2020-2021 – DOIS ANOS EM UM

Capital Político – 29 de dezembro de 2020.

É lucidez, desatino.  De ver o próprio destino. Sem poder mudar-lhe a sorte. Maldição, Amália Rodrigues.

Cada vez que pesquisa de opinião se mete em política a filosofia perde utilidade. Só assim é possível aceitar que a rotina estatística do bomregular, péssimo prevaleça sobre a grandiosidade incomparável do deboche e da audácia imposta pelo governo ao povo brasileiro no ano de 2020. Que seja próprio do Brasil, mesmo mole e indeciso aguarda 2021 com esperança.

O MÉTODO – A análise política não se zanga, mas se é grudada no fato, esqueceu que existe alma no acontecimento. Usa método insuficiente ao dispensar o élan vital do analista livre, confiando mais na visão matemática do tradutor de gráficos e estatísticas. É que a inteligência tecnológica, e suas ferramentas, prefere mais olhar a realidade da foto do que o movimento do filme. Mas a análise de conjuntura não deve ser justaposição de eventos, nem a sucessão linear de intervalos.  A vida é mais fluxo do que dia-a-dia, flexibilidade-inovação é sua melhor perspectiva. A maleabilidade é vida, a rigidez morte. 

Se o estado mental, econômico e social do governo não é bom, muito fragmentado e desmantelado, o fato de ser continuamente pedante e debochado é a chave para usar a intuição e buscar entender a duração do desastre que já está longo. A ligação entre economia, política, cultura e valores morais não é voluntária. Quem não tem, não adquire.  É um caos mórbido incontrolável, digestão de glutão, despotismo de arbitrariedades acumuladas em constante ameaça de risco operacional. Está ocorrendo também com o modelo que vem dos EUA.  Inúmeros iguais a eles, masculinos e femininos, estão à frente dos três poderes nas cidades, estados e na união, nas igrejas, redações, sindicatos e famílias. Ninguém acha que sai desmerecido dessa luta para contrariar a moralidade. A novidade aqui é a farda usada como escudo pelo herói. Políticos, intelectuais, operários e militantes já usaram e abusaram do Palácio. Mas militar brasileiro assim tão desgostoso da própria imagem, nem no período militar.    

Assim proponho um outro olhar, um intuir para penetrar nesta realidade. Para isto precisamos estar em coincidência com o tempo dela, viver nela. Evitar as lutas caducas dos que olham de fora, ou do alto de tudo. Não, no presidencialismo arcaico que praticamos o coreto da praça é ele, o pedantíssimo poder de um governante eleito, e entender isso evita que a boa intenção nos engane.   

A INTUIÇÃO: Não há como esmiuçar a direção do tempo, ele é indivisível e imprevisível. Não é adivinhação. Nem olhar somente em uma única direção. Para observar melhor veja o movimento de líderes, críticos, analistas, humoristas. Veja quem regula mais a ansiedade, não despreze nada do que viu ou ouviu, especialmente porque é no universo dos movidos a política que está o melhor lugar para os que fazem da morte algo vivo, engraçado, achincalhe. Quem ri ou comenta, ri de alguma impressão que teve. E se comenta, transmite ou propaga a coisa que já está internalizada para si. É a individualidade do outro que chama sua atenção e supera sua opinião.  É uma ilusão imaginar que progride mais, atinge melhor o objetivo e entende melhor a vida quem aceita tudo que se dispõe a transmitir. 

Mas não. Imitação não é discernimento. Quem compartilha tudo (retuita e etc) vive tudo do outro, não tem tempo de superar a fase da precipitação, repugnância e do medo, fazendo de tudo um exagero de opinião.  

Outro problema é não conseguir apagar o sarcasmo e a ironia diante de quem não desconfia da ignorância e do próprio ridículo. Neste caso o preconceito torna difícil usar bem a intuição. É ela que permite a análise do fluxo da conexão de fatos, personagens políticos e do comportamento humano como instinto mais desinteressado.  E se agir naturalmente, pode ser certeiro. Um alerta: mas isto somente vale se não considerarmos toda a política como fenômeno social e que tudo deva ser levado em questão.

Todo o governo é um caos. Mas se a política está sendo praticada por um desajeitado, repetitivo ou idiota e nos pomos a comentar tudo o que ele faz – com raiva, sério ou com riso – é porque já caímos na rede. Ele é a pauta que conseguiu romper a rigidez de valor das pessoas e as fazendo mais flexíveis, também as faz envolvidas com ele. 

