A FORÇA DOS EXIBIDOS

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 21 de janeiro de 2018.

“Eu amo o povo, mas não o exibir-me ao seu olhar”, desassossegada frase que William Shakespeare colocou na boca de um dos reis que narrou a vida, quando se desencantou com o trono ao ver o povo preferindo charlatões.

A partir da Revolução Francesa as cabeças passaram a rolar. Em nome de uma ideia que seduziu mesmo monarquistas. Democracia é, afinal, uma ideia nobre. Radical, mas nobre. Vence a força da maioria que decide produzir, pelo voto, uma minoria legítima. Muitos se esquecem disso pensando que vão governar. Dependendo do eleito, serão súditos. Pois democracia é você autorizar a uma elite a governar por você. Se tal elite é ruim, pão, chicote e circo. Derrotando às vezes a maioria, como ocorre no sistema de dois turnos quando os dois que vão ao final, juntos, têm menos votos do que todos os outros somados que perderam. A maioria perdeu. Moral de duelo matemático.

Republicanismo é uma ideia mais radical. Sua nobreza mais refinada e passível de distorções, contudo. Protege equilíbrios acertados entre os Estados e regiões, cria um caminho para o poder local previsível e recompensa bons acordos com o progresso e a paz social. Foi feito para preservar minorias da volúpia de gente inesperada e ficcional, gente que não se importa de onde vem o dinheiro, desde que chegue ao seu bolso, que se forma sem enraizamento ou tempo que forme um caráter público, sereno e afeiçoado ao destino do povo sobre o qual prospera. Poder e prestígio eram coisa materializadas em atitude e tradição, que o dinheiro fácil desmaterializou e derramou sobre a democracia. Hoje, república é terra de heróis do presente, sem fios de vida que levem ao futuro.

Ora, e qual não é a acachapante rapidez com que são geradas a grana e a influência que atiça a vontade de poder no mundo atual? Na indústria de comunicação, o jovem barão do Facebook, Mark Zuckerberg, apostou na tentativa de influenciar a decisão das pessoas a favor de Obama e deu certo. No pleito pós-reeleição, os estratagemas marqueteiros já tinham sido capturados por quem queria bagunçar Washington; e Obama, Zuckerberg, Hillary e companhia tiveram que engolir Trump. Zuckerberg hoje pensa em concorrer ele mesmo, depois de ter sido passado para trás no seu próprio jogo. Cuidado com político de internet; a transgressão gosta da velocidade.

No mundo em geral, o século XIX viu difundir globalmente a substituição de monarquias por repúblicas. A tendência assolapou o continente europeu um pouco depois, com grandes ondas de transição para a república ligadas a guerras. Em inúmeros casos, a república que despojou monarcas transferiu a coroa à cabeça de outros senhores supremos, muitos governantes medíocres, como reis tolos.

Assim, devagar com o ânimo em suportar quem prega revoluções, pois as massas do cortejo são de barro e os santos que elas carregam pesados demais com seus sonhos de poder. Gostam de fazer o mal, mais do que de puni-lo.

Em 1941 quando o aviador e herói americano Charles Lindbergh testemunhou ante a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados de seu país, não passavam de uma dúzia os países com democracias funcionando no mundo. Lindbergh, um milionário popular, queria um pacto de neutralidade dos americanos diante do expansionismo nazista. Quis a bondade da vida que o aviador só tenha derrotado Roosevelt num romance, ficcional, de Philip Roth, o maior escritor vivo que o Nobel não lê.

Dias atrás, um think-tank americano, grupo de especialistas nascido das estratégias universalistas do casal Roosevelt, os mais longevos senhores da Casa Branca, publicou seu relatório anual sobre a liberdade no mundo. Segundo a leitura que fazem, direitos políticos e liberdades civis regrediram fortemente, atingindo um momento de crise em que líderes populistas e autocratas ameaçam a democracia, congregando a simpatia do povo para facilidades. Populista é o político que gosta de tudo que critica nos ricos e no governo adora receber suas bondades gratuitas. Usufrui de todas as coisas boas sem pagar por elas. Só não gosta do nome que a justiça dá para esse jeito que ele arranja de gostar. Atualmente dezenas de presidentes populistas estão sendo processados em  seus países por causa dessas coisas.

Para muitos, na linha cantada por Bertold Brecht, se o povo perdeu a confiança do governo, a melhor solução é dissolver o povo. Mais simples é mudar de caminho e acelerar a ampla adaptação da democracia às novidades globais sobre justiça e bom governo.

Existem mais repúblicas do que monarquias no mundo. Mas as repúblicas, com tantos presidentes e ex-presidentes exibidos enrolados, estão um vexame e ameaçam a majestosa ideia que é a democracia.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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