproduz e mantém os membros da alta elite. Desiludido, o cidadão sussurra um mau vento para a democracia que é torcer por alguma conspiração que afaste más autoridades do poder. Não, o Estado não é de seus ocupantes. É a aplicação da lei que pode refazer a ordem.&nbsp;&nbsp;</p>



<p></p>



<p>Leia também nos sites do <a href="https://capitalpolitico.com/cavaleiros-do-delito/">Capital Político</a> e da <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/cavaleiros-do-delito-por-paulo-delgado/">Revista Veja</a>.</p>
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		<title>O EFEITO BUMERANGUE DA REELEIÇÃO &#8211; Reavaliando a Ignorância</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Aug 2020 19:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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<p><em>Capital Político &#8211; 16 de Agosto de 2020</em></p>



<p><strong>O</strong> pobre é aquele desamparado ser humano que mais transfere seu poder ao político. As maquinações que a política faz com seus sentimentos são dramáticas. Seu maior inimigo no Brasil é a reeleição. Originária da década de 1990 como o Plano Real, se este mirou longe como um telescópio, a reeleição é sombria como um microscópio. Cada vez que alguém se reelege, tudo piora. </p>



<p>Como agora já se diz que depois de injetar 1.3 trilhões na economia por canais errados, sem sinais de melhora da economia&nbsp;&nbsp;( o Banco Central continua ruim de mira ao preferir inundar de crédito mais os bancos do que o tesouro ) e enterrar mais de 100 mil eleitores em 5 meses, conta com a reeleição para fazer pior por mais quatro anos. Outra vez age a providência maligna.</p>



<p>Sustentada pela preguiça de nossos costumes, a reeleição esgotou todas as possibilidades de a política pretender servir ao bem comum por meios melhores. E fantasiosamente transformou pesquisa de opinião, em qualquer época, em fator de reeleição. Porque é tal a super cobertura do fenômeno que qualquer situação inelegível é incluída na análise. Fabrique o exótico, amplie o familiar. O conjuntural virou estrutural e o oportunismo das coalizões virou jogada de mestre escondendo a corrupção de costumes debaixo da cooptação eleitoral do governante no poder.</p>



<p>As consequências metodológicas disso nas ciências sociais e políticas foram terríveis. Acertar o que vai acontecer passou a devorar qualquer análise de fatos e realidade. E a imagem que os institutos de pesquisa passaram a ter de si mesmo passou a ser a de ator político reduzindo tudo a explicação psicológica e fatores de ordem pessoal. Reeleição então é um conjunto aquiescente de respostas de entrevistados não querendo decepcionar entrevistadores para fixar o valor apurado do eleitor. Pura e facciosa especulação.</p>



<p>O fato sucessório, como única experiência comum que interessa à análise política, introduziu um erro padrão no acompanhamento da gestão governamental que é analisar o desempenho do executivo pelo viés eleitoral. Como se bom para o país fosse o sujeito que já quer ter outro filho e ainda não foi capaz de criar bem o que já tem.</p>



<p>Reeleição é regra artificial cuja importância é a autoimportância que a política se dá, um esteio que se sobrepõe a todos os outros. Interessa mais à economia da política do que aos seus resultados.&nbsp;&nbsp;Seu equivoco preferido foi ter nascido como ênfase na pessoa, um viés pessoal do governante que não é um aspecto essencial da história ou da genética brasileira. O modelo consolidou-se como uma conveniente deficiência imposta ao país por grupo político inábil para conduzir sua sucessão e logo entrelaçou todas as nossas outras deficiências.&nbsp;</p>



<p>O princípio nasceu como expediente privado e se mantém com sua natureza de erro, um reino objetivo de atraso, comodidade e corrupção de costumes e valores governamentais. O que se obtém de bom com a reeleição? Para o país, nada. Pois com sua ética da continuidade a reeleição não permite que nada aconteça fora dos seus limites e como regra de sacrifício não deixa que o país saia do lugar.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Instituída por emenda constitucional em junho de 1997 com a desculpa de proteger o Plano Real (em vigor desde julho 1994) dos seus adversários se tornou uma religião cuspindo regras de donos do poder, razão da agonia e morte da prosperidade econômica. Vendo assim a reeleição funcionou como um antídoto contra a economia liberal. Uma conspiração política do governo que criou o real contra a lógica do real.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Assim, o plano econômico impulsionador do processo histórico de independência para todo o povo foi trocado pela criação e desenvolvimento de uma comunidade política baseada na solidariedade corporativa (fisiologismo, base do governo, centrão) que bloqueou o diálogo livre entre o Estado e a Sociedade.</p>



<p>A reeleição resolveu para o patrimonialismo brasileiro uma contradição histórica do país: o Estado conseguiu finalmente centralizar, pela via política, seu caráter disperso e de grupos. A política feudal dos partidos passou a dirigir o setor da economia tradicional, dependente do Estado. Todos os três presidentes que se beneficiaram da reeleição fizeram campanhas economicamente absurdas para se reelegerem e um segundo governo desastroso para suas biografias, o orçamento da União e o horizonte do país. Estão aí as consequências desse acúmulo de erros.&nbsp;&nbsp;É ela que quebra o Estado, desencoraja a sociedade para a autonomia e induz o eleitor à hipocrisia. Quando a elite é tão sem juízo não adianta pedir ao povo para ser melhor.&nbsp;</p>



<p>Contraditoriamente, subproduto de um plano econômico idealista, técnica e materialmente sustentado, aceito e compreendido, a reeleição foi usada como um freio político para remediar arranjos circunstanciais de interesse de grupos, vetar a circulação de líderes e dar segurança de vitória eleitoral antecipada. Até hoje este é o seu motor de arranque, a sua única razão de ser.</p>



<p>O Plano Real, com a autoridade cívica e profissional de sua brilhante equipe de formuladores, era um pensamento e uma ordem econômica para transformar brasileiros em cidadãos.&nbsp;&nbsp;O princípio da reeleição foi acoplado a ele como um contrapensamento de desordem, uma regra de solidariedade interna de grupos políticos e comodidade governamental responsável por desfazer os sonhos do cidadão e o reduzir a suas necessidades imediatas.&nbsp;</p>



<p>É infalível, quem mais paga tributo à reeleição é a verdade e a estabilidade econômica e o progresso do país. E a coisa é feita ardilosamente pondo a culpa na pobreza e desigualdade social. Porque desde então a principal desculpa para rejeitar qualquer regra de austeridade ou responsabilidade fiscal do Estado é a necessidade de atender emergencialmente os eleitores pobres. O velho laço entre a ambição e a inércia. Uma dualidade ilógica: a reverência aos pobres anunciada como irreverência ao que poderia retirá-los da pobreza que é a boa e previsível ordem econômica do país.&nbsp;</p>



<p>Mergulhe fundo na alma dos dois personagens, o candidato e o eleitor e assim então se compreende: qualquer mudança significativa na vida de um não depende de esforços humanos e boas e estáveis regras socioeconômicas, mas de ser dócil, crédulo e obediente ao outro.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A reeleição congela na cabeça do povo o modo moderno de mudar de vida. A política, e sua inclinação contra a riqueza legal e legítima, tomou a direção oposta da estabilidade econômica, a única maneira de acabar com a pobreza que se tornou o combustível da má democracia eleitoral que praticamos.</p>



<p>Pensar, isolada e emocionalmente, em qualquer política distributivista de benefícios sociais compensatórios sem enfrentar a necessidade de abolir a reeleição é blefar com os fatos. A única saída é passar a ver valor na população e refazer para 5 anos o tempo de um único mandato. E então derrubar a cerca do curral eleitoral que é a reeleição para que as ideias circulem e o país tenha acesso a outra realidade política. Evitar o tema é não querer reduzir as repugnantes influencias da reeleição na manutenção da pobreza confirmando a negligência e a hipocrisia da política diante das ideias igualitárias.</p>



<p>A estabilidade econômica favorece o impulso para a independência, a reeleição consolida o costume de depender.&nbsp;&nbsp;Ela dissolve os antagonismos de opinião, endossa o despotismo dos braços fortes do Estado, favorece o dirigismo moral contra os que estão em desvantagem na Sociedade.&nbsp;</p>



<p>A tirania da reeleição é um moinho triturador da mobilidade social e do rejuvenescimento das práticas políticas. Uma pilha de pedras para contenção da mudança erguida pelos políticos para seus próprios fins. Grosseira e ordinariamente fisiológica a reeleição impôs ao país tal apatia moral que não nos permite reavaliar a ignorância que tal princípio propaga.</p>



