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	<title>Arquivos Recentes - Paulo Delgado</title>
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		<title>Adoradores do infortúnio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2017 14:52:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 11/10/2017 O Supremo e o Congresso transbordam contradição. Poderiam ser dois poderes essenciais à renovação da vida democrática se deixassem o<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 11/10/2017</em></p>
<p><strong>O</strong> Supremo e o Congresso transbordam contradição. Poderiam ser dois poderes essenciais à renovação da vida democrática se deixassem o país suspender a credulidade pelo período fracassado. Há uma impressão de que o discernimento da sociedade não interessa quando a autoridade gasta seus defeitos supondo ter qualidades superiores à de quem critica. O Brasil não pode sucumbir ao sintoma de transtorno patriótico que a influência desses dois maus terapeutas institucionais anda favorecendo. Um poder que não se arrepende de falar não sabe a hora de calar. A metáfora negativa de segredo e vaidade, domina. Nem na guerra a ira no ofício se aconselha.</p>
<p>Será que chegamos ao vaticínio do presidente Harry Truman: quer um amigo em Washington ? Arranje um cachorro.</p>
<p>O modelo econômico ainda não domina, mas se recompõe. Se por um lado diminuiu a percepção de risco na atividade econômica; a convergência de inflação e juros baixos pontifica; os fluxos de capital internacional retomam sua rotina em direção ao país; os níveis de inadimplência estão estáveis; o consumidor recupera sua confiança e volta ao mercado; a incerteza empresarial quanto a investimento arrefece; o índice de desemprego começa a recuar; na vida de quem trabalha e produz riqueza os pepinos estão sendo provisionados. Por outro lado, o modelo político é o velho que não mais predomina, inapto para a responsabilidade coletiva. O descontrole da voracidade está levando muito tempo para passar porque o Supremo escolheu o governo para por canga e, assim, esfregar urtiga na mudança.</p>
<p>Essa acentuada intensidade para influenciar errado, e a superstição jurídica que a alimenta, submete a vida a uma hierarquia de interesses oficiais que não dá folga aos brasileiros. Estamos presos a uma teia de aranha nascida da falta de ordem do Estado que age como se fosse diretor de teatro, distribuísse os papeis e a posição de cada um no espetáculo. Quem se queixa da intenção excessiva é informado que aderiu inconscientemente ao script. Ninguém é o que é. Cumpre ter paciência e agradecer. Como espectador desprezível de um tempo passado que não passa o povo é da peça a aflição.</p>
<p>O esforço da maioria dos brasileiros em manter sua independência, ser dono do próprio negócio, ter autonomia, esbarra sempre na conspiração da autoridade para oferecer-se como refúgio de amigos. Perdão Marx, mas aqui, o ópio do povo é o Estado.</p>
<p>Todos que brincavam de ser justos, imersos em seu cânone de sucesso, deveriam recear o incômodo que causam à justiça. Os erros se acumularam e suas falanges se infiltraram na alma das decisões. Em que esferas invisíveis andam formando opinião nossos juízes? Quem cava o poço profundo do subterrâneo de onde saem as atitudes de nossos políticos?</p>
<p>A amizade de muitos membros do legislativo e do judiciário por si mesmos tem levado a Constituição a viver essa vida melancólica de rainha desrespeitada. Nunca foi possível dizer <em>“A Constituição é”. </em>Na cultura jurídica atual ninguém é seu filho. Nossas autoridades preferem ser descendentes de quem as nomeou e, talvez sem se darem conta, aplicam os arquétipos da amizade às suas decisões. Esse sentimento preexiste às normas. O afeto que serve de escada ao poder, a circunstância que produz simpatia/antipatia, é tutelar, mais do que as leis estáveis. Sua consciência é inapreensível. Aquoso e verboso o ministro conjuntural é um escavador de temporais. Seu compromisso com o passado preenche o presente e o definha.</p>
<p>Onze juízes nomeados, vitalícios, recebem, de 50 senadores eleitos, amedrontados, o engano lícito que enterra em uma noite dois poderes entupidos de apetite avinagrado. A primeira turma de um deles, fanáticos para equilibrar o jogo político usando o erro do senador caído, contorna a lei com a matemática. Servem aos seus fantasmas que, como se fosse deles o porteiro, abriu a corte a fatalidade de negar sua condição de poder superior. Usando ferramenta de casa já quebrada, conscientes que o medo de políticos processados oferece imensidades a visão ilimitada de poder, empilham réus a Deus-dará.</p>
<p>A função do conhecimento é diminuir a força da opinião. É preciso superar o governo improvisador,  considerado genial, ousado, carismático. Bravata é ranço e o ranço se acumula e logo se revela.</p>
<p>Seguimos confortáveis e desatentos ao que acontece. A política, como está, não é mais a corneteira da alvorada. Se fizeram a <em>vã-guarda</em> do passado. Seu escombro serve a dois líderes da tropa dos improvisadores, desbocados e caluniosos que só crescem se cresce a violência.  Um criou do outro a moldura, são estatistas fanáticos, esquerda/direita. A cara do conflito mais velho da política, o fundo do poço. E como em todo fundo sempre existe um fundo mais baixo assim. Não sendo líderes livres de preconceito não querem que ninguém seja. Freiam a mudança, são espora no cavalo de raça que é a razão.  Seguram a rédea do senso comum, tiram a grandeza da justiça para não deixar o passado clarear. Quarados ao sol, passarão. Pois um se decapitou, mas ainda não lhe cortaram a cabeça. O outro pede para ser degolado, fantasma de uniforme que usa de tempos em tempos o corpo de alguma mula sem cabeça.</p>
<p>Um êxito errado, festejado como humanitário, prejudica a análise do período.  O alívio temporário do sofrimento e a devoção excessiva ao arranjo político sem princípio agravou a injustiça estrutural e produziu consequências funestas na análise política de longo prazo. Foi um tempo onde predominou o tratamento errado de erros levando a sociedade a demorar a notar que sem amparar economicamente ninguém será soerguido socialmente.</p>
<p>Se alguém chega ao poder é porque existe algo&#8230;algo de bom, algo de podre. Quando sai, pela forma que sai, os fatos nos comunicam alguma coisa, feridas curadas, sintomas de doenças represadas ou silenciosamente alimentadas. Se o Supremo, o poder que decifra a Constituição, por razões políticas não consegue fazer a coisa certa, que pelo menos procure errar melhor.</p>
<p><strong>          *****</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo</strong></p>
