A Itália ameaça a Europa

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 27 de maio de 2018.

Para além de pizzarias e osterias, guardadas por campanários e igrejas, em cada cidade italiana tem uma estátua de Garibaldi e ruas Vittorio Emanuel II, Camillo Cavour e Giuseppe Mazzini. A presença ostensiva dos ícones da unificação italiana iniciada no século 19 é, contraintuitivamente, um sintoma do confuso processo que se deu ali. Colcha de retalhos igual não há no mundo.

Hoje, 2018, mais de duas décadas e meia do ano milagroso da luta contra a corrupção italiana em 1992, o que aparece é o país vivendo um ano horrível. Ao se mirar no indivíduo, e não na solidez das regras do jogo, o que se fez foi destruir pessoas e organizações falhas, mas paradoxalmente interessadas nos desígnios do país e sua gente, abrindo espaço para um estrato pior de alvoraçados incivis deslumbrados, especializados em empurrar a razão para onde a paixão arrasta. Há muita hipocrisia no ar: ninguém ousa admitir o que ganha com a desgraça dos outros.
A União Europeia tenta impor aos italianos governos técnicos, mas o que choca é o ninho de flamejantes pavões.

A república italiana do pós-guerra se estruturou em torno de três partidos, que impediram seu esfacelamento. Do assassinato de Aldo Moro, presidente do então principal partido do país, em maio de 1978, até a deflagração da operação Mãos Limpas, em 1992, ficou cada dia mais claro que os partidos que garantiam a unidade do país também

limitavam sua experiência democrática. No entanto, a saída pela via judicial resultou em ainda menos democracia. Juízes tagarelas que gostam de espalhar alfinetes pela honra da nação afetam tanto o corpo da sociedade como a corrupção.
Em 1993, passou-se uma nova legislação eleitoral proposta pelo deputado, hoje presidente do país, Sérgio Mattarella. De lá para cá, a Itália não é governada por partidos, mas por técnicos ou personalidades. A corrupção? Mudou de mãos e meios, mas não arrefece. Juízo moral só se muda com melhores costumes e leis, algo impossível onde os políticos abandonaram a política, expulsos por corporações e máfias. Uma nova inflexão ocorre neste maio, 40 anos após a morte de Moro, com a coalizão celebrada pelos não partidos Liga Norte e Cinco Estrelas, vitoriosos na indolência e preguiça do voto popular. Eleitor cansado destrói qualquer país.
Vivemos um tempo em que mesmo países de instituições fortes se encontram atacados por um eleitor sem nenhum apreço por biografias relevantes, se oferecendo a demagogos como um viciado em lisonja e mentiras. A confiança e o respeito social do cidadão se foi pelo ralo da manipulação política sobre cabeça distraída. Na Itália, 2018 é o ano da tentativa de se montar um governo em torno das lideranças de Luigi di Maio e Matteo Salvini. Ambos, de classe média, gostam de dizer que não estudaram. Manipuláveis manipuladores. Propõem um professor obscuro como primeiro-ministro e uma agenda de franco ataque à permanência da Itália na União Europeia.
A nação italiana é admirável, mas é a mais frágil das grandes construções europeias. Precisa se esforçar mais do que está disposta para que suas regiões não se esmigalhem. Ausentes os mais agudos problemas fratricidas existentes na França, Reino Unido, Espanha e mesmo Alemanha, a Itália parece desunir-se mais por falta de ânimo de união do que de ânimo de desunião. País mais idoso da Europa, o velho mais belo, anda também ameaçado pela fuga maciça de seus jovens. Povo que já viu demais para acreditar em alguma coisa senão no absurdo. “O país da passionalidade intensa e da estrutura frágil”, como dizia Aldo Moro, representa hoje um perigo real para a estabilidade da União Europeia.
Ao longo das idas e vindas da união política da região em que é hoje a Itália, uma cidade sempre se destacou por ser o elo fraco, o ponto a ser mirado a fim de se desestabilizar a península. Nápoles. Quase sempre governada por forasteiros. Quase nunca capaz de pensar no que seria melhor para seu povo e sua região. Mero cavalo de batalha de interesses subterrâneos, ininteligíveis e estrangeiros ao povo dali.
Assim como Nápoles esteve historicamente para a Itália, hoje está a Itália para a União Europeia. Os italianos, apoiando majoritariamente a Liga Norte e o Cinco Estrelas, pensam que talvez venham a sobreviver como Nápoles sobreviveu ao longo da história. Sempre particularmente importante, mesmo que nunca central.
As tensões internas estão minando o poder da União Europeia. Liberou o Reino Unido para abandoná-la e anima a Rússia para ser o valentão que gosta de ser. As divisões italianas agravam o retalhamento europeu e a napolitana Itália se oferece como o desestabilizador que falta para destruir a força da Europa unida.
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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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