Emergência e democracia

O Estado de S. Paulo – 08 de abril de 2020

Um mal-assombrado uso do poder nos dilacera: isolamento voluntário de todos ou solução final para a velhice. A esse delírio absurdo e não cristão soma-se a perda de contexto da missão fiscal na economia, deixando a cartilha liberal sem norte para fazer o que precisa.

Uma parada global sincronizada, um governo incapaz de estabilizar suas ações. A confusão alucinatória do presidente, fustigando sem pudor seu ministro da Saúde, estressa mais ainda o cenário e pode levar o Brasil a ser o maior perdedor entre os emergentes. Enquanto o palácio boicota a Nação, o povo ainda encontra temperança, seguro de que nenhum princípio humano ou ético é violado pelo Ministério da Saúde ou pelos governadores. 

Itamar, maduro e experiente, custou-lhe tanto a acreditar no Real que o ministro da Fazenda virou o autor do plano, salvando o País da inflação. Jair, o verde, despreza tanto a doença que o ministro da Saúde é que vai salvar o País da infecção. Mandetta, a URV do coronavírus, é mais do que governo. Virou ministro da República. 

Lançando sombras sobre o País, parte do governo parece mais agarrada à bolsa do que à vida, convicto de que saúde pública atrapalha a economia. Viúvas do mundo velho, não conseguem realizar o luto pela morte que o vírus impôs ao estilo de vida moderno. Stop. A vida parou, ou foi o presidente? Antifuturista, martirizado pela desinformação, finge governar. 

A democracia é forte, mas não é um regime de força. Confunde quem trabalha com expectativa falsa e não consegue agir certo diante de dificuldades. Que governante se mantém à tona sugerindo que o bombeiro salve os móveis e deixe a família se queimar? Acreditar nele é como segurar água na mão. Com atrevimento diz sem pensar o que pensa. Está virando o nome do desastre. Schettino, Schettino, não abandone o navio na hora do naufrágio! 

Não é difícil manter a democracia em situações de emergência. Mas que trauma leva o presidente a se identificar tanto com esse vírus a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo? Quem sabe o Centro de Inteligência do Exército de Agulhas Negras o alerte para o que dizem os modelos estratégicos de enfrentamento de populações abandonadas e em pânico. Não é em todas as situações que o homem escolhe sua saída. 

Não é fácil conciliar democracia e emergência quando a situação exige mais cérebro e sentimento do que desejo e força. O método de convencimento democrático, pelo isolamento voluntário a pedido da autoridade sanitária, é o melhor para conter a doença. Ajuda, ainda, na preservação do tempo de esperança e solidariedade capaz de soerguer a sociedade depois da desgraça. 

Para isso é preciso abandonar qualquer fraude no comportamento. O que houve no mundo foi mais do que uma parada repentina tirando a liquidez dos mercados. Diante da inadimplência geral, e vendo a riqueza sem movimento, a autoridade que não considera o PIB um conceito de fluxo, e não gosta do papel do Estado, sente-se catatônica. A espiral negativa quando atinge o capital e o trabalho tem de ser amenizada prontamente pelo Estado, recalibrando sua relação com a base fiscal e monetária. O ultraliberal, não podendo ser dogmático, sente-se um insincero titular do poder. Não é burocracia, é a filosofia a razão da demora em estancar a infecção na economia. 

É hora da união, de os estadistas de todos os setores afirmarem que é desaconselhável romper o isolamento e obrigatório o Tesouro impulsionar a salvação do País. Por que na emergência a economia se desmancha? Que país é esse que supõe que a vida humana vale menos do que dois meses de produção econômica? Se não há uma base existencial mínima de entendimento, fiquemos com a principal: se somos uma democracia, não precisamos usar a força. 

