DE COSTAS PARA O MUNDO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 30 de setembro de 2018.

Não vou começar este artigo levando em conta o que a última The Economist traz na sua matéria de capa. A revista de Londres decidiu considerar a eleição brasileira “a mais recente ameaça para a América Latina”. Posso dizer aos ingleses que é mais desastrosa para o futuro do mundo a decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia do que o que vai sair da nossa urna. Não vou, também, levar em conta o despacho administrativo de dois burocratas terceirizados da ONU que se meteram na eleição como cabos eleitorais de um candidato.

Somente nós somos responsáveis por essa crise endógena, integralmente gestada pela desastrosa condução política dos últimos governos eleitos. É entre nós que devemos buscar a solução para, ou estender pontes com os países desenvolvidos, ou nos despedir do mundo civilizado.

Podemos dizer que, se estamos aquém de nossa capacidade internacional, é porque não nos representam, nem o populismo recorrente que sempre nos ameaça, nem a má-fé dos que não veem defeitos no mercado, nem a cegueira dos que não veem nele nenhuma virtude.

Estamos certamente numa encruzilhada com mar revolto. Um abalo persistente e longo no sentido simbólico da política como vetor da organização do Estado Democrático de Direito. Com isso, a sociedade se deslocou do universo do poder legítimo, se atomizou em inúmeras minorias impondo ao país uma microssociologia do interesse pessoal e de grupo. Isso ampliou a crise de credibilidade das instituições, dando à insatisfação com os três poderes uma dimensão tal que rompeu a macrolealdade constitucional, essencial para impulsionar um país em direção à prosperidade. A crise política atual é este incesto entre a democracia envergonhada, o autoritarismo assanhado e a desonestidade tolerada.

E, dentro das turbulências do período, as perspectivas para a inserção mundial do país foram bloqueadas. Especialmente em virtude da paralisia interna diante das gigantescas modificações na dinâmica de acumulação do poder político e econômico entre as nações relevantes. A impressão que dá é a de que o Brasil não desenvolveu a capacidade deliberativa e lógica de identificar os riscos que corre como nação e, emocionalmente, continua a ver o futuro como um ponto móvel, iludido que o mundo vai nos esperar confiado na nossa intuição.

Tal atraso comprometeu a atração de investimento externo direto, ampliou a desintegração sul-americana e afastou mais ainda o país das cadeias e blocos emergentes de comércio internacional, como a Parceria Transpacífico. Aberta à adesão de países fora da região banhada pelo Pacífico, alguns nossos vizinhos, foi assinada por 11 países com um PIB de US$ 13,5 trilhões e 14% da população mundial. A ambiciosa operação política e diplomática de adesão ao bloco se tornou um dos capítulos mais importantes para o futuro governante que assumir em 2019.

Infelizmente, as campanhas não expressam um impulso natural pela integração ao mercado internacional. Prevalece o isolamento de país continental que se acha autossuficiente. Precisamos da mais ampla abertura de negociações para facilitação de comércio, acordos bilaterais e regionais, ordenamento jurídico, regras e padrões partilhados sobre propriedade intelectual, investimento estrangeiro, padrões trabalhistas, telecomunicações, etc., e tudo o mais que afeta a relação comercial compreensível e promissora nos dias atuais. Ampliar nossa capacidade de governança e cooperação exige um Mercosul que saiba o que é mercadoria. Outra grande oportunidade é aproveitar o fato de que o Brasil presidirá o Brics, grupo que representa 44% da população mundial, quase um quarto da Terra e outro quarto de seu PIB. A decisão de trazer para São Paulo a sede regional do Banco de Desenvolvimento do Brics e o Arranjo Contingente de Reserva, o FMI do bloco para o Rio, aumenta a possibilidade de novos arranjos financeiros continentais.

A projeção diplomática do Brasil depende tanto da volta do crescimento sustentável quanto de uma maior presença em foros multilaterais de comércio. Afinal, desde 1960, a parcela do comércio exterior no PIB do país está estacionada em 18%. Há 58 anos, o Brasil está de costas para o mundo.

A questão política também não pode ser descuidada. A insatisfação em todos os países não tem sido uma insatisfação criadora e o antiautoritarismo é minoritário no mundo. Perdemos tempo e dinheiro querendo regionalizar o desejo ideológico de beneficiar governos autoritários, levando o BNDES a jogar fora, em 140 contratos de financiamento de exportação, R$ 44 bilhões “exportados” sem análise de compatibilidade de projetos e parâmetros internacionais de financiamento. O Brasil precisa voltar a ser adulto e capaz de olhar o mundo de frente e estabelecer parcerias com ele.

Sei que o mundo está fragmentado, politicamente pulverizado, vendo a forte ascensão de minorias e polarizações sectárias. As últimas eleições na Argentina, França, Chile e México mostraram o quanto de dispersão eleitoral caracterizou a disputa. No Brasil, com o eleitor enfurecido, ninguém sabe a hora que a pólvora se oferecerá ao fogo. Apesar da alta temperatura, esta parece mais uma eleição mantenedora do status quo. Os sentimentos de entusiasmo e confiança foram substituídos por preocupação e medo, e a raiva, um sentimento irracional, ocupou o lugar da indignação, misturada à tristeza e pouca esperança.

O que temos que analisar é quais os motivos por que a sociedade brasileira deixou de gerar as forças de mudança que precisa. O mundo é pequeno. Três quartos da população mundial vivem em 25 países com mais de 50 milhões de habitantes. O Brasil é um deles. Quem se importa com isso?

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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