A ROUPA BRANCA DE GUEDES

Capital Político – 26.04.2020

A enxurrada de notícias ruins dos últimos dias não deveria ser outra coisa senão as ações e paixões dos seres humanos na vida em sociedade. Os costumes políticos são impostos por homens com garras. As regras, ou a palavra, nunca foram entre nós o ponto de partida. Quem quiser entender nossa história procure com afinco personagens do passado. Os dos últimos dias não nos ensinam muita coisa, salvo a má fisionomia do espírito de nosso tempo adoecido.

Da queda de Mandetta por nada, apenas por defender a saúde, à delação premiada de Moro por sentir que tudo conspirava contra a justiça, à eficiência surpreendente de Aras como se tivesse familiarizado com o bater do relógio, tudo é tão incompreensível como a passividade de viuvez indiana da camisa branca de Guedes. Mas reunir todos os ministros para justificar a demissão de um é declarar guerra à credibilidade de sua própria decisão.

O presidente deve achar que a raiva é um veneno que mata o outro. Não, a raiva é um sintoma, um monstro cheio de olhos que o discurso presidencial revela.  Primeiro pela plástica do palanque, um sinal de desespero pela verdadeira aglomeração sem etiqueta ou protocolo. Um comichão que tenta ser autêntico, mas francamente não é sofrido. A voz parece cheia de poder, mas para quem sabe que o poder já é uma taça vazia.    

Como ninguém pode viver no passado o discurso, no entanto pode. É repetitivo ver discurso oficial de presidentes brasileiros, um dos países mais ricos do mundo, tentar ser intimista e não significar nada para nosso povo. Parecem ser discursos de encomenda, na maioria das vezes para amigos.  Mas ver um presidente chamar filho por número é a primeira vez. E não se encaixa no sistema de potências que tanto orgulha nossas Forças Armadas. Os militares brasileiros são intelectuais, estrategistas, seu alto comando e hierarquia é sofisticado e sabem bem que nenhuma camaradagem populista inspira reverência no mundo civilizado. Vira piada de salão.  O que temo é o mais perfeito cenário de penumbra, medo e frio neste início de inverno. 

Por último, mas não menos importante, se quer ser ouvido é preciso mandar parar imediatamente com a ideia de Brasil 30 anos ou, seja lá como chamam tal disparate. O estrangulamento externo, a recessão interna, a pandemia e o ambiente político de conflito exigem sim mudança temporária na gestão da economia na crise, mas não mudança de filosofia da economia a longo prazo. Ora meu, não é o modelo econômico que o vírus contaminou.  O apetite do mundo para gastos emergências é uma realidade aceita e não precisa de muitos discursos para colocá-la em vigor. Se as conexões do governo com o mundo econômico são fracas é um agravante pior inventar um plano econômico sem a equipe econômica presente.  

Aviso ao Palácio. O que vai acontecer é que ninguém vai ajudar ao Brasil a se salvar se a política econômica emergencial não tiver relação com a pandemia. Foram importantes os 600 reais. Mas para não precisar de mais é urgente ajudar os empresários brasileiros a manterem de pé seus negócios. Só o fato de querer impor ao país qualquer coisa para daqui a 30 anos justifica Guedes ser o único de branco e máscara naquela foto.  

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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