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		<title>Separatismos no século XXI</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Oct 2017 13:49:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 15 de outubro de 2017. Há um caminho muito estreito para as nações passarem. A sociedade anda certa que<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 15 de outubro de 2017.</em></p>
<p><strong>H</strong>á um caminho muito estreito para as nações passarem. A sociedade anda certa que está pagando aos governos uma conta muito acima do que devia.   É essa maré de desilusão-iludida que vem carregando inúmeras regiões para falseados romantismos separatistas. Diferentemente da explosão nacionalista do século XIX, que formou os Estados Nacionais, os movimentos atuais não são resultado da descoberta da autoestima afirmadora da individualidade cultural.  Vivemos em uma era ultra individualista, sem espírito-  criativo-coletivo, em que o respeito às particularidades que distinguem uns dos outros encontra-se cada vez mais inculcado na formação das gentes e nas instituições que regulam o proceder social. A liberdade, em anúncios intermináveis, é a maior prisão em que vive o mundo atual. Dinheiro, política e, poder fazer o que quiser, não mudam ninguém, desmascaram.</p>
<p>A Catalunha separada da Espanha, mais do que o Brexit, que separou a Inglaterra da União Europeia, assusta mais pela culpa que carrega a Europa sobre a imposição de força que usou nos casos da Croácia, Bósnia e do Kosovo. Todos se perguntam o que é autoderminação em uma região multilinguística e tão pouco homogênea, material e culturalmente, como o continente europeu. Escócia, Tirol, País Basco, Córsega, Baviera, são inúmeros outros fragmentos da Europa democrática que poderão querer se separar.</p>
<p>Qual o sentido de se pleitear ser pequeno em um mundo de gigantes? Não há uma grande visão que sustente uma Catalunha melhor divorciada. As liberdades identitárias estão asseguradas e há benefícios diversos de se ter escala e poder se sentar à mesa com os grandes que deliberam sobre as questões mais universalmente relevantes do globo.  Ser uma voz secundária e proforma na Europa? Abdicar de Forças Armadas relativamente baratas e eficientes?  Estabelecer uma inimizade regional imprevisível? Tudo isso por conta de um desacordo com a política fiscal da nação, espertamente apimentado com uma retórica nacionalista que, ainda que bem embasada historicamente, não encontra verdadeiro eco e justificativa no contexto atual. Após a ditadura de  Franco é impossível argumentar que Madrid, e o resto das regiões dessa colcha de retalhos medieval, não tenham cumprido os acordos firmados para garantir a união em torno do Estado central.</p>
<p>Colocando tudo na balança, a rivalidade, os amores imperfeitos, a vontade de afirmação da diferença e da autopercebida superioridade de cada parte, nada isso justifica que a Espanha moderna não presuponha a coexistência de Barcelona e Madrid.</p>
<p>De 1412 para cá, quando se assentou no trono catalão um príncipe de Castela, a Catalunha mudou de mão ao gosto das disputas dinásticas. Mas é notória a evidência que os longos períodos em que esteve ligada a Castela foram épocas de prosperidade e de construção conjunta da história da Espanha que são indissociáveis da própria noção de pátria para os dois.</p>
<p>A questão catalã lança luz sobre uma realidade mais ampla. A visão de autonomia ancora-se, nos tempos atuais, numa profunda crise identitária pela qual regiões, mas também pessoas, estão passando. O que move as multidões incendiárias não é um projeto social amplo, inclusivo, acima dos indivíduos e visando um direcionamento para um destino romântico, altruísta e desapegado de pátria. É, antes de mais nada, a expressão, tecida e tornada possível pelas novas tecnologias da informação, do grito gutural de defesa dos interesses individuais. Alimentado pelos detentores do poder de uma elite política regional que, por conta de tais tecnologias, não guarda mais nenhuma distância que a distinga da paixão da multidão de concidadãos/eleitores. O poder ilegítimo, para ser exercido, precisa de distanciamento. De que vale nas crises históricas um político exatamente igual ao seu impaciente eleitor ?.</p>
<p>Nunca foi tão necessário se construir uma interpretação positiva da União que sustenta e dá forma aos países. A inclinação humana para a sobrevivência alargou seu horizonte de tal forma que não ocorre, apenas, no sentimento de viver-mais-separadamente, que existe entre regiões. Até na vida privada essa ilusão de ser feliz sozinho e poder tocar trombeta para as nuvens tem levado a hábitos descuidados de desejos incontidos. Que impulsionam filhos a reivindicarem já a herança a um pai vivo.</p>
<p>Essa dramática situação separatista, de contornos bíblicos, é recepcionada pelo direito internacional que admite a precedência da integridade territorial sobre a autodeterminação.  Ainda que ambas tenham igual legitimidade. Mas nem em todos casos, as razões para a autodeterminação separatista, legitimam a quebra da integridade territorial.</p>
<p><strong>       *******************</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo.</strong></p>
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		<title>A UNESCO e os EUA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Oct 2017 13:58:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de outubro de 2017. A mais vital expressão das dificuldades da política mundial é conviver com o que a<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de outubro de 2017.</em></p>
<p><strong>A</strong> mais vital expressão das dificuldades da política mundial é conviver com o que a Casa Branca acha do dia a dia. A residência oficial do presidente norte-americano deveria ser o centro da difusão de toda revolta contra a autoridade arbitrária. Afinal, o país tem um imenso orgulho de propagandear que sua sabedoria como nação veio da liberdade. Mas o que vemos é que o repertório de instintos dos EUA contra a UNESCO, organização das Nações Unidas para Educação e Cultura, com sede em Paris é contínuo, une democratas e republicanos, nunca se renova e, tem sido uma verdadeira renúncia à inteligência.</p>
<p>Devorado pela necessidade de ser leal a Israel e manter uma distância regulamentar do pensamento da esquerda democrática ocidental, cujos compromissos não foram marcados em Nova York, os EUA não reservam nenhuma surpresa para quem os admira, mas não os obedeça. Há algo de sórdido mesmo na esperança, alerta R.W Emerson, seu emocionante poeta no ensaio “Independência”. A alma da política externa para a Unesco não é “a alma que se ergue acima da paixão” e, por isso, “não contempla a existência autônoma da verdade”.</p>
<p>Claro que a maioria controladora da Unesco ajuda pouco a livrar a organização das rapacidades da política multilateral. Parece contemplar com certa satisfação a ruina e o vazio de sua influência internacional, mesmo dentro da própria ONU. Nenhuma dos lados compreende o velho ditado que diz que boas cercas fazem bons vizinhos.</p>