A melhor experiência do tempo é caracterizá-lo como movimento e sentir a vida como fluxo. (Willian James) 

O CENÁRIO POLÍTICO:

2020, o ano que só termina em fevereiro.

Há uma suspensão política no ar. 

O Congresso brasileiro está totalmente paralisado em relação as votações de qualquer reforma. Seu único foco até o final de janeiro de 2021 será as sucessões das presidências na Câmara e no Senado. A disputa de poder entre o candidato de Bolsonaro, Arthur Lira, e o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que indicou o Deputado Baleia Rossi, trava qualquer outro interesse. 

A decisão de Arthur lançar sua candidatura como governista quer dizer que está aberto a ser assediado fisiologicamente. Nada pior do que isso. Bolsonaro é devastação: quer controlar a Câmara porque não controla a Economia e pensa que impondo uma pauta do tumulto retrógrado – costumes, regressão nos Direitos Humanos, desmatamento, armamento e desmonte dos mecanismos de controle da Sociedade sobre o Executivo – libera a fera conservadora brasileira e ocupa o tempo do país até 2022. Com a forte presença que tem nas redes sociais, tuites e retuítes, espera saciar o apetite da maioria dos brasileiros contra os desgostos da vida. Mas tem um risco eleitoral para deputado que o apoiar.

ELEIÇOES MUNICIPAIS E PERSPECTIVAS: FRAGMENTAÇÃO E DESPESA.

De qualquer ângulo que se observa o país predomina a desordem. Terminada a eleição municipal, se a expectativa do voto é a recompensa do eleitor pelo apoio dado ao eleito, podemos concluir que a parte maldita da democracia brasileira é a despesa, como noção de troca. A produção, com responsabilidade socioambiental e atividades criativas sempre tiveram caráter secundário. 

Como o governo, como um todo, não tem os estímulos corretos para pensar e encaminhar as coisas certas e compreensíveis, 2021 começa com mais improvisação. Assim como Trump, Guedes também não vai conceder a derrota da política econômica do governo, nem reconhecer a inconsistência do seu discurso com as ideias liberais que não pratica. 

A tradição se impõe: o Brasil é como o problema do câmbio, parte transitório, parte estrutural. Perde-se muito com o comercio de interesses secundários que circulam em torno das decisões políticas aumentando o risco e a incerteza.

Por razões sanitárias e emergenciais o ministro da economia tornou-se escravo da despesa. Mas sem plano de longo prazo é conhecido pela avareza no investimento. Pelo estilo vocabular e o gosto pela eloquência blasfematória se fez o líder de um governo de resmungões. Enquanto isso o presidente, como todo governante fraco, estimula a rivalidade e continua a se ver pelo espelho que bajuladores colocam na sua frente. Ao pretender interferir na sucessão do Congresso pode estar assinando a sentença de morte dos seus apoiadores. Com crise econômica, política e sanitária se estendendo até 2022, Congresso Governista não se reelege.

ELEIÇÕES MUNICIPAIS: A VITÓRIA DO GOVERNISMO FIEL: não adianta pegar a linha emaranhada dessa eleição municipal, esticar até 2022 e tentar imaginar o bordado. Eleição municipal é lixo, polícia, alvará e ônibus. Eleição nacional é inflação, corrupção, exportação, renda, investimento e emprego.

O CENÁRIO: Enquanto 556.200 brasileiros, pertencentes a 32 partidos, (regulados pela LOPP 9096/1995, originada do PL 1670/1989, de minha autoria, embora tenha sido todo desfigurado em 30 anos, não nego que seja o autor original), quase todos instavelmente funcionando como Comissões Provisórias – ou falsos diretórios – levavam pen drives higienizados para registro nos cartórios eleitorais de 5570 municípios, em 26 estados da federação, para serem validados como candidatos a prefeito, vice e vereador, 160 milhões de brasileiros buscavam no Google informações sobre Auxílio Emergencial, Covid e Vacina.

Na maioria absoluta dos municípios eleições de água parada, com a quase totalidade das cidades sem campanha eleitoral pela TV.