<p></p>



<p>Leia também no site da <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/o-efeito-bumerangue-da-reeleicao-por-paulo-delgado/">Revista Veja</a>.</p>
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		<title>POLÍTICAS SOCIAIS, ESPERANÇAS PERDIDAS &#8211; Ensaio sobre o uso político do pobre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2020 02:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Ideias]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capital Político &#8211; 13 de setembro de 2020. Patrono: comumente um infeliz que apoia com insolência e é pago com bajulação. Samuel Johnson, Um Dicionário da<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Capital Político &#8211; 13 de setembro de 2020.</em></p>



<p><strong><em>Patrono: comumente um infeliz que apoia com insolência e é pago com bajulação. Samuel Johnson, Um Dicionário da Língua Inglesa, 1775.</em></strong></p>



<p><strong><em>Mas doutor uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Vozes da Seca, 1963.</em></strong></p>



<p class="has-text-align-center"><em><strong>É o governo que mantém o pobre fraco.</strong></em></p>



<p><strong>N</strong>ão sei se existe alguém que acredite que o pobre seja pobre voluntariamente e quem não veja que a pobreza é também um negócio explorado como riqueza. Quem é religioso se tranquilize: o mal manifesto da vida não está em contradição com a bondade de Deus. O fato de ser irrespondível dizer o que é viver bem para todas as pessoas não é defeito humano. Nem em família se consegue tal proeza. O certo é que a fé é um mistério, a esperança um ruído, o desejo promessa.&nbsp;&nbsp;E tudo o que acontece tem explicação e para mudar precisa deixar de acontecer.&nbsp;&nbsp;A opinião que expresso é na verdade súplica para que &#8220;a pesada couraça (da pobreza) ganhe asas, que seja curta a dor e eterna a alegria&#8221;.&nbsp;</p>



<p>Uma forma de ver as coisas é pensar que se não for para ter atenção às mudanças da realidade e honrar princípios de solidariedade e sustentabilidade de programas não há necessidade de governo. Progredir é uma razão cultivada que floresce se estiver enraizada em compromissos com princípios de justiça e instrução constante. Sem noção de liberdade e autoridade ninguém melhora verdadeiramente. Também é fato que Políticas Sociais não têm sido assim tão boas para os pobres. Políticas Sociais impulsionadas por maus costumes mantêm a sociedade imperfeita e são boas para governantes imediatistas. Em certo sentido melhor pensar que é um consolo para a má consciência da autoridade.</p>



<p>O progresso não deve ter a pretensão de resolver todas as angústias humanas, mas cabe ao sistema público e quem se dedica institucionalmente a ajudar, lembrar e informar às pessoas sobre as possibilidades contidas no desenvolvimento social, cultural, técnico e econômico. Pois mesmo sendo a mente humana auto-bajulatória e com tendência de dar crédito ao que quer, especialmente ao que a gratifica no nível da sua necessidade e compreensão, todas as pessoas, e especialmente o governo, poderiam ser mais úteis do que conseguem ser.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A ideia da vulnerabilidade deveria derrubar governos que se comportam com a virtude obliqua de converter necessidade social em dependência política, pois tal procedimento é um freio no entusiasmo de progredir. É o governo que mantém o pobre fraco.</p>



<p>Não é fácil ajudar tendo que estar atento à individualidade de cada um e não vendo indignidade na necessidade de muitos.&nbsp;&nbsp;Em virtude disso deve-se rejeitar qualquer intenção que pretenda impor alteração na personalidade de uma pessoa livre. Especialmente sabendo que selecionar alguém para proteger unilateralmente pode provocar abalo na alienação, otimismo ou certezas fáceis gerando ilusões, desconfiança e antipatia.&nbsp;&nbsp;Sonhar, pensar, respeitar, fazer e prosperar são companhias essenciais do ajudar, seja pelo impulso da compaixão e da solidariedade, como filantropia, ou pela determinação legal, como direito.</p>



<p>Quem só recebe usufrui sem precisar desejar. O povo não está no centro do ringue e, desconfiado, põe suas mazelas em perspectiva. Como não busca nada além do que tem sente que a glória é um enigma do mundo e a honestidade uma piada considerando os preceitos morais mínimos de um Estado Democrático de Direito. Seu caráter vem do cimento endurecido pela vida. Se alguém lhe oferece algo inesperado e aceita, não vê nenhuma necessidade de justificação ou compromisso. Sabe que são passagens secretas que a raça dos governantes usa para depositar seus tesouros de popularidade. Se não aponta para a reestruturação da sociedade não serve para assegurar o rompimento de limites dos selecionados, por mais que existam teorias e obras publicadas sobre o tema.&nbsp;</p>



<p>A magia do conceito de inclusão social se desgastou pela limitada perspectiva cultural e humanista da política pública. O tema se tornou tão mal trabalhado que passou a funcionar errado sozinho.&nbsp;&nbsp;A grande confusão assume ares de verdade quando a ação governamental é apurada pelo ritual das pesquisas sobre o sentimento popular para fins de análise de conjuntura política. Sem paciência para a rotina histórica de manipulação, se põe diante de um assistido e submete sua alma a escrutínio de natureza política, como se a política fosse tudo.&nbsp;</p>



<p>Todos sabem de antemão que quando o Estado faz assistencialismo não alarga horizontes. Faz corretagem política, uma pratica clientelista histórica e impune. Como ocorre agora em que, outra vez, mudam-se nomes de programas e volta-se a rotina dos eventos de gratificação, com presidentes sorrindo e crianças oferecidas por seus pais ao abraço impessoal nas cerimônias mais importantes do que as virtudes. Famílias crédulas imaginam que nunca se elevarão acima de sua condição.</p>



<p>O pobre sabe que para ser escolhido na nova lista é preciso apagar a memória da esperança desfeita. E assim parecer um número novo, encontrar honra no costume de ser outra vez encontrado, sem ser respeitado.&nbsp;</p>



<p>O que talvez nem todos percebam é que a sociedade também é usada nas sondagens quando a pesquisa de opinião descreve a foto do momento e se arrisca a projetar o futuro.&nbsp;</p>



<p>Sem revelar o filme da vida a pesquisa torna-se propaganda, o tempero que faltava na inclemência do poder quando busca autopreservação. Mas há sutilezas em não captar o desejo do entrevistado em voar além da sua fronteira, negligenciar seu desejo. A ironia da situação é que os índices apurados, um fato, se misturam com a propensão a inclinações interessadas na divulgação dos resultados, o boato. Os negligenciados bias &#8211; preconceitos &#8211; emergem como a mesma coisa &#8211; fato/boato &#8211; no mundo atual da notícia falsa. O que querem é se propagar.&nbsp;&nbsp;E é bom ficar atento à vivacidade do beneficiado pelo auxílio. Ele também usa o pesquisador para dizer ao governo que aceita a bondade da ajuda circunstancial e usa a pesquisa para pagar com bajulação eleitoral.<strong><em></em></strong></p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>Dinheiro não ajuda a quem é desobrigado de crescer.</em></strong></p>



<p>Nesse carrossel de costumes hipócritas outros programas virão e o pobre aguarda algum que o ajude a conhecer a arte de viver por conta própria.&nbsp;&nbsp;&nbsp;Enfim, sem perceber que é parte da dança geral a avaliação de programas usa a opinião do pobre como força do governo. Ela não revela o futuro do beneficiado, sua função é fazer com que o presente se ramifique. Quem se amarra a ela nem sente nem vê o que de fato ocorre.</p>



<p>Regras eleitorais de elegibilidade dos assistidos predominam sobre as regras constitucionais. Recursos discricionários de livre alocação, ou leis partidárias para clientelas, é o nome da pasta que abriga suas verbas nos escaninhos da fazenda pública e do parlamento.</p>



<p>No sistema internacional, através do patrocínio do Banco Mundial, a última síntese dos estudos diversos sobre a renda básica universal &#8211; UBI-&nbsp;<em>Universal Basic Income</em>&nbsp;&#8211; contém uma confissão, em linguagem às vezes inadequada, de um dos fatores do fracasso na eliminação de estigmas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como o inglês é uma língua que funciona sozinha e o World Bank é um banco pronto à competição na faixa do mercado que elegeu, com todos os objetivos conjunturais de seus similares, vamos considerar irrelevante associar a entrega incondicional de dinheiro para todos a neurotransmissores ligados à vontade de comer. A analogia está lá com sabor de antropofagia.&nbsp;</p>



<p>Dito isso é possível ler algumas vezes no texto que a renda universal é uma oferta crocante e tangível para satisfazer o apetite por mudança e justiça social. Isto é, o hormônio monetário como regulador da igualdade. Ou seja, o mundo, para banqueiros sociais, visto pela ótica digestiva, é prisioneiro de processos metabólicos e a influência de estímulos parecidos aos psicogastrointestinais nas decisões políticas é humana, demasiadamente humana. O mérito da ideia é sintetizado no fato de dispensar a elegibilidade para contornar erros de exclusão ou inclusão próprios de direcionamentos baseados em necessidades. A cobertura universal cobre o erro de aplicação e outras distorções. Sintetizando: vamos dar dinheiro para todos porque o Estado não consegue digerir bem o trato especial das carências das pessoas em desvantagem.</p>



