Brasil, líder do Brics

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 24 de junho de 2018.

“Há males que vêm para bem.” Não são poucos os que vêm enxergando nessa máxima uma chave para dar sentido ao período Donald Trump na política internacional.

Se, por um lado, o presidente americano desestrutura acordos multilaterais e impõe certa liderança negativa à sua ação nos principais fóruns e organizações do planeta, por outro, sua opção por desprestigiar a abordagem multilateral abre uma avenida para quem ainda acredita que esse é o caminho. No momento, é bom desistir de qualquer ação mais cooperativa por parte dos EUA com relação a fórum ou acordo comercial relevante montado no mundo.

2018 e 2019, respectivamente, são aniversários de primeira década para G20 e Brics. São os dois mais importantes fóruns de concertação internacional não regionais e de participação limitada de que faz parte o Brasil.

Com relação ao Brics, o Brasil pode, com o seu próximo presidente, agarrar a oportunidade ímpar de contribuir com atitudes concretas que deem relevância ao grupo. Não basta apenas se afirmar pela diferença.

Fazer contraste com aquilo que não é, ou não deseja ser, pode ser um bom e habilidoso início de conversa. Entretanto, para sobreviver e ir longe, terá que fazer o esforço superior criativo de dizer o que é, o que pensa e o que projeta.

Ao longo de todo 2019 caberá ao Brasil liderar os esforços do Brics. Uma centena de encontros espalhados pelo país acolherão representantes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Pelo bem do país, as lideranças políticas e econômicas, compromissadas com o sucesso do Brasil, antes de seu sucesso pessoal, precisam acordar um denominador comum que salvaguarde a possibilidade do país de exercer liderança criativa e decisiva neste momento que lhe cabe. O dom para o banal e o desperdício salta aos olhos.

Na última semana deste julho, ocorrerá a cimeira de 2018 do Brics. O encontro está marcado para Johanesburgo, maior cidade da África do Sul, a quem coube liderar o Brics este ano. Pouco andou nos últimos meses. Em grande medida, porque a África do Sul encontra-se imersa em profunda crise econômica de origem política. Completa o quadro de inação o fato de que não dispõe de bem treinados e numerosos funcionários de Estado, habituados a tratar de assuntos multilaterais sensíveis. Em especial, considerando a dificuldade que é gerar convergência de interesses num grupo que tem China, Índia e Rússia. Todavia, ainda que limitada, é boa a aposta na África do Sul, por todo seu simbolismo de superação do apartheid com crescimento econômico, ainda que seja o país mais desigual do mundo, segundo cálculos do Banco Mundial. Por falta de lideranças inspiradas que consigam enfrentar, apropriadamente, a desigualdade e demais mazelas da nação, os sul-africanos andam perdidos com relação ao papel que desejam ter na condução do planeta.

Cyril Ramaphosa, presidente do país desde fevereiro, tenta reger um povo com quase 30% de desempregados. Parcela essa que chega próximo a absurdos 70% entre os jovens. Nascido em Soweto, Ramaphosa ascendeu politicamente dentro de sindicatos, colaborou de perto com Mandela e tornou-se um homem rico.

Se não bastasse o tumulto social, próprio e forjado pela política, que esteriliza qualquer liderança no Brasil e na África do Sul, ainda é enorme a dificuldade para fazer Rússia, China e Índia falarem a mesma língua. Atenção a isso, pois um conceito das ciências sociais chamado “Falácia dos custos irrecuperáveis” alerta para essa mania estranha de que padecem os humanos de seguirem investindo em projetos ruins só porque já se investiu demais neles.

O Brics só vale a pena se um esforço criativo enorme, de liderança bem articulada, for colocado em prática, seduzindo com força os países participantes e não assustando o mundo. Senão, é mero sepulcro caiado. Dadas suas enormes proporções, talvez uma esfinge posando ameaçadora enquanto guarda apenas sonhos, sem futuro.

Por várias razões, entre elas a de ser dotado de bom aparato estatal, sem ser uma das três grandes potências nucleares do grupo, quem melhor pode realizar o dia a dia dessa concertação é o Brasil. Mas precisa de um líder normal, emocionalmente estável, testado, previsível.

Nessa trajetória não há espaço para improvisação e dissimulação. Portanto, apesar de ainda serem poucos a notarem isso, é urgente aprofundar o multilateralismo com outros parceiros sem descuidar de estabelecer claro e construtivo diálogo com a atual administração americana. Pois, sob Trump, os EUA interferirão menos nas tentativas brasileiras de mascatear seus produtos, tangíveis e intangíveis, pelo mundo. Só olhando para o interesse de todos, de maneira aberta e informada, podemos assegurar ganhos para o progresso de nossa nação, tão tristemente errática na relação com o mundo.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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