<p>A história do ziguezague de Washington com a Unesco se agrava em 1984 quando Ronald Reagan abandona Paris acusando a organização de favorecer a cultura do bloco soviético. Dezoito anos de irritação e omissão se passam quando em 2002 Georg W.Bush volta à Unesco, como se não tivesse saído, seguro que a organização estava sob o controle virtuoso e sem risco de maioria anti-Israel. Passa o tempo e eis que Barack Obama, em 2011, concorda com o embaixador de Israel quando diz que a Unesco cuida de ficção política, mais do que ficção científica. A razão do novo rompimento, que fez os EUA irem aos cofres e pararem de pagar a Unesco, é a decisão da organização de cultura, educação e ciência da ONU de considerar a Palestina seu membro pleno. Sem alimentar nenhuma intenção de influenciar o Conselho de Segurança para mudar sua posição e reconhecer o status político da Palestina, a Unesco se liberou e decidiu mandar um recado aos seus, mas sem sair da ONU.</p>
<p>Agora, mais uma vez, Donald Trump mantem a tradição e diz que sai outra vez, daqui a um ano. O rumor é a decisão da Unesco de incluir a cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, como patrimônio mundial. E, provocativamente, como patrimônio em risco, pela presença de colonos e soldados israelenses, numa região de maioria palestina. O pessimismo normativo da visão seletiva de cultura costuma querer ver no céu o que a política não vê na terra.</p>
<p>Quem continua querendo que o Túmulo dos Patriarcas não dialogue com a Mesquita muçulmana?</p>
<p>A verdade, todavia, parece ser a mais pura política de poder: o candidato favorito para suceder a búlgara que preside a Unesco é árabe, do Qatar.</p>
<p>Os EUA nunca gostaram da UNESCO. Aquele prédio em Y modernista encravado atrás da École Militaire, onde formou Napoleão, e que a França usa para seu sentir-se glamourosamente poderosa, muito mais do que para endereçar uma agenda coerente, eficiente e eficaz dos rumos da educação global e sua constelação cultural.</p>
<p>Pode ser que líderes menores estejam estendendo o absurdo da vida.  Na dúvida, é até bom que virtudes pequenas andem nos dividindo tanto. Desde que não os levemos mais a sério. A Unesco deveria refletir sobre como anda dividindo os ambientes comuns e amplos de discussão sobre o patrimônio cultural da humanidade. Nenhuma vontade bloqueadora de mudança que venha dos EUA; nenhum clichê do passado que venha da França, prevalecerá sobre a vida comum que predomina na terra. Muito barulho por nada.</p>
<p>Há muita comparação da situação de hoje vivida com o período pós 1929. Felizmente a sociopatia que aglutinou no passado e nos levou a guerra não é mais a mesma.</p>
<p>Já vinha desde 2011 a suspensão dos pagamentos dos EUA para a UNESCO. Dali em diante, os EUA influenciaram cada vez menos as escolhas da instituição. A elegância da agenda sob a guarda da organização parisiense é inegável, mas não deveria ser tão abusada como anda. O poder, acima de tudo da França atual e seus escolhidos, não anda em condições de confrontar disputas duras. A aceitação disso pode ser intuitiva e transitória, pois tudo muda. Desde que as pessoas sejam abertas para pensar, mesmo em hipótese, que o que mais brota das crises atuais é a escassez de sabedoria.</p>
<p><strong>********</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo.</strong></p>
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		<title>RAPACIDADE NA POLÍTICA</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/rapacidade-na-politica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Nov 2017 18:18:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos O Globo]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Globo &#8211; 6 de Novembro de 2017. A verdade é que as pessoas andam mentindo muito. Por qualquer critério utilizado não conhecemos, ainda, o futuro<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Globo &#8211; 6 de Novembro de 2017.</em></p>
<p><strong>A</strong> verdade é que as pessoas andam mentindo muito. Por qualquer critério utilizado não conhecemos, ainda, o futuro presidente do Brasil. E não é somente falta de urna aberta. Toda a <em>coisarada</em> chamada pesquisa eleitoral não resiste a crítica social do julgamento. O efeito da pergunta é acalmar o pesquisador. Ele despreza o pesquisado. Qualquer classificação do eleitor como de direita, centro, esquerda não quer dizer nada.  A pesquisa sabe o que quer e não suporta ouvir o que não quer. Ela finge esperar contraposições as próprias respostas. A pesquisa é escrava dos seus resultados. O pesquisado joga com a vontade do pesquisador. Com pré-aprovação absoluta dos interessados na confusão a pesquisa sai a campo, e erra.</p>
<p>Não há negação da política. Há desamor por políticos. A política não significa mais o que é. “Não nos diz nada”. Um novo sentido se inicia para quem aprendeu a nadar quando o mar secou.  As pessoas percebem que a melhoria da vida pode ser obtida por outros meios menos falsos. Porque entre o predomínio do interesse de gente comum, consumidora de bens e serviços, e o arsenal demagógico das celebridades, consumidores de votos, não há mais qualquer familiaridade. O eleitor fiel, dramaticamente, transpôs para um político seu destino. Angustia de oprimido agarrado a nadador que se afoga.</p>
<p>As dificuldades de diálogo são alimentadas pelo barulho das posições predadoras. Quem mais aciona o dispositivo amigo-inimigo para provocar torpor é a política e sua frutífera vida privada.  Monopoliza a emoção para esconder a ideia de que não aceita ser governada por ninguém.</p>
<p>A política tutelou a confiança da sociedade. Por isso impõe todas as formas de comunicação, através de todas as instituições públicas, de maneira obrigatória como doença. Contaminou de tal forma o processo eleitoral que o resultado da eleição não é mais o sentimento coletivo de participar de uma comunidade de direitos e deveres partilhados. A manipulação de propaganda, a campanha eleitoral permanente, o candidato honesto que vira governante desonesto, levou ao chão o bom nível da atividade. Qualquer um que se ajuste, serve.  Não é por outro motivo que não há mais político entre as pessoas mais relevantes de uma nação.</p>
<p>Enquanto isso, na vida real, o dinamismo ordinário- extraordinário das mudanças expulsa o senso comum e “a vontade de amar que paralisa o trabalho”. Mudou o conceito de status, é outra a cadeia simbólica que movimenta os corações. Falar baixo, ser tímido, traços fora do padrão, expectativas modestas, não infligir demagogia aos outros, achar enganadora a pose do ministro do Supremo, ser livre pensador, sexualmente não exibido, obedecer voluntariamente às leis, recusar a ditadura da liberdade, estigmatiza pessoas, produz pressão sobre o conceito de bem-estar, ameaça a felicidade conformista.</p>
