A SALSICHA DE TORCINELLO

Una lunga bandiera tricolore percorre le strade di Roma oggi 12 marzo 2011 durante la manifestazione "C DAY" per la difesa della costituzione. E' un'enorme onda verde bianca e rossa che si sta muovendo per le strade della capitale al ritmo di 'viva l'Italia' di Francesco De Gregori e 'Il cielo e' sempre piu' blu' di Rino Gaetano. Al corteo in difesa della Costituzione stanno partecipando migliaia di persone; ''la Costituzione non si tocca, la difenderemo con la lotta'', questo il grido che si e' levato piu' volte dal corteo dove Tricolori e frontespizi della Carta Costituzionale italiana vengono sventolati dai manifestanti. ANSA/ALESSANDRO DI MEO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 04 de fevereiro de 2018.

Forza Italia era um barulho ouvido nos campos em que jogava a seleção italiana de futebol e passou a ter outro significado no país da Azzurra. Nas eleições gerais de 1994, participava pela primeira vez uma agremiação que criou a moda de partido político usar nome fantasia para esconder ideologia. Evita a palavra partido, como se desdenhasse o que quer comprar, e adota o urro futebolístico, no caso, italiano. Ou qualquer referência a outra fonte aglutinadora, mais atraente conforme o momento, para fechar a ferida que a frustração com os políticos deixa nas pessoas crédulas.

Forza Italia foi criado para participar da eleição pelo controverso barão da comunicação Silvio Berlusconi, ex-aluno distinto da Statale de Milão, maior universidade pública da região, interessado desde jovem em publicidade e por uma perspectiva jurídica e política favorável aos seus interesses.

Antecipatório, Berlusconi foi marqueteiro, dono de partido e candidato de si mesmo. Trouxe seu bunga bunga, nome das festas que dava em sua villa, completo e acabado para a política numa desconcertante vitória já em 1994. Tornou-se primeiro-ministro e o que se viu a partir dali foi, mundo afora — muito pela via dos marqueteiros para quem candidatos são xampus lucrativos, e pelos entendidos que compreendem a política maldosamente de forma utilitária — um self-service de práticas berlusconianas atreladas aos principais candidatos em muitos países.

O ápice das variações que parecia chegado com Donald Trump, na verdade, foi antecipado no Brasil em 1989 e cujo vírus está até hoje em atividade. Berlusconi é o original europeu que fez da publicidade, dinheiro e amizade o reino de convulsão que desmoralizou a atividade partidária e igualou, na política, o digno ao indigno.  Agora, cada vez mais envolto num populismo midiático, agravado pelo descontrole da voracidade que contaminou a política e se alastrou negativamente pelo mundo, Berlusconi, aos 81 anos, cumprindo pena, à la Al Capone, “apenas” por evasão fiscal, se coloca como o cara que pode apaziguar a Itália e dar palpite na política internacional.

Afinal, Berlusconi, camarada de Putin, acalma este e põe um Trump no bolso. Mas, ainda que para fora do país sejam apenas especulações mezzo delirantes, é desconcertante o diagnóstico realista que Berlusconi consegue passar internamente de que ele é a pessoa com maior capacidade de compreender e unir o país. A política é um lago onde patos sucumbem à força de inadequados tratadores.

Após 9 anos como primeiro-ministro da Itália, servidos descontinuamente, Silvio Berlusconi se viu forçado a renunciar na parte mais aguda da crise econômica que colocou o país entre os patinhos feios da Zona do Euro. Ao longo daquele 2011 que culminou com sua renúncia, Berlusconi se viu alvejado com inúmeros processos frutos de uma vida dissoluta. A tempestade perfeita uniu as agruras do país às extravagâncias indecorosas de seu primeiro-ministro, levando-o à renúncia.

Numa típica concertação italiana, Berlusconi voltou em 2013 como senador pela pequenina região de Molise, conhecida pelo gosto por uma salsicha em que vão muitas coisas intragáveis, chamada torcinello. As partes enjeitadas, juntas, num torcinello churrasqueado, são, ávida e distraidamente consumidas pelas pessoas. Berlusconi propõe-se como o exímio preparador dessa mistura compondo, numa aliança, sua Forza Italia, com a Liga Norte e os Irmãos de Itália. Um ragu que se tornou indigesto no ano de 2013, quando o recém-eleito senador foi finalmente barrado pela República ao ser condenado por fraude fiscal no Judiciário, expulso do Senado e barrado de assumir cargo público até 2019. Mas a bagunça da vida política não consegue parar a arrogância do delito. Nem aceita os ritos processuais ou liga para as “algemas de todas as cores”, como se viu na operação Mãos Limpas.

O tumultuado parlamento italiano foi dissolvido em 28 de dezembro e a eleição será 4 de março. O partido do comediante Beppe Grillo, versão anos 2010 do furor anti-establishment, marqueteiro refinado, aparece liderando com 30% das intenções. O primeiro-ministro deles, chamado Luigi di Maio, tem 31 anos. O atual primeiro-ministro tem 24% das intenções e o partido de Berlusconi tem 15%. O partido de Beppe deve ganhar, mas não levar por não participar de coalizões.

A grande coalizão bunga bunga quem sabe fazer é Berlusconi. O partido que preside montou e lidera a coalizão de centro-direita que deve ganhar. Todavia, Berlusconi não pode se tornar primeiro-ministro se o partido ganhar, pois está proibido de exercer cargo público pela Justiça. Seus advogados brigam contra isso em Estrasburgo, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em um caso pateticamente intitulado Berlusconi contra a Itália.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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