Gaviões e passarinhos

gaviao e passaro - site paulo delgado

Notícias do Dia – Florianópolis, 23/01/2019 – Grupo RIC.

No Senado Federal o passa­do não passa. Embora te­nha sofrido uma renova­ção de mais de 80% das cadeiras nas últimas eleições, a maior da história, com somente oito sena­dores reeleitos de 54 que concor­reram, podemos até dizer que o novo predomina, mas temos que reconhecer que é o velho que ain­da domina. Especialmente se con­tinuar em vigor o traje viscoso do regimento interno, costurado por gaviões para vestir passarinhos.

A história costuma trabalhar com a mesma velocidade da tartaruga quando seu curso mostra que fal­tam autoridades mo­rais que a impulsionem. Mas a eleição entre nós costuma significar que os eleitos passam a ter o direito de agir da mes­ma maneira que ditam as regras e os costumes dos que não saíram. E que os governos, quaisquer que sejam, ficam sempre num beco sem saída diante do parlamento.

O governo Bolsonaro é forma­do por diferentes grupos ide­ológicos e corporativos ativos – os liberais da economia e seus sonhos; os antiglobalização da política externa e seu voluntaris­mo; os militares
e seu pé no chão; os caçadores de infiéis das diver­sas vocações religiosas; os entu­siastas de uma justiça lava-jato e seus alvos conhecidos. Tão di­vidido na largada que ainda não é um modelo de governabilidade, especialmente pela falta de rosto parlamentar consistente.

Falta, parece, uma autocompre­ensão por parte dos novatos, embora muitos não sejam ama­dores, do que seja a força de um veterano em estruturas
seculares como são os parlamentos. Agra­vado, em outubro passado, pelo confuso presidencialismo multi­partidário que saiu das urnas fica muito fácil sabotar o discurso da campanha e prejudicar o gover­no achando que o está ajudando. Basta querer mudar tudo de ma­neira exagerada sem saber mol­dar o temperamento e ficar aten­to às artimanhas do regimento.

Se o governo pretende paz no parlamento, peça conselho a to­dos, mas nem sempre os siga. E libere a energia da eleição, dei­xe a água rolar nas duas Casas. Certo que o voto secreto é sempre um convite à traição, mas tam­bém
tem mais cara de liberdade. Governar com os livres é melhor, pois o poder de um presiden­te para um parlamentar não é bem ele como pessoa, mas todos sabem que é através dele que se manifesta o poder que influencia o mandato de todos.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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