<p>A política de hoje não sabe nada do que é mobilização de consciência e desafio democrático.  Quer transformar o cidadão livre em cliente do Estado e empacotá-lo como mercadoria. Não há nova política. É a mesma, desde que sem rapacidade.</p>
<p><strong> ******</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é sociólogo.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Também disponível em <a href="https://oglobo.globo.com/opiniao/rapacidade-na-politica-22032788">O Globo</a>.</p>
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		<item>
		<title>ARMADILHAS DO DESEJO</title>
		<link>https://paulodelgado.com.br/armadilhas-do-desejo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2017 18:25:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 09/11/2017. Conflitos dentro de nações nem sempre confrontam a balança de poder mundial. Cancela afetos, insulta o sangue. Assim, é<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 09/11/2017.</em></p>
<p><strong>C</strong>onflitos dentro de nações nem sempre confrontam a balança de poder mundial. Cancela afetos, insulta o sangue. Assim, é meio existencialista o desafio de fazer diferentes culturas conviverem num sistema comum. Vale a pena tentar, pois, “nada pode ser bom para nós que não seja para todos”.</p>
<p>Sentimentos humanos não são suficientes para decidir disputas políticas. São várias as possibilidades de gerar e resolver o mal-estar entre regiões. O comercio, a diplomacia, costumes e leis ajudam na busca do reequilíbrio interno. Todavia, nunca se deve subestimar os protagonistas inúteis que surgem no meio de crises políticas tentando dar um significado de ruptura aos fluxos normais de poder na sociedade de massa. Maquinações políticas não convivem bem com o direito de fazer pergunta. Muitas vezes escondem do público os verdadeiros motivos, articulados nas sombras de interesses restritos e privilegiados, que buscam converter pretensões de legitimidade em separatismo.  Aberto o debate, reveladas as confidências, felizmente prevalecem vozes de quem acredita no progresso e sabe que o presente não é o destino final da história de ninguém.</p>
<p>Há um caminho muito estreito para as nações passarem. A sociedade anda certa que está pagando aos governos uma conta muito acima do que devia.   É essa maré de desilusão-iludida que vem carregando inúmeras regiões para falseados romantismos. Diferente da explosão nacionalista do século XIX, que formou os Estados Nacionais, os movimentos atuais não são resultado da descoberta da autoestima afirmadora da individualidade cultural. Nem, felizmente, reúnem capacidade militar capaz de rivalizar e se impor pela força. Mas o mundo está repleto de angústias e perspectivas morais contraditórias. E, vez ou outra, em nome da liberdade, expressa como pode, suas intuições.</p>
<p>Vivemos era ultra individualista, sem espírito-criativo-coletivo, onde nada cessa em quietude. Com o avanço democrático e a abolição da distância e do tempo, na economia, na tecnologia, basta identificar um desejo para que logo se exija um direito. Mas desejo é falta que nem sempre está ao alcance da vontade. Embora a oferta de bens seja cada vez mais homogênea a sociedade se finge heterogênea e exige distinção. O individualismo libertário exagerado lembra alpinistas agarrados uns aos outros empurrados para seu gueto, criando novas hierarquias para seu usufruto. Pois, quanto mais se pede ao Estado, mais ele oferece, sorrateiramente, instituições, burocracias que manipulam a sua vida. A liberdade, em anúncios intermináveis, é a maior prisão em que vive o mundo atual. Fábrica de esperanças malogradas tão ao gosto da crispação política.  Poder fazer o que quiser não muda ninguém, desmascara. Pois o todo de uma coisa exagerada sempre vem como doença.</p>
<p>A Catalunha separada da Espanha, mais do que o Brexit, que separou a Grã-Bretanha da União Europeia, assusta pela culpa que carrega a Europa sobre a imposição de força que usou nos casos da Croácia, Bósnia e do Kosovo. Todos se perguntam o que é autoderminação em uma região multilinguística e tão pouco homogênea, material e culturalmente, como o continente europeu.</p>
<p>Qual o sentido de se pleitear ser pequeno no mundo de gigantes? Não há uma grande visão que sustente uma Catalunha melhor, divorciada. As liberdades identitárias estão asseguradas e há benefícios diversos de se ter escala e poder se sentar à mesa com os que deliberam sobre as questões mais universalmente relevantes do globo.  Ser uma voz secundária e proforma na Europa? Abdicar de Forças Armadas relativamente baratas e eficientes?  Estabelecer uma inimizade regional imprevisível? Tudo isso por conta de um desacordo com a política fiscal da nação, apimentado por retórica nacionalista que não encontra justificativa no contexto atual. Após a ditadura de Franco é impossível argumentar que Madrid, e o resto das regiões dessa colcha de retalhos medieval, não tenham cumprido os acordos firmados para garantir a união em torno do Estado central.</p>
<p>Colocando tudo na balança &#8211; a rivalidade, os amores imperfeitos, a vontade de afirmar a diferença e a autopercebida superioridade de cada parte &#8211; nada isso justifica uma Espanha moderna sem a coexistência de Barcelona e Madrid, indissociáveis da própria noção de pátria para os dois.</p>
<p>A questão catalã lança luz sobre uma realidade mais ampla. A visão de autonomia ancora-se, atualmente, numa profunda crise identitária pela qual regiões, mas também pessoas, estão passando. O que move as multidões incendiárias não é um projeto social amplo, inclusivo, acima dos indivíduos e visando um direcionamento para um destino romântico, altruísta e desapegado de pátria. É, antes de mais nada, a expressão, tecida e tornada possível pelas novas tecnologias da informação, do grito gutural de defesa dos interesses individuais. Alimentado por certa má-fé de detentores do poder regional que se esquivam de sua responsabilidade misturando-se à paixão da multidão de concidadãos/eleitores. O poder legítimo, para ser exercido, precisa de distanciamento. De que vale nas crises um político de horizonte igual ao do seu eleitor? Foram os políticos que afetaram os cálculos separatistas diminuindo a confiança do povo no diálogo.</p>
<p>A inclinação humana para a sobrevivência alargou seu horizonte de tal forma que o sentimento de viver-mais-separadamente, se alastrou. Até na vida privada essa ilusão de ser feliz sozinho e poder tocar trombeta para as nuvens tem levado a desejos incontidos. Que impulsionam filhos a reivindicarem já a herança a um pai vivo.</p>
