DEMOCRACIA SOB ATAQUE

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 07 de janeiro de 2018.

Qualquer pessoa que tenha passeado pelo leste europeu ao longo das últimas décadas se deparou com uma enxurrada de camisas fazendo referência à extinta União Soviética. Vendidas em lojas de quinquilharias que entopem os centros turísticos adornam o corpo com uma afetação ideológica melancólica, a ilusão de prosperidade que terminou em absurdo e terror. Uma das mais difundidas, mistura passado e presente e traz os dizeres em inglês: “KGB, ainda de olho em você”.

Do colapso da URSS em 1991 para cá muito tempo se passou, a KGB – polícia secreta do Soviete Supremo, a cúpula do Estado comunista – permanece dissolvida, mas algumas das diferentes partes em que se fragmentou passaram a ter renovada razão de ser. Curiosamente, com a explosão da era digital e das redes sociais o know-how oriundo da KGB encontrou amplo campo de ação no governo de Putin. Muita gente respeitável e bem informada fica à vontade de dizer que uma nova Guerra Fria está sendo travada. Contudo, quando não há o componente ideológico completo talvez seja melhor pensar em ações párias de Estados embrutecidos pela má política.

O certo é que há uma capacidade de orquestração do passado soviético encontrando novos meios para ganhar espaços de poder no governo da Federação Russa atual. No campo econômico, a opção pela economia de mercado triunfou definitivamente sobre o comunismo em 1991, mas, no campo político, a democracia não conseguiu se impor sobre a autocracia. A fragilidade do processo democrático, no maior país do mundo, atiça a sana dos que querem bagunçar seus resultados. Manipulações feitas internamente demonstram a pouca racionalidade e previsibilidade na disputa política naquele país.

E de tanto manipular eleição que o Governo Putin acabou oferecendo interferências externas contra o funcionamento normal do processo de escolha em outros países. E pode estar consolidando o slogan “eleições sem mentira é fraude”, que anda pelo mundo. Um crime eleitoral perfeito é fazer o malfeito vir de fora do país onde ocorre a eleição.

Desde Stálin, ninguém liderou a Rússia por tanto tempo quanto Putin. O ex-agente da KGB chegou naquele momento da vida de um país, tão grandioso e tão fracassado, em que até as vastas fronteiras, da vasta nação, passaram a se tornar fonte de enfado para o povo. Muitos acusam a obsessão de Putin em se imiscuir por vias transversas na política interna dos demais países de ser uma estratégia de preservação de seu próprio poder doméstico. Um poder desprovido de raízes profundas, culturais e milenares que Alexander Soljenítsin acusava os líderes do Partido Bolchevique de também não possuírem.  Seja o que for sua intenção interna Putin encontrou uma brecha na realidade contemporânea global para ampliar o poder de seu país também. Ou seja, a beligerância serve como defesa, mas está montada para ataque e expansão. Um projeto pessoal, mas será animado com cores políticas e bases nacionalistas. Porque, é triste constatar, só a política, e a marginalidade, toleram alguém querer contornar a equação justiça e dever para fugir da sua responsabilidade.

No final de maio passado, o presidente francês recebeu Putin em Versalhes. O russo friamente não passou recibo, mas teve que ouvir Emmanuel Macron reafirmar que “durante a campanha, “Russia Today” e “Sputnik” foram agentes de influência que em variadas ocasiões difundiram notícias falsas sobre mim e minha campanha. (…) ambos agiram como órgãos de influência, de propaganda e falsa propaganda”.

Tanto Russia Today quanto Sputnik são conglomerados de notícia operados pelo governo russo. São dois dos braços vinculados aos serviços de inteligência que desenharam uma rede móvel de difusão de informações manipuladoras. Na Europa, muito mais do que a França, quem mais tem medo dessas ações é a Alemanha de Merkel, onde o atual presidente russo trabalhou como espião nos anos em torno da queda do Muro de Berlim. Em entrevista no início de 2018, Putin disse que ter sido agente da KGB ajudou distintamente para ser o presidente que é hoje porque aprendeu a agir como se estivessem constantemente de olho nele.

Os EUA também seguem fazendo suas incursões para desestabilizar e trocar regimes e governos, haja visto a recente manipulação dos episódios iranianos, mas é impressionante a forma como a Rússia decidiu chutar a porta para causar confusões a seu favor no território alheio. “Meu cachorro é maior, mais rápido e mais forte que o seu”, disse Putin certa vez para George W. Bush. São diminutas as chances das duas potências se comportarem adequadamente no contexto em que se encontram. É um mal momento por que passa a democracia nesse mundo com excesso de (des)informação.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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