ESTADO CRÍTICO NO CONTINENTE

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de março de 2018.
Caracas já veio abaixo no passado em terremoto que levou a vida de milhares de pessoas. Um tremor de quase 8 graus na Escala Richter. Para cada terremoto de magnitude 8 no mundo, por ano, ocorrem 10 de magnitude igual ou maior que 7, 100 de magnitude igual ou maior que 6, 1.000 de magnitude igual ou maior que 5, 10.000 de magnitude igual ou maior que 4 e assim sucessivamente. São milhões de tremores diários que não se fazem sentir.

Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela e Peru vivem seus tremores políticos e são os principais países de impacto econômico da América do Sul. Peru e Chile passaram por eleições e já estão com a cara do que serão na próxima década. A Argentina fez a transição um pouco antes e ano que vem volta às urnas para avaliar Mauricio Macri. Até o provável segundo turno em junho, a disputa acirrada na Colômbia chama atenção. Mas até a primavera chegar no hemisfério sul, a preocupação com o continente é sobre o mal-estar brasileiro. Uma situação de egoísmo extremo do sistema político e judicial — que faz de quem trabalha e produz na sociedade uma peteca jogada de mão em mão pela elite do Estado — que não gera nem pacificação dentro do establishment, nem uma proposta que imponha ao Estado o bom senso. Já a Venezuela, infelizmente, se tornou um caso de política humanitária e logo missões de paz das Nações Unidas serão convocadas para salvar da morte por inanição a população do país.

Hoje, a engenharia constrói cidades capazes de sobreviverem a terremotos, mas a política segue construindo sistemas de poder que destroem sociedades. De início, pouco a pouco, até que se chega a um estado crítico como vemos hoje. O Brasil se vangloria de ser poupado do fenômeno físico, mas segue como uma bússola avariada, cuja agulha foi desregulada pelas variadas formas da paixão e do arbítrio.

O relatório da ONU sobre Felicidade no Mundo, divulgado no meio da semana passada, mostra um recuo muito grande no Brasil nos últimos anos. Na América do Sul, a queda na felicidade dos brasileiros só foi menor do que a do venezuelano, recorde mundial. O Brasil ainda é, para todos efeitos, o segundo país mais feliz da América do Sul (e 28º do mundo), depois do Chile e logo à frente da Argentina. Se o povo, exausto, resolver votar com o fígado, prepare-se para depressão maior.

O caso da Venezuela mostra como a insistência em agir de maneira errada acaba levando ao caos, e a vida se torna imprevisível. A saída dessa completa ausência de equilíbrio tem um custo social enorme para todos. O Brasil, que tanto passou a mão na cabeça dura dos governos chavistas, deveria pedir desculpas ao povo da Venezuela por prestigiar governantes que o leva a escapar para o lado de cá da fronteira.

Segundo pesquisa da Gallup, 41% dos venezuelanos gostariam de sair para sempre do país. A maioria quer ir para a Colômbia, o caminho mais curto e de língua conhecida. A satisfação dos venezuelanos com a realidade do país está em queda livre desde 2012. O regime perdeu o ar e as coisas vão só piorando. De 2013 para cá, a satisfação da população com a vida também caiu na Colômbia e no Brasil, mas a maior tolerância das democracias nesses países ainda evita o pior. Até que a jovem política seja executada no centro do Rio?

A crise na Venezuela é uma oportunidade para trabalhar em conjunto com o governo colombiano, cujo atual presidente, Juan Manuel Santos, deixará o cargo em agosto. O Brasil precisa, já com o Santos, deixar canais de política de Estado operantes durante esse ano de transição nos dois países. A cooperação humanitária e de segurança com a Colômbia é imperativa para resolver não só a questão venezuelana, mas para endereçar com seriedade o problema de segurança pública no Brasil, o mal transparente que tomou conta do país.
Um dos caminhos da solidariedade continental é começar a junção entre Mercosul e Aliança do Pacífico, algo que já é defendido pela Argentina. Para o Brasil melhorar sua forma de acesso ao Pacífico do ponto de vista jurídico e físico, com infraestrutura, o caminho ideal pelo Peru exige uma conversa boa com Colômbia e Chile, mas também com o México, todos na Aliança do Pacífico. A agenda positiva que alçaria boas expectativas na região seria essa. Maior integração pelo comércio com melhoria de infraestrutura e redução das barreiras aos negócios. Como ninguém tem dúvida que é irresponsável deixar aprofundar uma dicotomia entre Atlântico e Pacífico na América do Sul, o melhor é unir o quanto antes.
Todavia, é bem provável que a América do Sul fique fechada para balanço enquanto Colômbia e Brasil não passem por suas eleições. A recuperação econômica avança, mas precisa aproveitar o máximo do momento para expandir suas bases regionais de negócios e cooperação. E evitar que o continente saia de vez do radar mundial.
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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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