Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 1° de setembro de 2019.

A tradicional pesquisa da Universidade de Michigan acerca do sentimento dos consumidores americanos, em sua última edição, mostrou uma variação particular relacionada aos efeitos das políticas do governo Trump em diferentes grupos populacionais.
No país em que só existem dois partidos, consumidores que se autoidentificam como republicanos vinham demonstrando níveis muito superiores de entusiasmo com a situação e as perspectivas econômicas do que aqueles que se dizem democratas. Entretanto, de julho para agosto ocorreu uma queda significativa na percepção dos republicanos, tanto a respeito da situação quanto das perspectivas econômicas. No olhar para o futuro, os republicanos estão hoje com as expectativas mais baixas desde o início do mandato de Trump.

A beleza americana é o movimento livre do seu povo. Os democratas, que já estão “deprimidos” há muito tempo com relação aos rumos do país, não tiveram um baque como os republicanos. O fato é que muitas das políticas da administração Trump, inclusive sua escalada retórica no Twitter, têm impacto negativo sobre seus próprios eleitores. O entusiasmo que os republicanos vinham mantendo com a administração está sofrendo reveses cada vez que a conta das experimentações nada ortodoxas de Trump vai ficando mais cara no bolso do próprio consumidor (e produtor) que o apoia. Trump teve que, por exemplo, voltar atrás na imposição anunciada de mais tarifas sobre a China por receio de mais insatisfação popular pela elevação dos preços dos produtos chineses, especialmente natalinos.

Atrapalhar o Natal não está fora do cardápio da Casa Branca. As tensões comerciais entre EUA e China podem levar a uma grande desaceleração global por conta dos efeitos imediatos da disrupção de cadeias globais de valor que vinculam os dois países. Os EUA, que de liberalismo econômico atualmente não têm nada, inverteram a lógica sempre defendida por eles e, atualmente, se dão o direito de declarar seja lá o que for como questão de segurança nacional para impor tarifas, sanções e bloqueios comerciais vários. Usando fortemente o Departamento de Justiça como espécie de unidade avançada de prospecções econômicas, a Casa Branca é um bunker estatal do comércio administrado.

A avacalhada visão de grande transformação que acalenta Trump e seus admiradores carece de teoria liberal e perde apoio dos grupos sociais e econômicos mais poderosos nos EUA. Peter Navarro, seu principal assessor anti-China é pessoa estranha aos círculos que construíram e disputaram a direção do comércio internacional estadunidense no último meio século. A partir dos anos 2000, Navarro se especializou na publicação de teorias e análises espalhafatosas e obcecadas com a ameaça do que ele chama “morte pela China.”

As obras de Navarro são da safra das profecias autorrealizáveis — esses medos que muitas pessoas têm e que lidam com eles forçando a barra para fazer com que eles ocorram, ao invés de raciocinar o que é preciso fazer para que o medo não se materialize. Desde que chegou ao poder em Washington, a escola de contenção da China tem tido sucesso em incluir cada vez mais pessoas que pensam assim para projetar a atitude americana com relação ao país asiático.

Em abril deste ano, Kiron Skinner, conselheira sênior do Departamento de Estado, fez a apresentação mais pesada, mostrando querer nivelar a compreensão oficial americana ao pior que existe da compreensão oficiosa de partes do governo chinês. Com a diferença de que sempre se espera mais grandiosidade daquele que tem mais poder, para que esse poder permaneça legítimo. Skinner acabou tendo que deixar seu posto agora em agosto, pois, pelo que se relata, a belicosidade se exercia também no ambiente de trabalho, a um ponto que ficou insuportável.

O problema central talvez seja o efeito paradoxal que décadas de paz global, em geral, e dentro da China e dos EUA, em específico, acometem em cabeças fracas. Quem nunca viveu, ou nunca estudou a fundo as dores, as misérias e o horror que a guerra traz, tende a falar de maneira irresponsável sobre a possibilidade de guerra. A crise do multilateralismo pilotada por Trump contém um desequilíbrio catastrófico embutido e fará surgir uma bipolaridade crescente no mundo. A briga comercial com a China é o novo Vietnã dos EUA.

A história é dura. Para a China, a última guerra de amplo espectro — a das Coreias — terminou em 1953, e a maioria dos chineses vivos nasceu depois disso. No caso dos EUA, a última grande guerra foi a do Vietnã, terminou em 1975 e custou a vida de 58 mil americanos. A geração que viveu o conflito com o Vietnã, hoje acima de 43 anos de idade, é a geração que ainda detém as rédeas do país. Maus alunos de história não deviam poder ser presidentes.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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