EXPORTADOR DE PROBLEMAS

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 19 de janeiro de 2020.

Na esteira da eleição de Franklin Roosevelt, em 1932, foi eleita uma vasta maioria de membros do Partido Democrata para o Senado e a Câmara dos Deputados dos EUA. A primeira eleição após a morte de Roosevelt, que governou 12 anos com maioria democrata, resultou em maiorias do Partido Republicano nas duas Casas do Congresso. Foi um curto respiro dos republicanos no Legislativo nacional, pois, passados dois anos, a hegemonia democrata no Capitólio voltou a predominar até os anos 1980.

De 1933 a 1980, republicanos só tiveram maioria firme no Senado por quatro anos. Na Câmara dos Deputados, também foram apenas quatro anos, entre 1931 e 1994. Somente em 1995, republicanos teriam a maioria nas duas Casas do Congresso. Para um país que se organiza em torno de apenas dois partidos, o predomínio congressual dos democratas foi resultado de uma grande coalizão mantida sob os ideais do New Deal, a política de recuperação econômica formulada por F. Roosevelt.

Os republicanos voltaram a ser maioria no Senado na mesma eleição em que Jimmy Carter perdeu para Ronald Reagan. Uma grande parte do que ocorreu na eleição de 1980 foi o início do colapso da hegemonia dos valores do New Deal, que estavam exauridos. Entretanto, o que contou para valer foi o fato de que a eleição transcorreu com 52 americanos feitos reféns na embaixada americana de Teerã. E conta até hoje.

Desde antes de Trump chegar ao poder, o país para o qual o Pentágono pós-guerra fria reserva mais horas de preparação para invadir é o Irã. De todos os conflitos do mundo, é o que mistura sonhos e pesadelos dessa geração que duvidou dos rumos americanos em 1980.

Não é à toa que o recente assassinato, no Iraque, comandado por controle remoto, do general iraniano foi decidido no contexto de uma reação abrupta à aparente ameaça de invasão da embaixada americana em Bagdá, por volta da virada deste ano. Ao lado dos EUA, o Irã é o país que mais tem influência no Iraque. Tocaram fundo em Trump os ecos de 1979, ao se sentir sob a possibilidade de parecer “fraco” como Carter. Pesou a mão e deu vazão às forças que querem mudança radical no Irã.

Apesar de ter que dizer oficialmente que “não intenciona forçar mudança de regime em Teerã”, para não se complicar mais desde que a Câmara dos Deputados aprovou seu impeachment, forçar a mudança de regime por meio da intensificação continuada das sanções ao Irã é exatamente o que está sendo feito. E tudo meticulosamente misturado aos preparativos para as eleições presidenciais deste ano.

A aposta é muito arriscada. E envolveu na semana passada, como reporta o Washington Post, uma “extorsão” para cima das potências europeias, que se viram obrigadas a acionar o mecanismo de disputa do tratado nuclear com o Irã, sob ameaça de terem seus automóveis tarifados por Washington. Extorsão ou não, o fato é que o aumento das sanções encurrala ainda mais o regime iraniano. É quase que forçar uma escalada de um regime já afeito à violência, mais ainda contra seu próprio povo. Desde dezembro de 2017, protestos no país estão sendo reprimidos com brutalidade, prisões e mortes.

Após o balão de ensaio lançado com o assassinato do general iraniano, a aprovação de Trump subiu. Ou anulou a queda sofrida desde o início do processo de impeachment.

Assim como a crise em torno do antiamericanismo da Revolução Iraniana pavimentou a formação de um Senado republicano nos anos 1980, a volta dos republicanos ao comando da Câmara, depois de décadas, foi liderada pelo radical Newt Gingrich, que orquestrou o impeachment de Bill Clinton.

De toda forma, de 1995 a 2020, a estratégia aberta por Gingrich funcionou, e os democratas só tiveram maioria na Câmara por cinco anos, incluindo o biênio iniciado em 2019. Naquilo que não tem de único, Trump é o reflexo de uma coalizão ainda amorfa entre conceitos dos anos 1980 de Reagan com o modus operandi de Gingrich. Como escrito aqui em novembro de 2018, dada a forma como foi feito o impeachment, o Senado republicano não falhará com Trump.

Além disso, depois do espetáculo que foi o impeachment de Clinton, só para ser barrado no Senado, há uma impaciência do público americano com o que acabou sendo percebido como uma insincera armação, dessa vez democrata, que não dará em nada por conta da maioria do outro partido.

Trump ainda tem a carta da mobilização nacional contra o Irã para jogar mais próximo da eleição, se necessário. A cultura norte-americana aceita a ideia de que ser um exportador de problemas traz dividendos no curto prazo para presidentes dos EUA.

Vamos mais uma vez dar razão ao veredito: ser inofensivo nunca foi um atributo humano.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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