ELEIÇÃO SEM COMÍCIO E HORÁRIO ELEITORAL COMO FICÇÃO PARA METADE DO PAÍS: O sistema de outorgas de TV acentua as desigualdades regionais, privilegiando o aspecto exclusivamente de mercado das 822 estações locais de TV aberta – 14,40% das cidades onde vivem 52,35% da população, 110 dos 212 milhões de brasileiros. Não é preciso salientar que onde o desinteresse econômico está presente o interesse político atua livremente. (Prefeituras, Igrejas, Fundações Educacionais, Políticos, controlam a maior parte das miniemissoras de RTVs. Fora a Radiodifusão Comunitária, considerada RTVs secundárias, criadas de forma discricionária e focadas em seu público cativo).  

Das 184 cidades do Ceará somente 5 tiveram horário eleitoral; das 853 de Minas somente 9 têm geradora (Em 36 municípios com mais de 200 mil habitantes não existe TV local. Contagem, na grande BH, um dos casos, e com mais de 200 mil eleitores, requereu ao TRE transmissão própria e a TV Record foi a encarregada de fazer o horário eleitoral). Considerando que tivemos perto de 80% de reeleição dos prefeitos das capitais (somente 3 dos 13 que disputaram perderam – RJ, POA, Rio Branco) e 5 partidos ficando responsáveis por 57% das prefeituras tivemos uma eleição do status quo, sem nenhuma capacidade de ultrapassagem de novatos ou novidades.

O melhor exemplo disso são as vitórias na 5 principais capitais: SP com a reeleição de Bruno Covas (PSDB); RJ com a eleição do ex-prefeito Eduardo Paes(DEM); Salvador com a eleição do ex-deputado estadual e vice-prefeito Bruno Reis(DEM); Fortaleza com a eleição do deputado estadual por 7 vezes, José Sarto (PDT), Porto Alegre com a eleição do ex-deputado estadual e vice prefeito Sebastião Melo(MDB).

Neste clima de pandemia reforçou-se o caráter intermediário do pleito cujas tendências eram perceptíveis na direção da consagração dos veteranos. O resultado final – bem pesada a classificação segundo a precária compreensão brasileira do que seja ideologia – é a composição majoritária das cidades com 36% de governos de direita, 26% de centro e 19% de esquerda. Bem pesado pois no país direita costuma ser o conservador nos costumes; centro, o meio entre os extremos e esquerda, o opositor a tudo antes de assumir o governo. 

(Centro não tem nada a ver com Centrão, elite extrativa de 170 membros, que se constitui em conglomerado partidário de políticos regionais, sempre governista, e que se beneficia, mais do que a Sociedade, da despesa que ordena).

ZERO IDEOLOGIA: Para poder sofisticar a análise e poder incluir políticas sociais, ordem econômica; tolerância religiosa; liberdade de opinião, Mercado ou Estado, é preciso estar seguro de que nada se aplica, como uma luva, a nenhum pleito, especialmente, um pleito municipal porque falta ao sistema partidário essa cultura de princípios. Ou seja, política é vontade de poder e mais nada. Para o eleitor em geral política é desamparo. 

Considerando população das cidades eis o tamanho dos partidos.

(Fonte: #tag report)

Tabela 1 –      O tamanho dos partidos por prefeitos e população governada.

PARTIDOSELEITORES GOVERNADOS% ELEITORES GOVERNADOSPREFEITURASCAPITAIS
PSDB24,3 milhões16,19%5204
MDB18,3 milhões12,20%7845
DEM17,3 milhões11,50%4644
PSD16,8 milhões11,18%6542
PP11,9 milhões7,96%6841
PDT7,6 milhões5,11%3142
PSB6,7 milhões4,47%2522
PL6,4 milhões4,27%3450
PTB5,2 milhões3,45%2120
REP4,3 milhões2,91%2111
O DEM foi o partido que mais cresceu nas capitais e na eleição geral. O PSDB continua o partido das metrópoles – 18 prefeitos dos 96 – 26 capitais + 70 cidades com mais de 200 mil habitantes.  O MDB se mantém como líder das cidades, seguido de PSD, DEM e PP. 

O CASO, NÃO OCASO, DO PT. O PT, anacrônico, agoniza, mas não morreu. Bom lembrar que nunca foi majoritário em eleições municipais, só ficou entre os 5 grandes partidos na reeleição de Lula e na eleição da Dilma. Perdeu mais de 30% de força eleitoral por esgotamento de princípios e saiu das capitais não pelo antipetismo, mas porque perdeu a utilidade como interlocutor institucional. Quando chegou ao governo em 2002 mudou, exacerbando o papel funcional de “partido disponível ao solicitador”, característica principal do eleitoral brasileiro que vê partidos como máquina de favores. Situação favorecida pelo pragmatismo de Lula que sabia estruturar um negócio(sic) e acabou condenado e preso por condutas comportamentais secundárias, familiares, considerando o desastre desestruturador que se seguiu com Dilma.  

