EQUILíBRIO, DESEQUILÍBRIO NOS EUA

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 11 de novembro de 2018.
Cinquenta anos se passaram desde quando, em novembro de 1968, Richard Nixon se elegeu presidente dos EUA. Deputado Federal, senador e vice-presidente bastante atuante no governo de Eisenhower, Nixon perdera as eleições de 1960 por uma diferença irrisória, para Kennedy. Nos anos que separam uma eleição e outra, Nixon se dedicou a fortalecer o Partido Republicano e, nas prévias de 1968, ganhou por vasta margem, deixando para trás Nelson Rockefeller, que disputava com ele. O período Nixon na Casa Branca foi de decisões de enorme importância para o desenho do mundo atual e ele foi reeleito com grande vantagem. Seu segundo mandato, no entanto, foi encurtado por avassaladoras crises. Seu vice-presidente, acusado de corrupção, resolveu deixar o cargo em outubro de 1973. Nos EUA, a vacância da vice-presidência é ocupada por uma indicação feita pelo presidente e confirmada pelo Congresso. Gerald Ford foi o escolhido. No ano seguinte, foi a vez de Nixon renunciar em face da ameaça de impeachment. Ford virou presidente e Rockefeller foi nomeado vice. Anos de grande tumulto em Washington.
O período atual, no entanto, ao seu modo, é ainda mais tumultuado. As últimas eleições podem ser consideradas uma vitória importante para os democratas, mas também não foi uma derrota tão cruel para Trump. É normal as eleições americanas ou já saírem balanceadas desde a eleição do presidente, ou, quando não, gerarem maior equilíbrio de forças nas eleições de meio de mandato. Como em 2016 a vitória de Trump no Colégio Eleitoral veio acompanhada de maioria na Câmara e no Senado, nada mais natural do que haver um maior número de pessoas mais dispostas a distribuir melhor o poder no país. Especialmente em uma situação em que o voto não é obrigatório, a capacidade de gerar interesse e comprometimento é chave. Nesse caso, acabou favorecendo os democratas a ideia de que havia desequilíbrio no parlamento.

Um fato realmente novo foi a ampliação da variação no perfil dos congressistas. Mulheres foram eleitas em números recordes. Serão ao menos 102 na Câmara dos Deputados, que tem 435 membros ao todo. Nesse seleto grupo, estão a primeira mulher indígena, fato ocorrido na eleição brasileira, e as duas primeiras muçulmanas a garantirem vaga no Congresso dos EUA. Assim, os democratas passaram a ser maioria na Câmara, enquanto os republicanos ampliaram ainda mais um pouco sua força no Senado. Trump fez seu papel. Viajou país adentro fazendo comícios para assegurar a maioria no Senado. Qual será a lealdade dos senadores republicanos para com ele é uma incógnita.
Imediatamente após o dia da eleição, o presidente americano reagiu dobrando a aposta no discurso de divisão e nos rompantes autoritários. Na quarta-feira, Trump fez com que Jeff Sessions se demitisse do cargo de procurador-geral. Nos Estados Unidos, o procurador-geral também é o chefe do Departamento de Justiça, bem como advogado-geral da União. Colocou em seu lugar alguém que espera que esteja mais alinhado com seus interesses. Se não for o caso, trocará de novo. Sob supervisão do Departamento de Justiça, corre a investigação sobre interferência da Rússia na eleição de 2016. Criada em maio de 2017 e capitaneada por Robert Mueller, ela é a pedra no sapato do presidente.
A partir de janeiro de 2019, os democratas terão condições de fazer uma oposição mais organizada, podendo até pedir o impeachment do presidente. Aparentemente, Trump não buscará conciliação, muito pelo contrário. Sua estratégia deve ser cada vez mais o ataque. Como, de fato, a Câmara pode paralisar muitas de suas políticas, preparem-se para um rol ainda maior de factoides e movimentos espetaculosos por parte de Trump. Todavia, apesar de tudo, é possível trabalhar muito bem com ele. Um pouco como Nixon, Trump é capaz de avançar agendas impensáveis na calculista burocracia tradicional americana. É uma questão de saber o que se quer.
Qual será a estratégia dos democratas ainda não está claro. Uma tentativa de impeachment, por exemplo, ainda que bem possível de ser aprovada na Câmara, se vier com cara principalmente de queda de braço partidária, seria em sequência barrada no Senado. Assim ocorreu no caso de Bill Clinton. Trump só cai se dois terços dos senadores votarem contra ele. Algo que só se pode vislumbrar num contexto de absurda comoção nacional diante de um eventual fato novo e chocante. Mesmo assim, dado o clima atual, não é certo que seja suficiente. Uma acomodação por parte dos democratas, inviabilizando Trump, com vistas à eleição presidencial de 2020, é mais provável. Por mais provocações que Trump siga fazendo, as rotas do interesse partidário são sempre bem calculadas.
Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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