<p>É possível observar a relevância do tema desde os anos 1960 quando mais de mil economistas e centenas de universidades lançaram um manifesto sobre a renda anual garantida. Além de ser possível listar mais de uma dezena de prêmios Nobel, da Economia e da Paz, tratarem da questão antes e depois de serem laureados.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A questão central permanece. Por comodidade política governos não querem atacar a desigualdade e a concentração de renda do país, uma das maiores do mundo. Este continua um campo para estudos e entrevistas acadêmicas de gente de boa índole. Querem é fluir num simpático movimento uniforme de ajuda descompromissada e manter a ineficácia que é não criar oportunidades ou incentivar as que aparecem entre as populações de baixa renda. É um contrassenso falar em distribuir recursos para carentes sem enfrentar a questão da concentração de renda que os mantém parados. Dar dinheiro torna tudo menos discernível e simples e encobre a malícia que é não mudar o comportamento manipulatório e alienado intrínseco às políticas governamentais.</p>



<p>Continua tudo estático, que é não perguntar ao necessitado sobre o que sabe ou que pensa fazer da vida. Como vê o prazer ou desprazer, tristeza ou felicidade, sonho, capacidade e subjetividade.&nbsp;&nbsp;Assim suportado, sem ter como partilhar os seus perigos e traumas, visto como quem não tem desejos a suprir, sem chão para anseios expressos, não é dado por infeliz. E o gozo de ofertar, que mantém acessa a gula da má política, aumenta nele a aflição por ter que logo agradecer, mesmo não tendo nada para comemorar se fosse considerado livre.</p>



<p>Esse tipo de política não deixa o pobre voar além de sua fronteira quando negligencia sua virtude e desejo pessoal. Por mais que queiram chamar de outra coisa, ofender quem critica dizendo que é porque não precisa, dizer que seu alcance muda a vida de uma pessoa carente na sociedade, etc, podemos dizer que não se trata de um fator real de mudança pois não assegura mobilidade social, nem produz&nbsp;&nbsp;circulação de classe. É ofertado como auxílio, espórtula, não é política social.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Um fundo permanente captado sobre recursos naturais</strong></p>



<p>De tanto tentar contornar as dificuldades de testar os incentivos surgiram tantas as possibilidades de dar cidadania econômica aos pobres que resumir todas em um único cheque somente serve para acirrar a competição por cadastros bancários e facilitar as coisas para quem não quer resolver a questão da disparidade social.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Alguns caminhos já testados com sucesso, com fins não governamentais ou lucrativos, são as iniciativas de natureza pública, social e coletiva de organizações voluntárias da sociedade civil &#8211; entidades filantrópicas, ongs, organizações privadas, fundações, arbitragens, condomínios, conciliações &#8211; vistas como concorrentes, e não parceiras, pela área tributária de governos com o conhecimento imperfeito do que as pessoas precisam&nbsp;&nbsp;e merecem. O terceiro setor no Brasil é esmagado pela conspiração dos outros dois, o Estado e o Mercado.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Outros caminhos podem surgir. Por exemplo, financiar por ativos públicos um fundo permanente para os necessitados, investido em ações e captado sobre recursos naturais da união pertencentes ao povo parece mais adequado do que aumentar o imposto de renda ou sacar a descoberto do tesouro. Tributar a inteligência artificial a partir de estágios elevados, definir sua responsabilidade social em relação aos seus parceiros, ou parar de elogiar o emprego como forma de sobreviver. Ações de transferência real de renda devem incluir acesso universal a serviços essenciais de escola e saúde, proteção integral na primeira infância, expectativa concreta de trabalho, cidadania patrimonial com a segurança de ter pelo menos uma casa, acesso a alguma forma de seguro, desoneração tributária por solidariedade social, economia e moeda social, etc.</p>



<p>São inúmeros caminhos que parecem um desincentivo para os governantes pararem de falar de renda única em todos os países e bolsa-dinheiro como milagre.</p>



<p>Como o despontamento é certo para os que sofrem com a esperança perdida, o assistido deixa a miséria trabalhar para a acomodação sem vislumbrar caminhos para honras maiores. Esquecido em seu canto tem poucas chances de ver sua imaginação despertar sua habilidade. Como ninguém lhe oferece resistência respeitosa que possa estimular seu impulso para ultrapassar os obstáculos pelo esforço próprio e o conhecimento, não conhece verdadeiro ponto de apoio para sua impulsão. O que imaginam que ele é, desconhecendo o que ele sabe, se fixa nele como uma natureza de dependente e, então, seu horizonte é a terra para andar ou rastejar. Os homens, diferente das aves e dos peixes, que o fazem naturalmente, nascem para aprender a voar e a nadar.</p>



<p>E assim vivendo a vida em tão baixa altura passam a errada impressão de que não temem e nem se importam de descer mais ainda. Como nunca lhe perguntaram por seus sonhos todas as objeções a expressá-los são lhe atiradas primeiro como um árduo caminho para atingi-los. Só que ele sabe que para superar a realidade da sua vida ao mesmo tempo que tenta se elevar acima dela as coisas seriam facilitadas se fosse apresentado aos estímulos dentro da perspectiva de voar sobre seu mundo. A energia que a oferta em forma de dinheiro tira dele não lhe serve por mais que um dia e é melhor aproveitada pelo que a oferecia. A força que se tira disso é o contraste entre um destino que não se queixa de não subir, servir de ponto de apoio a um provedor que usa o benefício como alavanca para não cair. Uma equação de um Arquimedes inconveniente.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>O fisiologismo é uma doutrina que se opõe á liberdade</em></strong></p>



<p>As Políticas Sociais mais uma vez lhe mostravam seu lugar e como seria inconveniente ser esperado no mundo dos que o ajudavam. Reduzir a pessoa a uma parte pequena das suas necessidades primárias é uma forma de reconhecer como é difícil admitir as que nascem das alturas da fantasia e do desejo. Se é para manter à distância do prazer do conhecimento e do orgulho da inteligência, pela influência de quem não consegue relativizar o poder do dinheiro como da vida o maior propósito, é difícil ver com simpatia a grosseira concepção de ajuda que possuem os governantes.&nbsp;&nbsp;Sem lhes oferecer outra coisa capaz de dobrar o conhecimento e a habilidade para sobreviver só resta ao ajudado renovar a cada parcela recebida sua subordinação a um benfeitor de perspectivas tão limitadas.</p>



<p>Sem poder aquilo renunciar, ou estabelecer alguma forma de troca, ele sente o peso da certeza de quem não consegue nunca quebrar a regra do equilíbrio desigual entre as chances do doador e a sua como beneficiário. Assim, a política social é um destino que o obriga a continuar pobre. Pois como nada da sua vida é usado em seu benefício a rusticidade dos critérios informam para ele o feitio irregular da sua realidade. Regras gerais de justiça que garantam sua liberdade de horizonte e participação social não são oferecidas. Na forma como são feitas são ofertas de submissão.&nbsp;&nbsp;Sua consequência política é a popularidade provisória do patrono público. Popularidade fisiológica, alcançada por iniquidade.</p>



<p>O fisiologismo é uma doutrina que se opõe à liberdade. Sua base é a lógica do desentendimento entre necessidade e benefício. Não produz nenhuma aquisição racional e o bem que faz é ilusório para o beneficiado por ver sua necessidade se converter em força política do benfeitor. É impossível contrabalançar esse poder irregular da autoridade com os princípios da justiça e da democracia. Patrocinada pelo governo é mais um vício do que uma virtude.&nbsp;</p>



<p>Até no uso das palavras para dar nome aos programas existe um ardil.&nbsp;&nbsp;Se ontem reduziu o indivíduo à unidade mínima do estado social que é a família abandonando-o à própria sorte diante de outras instituições, hoje quer associá-lo à pátria como um slogan.&nbsp;&nbsp;Qualquer criança sente que é falso. No fundo o que se consegue é moldar uma sociedade de direitos precários para cidadãos tratados como simplórios. Nossa configuração institucional e a vida social injusta que dela decorre permanece intocada.</p>



<p>Sem romper com essa reconstituição permanente do passado clientelista e autoritário, onde a devoção é mais forte do que a razão, os eventos que estão por vir, independente das circunstâncias com que foram eleitos os governantes, serão moldados por essa lei de ferro da oligarquia política. As forças culturais que determinam esse atraso funcionam à revelia da vontade expressa nas eleições. Porque, se existem campanhas por mudança e delas surgem governantes populares não é por terem feito algo notável, mas por terem se deixado moldar pelas circunstâncias e com isso as reforçaram.&nbsp;</p>



