A FORÇA DOS DESCONECTADOS

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 5 de julho de 2020.

A maior parte da população do mundo é de transeunte. O contrário de pessoas impulsionadas por algum motor ou que já desembarcaram em alguma ideia e ali permanecem. Na política não é diferente. Não é a polarização que caracteriza as disputas atuais, mas o movimento, a inércia e a dispersão. A polarização é um desejo confuso, acadêmico, fornece um imã para quem já foi atraído. Não para o povo, que, na sua solidão de pedestre desconectado, não encontra companhia que o ajude a confiar em desconhecido.


Dentro da acentuada dispersão, grupos políticos buscam atiçar o sectarismo de parcelas pequenas, mas com disposição de organização e enfrentamento. No período próximo da decisão eleitoral nos EUA, a polarização, um conceito teórico que quer tirar da realidade o que ela não pode dar, é artificialmente estimulada. Mas, como não é mais o eleitor tradicional e tranquilo que decide, a polarização é sobre agendas que atiçam grupos disciplinados e barulhentos, causando estonteante confusão na maioria do eleitorado que não trata a política como produto de primeira necessidade.


O grupo que aposta no atiçamento bairrista e autoritário continua sua ascensão sem um rosto que o identifique. Ele aglutina focos de entusiasmo para tentar mexer na balança do eleitor desanimado. Quando a novidade é a pauta ecológica/verde, sempre muito simpática, cada vez mais prestígio reúne simpatizantes dispersos. É outro tipo de dispersão, que também aglutina transversalmente entusiasmo desconectado da política engajada.

As eleições, com tendência crescente de baixa participação, estão ainda mais esvaziadas neste ano de pandemia. Considere o que se passa nos Estados Unidos e na França — as pátrias das revoluções desde 1776 e 1789, respectivamente. Nas eleições municipais francesas de dias atrás, 60% dos eleitores não compareceram. Entre os jovens, a situação é calamitosa para a democracia: 72% dos eleitores abaixo de 34 anos não foram votar. Os idosos, que votam mais do que os jovens, com compreensível receio da Covid-19, foram em menor número do que historicamente.


Nos EUA, a tendência de declínio histórico de participação eleitoral é ainda mais acentuada. Em 1992, somente 10% dos eleitores não foram às urnas. Em 2012, 34% não votaram na eleição que deu o segundo mandato a Obama. Trump ganhou em meio a 35% de abstenção. A dinâmica americana é mais peculiar por conta do colégio eleitoral — o que, de fato, conta —, e estratégias são traçadas para ter sucesso no pleito majoritário mesmo com apoio no duro minoritário.


Se havia ideia de que 2020 teria grande participação, o vírus fez isso depender de quanto será ampliada a votação por correio. Mesmo assim é difícil reverter a tendência. Nas últimas eleições, 23% dos votos foram por correio. Espera-se que mais da metade seja por correio dessa vez. A questão é quanto do total de eleitores esse mais da metade representará.

Na sexta-feira, boa parte dos americanos teve um dia de folga por conta do 4 de julho, dia da independência que caiu no sábado. O presidente Trump foi para a Dakota do Sul levando uma esquadrilha da fumaça e fogos de artifício ao Monte Rushmore. Esse tipo de celebração se faz no monumento que conta com os bustos de Washington, Jefferson, Ted Roosevelt e Lincoln esculpidos no cume do monte. A princípio, nada mais apropriado. A questão é o estilo. Até um ato que é para ser agregador e pacificador, pelos discursos e o nervosismo, transforma-se parcialmente em sectarismo autoritário.


A tradição de se soltar fogos ali havia sido cancelada por conta da alta chance de incêndios na floresta em que o monte está localizado. A região se chama Black Hills, ou Serra Negra, em parte porque a densa vegetação sempre pega fogo, ficando o pé das árvores escuros. Pode-se reclamar da regulação excessiva, pode-se buscar saídas para a segurança do evento, pode-se fazer um show de luzes. Mas a ideia foi provocar e botar fogo como uma tentativa de interpretar e canalizar a frustração acumulada nas pessoas para obter resultados políticos.


Segundo o Pew Research Center, 71% dos americanos sentem raiva da situação do país. Sessenta e seis por cento sentem medo. Incendiar uma floresta para culpar o resto do mundo pelos problemas do país mais bem-sucedido do mundo não pode ser chamado de polarização. A onda é outra e a radiação incoerente que projeta não combina com liberdade de manifestação ou de expressão. Nos EUA, a família Trump tomou para si um dos dois únicos partidos existentes de fato. Daí vem essa linguagem sobre polarização porque, nos EUA, só dois partidos competem. Mas o que existe mesmo é dispersão, alimentada pela fritura constante da política que concentra entusiasmo em sectarismos e espalha desilusão e outros sentimentos negativos.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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