O BRASIL NA OTAN

Leaders hold a meeting on Afghanistan during the NATO 2014 summit at the Celtic Manor Hotel in Newport, South Wales, on September 4, 2014. The NATO summit billed as the most important since the Cold War got underway with calls to stand up to Russia over Ukraine and confront Islamic State extremists. AFP PHOTO/SAUL LOEB (Photo credit should read SAUL LOEB/AFP/Getty Images)

Todas as vezes que as coisas apertam na economia aparece alguém “revolucionário” para dizer que é preciso domar o mercado e o capitalismo e colocá-los a serviço da prosperidade e da justiça social. Ninguém tem a coragem de dizer que falhar e vencer é a maior lição da vida. Já na área de defesa, o ideal nunca vem embrulhado na pasmaceira do sonho.


Em 1949, quando foi criada, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) contava com 12 países. Um novo país pode entrar na organização, via governo dos EUA, caso conte com a concordância unânime dos demais membros e, segundo o artigo 10 do tratado, seja europeu. De lá para cá, 17 países se somaram ao grupo. Montenegro, pequeno país à beira do Mar Adriático, de frente para o sul da Itália, foi a última nação acolhida. Até que em Washington, durante conferência de imprensa no Rose Garden da Casa Branca, Bolsonaro ouviu a confirmação pública de que Trump tem a “intenção de designar o Brasil como “aliado importante fora da Otan”, ou mesmo possivelmente “um aliado da Otan”.
Ser um “aliado importante fora da Otan” não quer dizer muita coisa. Para o lado brasileiro, só por deixar os EUA usarem a Base de Alcântara e ter a Embraer em joint-venture com a Boeing na área de defesa já pagam a fatura. Todas os demais itens que se tornam disponíveis com tal tratamento são muito mais interessantes para os Estados Unidos. Como o Brasil, de fato, nunca antagonizou os EUA, a história de aliado extra-Otan na região já foi usada como migalha lançada à Argentina pelo governo Clinton, em 1998, para ver se espezinhava o Brasil.

Nunca nos espezinhou, e o convite ao vizinho nunca pôs nada substancial na mesa argentina. Celebrar a aliança entre Brasil e EUA com isso é como comemorar quinta colocação em campeonato mundial. Ajuda os EUA, donos da bola e do campeonato, sem dúvida. Afinal, ter o Brasil nesse grupo, ao lado de Paquistão, Afeganistão, Tunísia e Egito, legitima os EUA na imagem que passa para a comunidade internacional e nas suas barganhas militares mundo afora.
Para o Brasil, por outro lado, é basicamente aceitar ser equiparado a Paquistão, Afeganistão, Tunísia e Egito. Grandes países com grandes histórias, mas, no contexto atual do mundo, não, obrigado. Nem os EUA deveriam querer isso e sabem por quê. Se for só por conta de uma guerra com a Venezuela, que a administração Trump está doida para começar, não se assentam em bases sólidas. O horizonte de uma nação é muito mais longo e tal imediatismo não faz jus a tudo que gerações e mais gerações de brasileiros construíram para colocar o Brasil em pé, altivo e livre, contribuindo para um mundo melhor, inúmeras vezes ao lado dos EUA.


Trump faz um convite confuso, sem modelo claro, ao maior país da região. Convite que já foi feito à Colômbia. O que foi, a propósito, um acordo esdrúxulo também feito, em parte, para espezinhar o Brasil, mas que atingiu um pouco mais tal efeito. Desde 2013, vieram as conversações da Otan com a Colômbia e o Brasil, à época, não soube encaminhar corretamente seu interesse e da região — nem com a Otan, em geral, nem com os EUA, em específico. O Brasil foi empurrado à revelia, e a Colômbia entrou como aliada do grupo ano passado. Por que o Brasil não propõe que os EUA articulem nossa entrada como “parceiro global” da Otan com mais celeridade, qualidade e efetividade do que foi empregado para com a Colômbia? Simplesmente porque o Brasil sempre foi parceiro dos países da Otan, inclusive nas duas guerras mundiais, como nenhum outro país latino-americano.


Participar da Otan, para efeitos de compartilhamento de tecnologia e de reflexão sobre ações necessárias para garantir a estabilidade global, são suficientes para reconhecimento de sua relevância estratégica. De modo geral, há uma sobreposição entre ser denominado aliado extra-Otan dos EUA e ser também parceiro global da Otan. Tal é o caso explícito dos países com os quais os EUA não partilham apenas guerras, mas também a prosperidade e o futuro. Nos serve mais ser tratado como Austrália, Japão e Coreia do Sul.
Acima dessa categoria, há o caso de Israel. Em 2014, o Congresso americano tornou lei a parceria estratégica entre EUA e Israel. Tal é um caso único e amplo o suficiente para receber adequadamente o título de parceria estratégica. Como o Brasil não conta, nem de longe, com um lobby em Washington forte como o de Israel, tal ideia poderia se perder na burocracia. Entretanto, ali está bem esquadrinhado um tipo de acordo que pode orientar o que é uma verdadeira parceria estratégica. Caso contrário, o Brasil poderá resolver o problema americano sem mirar o interesse do próprio Brasil. Um contrassenso que nem mesmo a liderança americana compreenderia.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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