Infeliz quem tem um mau vizinho

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 20 de fevereiro de 2022.

Naquela confusa geografia do leste europeu, em que coabitam mapas imaginários de várias épocas, Kaliningrado é um enclave russo no Mar Báltico de frente para a Suécia. Quando a cidade ainda pertencia à Prússia, viveu ali o filósofo Immanuel Kant. De Kant se origina a influente tese da paz democrática. Segundo essa, quanto mais liberais, democráticos e republicanos forem os países, menos guerra haverá.

Democracias não entram em guerra umas com as outras. Por outro lado, é mais provável que diferenças ideológicas façam provocação e conflitos entre democracias e regimes autoritários. Muitos dos problemas se originam do autoritarismo humano – existente em todos os regimes – agravado pelo preconceito e problemas de comunicação. Caso típico do dilema de segurança em que a Otan, querendo aumentar seu sentimento de segurança, cause um aumento no sentimento de insegurança por parte de Moscou, que reage aumentando a insegurança dos países da Otan.

Nos últimos seis anos, duas bases lançadoras de mísseis foram inauguradas pelos EUA em dois países do antigo Pacto de Varsóvia (aliança militar dos países socialistas, sob a tutela da extinta URSS, para se opor à Otan). A de 2016, na Romênia, fica de frente para a Crimeia (ocupada pela Rússia em 2014). A outra, inaugurada mês passado em Redzikowo, na costa báltica da Polônia, fica a 200 quilômetros da Kaliningrado de Kant, na reta de Moscou.

Qualquer que seja a explicação militar, para defesa ou ataque, o certo é que todo escudo vira alvo. O mais popular xingamento na Ucrânia não é ofender a mãe do outro. É praguejar: que Deus te dê um mau vizinho!. Será por quê? Se a estratégia dos EUA – que não são vizinhos nem da Europa ocidental nem do leste europeu – for entupir os nacionalistas ucranianos de armas e submeter a Rússia a sanções digitais, financeiras e comerciais jamais vistas, dá para entender que a Europa não se sinta protegida, muito menos os ucranianos. Será ruim para os russos – que se preparam para escalada de sanções desde 2014 –, mas é também ruim para todo mundo, inclusive para a liderança dos EUA num mundo livre e democrático. 

Pobre Ucrânia. Lugar onde brincam de guerra por causa de uma história de duas revanches desnecessárias, mas friamente calculadas. Parte dos EUA quer dar um troco na Rússia por conta de os russos ficarem tacando pedras no telhado de vidro americano – se enfiando em eleições, guerras etc. Enquanto isso, Putin quer dar um troco por conta de seu passado de espião soviético que não se conforma com o fato de que, após a queda da URSS, a Rússia foi enfraquecida e desprestigiada deliberadamente.É um conflito ao mesmo tempo desajuizado e conveniente para quem assiste de longe e de que até o Brasil quis tirar casquinha semana passada.

Sobre a possibilidade de início e manutenção, em pleno século 21, de conflitos e governos desajuizados que jogam o jogo do poder com perspectivas morais confusas, é só lembrar a guerra esquecida e sem fim no Iêmen, que mata crianças todo o dia, e ninguém na ONU sabe o que fazer para dar um fim.

Agora, no Leste Europeu, o que ocorre é um experimento total do conflito contemporâneo. Guerra de desinformação; guerra de pequena vingança; guerra híbrida de treinamento; guerra por procuração; guerra de redes; guerra a distância. Guerra de descaso com o cidadão que pouco se interessa se vai ser ferrado por uma Otan expansionista ou por uma forçação de barra para fazer ressurgir um Pacto de Varsóvia à la Putin. É uma face entre irresponsável e assassina do nacionalismo. Seja ele russo, ucraniano, ou dos valentões de arquibancada da Otan que ficam incitando a confusão. Pretextos arranjados para se iniciar guerra sempre existiram.

Quem não se lembra da Síria e do Iraque? Ano passado, morreu Colin Powell, general que passou a última década de sua vida se arrependendo de ter chancelado a inteligência enganosa que jogou a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) no chão e custou a cabeça do embaixador brasileiro Mauricio Bustani, que resistiu à invasão do Iraque.

É evidente que a violação da soberania ucraniana por parte de Moscou ou de qualquer outra força é um absurdo. Mas a diplomacia pode fazer mais se Otan e Rússia afirmarem a capacidade de um não guardar rancor do outro. Cortar a Rússia do sistema global de pagamentos (SWIFT) e outras punições digitais e comerciais pode parecer culto e evoluído, mas o efeito demonstração criará mais fissuras de confiança no mundo. A Rússia já está alienada e briga justamente por conta disso. Aliená-la ainda mais só vai fortalecer elementos retrógrados e autoritários que acham que as vidas ucranianas podem ser queimadas numa  revanche desnecessária para testar sei lá o quê. 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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