Quando perdeu se desinteressou das instituições – sina que vinha da decisão de não reconhecer a legitimidade da Constituição, votando contra o texto final – e sentiu na pele a implacável lei do interesse atendido: nada mais certo que o ressentimento que o favorecido guarda do benfeitor.  Mesmo assim continua no time dos grandes, à frente de 7 das 70 maiores cidades e o segundo em vereadores nas capitais. O que o PT perdeu mesmo foi o charme de esquerda. Para PDT e PSB que venceram em mais cidades e para o PSOL, sua costela original que ganhou vida própria.

(LUIZ E JAIR, A ILUSÃO: Carisma, mito, são dons de Deus, dá no bom, dá no mau. Viram lenda.  Não é o que a coisa é, mas como ela é percebida por outros. É um relato, um pedaço de pau, um grão de areia podem ser um mito para alguém. A melhor forma de desmascarar um mito é humaniza-lo. O triplex e sítio eram o céu do mundo de Lula; milícia e rachadinha o buraco do mundo de Bolsonaro).

FRAGMENTAÇÃO E DISPERSÃO, NÃO POLARIZAÇÃO.

É um exagero de análise pensar em um país e falar em outro. Supor que seja possível encontrar polarização em sistema eleitoral proporcional com voto obrigatório, aberto e uninominal transferível, independente de lista partidária. Não é o Brasil.  Com um resultado final de 26 partidos vitoriosos o diagnóstico do país é o da mais pura e cristalina pulverização política e partidária. 

ABSTENÇÃO- tendo a abstenção sido mais expressiva do que a votação de muitos dos vencedores, podemos dizer que é clara, persistente e contínua a reação negativa do cidadão ao modelo eleitoral de voto dever, obrigatório. O povo quer o voto direito, facultativo que 85% dos países já praticam. Quem insiste no voto obrigatório é a elite política, eclesial, econômica e jurídica do país, prodigiosa em manter a desorganização da pátria nos seus níveis de compreensão dela. 

A FORÇA DO APELIDO: Observar o que tem sido considerado menos importante aos olhos das grandes análises reforça a ideia de que 2020 não é a antevéspera de 2022.  Melhor comparar 2022 com 2018 e ver o que mudou de lá para cá nos costumes políticos. Nada. O universo do passado não está despovoado. Se estendeu ao presente. Elegemos e governamos da mesma maneira, por interesses setoriais e locais onde cada vez mais os mais desinteressados acabam, por omissão, decidindo o resultado.  

 A identidade política dos candidatos e dos eleitos merece um comentário à parte. Desde que a Câmara aceitou que o apelido Lula fosse incorporado ao nome parlamentar de Luiz Ignacio da Silva o caos da alcunha tomou conta da identificação do político. Hoje, o nome político, parlamentar ou executivo, não é mais da esfera pública. É um nome não-oficial. Com as 3 opções de codinome, apelido e variações nominais permitidos para registro de candidato a Justiça Eleitoral consagrou a distorção em lei. Isso explica os 78 Bolsonaros que tivemos e a crescente identificação do candidato, mantida quando eleito, pela denominação de fantasia, profissional, hierárquica, sindical ou eclesial. Tais variações deredesignação são uma fraude ao Código Civil, à Lei Eleitoral quando ferem o princípio da igualdade e da transparência burlando a lei das inelegibilidades. 

No caso de servidores públicos que registram seus cargos como nomes de urna é ostensiva a fraude ao instituto da desincompatibilização, afetando o princípio da igualdade e do equilíbrio eleitoral. Militares e policiais candidatos se registram com se estivem na ativa usurpando o título hierárquico que pertence à função própria de servidores do Ministério da Justiça e das Forças Armadas.     

O mesmo pode se dizer de padres, pastores, bispos, profissões as mais diversas, com seus títulos de natureza pessoal, diminutivos da vida familiar, numa concorrência entre a ética das organizações civis, religiosas, sindicais com a ética institucional, impessoal, que deve pautar a vida pública. Pastor Sargento e Doutor Jesus conseguem pôr o pé em duas canoas, nesta Sodoma e Gomorra de ilegalidades e inconsistências que é nosso sistema eleitoral.