<p>Essa dramática situação separatista, de contornos bíblicos, é recepcionada pelo direito internacional que admite a precedência da integridade territorial sobre a autodeterminação.  Ainda que ambas tenham igual legitimidade. Mas nem sempre as razões para querer ser um, legitimam a quebra da integridade territorial que acolhe todos.</p>
<p><strong>  ****</strong></p>
<p><strong><em>PAULO DELGADO</em> é Sociólogo e Co-Presidente do Conselho de Economia, Sociologia e Política da Fecomercio/SP               </strong></p>
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		<title>100 ANOS DE UM DESCONFORTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Administrador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Nov 2017 21:40:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 12 de novembro de 2017. Em um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 12 de novembro de 2017.</em></p>
<p><em><strong>E</strong>m um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de Joseph Schumpeter, dois amigos, um liberal e um comunista, jantavam.  Ao ouvir gritos de uma briga de rua seguidos de silêncio, o amigo de esquerda disse:  perdemos! Como assim, se você nem sabe do que se trata, indagou o de direita ? </em><em>Amanhã saberemos. Mas adianto, o lado que perdeu, esse sempre somos nós. </em></p>
<p>Não é preciso dizer que trata-se de uma alegoria que, como professor, gostava de contar aos meus alunos assustados com o sucesso do capitalismo no mundo.  O narcisismo que a esquerda sempre teve pela causa perdida foi muitas vezes confundida com compaixão. Mas, o fato de um sistema de produção ser coletivo, não garante que o aspecto econômico do esforço e da  satisfação humana tenham sido melhor alcançados.</p>
<p>O homem é mais criativo usando a imaginação, o sonho e o pensamento do que os braços, corpo e o suor como fator de produção. Produzir não é criar, é transformar o que já existe. O capitalismo avançou mais do que o socialismo porque percebeu primeiro que o sonho dos homens é descobrir a desutilidade do trabalho, sua penosidade. A União Soviética sumiu na poeira do tempo quando passou a confundir a disciplina para o trabalho obrigatório e coletivo com uma teoria geral da escolha e da felicidade humana. Não passa da quimera do Estado benfeitor, desejo de governantes auto escolhidos.</p>
<p>Qualquer regime politico fracassa se não confia nas possibilidades contidas na sociedade. Um senso comum democrático e soberano das ações humanas para se organizar e sobreviver com autonomia. Não é defeituoso o método que os líderes da centenária revolução russa de 1917 usaram para se manter no poder por tantos anos. Seu maior problema é ter inventado um sistema produtivo cujo custo de implantação e funcionamento foi infinitamente maior do que a satisfação que possibilitou. Nenhum operário, astronauta, comerciante ou fazendeiro torna-se mais criativo e livre com o crachá de um departamento do governo.</p>
<p>O aniversário da revolução bolchevique bem poderia ter passado incólume. Afinal, qual o horizonte oferece às gerações atuais ?. O fato de ser necessário algum controle reconhecido para qualquer atividade humana não significa que ele deva ser estatal.  Se o campo das atividades legítimas só pode ser o controlado pelo Estado não sobra nenhum papel para o cidadão. E foi essa confusão liberdade-estado-indivíduo-sociedade que afastou os sonhadores, políticos, intelectuais e ativistas das causas democráticas, da defesa de uma Moscou vermelha.</p>
<p>Com o desmantelamento da União Soviética; com a estraçalhadoramente pragmática adesão da China ao capitalismo; com a alienação mundial que a globalização escancarou no rosto das novas gerações; com a cada vez menos sedutora e idealizada a charmosa Cuba;  com o silêncio mundial diante da solução arbitrária do sangrento conflito na antiga Iugoslávia; com a patética Coreia do Norte; com tudo isso e mais um pouco, o comunismo, como ideia e sonho, perdeu influência nos lares, nos fóruns de formulação de organizações e instituições. O leão se reduziu a gato, deixando um vazio na sadia função de contraponto aceitável para formadores de opinião.</p>
<p>Ainda que não se observe mudanças do padrão de distribuição de renda no mundo capitalista há em curso uma tendência, não-cíclica, de acumulação muito significativa da riqueza disposta no planeta. O fenômeno popularizado por um contundente livro de Thomas Piketty, até então um economista francês que fazia carreira distante das discussões econômicas de impacto global, mostrou robustez, pois, mesmo quando combatido, nunca o foi de forma que fragilizasse diretamente o cerne de sua análise.</p>
<p>De fato, a riqueza no planeta está concentrada e continua com uma dinâmica de mais concentração nas mãos, contas correntes e de investimentos de um reduzido número de indivíduos. Mas o mundo nunca foi tão rico quanto agora em que a recompensa pelos que apostam no empreendedorismo segue a regra em que o risco dos investimentos é menor do que o retorno elevado que proporciona.</p>
<p>Se você quer ser dono dos seus desejos não deixe nunca o Estado ser o único empregador. Há um inapelável e desconcertante defeito de origem na democracia. Ela é um filtro para produzir uma minoria legitima e confiável. Caso, tal elite, se torne desprovida de virtudes, que seja, constitucionalmente, deposta. A areia escorre garganta abaixo na ampulheta. Com quais santos e milagres serão enfeitados os aniversários dos governos progressistas pouco se pode antever. Para a União Soviética, basta o réquiem pela morte do equívoco que foram seus governos arbitrários.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo.</strong></p>
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		<title>O MUNDO VOLTOU A ESQUENTAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Nov 2017 19:14:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 26 de novembro de 2017. Estamos chegando ao fim do ano e todos andam certos que a terra não<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 26 de novembro de 2017.</em></p>
<p><strong>E</strong>stamos chegando ao fim do ano e todos andam certos que a terra não é mais a mesma. Com Donald Trump na presidência dos EUA é Al Gore, ex-futuro-presidente do país &#8211; que venceu George Bush, mas não ocupou a Casa Branca &#8211; que faz mais uma vez o papel do bobo bom. Reaparece em novo documentário &#8220;Uma sequela Inconveniente: a verdade ao poder&#8221;, novamente alertando ao mundo que o aquecimento é um esgoto que adoece a terra.</p>