Não é preciso abrir o embrulho para ver o que contém. O universo paralelo do presidente se desfez com a pandemia. Eleito pelo modelo mental virtual, por onde não passa nenhuma privação, ele se virava com retórica, sem ligar para autoridade. Agora o cálculo estratégico que opera, ao jogar com o vírus imaginando não quebrar a cara, parte da ideia de que o Brasil sofre, mas não morre. O ponto de equilíbrio surgirá quando as instituições democráticas o convencerem de que não há necessidade de o País todo sofrer, talvez ele, mantida sua prerrogativa de falar pelos cotovelos. 

Há atletas a quem a camisa pesa. Outros, cansativos, acionam uma necessidade de atenção maior do que a que podemos dar. Imaginem estado de calamidade, tendo de suportar coexistência e hierarquia com um governo que se esfrangalha ali onde a fantasia se choca com a realidade. 

O mundo intrapsíquico de quem vê a política como jogo trapaça-charlatão-sabichão não prevê desmoralização. Mas se diante do nada até a incompetência costuma ser aceita, quando há necessidade de comando e controle profissional não adianta falar mais alto. Concepções vagas de como governar no temporal podem não corroer os ossos da raiva. Mas berrar instruções para a morte é querer companhia para um plano de extinção pessoal.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

1 Comment

  1. RAFAEL VICENTE FERREIRA disse:

    Caro Paulo Delgado,
    bom dia.
    Hoje assistindo no canal Curta ao documentário da Dra. Nise da Silveira, “Imagens do inconsciente”, lembrei-me de você.
    Lógico você deve saber porque. Votei em você por várias vezes por isso: a luta antimanicomial. Não vou esquecer. Tenho um irmão que aos 17 anos foi tomado pela esquizofrenia, que nunca o abandonou (conheci todos os hospitais psiquiátricos de Belo Horizonte e até hoje as imagens me atormentam). Outro dia, revi o filme Bicho de Sete Cabeças, foi difícil ver até o fim. Meu irmão era, e às vezes ainda é, um artista da pintura (lembrava um pouco o Rodrigo Santoro).
    Claro, hoje, em função de tantos anos de sofrimento mental (40 anos), perdeu muito do entusiasmo.
    Lembrei de você, também me deu muita tristeza, ao ver como a política retrocedeu. Porque é difícil encontrar pessoas assim como você.
    GOSTEI MUITO DE SEU TEXTO “Emergência e Democracia” (também escrevo algumas coisas que publico em veículo de menor expressão). Claro, sem a pretensão de comparar ao nível de reflexão que seus textos propõem. Por sinal, bem ilustrados.
    Hoje mais do que nunca, entendo que precisamos de um parlamentarismo. Não dá mais para jogar nossos destinos e de nossos filhos (com quem realmente me preocupo, pois já estou com 57 anos), nas mãos de um mito, ícone ou herói.
    Definitivamente, os meios de comunicação precisam entender que não podem continuar agindo como o escorpião (da fábula da tartaruga), do contrário afundarão junto com a população na lagoa poluída de miséria, retrocessos… da tragédia social.
    Não dá mais para aceitar a mais nova manipulação da mídia. Este presidente sim, é um mito (mentira/lenda), mas o seu último (até outro dia fiel escudeiro) ministro da justiça, está longe de ser um herói ou muito menos ingênuo. Ele sabia muito bem o que queria, pagou para ver. Quem ele avalizou, tinha cheiro, cor e conteúdo nefasto. E ele, Moro, sabia. A não ser que já estivesse contaminado pelo vírus, e por isso já tinha perdido o olfato em outubro de 2018.
    E a conta a gente vai ter que ajudar a pagar. Com sofrimento, retrocesso e muitas vidas.
    O novo herói, antes disso, tinha acabado com nosso parque industrial e mais de uma dezena de milhões de empregos. Em nome da moral que a meu ver ele só tem na retórica do seu nome.

    PAULO DELGADO, FICO FELIZ QUE ESTEJA NA ATIVA. Um abraço e desculpe o desabafo final.

    Rafael Vicente Ferreira.

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