CAMBRIDGE ANALYTICA

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 1º de abril de 2018.

“Nós sempre temos conversas com potenciais clientes para impedir qualquer intenção antiética ou ilegal por parte deles”, diz o comunicado oficial da empresa Cambridge Analytica após aparecer em vídeo oferecendo estratégias antiéticas e ilegais a um cliente. As indiscrições foram filmadas por um repórter se passando por um milionário interessado em direcionar as eleições no Sri Lanka. Channel 4, uma rede pública de televisão britânica, versão jovial da BBC, divulgou os vídeos em que o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix, aparece numa das cenas mais didáticas do mundo atual. “Estamos acostumados a operar através de diferentes veículos, nas sombras, e eu anseio por poder construir uma relação de longo prazo e secreta com você”, afirma Nix a seu interlocutor. Nix nasceu em berço de ouro, frequentou o colégio mais privilegiado do Reino Unido, o Eton, de onde também veio o milionário Nigel Oakes, dono do S.C.L.Group, que comanda a Cambridge Analytica, especializada em problemáticos contágios público-privados, rotina na política brasileira.

Sem saber que estava sendo gravado, Nix se gaba, meio obsceno, de grampear políticos e  autoridades para as quais arma situações de oferta de dinheiro e até aventuras sexuais. Uma vez coletada a imagem da corrupção, coloca-se na rede e o estrago está feito. O insólito da conversa é que o suposto interessado nos serviços da empresa começa perguntando sobre as ferramentas para investigação que levam à juntada de informações destrutivas sobre os adversários, os tais dossiês que rondam eleições. Nix o interrompe dizendo que melhor é armar um encontro, fazer a filmagem e postar na rede. “Elas não precisam ser verdadeiras, contanto que acreditem nelas como se fossem”, conclui.

No escândalo sobre a Cambridge Analytica, juntaram-se reportagens iniciadas pelo londrino The Observer e ampliadas mundo afora sobre o desvio operado de dados do Facebook, companhia avaliada em 558 bilhões de dólares em 16 de março de 2018. A reportagem do Observer saiu no dia 17 e de lá para cá o valor de mercado da empresa caiu mais de US$100 bilhões.

 

 

É fácil ridicularizar a falta de precisão dos logaritmos do Facebook, Google, etc, a julgar pelo que oferecem a seus usuários. Se você pesquisa uma passagem para o Recife tentarão te vender hotel, aluguel de carro, mesmo depois de já ter voltado Pernambuco. Todavia, o grande perigo dos algoritmos está no fato de que nunca terão uma completa e verdadeira compreensão sobre como pensa, o que deseja, como reage uma pessoa. Em suma, o algoritmo não sabe quem é você. Mas, vai em frente mirando em um fulano qualquer que será contaminado pela lei da imitação, principal causa da uniformidade de pensamento e gosto duvidoso do mundo atual.

A força comercial que sustenta tais manipulações é a grande avenida que abre para prestação de serviços e redução dos custos de transação ao transformar a pessoa em massa de manobra. Um grande perigo para a liberdade do consumidor. Ser embrulhado em algoritmos que digam “quem é você”, o que gosta, deve consumir.

Ao longo da semana, em quase todas as TVs do mundo apareceu Mark Zuckerberg, um jovem brilhante de 33 anos, pedindo desculpas pela maldade humana ter invadido a igreja cibernética que construiu. Igrejas virtuais da internet, terras sem fronteira, áreas sem lei, sujeitas a iludir usuários pela mão de esquemas lucrativos que se aproveitam da fragilidade do ambiente.

Logo, o grande problema do acesso aos dados das pessoas não é o que tentarão vender a elas. O problema é o que estão decidindo em nome delas. Um absurdo ainda pouco compreendido. Porque é sempre uma caricatura, mais emoção do que razão. Como qualquer campanha, política ou não, as ações de empresas como Cambridge Analytica podem até não mudar a opinião da maioria. Mas são ferozes criadores de manias, de um candidato a um sabonete, com capacidade de manobra tão alta sobre grupos sociais suficiente para formar uma maioria fictícia.

A desatinada conversa de Alexander Nix é apenas a ponta do iceberg. Por baixo há uma infinidade de exercícios de manipulação de traços comportamentais montados para desorganizar as defesas da sociedade formando a riqueza dos piratas e a crise das nações. Como não é possível contar com a bondade dos homens, insuficiente diante de tanta maldade programada, temos que criar instrumentos que alertem as pessoas para a assimilação mental a que estão submetidas quando capturadas por redes sociais e o mundo da comunicação de massa.

O novo mundo da superconectividade e superinformação não pode nos impor a moralidade rebaixada de quem manipula o grande sonho coletivo que é viver em sociedade.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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