<p>O bobo é aquele personagem tragicômico do teatro clássico inspirado no funcionário das cortes europeias e asiáticas, contratado para divertir o rei. Sem papas na língua era autorizado, distintamente, a dizer o que lhe vinha à cabeça. Figura peculiarmente interessante faz falta aos partidos políticos brasileiros, nossas monarquias hereditárias. Bobo é quem usa o humor para falar com o coração verdades percebidas pela razão, que muitos prefeririam jogar para debaixo do tapete.  Al Gore, tipo de alma penada do <em>grand monde</em>, orgulha-se do papel que teve para viabilizar o acerto sobre o clima, em Paris. Se fosse cumprido, o mundo poderia manter abaixo de dois graus o aumento da temperatura no presente século, tendo como base o calor do século XIX.</p>
<p>Trump quer enterrar o Acordo de Paris, celebrado em 2015 na COP21, Conferência do Clima patrocinada pela ONU, e do qual espalhafatosamente retirou os EUA meses atrás. Não que ele ligue, mas não será convidado por Macron, o presidente da França, para o encontro de 12 de dezembro na capital francesa para alinhar os líderes mundiais após dois anos de assinatura do tratado. Em antecipação a isso, na busca de um anticlímax de uma COP23 sediada em Bonn, o Le Monde, principal jornal francês, em 14 de novembro trouxe estampado em letras garrafais: &#8220;Em breve já será muito tarde&#8221;. A chamada anunciava para o encarte no jornal de um documento assinado por quinze mil cientistas de 184 países alertando para a necessidade de ações imediatas para evitar &#8220;uma miséria generalizada e uma perda catastrófica de biodiversidade&#8221;.</p>
<p>Vinha ali o esforço de popularização de uma bem-calcada análise científica sobre o que se passa com o planeta. O alerta publicado na revista <em>BioScience,</em> editada pela Universidade de Oxford, é outra sequência, dessa vez de um artigo estampado ali há 25 anos por volta da ECO92, ocorrida no Rio de Janeiro. A situação degringolou de 1992 para cá, a despeito de um aumento radical na conscientização das pessoas. Algum efeito positivo aconteceu e nos três anos anteriores a 2017 as emissões mundiais de CO<sub>2 </sub>ficaram estagnadas, mas estão novamente em alta.</p>
<p>Embora pareçam otimistas para muitos as previsões endossadas por Gore são fins da utopia. Nascidas dessa abstrata compreensão científica dos malefícios oriundos do aquecimento do planeta, por quaisquer dois graus que sejam, faz cada vez mais sentido perceber na pele por que o mundo voltou a esquentar. Onze anos passados desde que &#8220;Uma verdade inconveniente&#8221;, documentário de Davis Guggenheim, com um apaixonado Al Gore, alertava sobre o aquecimento global contínuo. De pouco adiantou o impacto que foi receber o Oscar de melhor documentário de Hollywood e, junto com o Painel Intergovernamental Para As Mudanças Climática Da ONU, o Premio Nobel da Paz daquele ano de 2007.</p>
<p>O resumo dos anseios que brotam da visualização dos fatos é a de que temos que adotar, o quanto antes, uma alternativa conjugada de produção e modo de vida que sejam mais do que sustentáveis, mas sim mais duráveis ecologicamente.  O caráter de emergência do problema, aponta a matéria principal da revista londrina <em>The Economist</em> nesta semana, é que para se evitar transpor os dois graus não adianta parar a emissão, mas sim teria que ser desenvolvida tecnologia para sugar o equivalente a 20 anos de emissão para fora do ar que nos envolve. Sem dúvidas, nunca vivemos em tempos tão dinâmicos na fermentação de avanços tecnológicos ultramodernos, e muitas vezes salvadores, mas sem incentivos claros para que venham à luz a difícil solução que salvar a terra da morte do clima.</p>
<p>No início deste novembro a extemporânea adesão da conflagrada Síria ao Acordo de Paris deixou os EUA na condição de único país do mundo que oficialmente o rejeita. Uma posição inconveniente para quem se clamava até a pouco como o líder do mundo livre. Muitos se preocupam que o isolacionismo americano seja um mau exemplo para cabeças fracas mundo afora. Todavia, tudo está tão exacerbado que se esparrama como caricatura de modo a apenas expor, para que todas saibam, a cínica hipocrisia dos alegres aderentes que nada fazem de verdade para melhorar a situação. Trump é o mais errado, pelo tamanho dos EUA, mas não é nenhum bobo da corte.</p>
<p>*****</p>
<p>PAULO DELGADO é Sociólogo.</p>
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		<title>OS BOBOS DA TERRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Dec 2017 19:40:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos O Globo]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Globo &#8211; 4 de Dezembro de 2017. Cheguei aqui e você tem que lidar comigo, diz o clima para a terra certo que as pessoas<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Globo &#8211; 4 de Dezembro de 2017.</em></p>
<p><strong>C</strong>heguei aqui e você tem que lidar comigo, diz o clima para a terra certo que as pessoas só desconfiam dos passos em falso que dão na vida quando aa coisas se tornam salientes. Estamos em plena era da impostura, a ideologia dos sem programa competindo com o programa dos sem ideologia. Sobre clima, todo exagero é verdadeiro, toda verdade um exagero. Na confusão o calor aumenta, o gelo derrete.</p>
<p>Eis que Donald Trump chega na presidência dos EUA, mas é Al Gore, ex-futuro-presidente do país &#8211; que venceu George Bush, mas não ocupou a Casa Branca &#8211; que faz outra vez o papel do bobo bom. Reaparece em novo documentário &#8220;Uma Sequência Inconveniente: a verdade ao poder&#8221;, alertando que o aquecimento é um esgoto que adoece a terra.</p>
<p>O bobo é aquele personagem tragicômico do teatro clássico inspirado no funcionário das cortes familiares, contratado para divertir o rei. Sem papas na língua era autorizado a dizer o que lhe vinha à cabeça. Figura interessante que faz falta aos partidos políticos brasileiros, nossas monarquias fósseis que não consideram a inteligência um bem renovável. Bobo é quem estuda e fala com o coração verdades percebidas pela razão, jogadas pela maioria para debaixo do tapete.  Al Gore, um tipo alma penada, orgulha-se do papel que teve para viabilizar o acerto sobre o clima. Se fosse cumprido, o mundo poderia manter dois graus abaixo o aumento da temperatura.</p>
<p>Trump quer enterrar o Acordo de Paris, celebrado em 2015 na COP21, Conferência do Clima, e do qual espalhafatosamente retirou os EUA meses atrás. Não que ele ligue, mas não será convidado por Macron, o presidente da França, para o encontro na semana que vem que tenta realinhar líderes mundiais em torno do tratado. Em antecipação a isso, o Le Monde, principal jornal francês, traz manchete em letras garrafais: &#8220;Em breve já será muito tarde&#8221;. Era a chamada para um documento assinado por quinze mil cientistas de 184 países alertando para a urgência de ações para evitar &#8220;uma miséria generalizada com a perda catastrófica de biodiversidade&#8221;.</p>