<p>Enquanto a cerimônia em torno do discurso político pessoal for mais importante do a virtude pública refletida em contratos estáveis e formais de compromisso e responsabilidade social a forma clientelista de tratar os pobres permanecerá a disposição de cada um que se eleger. Quando o clientelismo só for encontrado em antiquários talvez possamos falar em verdadeira política social.</p>



<p>A uniformidade da ajuda emergencial, a máquina viciada da verba humanitária, somente permite olhar de novo o que já se conhecia.&nbsp;&nbsp;A mesma lógica que leva ajuda desse tipo não consegue levar prosperidade, oportunidade e conhecimento pois o que a justifica está baseado na ignorância da política sobre os sentimentos dos que escolhe para receber.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>As políticas sociais públicas podem ser peregrinações supersticiosas, opressivas ou razoáveis sobre a vida em sociedade, mas nunca devem ser consideradas libertadoras. A vida se regula melhor com a justiça e o compartilhamento de responsabilidade de membros livres da sociedade. Ver o Estado imaginar que ajuda alguém unilateralmente quando continua a pessoa na mesma condição que a oprime é dar à privação pessoal a ideia de destino de uma alma imóvel.&nbsp;</p>



<p>Preservar o tempo da assimetria que separa capital do trabalho, servo de senhor, patrão de empregado sinaliza a continuidade da decadência política e da negligência igualitária. As pessoas são melhores vistas como elos de programas, projetos e negócios, sócios ou parceiros da criatividade produtiva e não partes subjugadas de processos históricos, sociais e produtivos arcaicos, subordinativos e concentradores.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>A compaixão humana não deve ser estatizada</strong></p>



<p>Ao Estado deveria ser desestimulado fazer política social. Somente a sociedade deve ser recompensada por mudar o destino dos que sofrem e seríamos mais justos e felizes se ações coletivas removessem a inconveniência humana que é existir pessoas sem saída. Quem ajudasse alguém a avançar nos seus sonhos deveria pagar menos tributos ao Estado e com a desestatização da compaixão humana pontes menos dispendiosas, cooperativas, empregadoras, comunitárias, produtivas, inovadoras, seriam lançadas nas mais diversas direções.&nbsp;&nbsp;&nbsp;E suavemente na reciprocidade, proteção, cuidado, estímulo e reverência pessoal, a gratidão pela mobilidade social não precisaria ser convertida em opressão por lealdade ao molestador político da pobreza.&nbsp;</p>



<p>Afinal manter a pobreza é uma forma de fazer o pobre só pensar no que lhe falta, não no que tem e nunca foi usado. Uma boa ação é aquela que envolve toda a sociedade produzindo o bem que atinge todas as suas partes.</p>



<p>O amor ao conhecimento é mais sincero sem a obrigatoriedade de estar de acordo com programas políticos. Especialmente hoje na sociedade de redes e vaidades vazias. As instituições da sociedade não são contaminadas por campanhas eleitorais por ganhos de popularidade e a pressão pela estabilidade das gratificações que concede a seus membros, como faz parte da vida no Estado. A cada direito adquirido corresponde um novo departamento, carreira, custos como se fosse normal essa espécie de sociedade que só consegue se preocupar com a vida humana quando há uma lei que a obriga a isso.&nbsp;</p>



<p>O desejo de ajudar não deve ser misturado ao desejo de ser observado. E a política não ajuda muito quando, para ser admirada, quer estar de acordo, ser popular, fazer-se aparecer. Seu mundo homogêneo e imerso na coabitação partidária vislumbrou o pobre como um protótipo para o engajamento e proteção sem fim. Pois como o vê de sua clausura institucional estatal é impossível combinar com alguma outra solidão existencial criativa, o desapego altruísta, capaz de expandir a perspectiva do que seja bondade humana. Perspectiva que alerte aos formuladores de política social para a ligação e a conexão entre todas as coisas, construindo um método de ver e agir sustentado pela reflexão igualitária que conduza à mudança da prática e do costume. Amparado por uma bondade realista e pragmática que combine visão e ação. E saiba prever sua desnecessidade ao longo do tempo pelo alcance do objetivo que é a plena liberdade e autonomia do cidadão. </p>



<p>Só quem se vê parte da mesma parte, sem demagogia ou preconceito, pode entender o olimpo dos esquecidos. Depois que a popularidade se tornou vulgaridade ficou pior. Pois a política fincou pé na receita e não na parceria, na necessidade, mais compreensível do que o direito. E focou seu papel na proteção, menos complexa do que o estímulo à produção, estudo ou trabalho. Pensada assim de forma tão circunstancial não foi difícil acionar a esperteza de cada governo em cada época e o pobre passou a ser alistado à força para o exército dos dependentes do governante.</p>



<p>A política como profissão não exala a mesma gratificação do que é feito na sociedade como vocação, o prazer e a responsabilidade que instituições civis sentem por acrescentar algo a vida do outro. Há necessidade de introduzir formas de autocontrole, vigilância e transparência que possam deter a maldade humana que se infiltra em todos os meios. E fazer o mal não se sentir à vontade entre os que fazem o bem respondendo pelas consequências do que apronta. A desonestidade civil opera por clãs, seitas e máfias mais fáceis de identificar do que seus rivais poderosos que atuam nas instituições públicas que se auto protegem, sabotam, intrigam e se reproduzem.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Assim, dependente do Estado, sem ser funcionário dele, nenhum cidadão está completamente livre.&nbsp;</p>



<p>Por isso seu interesse em oferecer a multidões, governo a governo, a admissão ao cativeiro da ajuda pública, ofertado ostensivamente, como quem humilha o outro com sua piedade. Quem não deixa de lado sua submissão não tem nenhuma chance de desfrutar das vantagens que a liberdade e a cortesia podem fornecer. Concebida com a contundência dos argumentos teóricos, as leis muitas vezes são rudes, pretenciosas e ignorantes quando dão valor exagerado ao poder do dinheiro. A reação à essa simplificação é outro equívoco que produz nos seus opositores místicos e sonhadores a ilusão de encontrar realização na vida rústica e na simplicidade pastoral das pequenas comunidades rurais.&nbsp;&nbsp;Dois exageros que impedem ao país encontrar na verdade, progresso e na razão o caminho para o conhecimento que diminua a vulnerabilidade, sinalize para a mobilidade e permita, aí sim, se falar de inclusão social ou ação afirmativa transformadora.</p>



<p>Como o tempo dedicado aos seus problemas e dificuldades não se constitui num tempo de estabilidade, capaz de mudar suas vidas a relação com seus benfeitores, não se transforma em criatividade e confiança. Entra um, sai outro, cada um a seu tempo e estilo, e vendo assim favores tão incertos, ninguém os persuade de que aqueles benfeitores eram aliados defensores de uma vida melhor para eles. Cada um cumpre seu destino sem considerar o que sua vida possa valer para o outro. Civilização e barbárie correspondem um ao outro.</p>



<p class="has-text-align-center">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp;É essencial avaliação e controle de sua efetividade&nbsp;</strong></p>



<p>Cada mês o prazer da novidade os surpreendia e agradecidos, sem entusiasmo, mas bem recebidos, alavancavam o varejo local e logo voltava à rotina a prevalecer sobre suas vidas. Já faz parte da mitologia da pobreza os estudos sobre o impacto econômico dos auxílios e, lateralmente, a conexão entre sistema de representação partidária e o padrão nacional de cooptação política. Nada parecido com um sistema de representação de interesses e participação capaz de formar comunidades políticas típicas de um Estado moderno.</p>



<p>Os mais sagazes não se envergonhavam do vício de receber suspeitando que a oferta não fosse resultado da virtude do Estado, mas do seu ressentimento por não poder tributar a pobreza. A contribuição é como um imposto às avessas para justificar a criação de outro e que servia de distração. Para ilustrar o argumento de que era destinado a quem já tinha perdido tanto e escapado de ganhar algum pouco.&nbsp;</p>



<p>A política social, comparada aos benefícios concedidos pela administração pública à riqueza em termos de urbanismo, saneamento, transporte, segurança, poluição, iluminação, etc, não se constitui em vantagens distribuídas à pobreza. É mais o retrato miserável de um Estado de bem estar social aparente. De fato, seu papel é cooperar para manter a tendência geral do sistema injusto da vida em sociedade governada pelas leis da subordinação e da dependência das classes sociais consideradas não competitivas.</p>



