Aquele abraço

O Estado de S. Paulo – 8 de dezembro de 2021.

O Brasil, tal como o encontro e expresso na coluna que escrevo aqui, para o Estadão, é o país da realidade e da esperança. Sei que, ainda que a esperança não venha se alimentando de coisas verdadeiras, não deve ser mentiroso quem a desperta em alguém. 

A fala não deve ser mastigada como quem tem fome, a liberdade da palavra é para poupar do desespero pessoas boas. Uso metáforas que me lembram versos e livros, para que a escrita, como balde despejado, evite o fogo que arde sem se ver. A dúvida que temos tido como país é se existe ou não função para a verdade. Pois o que vemos são flechas do governo partindo na direção errada. 

Continuar no cargo mesmo sem governar não seria um contrassenso se a sociedade estivesse andando na direção oposta. Neste caso a contradição não representa nada, pois, considerados juntos, não formaria a realidade toda capaz de impedir a esperança. Governo e sociedade se concederam autocomplacência mútua. Agarrados um no outro, por desprezo recíproco, não vão além de onde estão. 

Lembro de antigas lições do Tratado Lógico-Filosófico que diz que duas proposições são opostas entre si caso não haja proposição com sentido que afirme ambas. Toda a proposição que contradiz outra nega essa outra. Concentrar tudo no dia da eleição, como velório ou batismo, é encarcerar a esperança. O que está acontecendo já aconteceu. De tudo o que ocorre na política, e na justiça chamada por ela para atuar como partido, não forma situação completamente diferente da natureza delas. Não há nexo causal, pesquisa, tarô, búzios, novena que justifique. Os eventos que o Brasil está vivendo são uma necessidade patológica da lógica de funcionamento interno deste modelo político, judicial, social e econômico que praticamos com tolerância da maioria e usufruto de minoria. 

Não há nenhuma contradição, mas um limite. Chegamos ao centro da falta de substância de uma organização que é mutuamente excludente. Se um melhora, é por tirar do outro a importância, deixando-o sem recursos de poder para melhorar. Nada nem é provável ou improvável. A coisa ocorre ou não ocorre, sem meio-termo. Todas as evidências, entrelaçamentos, experiências permitem dizer, não como fato matemático, mas bem perto disso, que não teremos qualquer probabilidade a mais de ocorrer alguma coisa diferente do que temos. O moto contínuo dos satisfeitos e a rotina dos insatisfeitos derreteu o abismo. 

Há uma impiedade de dons semelhantes agindo. Da profundeza pessoal é que se pode clamar por mudança. É tempo da poda. 

O Brasil vive o seu próprio mundo e nele o sujeito é um limite que não existe. Ele é referido, não é considerado. O mundo do sujeito é prisioneiro da lógica do mundo de quem se mostra mais. É o campo visual do poder que domina. O olho do sujeito, o auge de onde deveria partir sua decisão, nem ele próprio vê. Ou seja, o que estamos vi-vendonesta 5.ª República da Constituição de 1988 é a prioridade do outro, do dono do poder, a opressão da ordem a priori das coisas que dele emana. 

O caminho que devemos seguir é o de quem tenha noção do trágico sem o ser, capaz de pisar a uva sem fúria e com retidão, com o poder de despertar as melhores ressonâncias da alma brasileira. Capaz de não aumentar a frustração do povo diante da incompreensibilidade do sofrimento em que a maioria, desnecessariamente, está vivendo pelo caráter conjuntural de tudo, governo a governo, da política econômica à política social. Devemos apostar em quem fala “nós”, e não em quem esconde que fala “eu”. Para que a sopa de sacrifícios que a política tem imposto ao País possa deixar de ser servida. 

Não é toda a sociedade que é posta em causa quando a política se move pela mentira erguida acima dos bons costumes. Não precisamos de nenhum flagelo do vício nem de popularidade sem credibilidade. Ser amável é se fazer respeitar. Muito menos do especialista em sugerir necessidades insinceras para fazer pobres incapazes sem criar arranjos estáveis de segurança econômica que os tire da pobreza. Nada remediará erros de costume que suborna parlamentares e eleitores com emenda ou esmola. Não é Deus que endireita o que a política entortou. 

Nosso destino será melhor decidido se a lei parar de fingir se preocupar com a moral da lei. Não cabe ao eleitor analisar aquilo que cabe à justiça e à consciência de cada um que queira servir ao Estado. Pode, sim, um desonesto se eleger, passar em concurso para juiz, procurador, delegado ou qualquer outro cargo mandachuva. O que não pode é conseguir continuar desonesto na função que exerce. Não precisamos de anjos nem do seu oposto. Mas de alguém legal que não se faça ilegal no poder. É a lei que permite a convivência entre lobos e cordeiros. A desatenção a isso é o que alimenta as serpentes. 

Já é Natal, vem ano bom, no céu sinais de armagedon. Mesmo sendo data especial, continua o ET brincando no quintal. Gilberto Gil, de fardão, tudo de bom, acerto certo não tem explicação. Aquele abraço, dos mortais aos imortais. Lembrança dos que se foram, saudade do que virá. Boas festas para todos. 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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