BEM-VINDO AO JAPÃO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 20 de janeiro de 2019.

Aprisionado pelo império japonês em Port Arthur, na Manchúria, durante a Guerra Russo-Japonesa, o navio-hospital russo Kasato Maru, se transformou um ano depois, no navio da esperança para Brasil e Japão. Atracou no Porto de Santos, em 18 de junho de 1908, com as primeiras 165 famílias de japoneses para trabalhar nas lavouras de café de São Paulo.
As questões econômicas, especialmente quando se tornam críticas, mais do que as culturais ou afetivas, são fundamentais para determinar o aparecimento do fenômeno da emigração, a saída, muitas vezes em massa, de cidadãos de uma nação para viver em terras estranhas e distantes, a procura de melhores oportunidades de vida. Nem o Japão, país que viveu séculos em isolamento, admitia a emigração, nem o Brasil, país gigantesco supondo ser autossuficiente, tinha leis para a imigração.
Libertados da escravidão pela Lei Áurea, sem que ela cuidasse de ajudar que o ex-escravo pudesse ser imediatamente trabalhador livre e protegido, deu-se origem a uma grave crise agrícola que levou ao Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países, abrindo as portas do Brasil aos asiáticos.

História que sempre se repete dos dois lados do mundo, um ciclo de calmaria e ebulição, seja onde o sol é nascente, seja onde ele é poente.
Shinzo Abe é deputado federal no Japão desde 1993. Durante esse período, foi primeiro-ministro entre 2006 e 2007 e, depois, de 2012 até hoje. Durante a maior parte desse tempo, geriu um país que, em crise de abundância, pensava poder nada fazer. Culturalmente homogêneo, sociedade hierarquizada, política metódica, assim é a mentalidade da ilha. Historicamente, o único país das redondezas da gigantesca China que nunca entrou no seu sistema de tributos e barganhas. Rapapés que os mandatários chineses impunham aos vizinhos em troca de prestígio e manutenção da “harmonia”. O Japão de Abe acordou nos últimos anos para o fato de que precisa se mexer, se quer garantir sua paz num contexto regional de renovada e imperial preeminência chinesa.

Dias atrás, o Ministério da Saúde do Japão divulgou estudo em que prevê que ocorrerá uma redução de 13 milhões de pessoas na sua força de trabalho nos próximos 20 anos. Um encolhimento de 22%. A rica economia que já foi ultrapassada em tamanho pela chinesa em 2010, pode começar a encolher. No campo das possibilidades que fazem sentido, só não ocorre tal fato caso um grande salto de produtividade aconteça no país — com revolucionárias tecnologias, robôs, saltos educacionais e, sinceramente, muita sorte. Ou, se abrindo fortemente à imigração estrangeira.
Olhando para dentro do país, uma solução é dar mais espaço para as mulheres. O Japão é conservador, se não antiquado, nesse quesito. Ainda que, em 2017, o país tenha atingido seu recorde histórico de participação de mulheres no mercado de trabalho, é improvável que uma geração de mulheres mais velhas, educadas para focar em outras atividades, entre agora aos montes para dificuldades reais, a começar pelo seu próprio gabinete de ministros, com uma única mulher atualmente.
Olhando para fora do país, a solução óbvia é a de atrair imigrantes. É fantástico como a roda da história gira. Cento e dez anos atrás, um Japão empobrecido, sofrendo com carestia, buscava acertos para enviar parte de sua população da qual não estava dando conta em busca de uma vida melhor. De lá pra cá, o país se organizou, tem enorme qualidade de vida, mas faltam-lhe trabalhadores. Solidariedade é o conceito-chave que resolve os problemas do mundo.


A vinda dos japoneses para o Brasil, ao mesmo tempo que resolveu a dificuldade momentânea em que eles estavam vivendo, dotou nosso país de uma vastidão de maravilhas culturais, tecnológicas e humanas que engrandecem nossa civilização.


No mês passado, o parlamento japonês aprovou uma lei que visa estimular a ida para lá de pelo menos 350 mil estrangeiros até 2023. Por um lado revolucionário, são números muito baixos ainda. O Japão segue sendo um dos países mais fechados do mundo para imigrantes, mas a realidade está forçando-o a entender que umas das melhores soluções que existem é a de atrair gente disposta a trabalhar e inovar para seu país. Foi ótimo quando o Brasil acolheu os japoneses, hoje 100% brasileiros e construtores da identidade nacional, e que seja ótimo agora que o Japão se abra mais, aperfeiçoando suas tradições com a ajuda do resto do mundo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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