Fábulas improvisadas

Capital Político – 10 maio de 2020.

Conta a lenda que um cabrito atrevido durante anos dizia impropérios contra todos na planície em que vivia. Nenhum bicho com aquilo se assustava. Um certo dia, porém, o puseram na torre mais alta do lugar e de lá ele berrava agressões e zombarias contra a maioria. O carneiro, que nunca o levou a sério, finalmente se incomodou. E o alertou: ei, meu caro, não é você que me injuria, mas o lugar onde você está. Preste atenção, as circunstâncias mudaram, não você. E o que conta na vida são as circunstâncias.

De fato, circunstancias mal compreendidas costumam favorecer atrevimentos. No escuro do cinema tímidos ficam destemidos. Em altos cargos maquinações de um fraco sugerem força de um afoito. Em camionete grande traficante acha que é polícia. Atitudes previsíveis que são um desperdício.

Como revela outra história de um bode que atravessava um rio levando ao pescoço uma faixa que dizia que ele era dono da pastagem do lugar. Ao observar na água sua própria imagem engrandecida, mas convencido de que era outra de maior tamanho o que via destorcido, e isso significasse algo bem maior a competir com ele, largou a faixa que possuía e avançou alucinado para tomar a outra. A ambição cega, ele fica sem as duas. Sem a que não alcançou porque não existia, e sem a sua que foi por água abaixo.

É nesse diapasão que ele vai fagocitando seus ministros mais populares e atentos a valores. Se livra da pressão das virtudes e desentendimentos éticos. Pouca valia tem a lei para o cavalo que corre sem os freios. O tempo é sempre circular e opera em eterno retorno. E reconhece apologias: riacho dos lobos, onda da espada.

Enquanto isso um conselho de pavões se reúne para reivindicar para seus iguais a condição de sábios do terreiro. Todos os alados que foram consultados se dispuseram a votar neles, menos dois, o galo e o sabiá, representantes das mais populares aves do lugar. Reconheço em vocês a formosura com que vestem esta toga, mas quando a águia voa solta e nos ameaça o melhor adorno não é a vaidade, mas sabedoria no uso do poder. O atrito entre os 11 superiores e o direito de esconder a saúde por decisão de um 12 aspirante é um alerta: a sentença é um testamento dos anticorpos que as aves pequenas não possuem para se proteger dos amigos das águias.

Na selva da política, muitas espécies-subespécies, família, subfamílias, sem expressão nacional, vivem no Centrão de seus habitats locais aprontando sem serem incomodados. Como geralmente são políticos desconhecidos ou sem imagem nacional, o custo político do que fazem é baixo e por isso nunca são vigiados de perto em seus rolos regionais.

Costumam passar muitos anos com mandatos de pastor, bajulando pavões e cordeiros. Andando tão perto do rebanho no qual concentram o apetite principal que as ovelhas entendem que se trata mais de um protetor do que de um embusteiro. Quando aproveita a chance e sobe mais, só aí que a floresta conhece bem o predador.

Ideias amplamente minoritárias sempre agiram contra a democracia mesmo em períodos democráticos. Mas metódico, objetivo e persistente no seu caos, somente esse no script de Pedro Malasartes.

Quando trabalhava só para si, abrindo vaga para a prole, não buscava sócio para seus duelos. Agora, percebendo que pode compor mais o figurino, imaginou um combo: quer assimilar seu nome a algum papel social e a valores para envernizar à fama de destemperado. O sistema heroico no qual quer se encaixar não se sustenta. Rente e sem verniz é assimétrico, mas nunca está às cegas. Nem parece sozinho. E presidente imprevisível faz governo perigoso.

A conversa de ser soldado fornece um encorajamento especial para valorizar o estilo street fighter. Anda vasculhando os três poderes atrás de uma fresta mole na convicção democrática em busca de amor à primeira vista. Marcha em passo de ganso sobre os poderes. Quer apoio para agir sem autorização. Vai cobrindo de saliva os militares para comê-los sem engasgar.

Nas fábulas tomadas de Esopo é possível perceber como estamos integrados ao mundo dos bichos. De todos os esforços obtidos pelos brasileiros até aqui para tolerar o presidencialismo, com qualquer um governando e, todos alterando a constituição a seu favor, o mandato atual é o que mais se aproxima da necessidade de um fim deste regime sem conserto. Não é possível algo tão desmoderno e fundamentalmente não sério.

Só no presidencialismo o Um consegue levar todo um país na conversa em momento de tragédia e incerteza como agora. Exclusivamente porque o presidencialismo permite que presidente confunda a atividade política com a natureza de um antropófago que cria vítima e faz festim no velório do eleitor.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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