<p>Esqueça pistas analíticas, hipóteses exploratórias, papel histórico das instituições, patrimonialismo, impacto no comercio, altas teses, coeficiente de Gini.&nbsp;&nbsp;Deixe o espírito voar, a subjetividade penetrar seu interesse e despertar sua curiosidade. Confronte no tempo às imagens deslumbrantes da alegria popular na presença dos governantes anunciando benefícios. Qualquer um. Fixe nas pessoas exaltadas da frente, ou nas mais emocionadas lá de trás. Clique na criança abraçada. Volte ao local e as procure. Encontrará os mesmos lugares, alguns mais degradados, pessoas outra vez sem nenhum valor, decepcionantes na alegria, compondo a realidade patética da vida sem hóspedes regulares e visitas respeitosas do mundo oficial. É pela pesquisa etnográfica, a fotografia e a antropologia que se deve observar o comportamento do governo nas áreas assistidas e perceber o verdadeiro alcance das políticas sociais.</p>



<p>Intervenção estatal, oferta pública, parcerias são formas clássicas de impulsionar a produção e reprodução do ambiente social para transformá-los em indicadores estatísticos de melhoria. Muitas vezes não passam de serviços ofertados pela intermediação política e seu desmascaramento dura um período de governo. Nos três casos os critérios de concessão são pouco pressionados por monitoramento, avaliação e controle de sua efetividade. Como não envolve o controle popular podem ser ameaçados somente por reclamação, mas nada suficiente que evite se misturarem facilmente a demagogia, desperdício ou fraude.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Em todos os casos de erros prevalece o equívoco principal que é confundir política pública com meta governamental e desvincular política social de desenvolvimento humano integral. As políticas sociais são pragmáticas, imediatistas e visam abastecer o governo de um repertório de informações positivas necessárias ao jogo político. O ar de contentamento que exala dos estudos oficiais sobre a questão compensa a pouca emoção que tais investimentos produzem na história de seus beneficiários.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O arranjo corporativo do Estado que sustenta a cultura política e a estrutura social da realidade brasileira encontra nas políticas sociais mais um lugar para se infiltrar. Nada parecido com a evolução de teorias de justiça e de direitos em gerações crescentes de autonomia, independência e autorrealização.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Muitas vezes afetos diminuem a autoridade e a capacidade de análise. Mas o que põe a negligência e o desânimo à vontade é o governante não se colocar no lugar dos que sofrem e, por filosofia, comodidade ou seguro de que não vai arcar com nenhuma consequência do que faz, tratá-los como multidão sem saída. Pois uma vez feita a oferta a única coisa que resta é acreditar nela. Nenhuma dessas políticas, na forma que são pensadas e executadas, permite ao pobre deixar de pensar que a sua condição é a condição da vida.&nbsp;</p>



<p>Quem do outro preenche o dia como se do calendário alheio não tivesse qualquer uso o torna infantil, vicioso ou com senso de alguma inferioridade. A maneira de satisfazer um desejo pode trair a esperança.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Da mercadoria política ao destino econômico precário</strong></p>



<p>Nenhum governo deveria poder ser capaz de fazer da necessidade de alguém um jeito de enganá-la. A exploração da miséria é a maior das vulgaridades.</p>



<p>É difícil avaliar a sinceridade de uma política social que não exalta as qualidades pessoais de cada um que beneficia. Assim se explica que servindo para excitar o poder e o orgulho do governo não gera gratidão estável. A distribuição descuidada de dinheiro do orçamento público é daquele tipo de favor que os insensíveis conferem a quem desprezam. Não é direito, não contém nem regularidade nem esperança.&nbsp;</p>



<p>As políticas sociais como não estando lastreadas na integridade das decisões sólidas e partilhadas com todos, não estimulam o conhecimento das possibilidades econômicas e de segurança pessoal e psicológica da vida solidária.&nbsp;&nbsp;Para a realidade dos beneficiados não possuem as qualidades requeridas para a confiança no Estado.</p>



<p>A benevolência do governante conta para seu sucesso com a disponibilidade inevitável como é tratada a pessoa na miséria. A política social confina o pobre à sua região particular e libera o benefício sem lhe conferir a plenitude da luz que ilumina seu caminho e poderia dilatar o seu futuro.</p>



<p>O Brasil perdeu a novidade. Quem olha em redor só vê o que já viu um dia. O clientelismo, como conhecimento imperfeito do que é um cidadão, é um caminho sem objetivo. Por não cultivar a arte do respeito é o governo que mantem o pobre fraco. Ambos sem horizonte cultural, respaldo jurídico ou eficácia econômica. Tratado como um sem opinião, e como matéria prima do fluxo de poder individual do governante, o pobre continua mercadoria cativa da vida política e social injusta, razão de seu destino econômico precário.&nbsp;</p>



<p>Leia também no <a href="https://capitalpolitico.com/politicas-sociais-esperancas-perdidas/">Capital Político</a> e na <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/politicas-sociais-esperancas-perdidas-por-paulo-delgado/">Revista Veja</a>.</p>
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		<title>5G: TECNOLOGIA E PRIVACIDADE.                       A Humanidade em um chip.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2020 03:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Capital Político]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Capital Político &#8211; 27 de Setembro de 2020. Ninguém se liberta de um hábito sem fazê-lo descer a escada, degrau por degrau. (Mark Twain) &#160;&#160;&#160;&#160;O atraso<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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<p><em>Capital Político &#8211; 27 de Setembro de 2020.</em></p>



<p><em>Ninguém se liberta de um hábito sem fazê-lo descer a escada, degrau por degrau. (Mark Twain)</em></p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O atraso político na oferta de internet é erro econômico irreparável&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></strong></p>



<p><strong>T</strong>odos sabem que diante da revolução tecnológica o futuro ficou fora do horizonte do presente. O que não significa que estamos diante da encruzilhada ou de um dilema entre escolher telégrafo ou celular, bússola ou web rotas, QR Code ou carimbo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não se trata de amaldiçoar o progresso e o avanço veloz e vertiginoso das telecomunicações. Trata-se de também se interessar em como encaixar as pessoas como sujeitos do desenvolvimento global. Não vejo nenhuma vantagem em ser moderno se você perder o livre arbítrio, a sensibilidade e o rosto humano. Ou supor que a imprevisibilidade da vida chegou ao fim.</p>



<p>Nem é correto imaginar que semicondutores integrados na miniatura de um circuito eletrônico, chips, vão mudar o caráter das pessoas. Ou que em troca da alta taxa de transmissão e da velocidade instantânea da comunicação, seja compensador aceitar tudo, sem conhecer o que se passa.&nbsp;&nbsp;Mas quem quiser ser usado, ou ficar para trás dentro do pior cenário, empreste sua conformidade a este atraso que tem sido no Brasil a condução política das decisões sobre o leilão da quinta geração de tecnologia móvel &#8211; o 5G.</p>



<p>O futuro da economia está em jogo e continuamos perdendo tempo com a política.&nbsp;&nbsp;As peças da cena do futuro estão em outro quebra-cabeça que combina pesquisa-desenvolvimento-comercio-liberdade-justiça-inovação. Não é o jogo inapto do presente, próprio do reiterado controle desinformado da política que praticamos, responsável pelo atraso histórico do Brasil que levou à desindustrialização e a impossibilidade de termos o controle autônomo em computação, tecnologia e inteligência.&nbsp;</p>



<p>Há um mundo de cenários e possibilidades imediatas em tecnologia incompatíveis com o entendimento negligente, fraqueza doutrinária e brutal desinformação estratégica do governo para a questão. Até a esperança é possível um dia reparar, mas o atraso tecnológico para oferta de internet hoje é uma perda irreparável para uma sociedade. Por isso, tratar de forma subalterna o interesse nacional no leilão do 5G compromete o orgulho e o espírito de uma nação independente.&nbsp;</p>



<p>Todas as pessoas e instituições são vulneráveis na sua privacidade diante da cibernética.&nbsp;&nbsp;Mas o que ocorre hoje como crime &#8211; mesmo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já em vigor &#8211; com a entrada desordenada e manipulada pelo governo do leilão das frequências de rede 5G &#8211; ocorrerá como impunidade e insegurança.&nbsp;&nbsp;Poderemos ter uma inundação incontrolável de violação de dados, cobertura deficiente, um dilúvio de ações judiciais e transgressão da segurança e ética das comunicações.&nbsp;&nbsp;Uma espoliação legal do auto interesse dos brasileiros.</p>



<p>A oferta potencial brasileira de serviços relacionados ao setor é uma das maiores do mundo e tem impacto econômico direto sobre os próximos 30 anos. Por exemplo, alguns cenários de forte impacto: todo o setor de Pesquisa &amp; Desenvolvimento; ferramentas&nbsp;&nbsp;convergentes para a indústria 4.0 ( cibernética total em fábricas inteligentes: internet das coisas/computação em nuvem/big data/robôs colaborativos); Cidades Inteligentes; aumento de produtividade e eficiência para os negócios; combate a vulnerabilidade da defesa nacional por ataques cibernéticos; aumento da convergência tecnológica mundial; viabilizar de forma econômica a alta taxa de transmissão de dados; teletrabalho; consultas populares instantâneas; internet táctil com controle remoto confiável de respostas rápidas possibilitando cirurgias à distância e telemedicina; integração de equipamentos domésticos; cobertura universal rural e urbana segura, barata e de qualidade.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>&nbsp;&nbsp;</em></strong><strong><em>Inovações devem ser avaliadas pelo que falta para a perfeição</em></strong><strong><em></em></strong></p>