O RISCO DE TODO O DIA É O SUPREMO SAIR DO PRUMO. Não há nenhuma garantia de que em 2021 vai melhorar. Ilegalidades flagrantes como a última do STF, despedindo-se de vez da sua alma original, ao aceitar julgar uma ADIN ficcional onde é consultado se é possível o Congresso descumprir a Constituição. Embora o Supremo seja uma casa cuja porta só abre por dentro (Ayres Brito) o PDT a abriu por fora. E a corte, ao invés de devolver por inepta, acolheu. Eles votaram se a consagração da justiça pode ser alcançada pela violação da lei. Não será difícil prever uma consulta sobre autorização para matar. Mais fácil de ser julgada uma vez que a Constituição não proíbe matar, embora o Código Penal assegure que é crime. 

ELEIÇÃO NA INTERNET: A DENSIDADE DIGITAL SUPERA A IDENTIDADE PARTIDÁRIA  E  O RECALL É QUE CONFIRMA A INDENTIDADE POLITICA.      ( Pesquisa feita por Manoel Fernandes, da BITES, para o Conselho de Economia Empresarial e Política da Fecomercio/SP )

Com base no levantamento da BITES, podemos dizer que a identidade política e partidária somente não basta. É preciso a ela se agregar a identidade digital e o recall que cada candidato possui. Isto inclui, inclusive hoje, um “nome de urna”; “nome social”; “nome oficial” e a capacidade de não ser analógico em um país tão receptivo às redes sociais e de corriqueira relação de amizade com a internet.  Veja que dos 68 parlamentares federais candidatos – número baixíssimo – somente 12 conseguiram se eleger, fortalecendo a importância do recall.

 

A política é uma atividade caracterizada pela busca legítima do direito de governar. Quando se torna vontade de poder e mais nada, incorpora a corrupção em seus hábitos.  A internet, aliada da informática e suas ferramentas, não somente tomou o lugar da cultura como caminha para criar outra civilização.  

O mundo das coisas vistas ou ditas espontaneamente, ainda que simplórias, têm a virtude do que não se inventa. Pois foi a facilidade de uso da internet que mudou o conceito de estratégia eleitoral no mundo. Tradicionalmente estratégia em política consistia em aperfeiçoar os próprios interesses agregando a ele identidade familiar, social, profissional, filantrópica, etc. Hoje, a boa estratégia é olhar o interesse do outro e calcular como fazer predominar seu interesse. 

As pesquisas eleitorais começaram a errar mais quando surgiu a concorrência da internet e como não refletiam as interações e o volume de buscas no Google, pesquisavam o que a pessoa parecia ser (ao responder um questionário). E não ao que de fato é na rede social, ou quando recorre ao Google e revela sua personalidade com o que pergunta. 

Por exemplo, procurar o número de um candidato na véspera da eleição. Em São Paulo Boulos, a grande novidade da esquerda nesta eleição, cresceu enquanto parecia viver o que dizia, sincero, determinado ou mesmo um radical chic, como Suplicy. Quando começou a bater no vice de Bruno Covas as buscas pelo seu número começaram a cair. O eleitor desconfiou que ele estava encontrando uma forma insincera de dizer que o titular tinha câncer.  Quando então testou positivo para o coronavírus as críticas a Bolsonaro perderam a substância e revelaram um certo marketing na redoma papal de Erundina. As buscas pelo seu número praticamente sumiram. Ele abusou de aglomeração e também não fez campanha respeitando o isolamento. 

Ou seja, há um código no voto: quem está totalmente embrenhado na campanha não percebe quando fica incoerente. A alma do eleitor despede sutilmente da alma do candidato se ele força o desejo de agradar o eleitor. Passa da conta, pois votar é um esquecimento. Boulos, Manoela, Marília e Crivella são os quatro exemplos de como a baixa identidade política e nenhum recall é mortal no jogo digital. Recall que tem de sobra ACMNetto, Covas, Greca, Eduardo Paes…e que começa a ter Kalil que estreou em 2016 com o slogan “Não quero ser político, quero ser prefeito”. Se reelegeu coroando seu governo antipolítica geral com mais política antigoverno federal.

RECALL: de recordar – não o chamamento para consertar defeito em produtos ou o direito de revogação de mandato – chegou ao ápice nesta eleição com o caso Maguito Villela em Goiânia. Deputado Estadual, Federal, Vice-Governador, Governador, Senador foi eleito Prefeito em coma, na UTI do Einstein em São Paulo. 