<p>As previsões endossadas por Gore são fins da utopia. Nascidas da compreensão dos malefícios oriundos do aquecimento do planeta, por quaisquer dois graus que sejam, faz cada vez mais sentido perceber na pele por que o mundo voltou a esquentar. Onze anos se passaram desde que &#8220;Uma verdade inconveniente&#8221;, documentário de Davis Guggenheim, com um apaixonado Al Gore, alertava sobre o aquecimento global contínuo. De pouco adiantou o impacto que foi receber o Oscar de melhor documentário e, junto com o Painel Intergovernamental Para As Mudanças Climática Da ONU, o Premio Nobel da Paz de 2007.</p>
<p>O resumo dos anseios ecológicos é a de que temos que adotar um modo de vida melhor. Para evitar morrer de calor não adianta somente parar a emissão, mas desenvolver tecnologia para sugar o equivalente a 20 anos de emissão gás tóxico. Mas quem quer mesmo salvar a terra da morte do clima?</p>
<p>Os EUA estão na condição de único país do mundo que oficialmente rejeita o acordo. Uma posição inconveniente de um governante que muitos acham graça. Al Gore é o chato, mas o mais errado, Trump, não é nenhum bobo da corte.</p>
<p><strong>*****</strong></p>
<p><strong>PAULO DELGADO é Sociólogo.</strong></p>
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		<title>O CHILE E AS PESQUISAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Dec 2017 19:42:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Correio Braziliense e Estado de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Recentes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 10 de dezembro de 2017. O Chile elege, na semana que antecede o Natal, seu novo presidente. A disputa<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 10 de dezembro de 2017.</em></p>
<p><strong>O</strong> Chile elege, na semana que antecede o Natal, seu novo presidente. A disputa entre Sebastián Piñera, <em>Chile</em> <em>Vamos &#8211; </em>nome-mania com que batizou seu bloco de centro-direita &#8211; e Alejandro Guillier, da coalizão governista que conseguiu liderar o voto de centro-esquerda, não contém significativa boa-nova. Mas traz alertas daquele que é o mais bem-sucedido país da América Latina, dentro do contexto que vivemos de 1980 para cá.</p>
<p>O país é uma tripa de cobre, aparentemente com a política mais equilibrada da região, talvez pela sua também abundância em lítio. Abençoado lítio, que torna aviões mais seguros, carros elétricos viáveis e compõe a fórmula de medicamentos que ajudam a equilibrar mentes ansiosas. O país andino tem uma desértica beleza desconcertante. É empurrado ao mar pela cordilheira que o protege, maternalmente, dos turbilhões da virilidade mal resolvida que vem dos interiores da política do continente. Cordilheira que em troca o expõe ao oceano de problemas e soluções que é estar aberto para o mundo. O Chile é o país que mais entende da necessária convergência que deve ter a política e a economia, as duas pontas geradoras de sua prosperidade nas últimas décadas. Também é o que está, pela geografia, fadado à maior exposição aos países banhados pelo Pacífico, região que é o futuro imediato do planeta. Podia não se valer do mar, ou não saber usar isso, mas razoavelmente o faz.</p>
<p>Ao sugerir que houve fraude no primeiro turno da eleição presidencial ocorrido em novembro passado, Sebastián Piñera, ex-presidente que parecia liderar, mas não conseguiu evitar o segundo turno, pode ter dado um tiro no pé. Não é em todo lugar que vale a pena jogar com a superficialidade da onda que varre o mundo e consiste na constante manipulação da opinião pública, chamada sempre como testemunha de falsidades, ou verdades incompletas. No meio da confusão do inesperado resultado favorável ao governo estão, outra vez, as pesquisas de opinião.</p>
<p>As pesquisas não conseguem expressar mais todos os elos da cadeia que levam uma pessoa a pensar e a responder a um questionário. O pesquisado não tem nenhuma ilusão sobre o lugar que ocupa no sistema de decisão do país. Não está, pois, em guarda, como estão os verdadeiros interessados na sua opinião. Na sua cabeça, a pesquisa é um jornal já lido.</p>
<p>Assim, desmonta a lógica da estatística, mesmo não tendo propensão a mentir. O fato é que quando ninguém sabe direito o que pensa o povo costuma abandonar o conceito clássico de preferência e apostar na ideia sem sentido de &#8220;gostabilidade&#8221; eleitoral de algum conhecido. Gostar não é escolher, fenômeno que sempre conduz ao erro.  Ninguém é dono do eleitor. Por um motivo simples: de nada adianta você estar na frente se você está na estrada errada.</p>
<p>Ainda que o Chile seja o mais desigual dentre os membros do clube dos países ricos ele parece curado da maldade da manipulação política. Há ali um povo  interessante, sobrevivente, culto. Para muitos o ex-presidente Piñera, a presidente Bachelet, o ex-presidente Lagos, o noviço Guillier, são um luxo distante. É inédito entre nós: esquerda e direita convencidos que ninguém é feliz cobrando do Estado exoneração das dificuldades da vida.</p>
<p>As pessoas são vítimas, às vezes cárceres, das circunstâncias. Pode-se romper com isso, como o Chile rompeu.  O candidato de centro-esquerda Alejandro Guillier, da coalizão governista <em>Nueva Mayoría</em>, beneficiou-se ou soberba, ou da bobeira de Piñera, sacramentando então a atração da descolada Beatriz Sánchez, os jovens livres, que despontou como fresca opção contestatória.</p>
<p>Não é de hoje que se promove um vale tudo em eleições presidenciais no continente. O Chile decidirá entre Piñera e Guillier no dia 17 próximo. A crise, sem  recessão, ainda assim favorece os anti-tudo: globalização, corrupção, violência, acomodação, caridade, seriedade, pobreza, diferenciação, homogeneização. O mau humor será testado dentro do turbilhão do faroeste que são as pesquisas de opinião. Mas começa no melhor dos contextos, cada um decidindo livremente, com voto facultativo. Ano que vem temos paradas mais duras no México, Colômbia e Brasil.</p>
<p>Shannon O&#8217;Neil, autora do interessante livro Duas Nações Indivisíveis, sobre a relação México-EUA, alertou recentemente para o fato de que “o México permanece extremamente vulnerável à interferência Russa que ocorreu na eleição de 2016 nos EUA. Facebook, Twitter e Google são importantes fontes de informação para muitos mexicanos&#8221;. Enfim, algo pior do que as pesquisas. As contradições autodestrutivas do indivíduo, espalhadas anônima e irresponsavelmente nas redes sociais, são a maior ameaça estética e o desastre ético das eleições modernas.</p>
<p><strong>*****</strong></p>
<p><strong>Paulo Delgado é sociólogo.</strong></p>
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		<title>E ENTÃO, QUE QUEREIS ?&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paulo Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2017 18:57:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos Estadão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Estado de S. Paulo – 13 de Dezembro de 2017. Em um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de<span class="excerpt-hellip"> […]</span></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O Estado de S. Paulo – 13 de Dezembro de 2017.</em></p>
