RAPACIDADE NA POLÍTICA

O Globo – 6 de Novembro de 2017.

A verdade é que as pessoas andam mentindo muito. Por qualquer critério utilizado não conhecemos, ainda, o futuro presidente do Brasil. E não é somente falta de urna aberta. Toda a coisarada chamada pesquisa eleitoral não resiste a crítica social do julgamento. O efeito da pergunta é acalmar o pesquisador. Ele despreza o pesquisado. Qualquer classificação do eleitor como de direita, centro, esquerda não quer dizer nada.  A pesquisa sabe o que quer e não suporta ouvir o que não quer. Ela finge esperar contraposições as próprias respostas. A pesquisa é escrava dos seus resultados. O pesquisado joga com a vontade do pesquisador. Com pré-aprovação absoluta dos interessados na confusão a pesquisa sai a campo, e erra.

Não há negação da política. Há desamor por políticos. A política não significa mais o que é. “Não nos diz nada”. Um novo sentido se inicia para quem aprendeu a nadar quando o mar secou.  As pessoas percebem que a melhoria da vida pode ser obtida por outros meios menos falsos. Porque entre o predomínio do interesse de gente comum, consumidora de bens e serviços, e o arsenal demagógico das celebridades, consumidores de votos, não há mais qualquer familiaridade. O eleitor fiel, dramaticamente, transpôs para um político seu destino. Angustia de oprimido agarrado a nadador que se afoga.

As dificuldades de diálogo são alimentadas pelo barulho das posições predadoras. Quem mais aciona o dispositivo amigo-inimigo para provocar torpor é a política e sua frutífera vida privada.  Monopoliza a emoção para esconder a ideia de que não aceita ser governada por ninguém.

A política tutelou a confiança da sociedade. Por isso impõe todas as formas de comunicação, através de todas as instituições públicas, de maneira obrigatória como doença. Contaminou de tal forma o processo eleitoral que o resultado da eleição não é mais o sentimento coletivo de participar de uma comunidade de direitos e deveres partilhados. A manipulação de propaganda, a campanha eleitoral permanente, o candidato honesto que vira governante desonesto, levou ao chão o bom nível da atividade. Qualquer um que se ajuste, serve.  Não é por outro motivo que não há mais político entre as pessoas mais relevantes de uma nação.

Enquanto isso, na vida real, o dinamismo ordinário- extraordinário das mudanças expulsa o senso comum e “a vontade de amar que paralisa o trabalho”. Mudou o conceito de status, é outra a cadeia simbólica que movimenta os corações. Falar baixo, ser tímido, traços fora do padrão, expectativas modestas, não infligir demagogia aos outros, achar enganadora a pose do ministro do Supremo, ser livre pensador, sexualmente não exibido, obedecer voluntariamente às leis, recusar a ditadura da liberdade, estigmatiza pessoas, produz pressão sobre o conceito de bem-estar, ameaça a felicidade conformista.

A política de hoje não sabe nada do que é mobilização de consciência e desafio democrático.  Quer transformar o cidadão livre em cliente do Estado e empacotá-lo como mercadoria. Não há nova política. É a mesma, desde que sem rapacidade.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

Também disponível em O Globo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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