<p>Invenções, inovações, devem ser vistas com lupa, como se olha um diamante. Devem ser classificados pelo que lhes falta para a perfeição, pois diamante perfeito é composto só de luz.&nbsp;&nbsp;Meu papel neste artigo é o de um certificador autonomeado que busca sombras, não do formato ou da lapidação científica que está por trás de tal avanço, pois não teria condições para isso. Mas dos milhares de pontos obscuros presentes nas facetas dessa pedra brilhante, para tentar apontar em que escala está a falta de clareza de muitos dos seus ângulos. Quem sabe, assim podemos chegar, para o bem dos perdedores, ao quilate das imperfeições dessa gema da inteligência artificial, o 5G, a quinta geração de internet móvel.</p>



<p>Meu ponto de vista é o do lugar-comum onde a maioria vive. Os deserdados do catecismo político, que são os usuários contumazes dos produtos consumidos por costume e que autorizam serem informados das novidades 10 vezes por dia.&nbsp;&nbsp;O usuário-massa, aquele que tudo que recebe transmite, seduzido por etiqueta, estereótipo e moda, clientes preferenciais para o assédio danoso de spams e vírus, ou mesmo da curiosidade e oferta amigável de WiFi e cookies.&nbsp;</p>



<p>Os usuários contumazes da mídia com suas interações descuidadas costumam ser as maiores vítimas da internet sombria, maré baixa da inteligência, banalidades virtuais diversas e da concentração da riqueza em telecomunicação. E, como muitos usam as novidades de boa-fé, atraídos pela suposição de que o acesso é grátis, fortalecem o aparente paradoxo que é se beneficiar da ideia de que uma parte do ganho líquido da riqueza da sociedade tem que ser dado aos perdedores.&nbsp;</p>



<p>Universalizar o uso de internet é, pois, uma forma de ressarcir os consumidores do mundo virtual, os viciados em internet, e ajudar os fora de moda, os ainda sem internet, a enfrentar a desigualdade de oportunidades em tecnologia e viabilizar o alcance e mobilidade social da inteligência artificial.&nbsp;</p>



<p>Ninguém se dá conta,<em>&nbsp;</em>mas o controle, armazenamento e uso de informações que a tecnologia digital vem possibilitando tem sido a maior expropriação dos dados da vida privada de todos os cidadãos em toda a história da humanidade. Mais do que nos períodos de escravidão, da Grécia até o Brasil imperial, onde a tecnologia era desprezada porque a opressão do trabalho era considerada suficiente para armazenar todas as informações e produzir toda a riqueza.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Existem Vales do Silício onde a Fábrica derrota a Bolsa.</strong></p>



<p>A globalização espalhou a inteligência tecnológica para várias regiões e hoje nem a expertise nem todas as empresas globais do setor de telecomunicações estão nos EUA. Somente cinco empresas no mundo &#8211; duas europeias, a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia, duas chinesas da mesma cidade de Shenzhen, Zte e Huawei e uma sul-coreana, Samsung &#8211; controlam integralmente as plataformas de software/hardware desse sistema de comunicação sem fio e o estão comercializando desde 2015. Com saudades da AT&amp;T e da Motorola o governo Trump começou a sabotar os chineses comercialmente os atacando politicamente. Ardilosamente usa a linguagem política de &#8220;inimigos&#8221; e não concorrentes. A verdade é a disputa acirrada por mercado rival embrulhada na ideologia hostil da bipolaridade.</p>



<p>Se as mercadorias não puderem atravessar fronteiras, os exércitos irão<em>.</em>&nbsp;O antigo alerta de Frédéric Bastiat certamente serviu para dar boas-vindas à globalização, quebrar monopólios e estimular a integração entre os povos pela produção e consumo descentralizado das mercadorias.&nbsp;&nbsp;E ao expandir as cadeias gerais de valor e as alianças comerciais, a nova economia gerada criou outros polos de produção e reequilibrou o poder mundial, impedindo a desenvoltura dos senhores da guerra, sempre atentos ao surgimento de conflitos.&nbsp;&nbsp;Com a antiglobalização pregada por Trump, negando a história liberal e antitruste que levou o capitalismo norte americano ao topo do mundo, os nacionalismos retrógados, protecionistas, ensaiam em voltar.&nbsp;&nbsp;Blocos político-econômicos antagônicos serão formados pela lógica mercantilista, as organizações multilaterais enfraquecidas, boicote a fornecedores e consumidores serão regra. Um mundo desnecessário se torna outra vez possível pela estupidez de governantes.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Quando os EUA acordaram para a acorrida tecnológica pela implementação mundial da internet móvel, os asiáticos e os europeus, que ainda gostam de fábrica, operário e riqueza sólida de longo prazo, já haviam ultrapassado os norte-americanos, que gostam de bolsa, especulador e o curto prazo do novo rico. O alvo virou a Ásia onde a China também já tem duas das maiores empresas de telecomunicações do mundo, com 590 milhões de usuários em sua base e já é o maior vendedor de smartphones do planeta, superando a Samsung e a Apple.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Se a Anatel se submeter ao descontrole e à &#8220;proteção&#8221; de Trump, para agradar ao desconectado governo brasileiro atual, correremos o risco de nos tornar uma nação declinante e colher o pior. Estamos nos candidatando a ser presa potencial e fácil de paralisia cibernética estratégica que pode tirar o Brasil do ar como ocorreu com a Estônia em boicote causado pela Rússia.</p>



<p>Nações não têm amigos, têm interesses. Lembro aqui a descompostura que Churchill passou em Chamberlain, chanceler&nbsp;&nbsp;da Inglaterra, por ter assinado o Tratado de Munique confiando na boa vontade de italianos e alemães: &#8220;entre a desonra e a guerra, escolhestes a desonra, e terás a guerra&#8221;.&nbsp;&nbsp;Ao considerar Trump um super-herói amigo e Xi Jinping um monstro inimigo o Brasil se oferece à desonra e ao atraso.</p>



<p class="has-text-align-center">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>Todos os softwares são vulneráveis</strong>.</p>



<p>Entre nós Tim, Oi, Claro e Vivo, dependem muito da Huawei na transição para o 5G. A China é o maior importador e investidor no Brasil hoje. Se o país tiver que mudar, por razões de segurança dos EUA impostas para poder compartilhar informações de inteligência, melhor renunciar a um assento na ONU como país independente. E os consumidores e empresas prejudicadas não conseguirão se adaptar ao novo dono. E ainda terão que decidir se contratam advogados de defesa junto ao Estado Livre Associado de Porto Rico e ao Protetorado Familiar de Bento Ribeiro. Com as enormes exigências que vão da regulação, oferta, armazenamento, operação de satélites e compartilhamento de informações à instalação de milhares de antenas pelo país e fluxo de bilhões de dados é fácil perceber que conciliar a posição brasileira com instruções políticas de governo estrangeiro só é possível em regime colonial.</p>



<p>Enquanto o governo decide se é melhor mandar ou obedecer a busca por uma rede mundial sem problemas de conectividade e em velocidades maiores já colocou em vigor a internet das coisas. Com todos os seus riscos que é aumentar a superfície de contato para a ação humana remota. Ampliam-se as possibilidades do uso hostil da inteligência artificial e a maravilha que é a internet táctil ficar mais conhecida por ser usada como arma inesperada e incontrolável. A&nbsp;<em>weaponization,</em>&nbsp;neologismo inglês que ainda não está no dicionário já é realidade.</p>



<p>Sem códigos de controle do seu uso, cultura compartilhada de responsabilidade e protocolos compreensíveis, a modernidade que vem aí é uma escada de novos hábitos que não dá mais para subir degrau por degrau. A interferência política externa na decisão é uma sabotagem ao livre acesso da melhor tecnologia. Um freio no progresso, o velho hábito do Brasil não merecer o Brasil.&nbsp;&nbsp;&nbsp;O governo está nos fazendo perder o foco como nação gigantesca que somos e pode ampliar as formas negativas do uso da internet pelas empresas de comunicação, pelo Estado e a Sociedade.&nbsp;</p>



