Guerras Sem Fim

Correio Braziliense e Estado de Minas – Domingo, 3 de Março de 2019.

Após chefiar o FBI por 48 anos, o controverso Edgar Hoover fez uma de suas últimas jogadas ao informar o gabinete de reeleição do então presidente Richard Nixon de que desconfiava de um complô democrata para impedir seu sucesso eleitoral. A dica de Hoover deu substância para que o também paranoico Nixon passasse para a história pelo escândalo de Watergate.


Mas foi o desastrado Nixon que partiu para a China para reestabelecer relações com o país, no que é uma das mais relevantes atitudes tomadas por um líder político nos últimos 50 anos. Passados alguns meses de sua triunfal visita à terra de Mao — e apenas um mês após a morte de Hoover —, agentes a serviço da campanha de Nixon são presos enquanto colocavam grampos na Executiva Nacional do Partido Democrata em um dos prédios do condomínio Watergate.

O presidente Trump anda em busca de um trunfo que sufoque seus críticos e anime suas bases para não cair ou prejudicar sua reeleição. Se, por um lado, seu uso estratégico da Coreia do Norte bebe claramente em fontes inspiradas em Nixon, Trump parece atrair cada vez mais para perto de si aspectos indesejáveis para um presidente. O retumbante fracasso das conversas de Trump com Kim nesse fim de fevereiro é um primeiro sinal de que a cronologia dos eventos domésticos negativos está muito mais acelerada para Trump.


Após Cingapura, em 2018, o hotel Sofitel de Hanói, no Vietnã, serviu de palco para o segundo encontro entre Trump e Kim. O norte-coreano chegou a Hanói de trem. A longa viagem de Pyongyang a Hanói na velha composição blindada, que faz no máximo 60Km/h, foi a única opção aceita por Kim, dada à inviabilidade das alternativas. A Presidência norte-coreana tem um avião soviético em que eles não confiam. Kim não queria voar de novo num jumbo emprestado da China, como ele fez até Cingapura. Os americanos não aceitavam um encontro na própria Coreia do Norte. Os norte-coreanos não queriam a Coreia do Sul. Caso o evento fosse organizado na China ou na Rússia, não seria mais bilateral. Hanói foi a saída honrosa.

Assim como Nixon com relação à China, Trump seria a pessoa ideal para pacificar as relações com a Coreia do Norte. Simplesmente porque são justamente as figuras que politicamente pareceriam menos afeitas a fazê-lo. “Nixon na China” se tornou jargão de um conceito político sobre movimentos controversos que só são aceitos por virem de alguém que tem a confiança fanática de apoiadores.

Todavia, Trump encontrou-se muito fraco e desguarnecido em Hanói. Incapaz de entregar a demanda de Kim por um cancelamento substancial das inúmeras sanções impostas pelos EUA em troca da desnuclearização. Uma derrota para o presidente que diz querer dar fim às guerras que não acabam. E sua fraqueza é cada vez mais doméstica.


Em Washington, a atenção recai quase que completamente sobre o depoimento de Michael Cohen diante da Comissão de Supervisão e Reforma da Câmara dos Deputados dos EUA. Cohen, advogado pessoal de Trump ao longo de uma década, desancou o presidente americano. Trump, por sua vez, se refere a ele como “um fraco”, ou mesmo “um rato”.

No todo, o que o depoimento de Cohen aponta é que Trump não acreditava que ganharia a eleição e que não podia perder oportunidades de negócios que apareciam tanto ao longo dela quanto que vinham desde antes dela. Mesmo que objetivamente ilegais para um candidato. Afinal, com ele perdendo o pleito, pouca atenção atrairia ao que fez ou deixou de fazer. Assim, enquanto concorria, tocava pessoalmente negócios diversos de suas empresas inclusive envolvendo interesses estrangeiros, notadamente russos, que ele nega porque são condutas claramente ilegais para um candidato à presidência como expresso na legislação americana.


Segundo Cohen, que foi também um dos três principais responsáveis por arrecadação na Executiva Nacional do Partido Republicano durante 14 meses, entre 2017 e 2018, antes de cair em desgraça, Trump via sua campanha como “a maior programação paga da história da política”. Sua colaboração é desacreditada pelos republicanos, uma vez que só veio em sequência a ter sido condenado, pouco antes do Natal, a três anos de cadeia, após confessar crimes financeiros durante a campanha.

Na ausência de um trunfo de impacto no desenho da geopolítica mundial, a Trump restará se agarrar ao simbolismo mambembe da barreira física entre os EUA e o México. Um factoide que anime seus apoiadores a saírem de casa e a defendê-lo. Isso e abraçar com entusiasmo algum conflito que justifique o temor de uma migração em massa. Afinal, da forma como está estruturada a economia americana, o apetite em Washington por guerra é sempre maior do que por paz. 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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