  O Ecossistema da Política Digital e seus Milhões de Seguidores

Com o fim, na prática, do IVC – Índice Verificador de Circulação – a medição de alcance e influência dos meios de comunicação é feita por acesso e não credibilidade. Quando o Google passou a remunerar clique e monetizou os sites, adeus confiabilidade.

A NUVEM DE SEGUIDORES DE POLÍTICOS

MAIS GENTE SEGUE POLÍTICA DO QUE FUTEBOL

OS GOVERNADORES MAIS INTERATIVOS E MAIOR DENSIDADE DIGITAL

O Brasil é a quarta democracia do mundo e Bolsonaro é o quarto líder mundial com mais seguidores nas redes sociais, atrás de Narendra Modi, da Índia (primeira), Barack Obama, dos EUA (segunda), Joko Widodo, da Indonésia (terceira democracia do mundo).

A Família tem mais seguidores do que Senadores, Governadores e Prefeitos e menos do Deputados Federais e Deputados Estaduais. 


Potencialmente os políticos atuais com mais IAS, Indicadores de Apoios Sociais, são:

O engajamento digital no primeiro turno foi de 496 MILHÕES DE INTEREÇÕES entre curtidas, comentários, compartilhamentos e retuítes somente nos posts dos 19 mil candidatos a prefeito. (A possibilidade do comando ser automático por robôs está virando crime eleitoral).  

Na eleição presidencial de 2018 o engajamento digital nos posts dos candidatos a presidente foi de 225 milhões de interações.

Percentagem de jovens entre 16 e 34 anos com acesso à internet é de 95% tanto na Geração Y, os milênicos (nascidos após 1980) como na Geração Z, nascidos após 1990.

A FORÇA DA REALIDADE: Das 160 milhões de buscas no Google, a média brasileira há mais de 3 anos, durante os 3 meses anteriores a eleição a boa leitura de dados indica como maiores buscas nesta ordem decrescente: Auxílio Emergencial; Covid; Vacina; Eleição.

GASTOS EXTRAORDINÁRIOS E CONCLUSÃO.

A expressão sagrada anda sendo usada para reduzir a percepção da improvisação e do desinteresse pela sustentabilidade econômica com que atua a autoridade governamental. Enquanto isso, sem um horizonte claro de crescimento, a indústria, os setores de comércio e serviços, os consumidores, os investidores e a inflação continuam cada um por si, sem saber como será o ano que vem.

Quem acha que a deterioração da economia brasileira é transitória – e que nunca haverá insolvência do governo – considera um calendário no qual 2020 não existiu, pois a paralisia sincronizada da economia por razões sanitárias nada mais fez do que interromper um período já lento e de baixo crescimento. 

Como um borracheiro o governo acha que a Covid furou o pneu do carro e que os quase 400 bilhões manteriam a economia andando. O problema é o carro, que já vinha dando defeito antes e nunca nadou direito.

Tal fato não deveria dar a impressão de que a estagnação e o déficit das contas públicas vão passar como mágica, quando a pandemia acabar.  

Só assim é possível aceitar explicações mecânicas e conformistas para tamanha redução das perspectivas econômicas, mesmo com recuperação pequena do PIB. Será um desastre inevitável se a pressão por mais gasto e os aumentos do déficit e da dívida pública se somarem à permanência da trajetória de paralisia política pelo jogo não cooperativo entre o governo e o parlamento. E, principalmente, pela presença da inconcebível rivalidade política na gestão desastrosa da disseminação de casos e mortes provocados pelo covid-19. 

O comportamento cauteloso dos consumidores, a volatilidade dos índices de confiança e a manutenção da incerteza nos cálculos dos agentes econômicos têm explicação. São fortemente agravados pelas altas taxas de desemprego e pela má ação técnica, ou pela omissão de autoridades insensíveis à gravidade da crise.  

Sem falar que temos um governo despreocupado com a agenda de mudanças no funcionamento do Estado, inclusive as das suas agruras ministeriais infelizes, que possam corrigir rumos na onerosa máquina pública e impedir a esterilidade da atividade produtiva. Tudo somado 2020 é um ano perdido e que o país só se recupera se puder fazer com que 2021 seja dois anos em um. 

Por isso, podemos dizer que sem alterar a forma de governar, arrecadar e gastar, a parte maldita do governo iniciará o ano novamente desdenhando do povo e das dificuldades que passa.  E entrará no seu terceiro ano de mandato como o principal fator de restrição à esperança de crescimento do País.

A todos os leitores do Capital Político, um muito Feliz Ano Novo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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