<p>A inteligência artificial pode nos levar a aceitar naturalmente influência nas interações familiares, na soberania nacional, na livre escolha de aparelhos e redes pelos cidadãos, nas formas de trabalho, aumentando a onda de oferta do lixo digital com repercussões sociais, militares, psicológicas e econômicas. E, especialmente agravada quando a liberdade é direcionada para mecanismos de controle cuja essência definirá o acesso ao mercado. É uma brutal regressão nos costumes políticos deixar o governo decidir qual a melhor rede móvel para Estados nos monitorarem.&nbsp;</p>



<p>Não é possível negligenciar, todavia, que vivemos sob um estado de ameaça constante de links, vídeos, robôs, explosões de conectividade em três dimensões, celulares, downloads, veículos autônomos, caças supersônicos, drones de guerra, armas cibernéticas, etc. Atente ao significado: tudo estará dentro da ética dos negócios computacionais e não dos aspectos de segurança e defesa ou de valores humanos.&nbsp;</p>



<p>E como a super conexão exige uma infraestrutura de apoio, coleta e armazenagem, tal rede subsidiária passa, também, a ter acesso às informações que por ela circulam.<em>&nbsp;</em>E sua hora de dormir, o endereço do seu escritório, em que estrada ou avião você está, o que gosta de comer, ler ou assistir pertence também ao provedor da rede. Sem falar de segredos diplomáticos, câmeras de vigilância, iluminação pública, pousos e decolagens, cartas náuticas e propriedade intelectual.&nbsp;<a>Todos os softwares são tecnológica, comercial e politicamente vulneráveis. Não há garantia de 100% de eficácia na proteção pessoal ou das nações.&nbsp;</a></p>



<p>Enfim, vale reafirmar que com o aumento da superfície de contato para a ação humana intencional amplia-se a possibilidade de uso da inteligência artificial como comando de aparelhos que podem ser usados como arma.&nbsp;Ou seja, podemos ter a hostilidade como rotina e o desprezível como destino. O 5G pode ser o ninho sombrio da interatividade. Kafka puro e na veia.</p>



<p>Se o deslumbramento com a quinta geração da internet móvel e&nbsp;&nbsp;seus derivados continuar como está &#8211; intimidando um Estado subjugado, frouxo ou autoritário; uma economia libertina querendo ser chamada de liberal &#8211; vejo um futuro onde tudo é permitido, nada é respeitado e ninguém é importante.<em>&nbsp;</em>Aliás como ocorre no Brasil onde tudo é permitido, mas nada tem valor.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No celular a pessoa é um sinal, torre de transmissão.</em></strong><strong></strong></p>



<p>O impacto das novas tecnologias e o uso de computadores, celulares e redes sociais na vida privada e na geopolítica mundial produziu, para além das ideologias, uma glorificação da internet. Não tanto pela sua comodidade, mas antes pela sua debilidade de princípios.Desmoraliza completamente o pessimismo de T.S. Eliot quando dizia que estava convicto de que a raça humana não suportava muito a realidade. A humanidade não sonha mais, está atolada na realidade.</p>



<p><em>&nbsp;</em>Hoje, os especialistas em inteligência artificial, Big Data, 5G e cibersegurança andam humilhando consultores, acadêmicos, psicanalistas e comitês de ética. A facilidade de usar, a gratuidade relativa, o caráter espetacular da invenção tem sido um entrave para entender o ataque à privacidade e aos padrões civilizatórios que brotam da internet. Do WhatsApp ao Streaming é o fluxo de gula que prevalece, o empanturramento do fato afirma-se sobre a escolha do sabor, o saber, a ética do paladar. As pessoas não falam mais do que pensam, de expectativas e sonhos, falam do que viram e ouviram agora. Está ficando árduo conversar sabendo que o que você está ouvindo é um ventríloquo do celular.&nbsp;&nbsp;Apóstolos de aplicativos diante de seus milhares de seguidores. Não é assim tão fácil ver sabedoria no uso de toda tecnologia.</p>



<p>O problema da disponibilidade de tudo ao alcance da mão e dos sentidos é a falsificação da vida já que todos engolem o que é servido, mesmo sem querer. Criadas desse jeito crianças e jovens nunca terão interesse em expandir as perspectivas pois o futuro são conexões do aqui e o agora. O problema é que para ser uma pessoa livre é preciso controlar as conexões, não deixar a comunicação de massa envenenar sua emoção.&nbsp;</p>



<p>Há uma decomposição humana em curso criando uma fragilidade identitária nas pessoas e as fazendo perder o interesse por seus vínculos. O mundo vive uma preguiça diante das próprias ideias e características sociais. Tal entrega, este entusiasmo morno pela própria vida, facilita a aceitação de fórmulas, sua classificação por gosto, comportamento, opinião e oferece uma fragilidade moral que está se popularizando e que é a do tipo previsível-clichê-intrigante-revoltado-libertino.&nbsp;Uma pessoa o dia inteiro no celular é uma pessoa fora de si.Sua vida é um sinal, uma torre<em>&nbsp;</em>transmissão.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma explosão de liberdade e negócios sombrios</strong></p>



<p>As comunicações em rede se transformaram em uma estigmatização cujo foco principal é o jovem capturado frequentemente por uma mitologia da liberdade. Conectar é atacar valores e assediar em linguagem doce ou rude &#8211; buscar um desertor do covil conservador da família é a frase do lobo &#8211; e o transformar em filho de pais perplexos.&nbsp;&nbsp;Quando a criança ou adolescente aceita a mordida da rede e passa para o lado do imponderável, a escuridão se anuncia.&nbsp;</p>



<p>A internet expõe sua licenciosidade quando se dedica, sem&nbsp;&nbsp;autorização, a formar &#8220;minorias&#8221; capturáveis por algoritmos. Enfeitiçou o mundo, plagiou os problemas da vida e<em>&nbsp;</em>aumentou a dose de agressividade e superficialidade da linguagem &#8211; uma espécie de imbecilêz, as 225 palavras necessárias o homem falar com o chipanzé.&nbsp;&nbsp;E impôs o absurdo em que todos estão aculturados e nela amarrados através de algum aplicativo.&nbsp;</p>



<p>Mesmo assim a internet não tem o papel de destinar o homem ao sucesso ou ao fracasso. Ela apenas registra na sua memória a conduta como negócio que quantifica e descreve. Não nasceu como uma rede de registros orais. É uma escrita e muito fácil de enganar. E quem se deixar enganar por registro de busca será alvo fácil de vídeos, filmes, montagens.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O WWW &#8211; World Wilde Web &#8211; essa teia de redes interligadas mundialmente, tornou-se o lugar preferido da maior expressão desse novo espírito da nossa época. Ao contrário do que pretendiam seus idealizadores quando a libertaram do mundo militar, hoje podemos dizer que o espírito predominante que a habita é um tipo sem ideais civilizatórios, um exército mercenário, capaz de manipular o ser humano como material mítico e comercial e favorecendo sua adaptação e aceitação da realidade.</p>



<p>Uma rede fechada que se torna aberta e vai aos poucos voltando ao autoritarismo fechado de sua origem<strong><em>.</em></strong>&nbsp;Com a explosão de dados gerados por dispositivos interconectados &#8211; megatrends &#8211; o aumento de produtos criados em 3D e robôs, ecossistema de dados abertos, automação de processos com funções cognitivas e disrupção em serie, moedas virtuais, hackers e delinquência sem limites, etc podemos dizer que a sombra que a internet projeta já é maior do que a luz.</p>



<p>Os modelos econômicos do Google, Apple, Facebook, Watts App, Instagran, Tik Tok, Baidu e o e.commerce da Amazon e Alibaba, estão baseados na vigilância privada de desejos rastreadas por cookies. Além de escritórios de Política Científica e Tecnológica capturando dados pessoais, de data centers e todas as instituições ou parcerias conectadas à internet. E o pior dos mundos é existirem Estados nacionais governados por párias conspirando contra a civilização mundial.<em></em></p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Imensa possibilidade de agradar, imenso poder de corromper</em></strong></p>



<p>Ninguém deve se sentir seguro diante do que nasce da internet porque sua imensa possibilidade de agradar significa também imenso poder de corromper. A maravilha de um clique venceu a estabilidade da verdade. Não é o mouse, o dedo, o olho ou a voz que dão instruções ao aparelho. Quem aciona a busca é o desejo. Por isso nunca haverá norma canônica, universalmente aceita, para disciplinar seu uso.&nbsp;</p>



<p>Escritórios comerciais sentiram a explosão e se especializaram em processar, analisar, armazenar e vender esses dados. O &#8220;sistema&#8221;, responsável tantas vezes pelas desconexões oportunistas que nos atormentam no dia a dia, passa a ser senhor de toda a sociedade que poderá ser espionada, ou desligada, por motivos os mais diversos.</p>