<p><strong>E</strong>m um restaurante de Londres, entre a morte de Karl Marx e o nascimento de Joseph Schumpeter, dois amigos, um liberal e um comunista, jantavam.  Ao ouvir gritos de uma briga de rua seguidos de silêncio, o de esquerda disse:  perdemos! Como assim, se você nem sabe do que se trata, indagou o de direita ? Amanhã saberemos. Mas adianto, o lado que perdeu, esse sempre somos nós. Dessemelhanças, o desconforto diante das coisas que não se encaixam.</p>
<p>A alegoria acima que, como professor, gostava de contar aos meus alunos assustados com o sucesso do capitalismo no mundo, nunca perdeu a atualidade.</p>
<p>Desde que a idéia do Estado forte montou guarda na porta da imaginação política a superficialidade de análise minou a autoconsciência da esquerda. Fez a glória de cálculos frustrados, chamou de consciência confusos sentimentos ideológicos, supôs a animosidade uma forma de virtude.  O narcisismo pela causa perdida se confundiu com compaixão. Sem defesa, a melancólica grandeza do crédulo militante juntou-se à intolerância esperta do chefe de partido. E aquele tabuleiro de peças arrumadas, monopolizado por favores e  temores, produziu ligação sentimental tão dessarrumada no povo que o nome do afeto que o sustenta não é alegria, mas o medo.</p>
<p>E, assim, a base na qual a vida soviética se afirmava, não enchia taça de liberdade que pudesse umedecer o deserto de ideias que imperava. Uma história em tres atos, de um compridissimo período de portas fechadas reunindo a notável esperança do início, a vulgaridade brutal do meio, a insignificância profética do fim.</p>
<p>Porque nem a misericórdia perdoa o carater economicamente atrasado e filosoficamente estéril de sociedades em que a vontade humana não é recurso renovável. Ninguém será livre cobrando do Estado a exoneração das dificuldades da vida.</p>
<p>O fato de um sistema de produção ser coletivo, não garante que o aspecto econômico do esforço e da  satisfação humana tenham sido melhor alcançados.</p>
<p>O homem é mais criativo usando a imaginação, o sonho e o pensamento do que os braços, corpo e o suor como fator de produção. Produzir não é criar, é transformar o que já existe. O capitalismo avançou mais do que o socialismo porque percebeu primeiro que o sonho dos homens é descobrir a desutilidade do trabalho, sua penosidade. A União Soviética sumiu na poeira do tempo quando passou a confundir a disciplina para o trabalho obrigatório e coletivo com uma teoria geral da escolha e da felicidade.  A ilusão de se atingir um padrão invariável  de comportamento pressupõe a  supressão  dos orgãos sensoriais humanos.</p>
<p>Qualquer regime politico fracassa se não confia nas possibilidades contidas na sociedade. Um senso comum soberano das ações humanas para se organizar e sobreviver com autonomia. Não foi defeituoso o método que os líderes da revolução russa de 1917 usaram para se manter no poder. Foi inaceitável. Seu maior problema é inventar um sistema produtivo cujo custo de implantação e funcionamento foi infinitamente maior do que a satisfação que possibilitou. Nenhum operário, astronauta, comerciante ou fazendeiro torna-se mais criativo e livre com o crachá de um departamento do governo.</p>
<p>O aniversário da revolução bolchevique bem poderia ter passado incólume. Afinal, qual o horizonte oferece às gerações atuais ?. O fato de ser necessário algum controle para qualquer atividade humana não significa que ele deva ser estatal.  Se o campo do que é legítimo só pode ser certificado pelo Estado não sobra papel para o cidadão. E foi essa confusão liberdade-estado-indivíduo-sociedade que afastou sonhadores, políticos, intelectuais e entusiastas das causas democráticas da defesa de uma Moscou vermelha.</p>
<p>Com o fim da União Soviética; com a estraçalhadoramente pragmática adesão da China ao capitalismo; com a alienação mundial que a globalização escancarou no rosto das novas gerações; com a cada vez menos idealizada e charmosa Cuba;  com o silêncio mundial diante da solução arbitrária do conflito na antiga Iugoslávia; com a patética Coreia do Norte; com tudo isso e mais um pouco, o comunismo, como sonho, perdeu influência nos lares, nos estudos de organizações e instituições. O leão se reduziu a gato, deixando um vazio na função de contraponto aceitável para formadores de opinião. E é pelos olhos de um  deles que o desastre foi pressentido: &#8220;nada de novo há no rugir das tempestades&#8221;, alertou Maiokóvski  no poema<em>, E então, que quereis?..,</em> pouco tempo antes de receber o tiro que o matou.</p>
<p>Ainda que não se observe grandes mudanças do padrão de distribuição de renda no mundo há em curso uma tendência, não-cíclica, de acumulação muito significativa da riqueza disposta no planeta. O fenômeno popularizado por um contundente livro de Thomas Piketty, até então um economista francês que fazia carreira distante das discussões econômicas de impacto global, mostrou força, pois, mesmo quando combatido, nunca o foi de forma que fragilizasse diretamente o cerne de sua análise.</p>
<p>De fato, a riqueza no planeta está concentrada e continua com uma dinâmica de mais concentração nas mãos de um reduzido número de indivíduos. Mas o mundo nunca foi tão rico quanto agora em que a recompensa pelos que apostam na livre iniciativa segue a regra em que o risco dos investimentos é menor do que o retorno que proporciona.</p>
<p>Se você quer ser dono dos seus desejos não deixe o Estado ser o único empregador. Nem dê seu tempo à emoções massificadas, fermento da fúria falsa do manipulador. Há um desconcertante defeito/virtude de origem na democracia. Ela é um filtro para produzir uma minoria legitima e confiável. Caso, tal elite, se torne desprovida de virtudes, que seja, constitucionalmente, deposta. A areia escorre garganta abaixo na ampulheta.</p>
<p>Com que santo e milagre será enfeitado o aniversário dos governos progressistas atuais pouco se pode antever. Para a União Soviética, basta o réquiem pela morte do enorme equívoco que foram seus governos arbitrários.</p>
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<p><strong>                                      *****</strong></p>
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<p><strong>PAULO DELGADO é sociólogo. Co-Presidente do Conselho de Economia, Sociologia e Politica da Fecomercio de SP.  </strong></p>
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<p>Leia também no <a href="http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,e-entao-que-quereis,70002118046">Estadão</a>.</p>
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