<p>Em regime de monopólio nacional, como parece caminhar a decisão mundial, sem controle social e sem o desmembramento dos gigantes da área, podemos nos despedir da vida em liberdade e da economia da livre iniciativa.&nbsp;O que está havendo no mundo é uma militarização camuflada das comunicações. A tecnologia é um leão que ri na tela do smartphone, sincronizado à distância pela lei da selva, e disponível na mão como gato doméstico.&nbsp;</p>



<p>Sempre houve uma competição política e ideológica dominando o campo técnico e a revolução tecnológica.&nbsp;&nbsp;Mas nunca houve uma iniciativa realmente forte e multilateral para definir o padrão de comportamento pessoal e coletivo no ciberespaço da internet.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Diante disso é possível dizer que o Brasil pisou no freio na curva errada e pode capotar de vez. O leilão das faixas de frequência para a quinta geração de telecomunicação móvel (5G) previsto para ocorrer em março de 2020 poderia cumprir um papel modernizador, mas foi adiado indefinidamente por pressão dos EUA em controversa decisão da Anatel, tomada em dezembro de 2019 e até hoje sem solução.</p>



<p>Ignorando questões estratégicas próprias e as vinculando aos interesses de um outro país podemos dizer que o Brasil não é um país afortunado. E quando não há nenhum espaço para uma nação se defender do erro dos governantes podemos sentir o que é não ter ninguém em casa sonhando por nossa felicidade.</p>



<p>De forma direta, o adiamento representa um atraso mortal imposto ao Brasil com relação a outros países do mundo nesta que é a infraestrutura de negócios com maior potencial de expansão e lucro para as décadas de 2020 e 2030. Os bilionários brasileiros continuarão os mesmos. Não haverá necessidade de nova edição da revista Forbes na próxima década. O país não se eleva, se agacha.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sem espaço na aristocracia do espírito entre as nações</strong></p>



<p>O Japão já testa o 5G desde 2014 e tem uma muito bem traçada estratégia desde 2016. A Coreia do Sul, com seu forte planejamento central em apoio a suas empresas nacionais exportadoras de tecnologia (como Samsung e LG), tem a maior difusão de 5G no presente momento. Ainda que os usuários pessoas físicas coreanos não estejam positivamente impressionados com o serviço, as empresas do país estão surfando na frente na produção de aplicativos e outras tecnologias associadas.</p>



<p>A China, que já é o maior mercado do planeta; a União Europeia, que é o segundo; e os EUA, que ressentem a terceira posição: todos têm o 5G em operação e avançando.</p>



<p>Até poucos anos atrás, enquanto a globalização e as cadeias globais de valor eram defendidas a ferro e fogo pelos EUA, o detalhe de que o 5G era uma obra majoritariamente Asiática e Europeia não era tão importante assim.</p>



<p>Na circunstância atual passou a ser assunto de segurança nacional. Com o Departamento de Estado, que é o Ministério das Relações Exteriores dos EUA, promovendo um esforço de boicote sem precedentes contra a atuação de empresas chinesas líderes do setor. A decisão da Anatel de frear o leilão como uma resposta a essa pressão já não é um mistério mal oculto<em>.&nbsp;</em>O silencio do Congresso um sintoma de indiferença. A despreocupação das Forças Armadas com a perda da neutralidade brasileira e a invasão da soberania má escolha hemisférica.&nbsp;&nbsp;O desdém da sociedade e das instituições econômicas uma consequência de causas antigas.&nbsp;Está formado o círculo das criaturas imóveis que definem nosso destino como nação.&nbsp;</p>



<p>Até aqui, a argumentação americana para convencer outros países contém muita embromação, pouca sinceridade cooperativa e duas realidades objetivas. Uma é de que tomadores de decisão nos EUA acham que prejudicar as empresas chinesas é uma forma de revidar e conter o fato amplamente documentado de que a China pratica espionagem corporativa em larguíssima escala. Algo facilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação criadas a partir da internet e levadas a um novo patamar com o 5G.&nbsp;</p>



<p>Outra é a de que o mundo da telecomunicação móvel, daqui pra frente, é um dos riscos cada vez mais altos e mesmo maiores incertezas relacionadas à segurança cibernética. Tanto em relação a privacidade de dados quanto a riscos físicos.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A privacidade é uma anomalia que nasceu com as cidades.</strong></p>



<p>Sobre onde está e para onde vai a privacidade de dados, o conceito do vice-presidente da Google, Vinton Cerf, é o que está se impondo<em>.&nbsp;</em>Cerf acumula o curioso cargo de Evangelista-Chefe da Internet para a empresa e acredita que privacidade foi uma “anomalia” social circunscrita às grandes áreas urbanas dos séculos 19 e 20.<em>&nbsp;</em>Algo como se preparasse uma jurisprudência moral para acabar com qualquer vestígio da liberdade individual. O 5G pode ser o fim do alicerce filosófico que deu ao ser humano seu mais profundo ideal que é o de poder ser livre<strong><em>.</em></strong>&nbsp;Bem, esse homem original poderá ser estudado em cátedras de &#8220;arqueologia da privacidade&#8221; nas universidades inúteis do futuro.&nbsp;&nbsp;Por outro lado, dentro da indústria<em>,&nbsp;</em>há quem aposte que a briga por privacidade e direito de propriedade sobre os próprios dados vai se expandir cada vez mais, como admite o presidente da Microsoft, Brad Smith.</p>



<p>Quanto aos riscos físicos, eles aumentam porque o 5G estará na automação das indústrias, do agronegócio, da infraestrutura que rege o funcionamento das cidades, na vigilância policial, nos armamentos. Em suma, tem maus sonhos de ubiquidade e de sobreviver a governos.</p>



<p>Após perceber que era fraca a lógica de simplesmente pedir por aí que países proíbam a participação chinesa<strong>,</strong>&nbsp;um ramo do governo americano passou a incentivar a criação de um 5G de código aberto<em>.&nbsp;</em>Estratégia liderada por Lisa Porter, do Departamento de Defesa, faz mais sentido em termos de parceria de desenvolvimento do que o que o Departamento de Estado vinha propondo até então.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Um leilão não arrecadatório.</strong></p>



<p>Com o leilão em suspenso, o Brasil deve cuidar de aprimorar sua estratégia para o 5G. Deve solicitar à China a implantação aqui de um Centro de Avaliação de Segurança Cibernética da Huawei nos moldes do que existe no Reino Unido. O governo brasileiro deve também se debruçar no acordo da Huawei com a Índia, bombardeado pelos EUA, para saber o mínimo que deve almejar. E definir um modelo de leilão de espectro que privilegie a área de cobertura e não a arrecadação financeira, como propõe o Instituto Nacional de Telecomunicações<strong>.&nbsp;</strong>Segundo o Inatel o segredo do 5G é a ubiquidade visto como o princípio capaz de alcançar a democratização de acesso e isto somente será possível com a universalização da área de cobertura.</p>



<p>Cobrindo todo o país poderemos diminuir a desigualdade social no seu uso. Retirar o elitismo da tecnologia pelo uso massificado como ferramenta de trabalho disponível a todos, com imediatas repercussões no preço dos serviços e na produtividade rural e urbana. Sem descuidar da atenção permanente à filosofia humanitária que deve orientar o progresso tecnológico.</p>



<p>Com relação aos EUA, sugiro ao governo que toda vez que uma autoridade brasileira receber pedidos para restringir a participação chinesa no 5G brasileiro, deve retornar pedindo que empresas, universidades e pesquisadores brasileiros – civis e militares – participem a sério do atual esforço estadunidense, liderado pelo Pentágono, de se construir uma alternativa de código aberto de 5G. Se os EUA tiverem uma compreensão de América não puramente nacionalista, mas regional, não-violenta e cooperativa, é possível trabalhar junto.&nbsp;</p>



<p>A árvore que não verga quebra, mas um país não é uma árvore. Em que medida o recuo da Anatel é a de um escravo das circunstâncias continuará um mistério por mais tempo.Como o tempo não protege os atrasados termino com uma premonição mundial e uma dúvida local: passados os estranhamentos de curto prazo, o mais provável é que EUA e China estejam nas próximas décadas mais ricos e em paz um com o outro. E o Brasil, como estará?</p>



<p></p>



<p>Leia também nos sites do <a href="https://capitalpolitico.com/5g-a-humanidade-num-chip/">Capital Político</a> e da <a href="https://veja.abril.com.br/blog/noblat/5g-a-humanidade-num-chip-por-paulo-delgado/">Revista Veja</a>.</p>
<p>O post <a href="https://paulodelgado.com.br/5g-tecnologia-e-privacidade-a-humanidade-em-um-chip/">5G: TECNOLOGIA E PRIVACIDADE.                       A Humanidade em um chip.</a> apareceu primeiro em <a href="https://paulodelgado.com.br">Paulo Delgado</a>.</p>
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