O CANDIDATO DE PEQUIM

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 24 de maio de 2020.

Nos últimos dias, a escalada de provocações entre EUA e China só faz aumentar. Em grande parte, o show de besteira é para consumo interno nos dois países. Ambos têm a tradição de um nacionalismo forjado contra um inimigo estrangeiro. É o que atrai a atenção das pessoas que acham que patriotismo exige destempero. Assim como boa parte dos brasileiros é obcecada por intrigas e escândalos domésticos que tenham efeito sobre pequenas distribuições de poder, chineses e americanos são talhados na lógica do “meu país contra o mundo”. Obcecados que ficam com a ideia de uma tramoia estrangeira contra eles, acabam eles mesmos perturbando a paz do resto do mundo.


Em tempos de grave crise econômica, o Partido Comunista Chinês serve-se da mobilização patriótica para sustentar sua legitimidade. De 1978 para cá, a China abraçou uma globalização super liberal e cavou com engenharia e estratégia um lugar especial para suas empresas nas engrenagens da economia global. Seu sucesso é simbiótico com os EUA, que, lá nos idos dos anos 1970, foram com umas ideias na cabeça propor um verdadeiro casamento com a China. E assim foi feito. Ninguém teria iPhone, hoje em dia, se isso não tivesse sido feito. Se iPhone é bom ou ruim, já é uma outra história.

Sínicos como só eles (com “c”, muitos outros são), alguns chineses gostam de uma expressão de quatro palavras sobre o recorrente dissenso em relações de fraterna interdependência. “Mesma cama, diferentes sonhos.” Virou inclusive o título de um livro, nos anos 2000, de um dos principais sinólogos americanos, David Lampton, que ainda tem humor para ver como são frágeis as bases estratégicas do conflito. Muitos outros lucram migalhas ao aquiescer que “de fato daqui para frente é muita competição e pouca cooperação.”


No caso dos EUA, para além de um gosto por ações unilaterais que reafirmam e testam em que pé se encontra a força do país, existe uma lógica entre os que veem o mundo como complicado demais. É a lógica de que tudo se resolve se conseguirem o consentimento da Europa. Não só essa é uma aritmética simplista, simplória e furada, mas esquece que a Europa também tem lá o sonho dela. E o casal franco-alemão está fazendo os esforços para não deixar o continente cair. Porque se a União Europeia (UE) cair, nenhum país europeu individualmente terá peso suficiente para definir as regras do jogo da interdependência global. Enfim, o principal ponto de influência dos EUA na UE era o Reino Unido, que já não faz mais parte. A tendência é que, se a UE sobreviver, será mais coesa e opinativa.

Além do mais, os EUA podem estar entrando numa rota de conflito com a China, mas não há sinal de que exista sequer consulta com os europeus. É, sobretudo, uma política externa que serve a uma agenda doméstica de muito curto prazo. Associada a setores da economia que preferem lucrar de forma irresponsável a pensar em algo realmente sustentável. O problema do curto prazo virou carrasco da civilidade global. E a China pela primeira vez se coloca como desejosa de bancar — o pouco, ou quase nada que custa — a estabilidade de longo prazo.


Isso ocorre agora não porque ela não quisesse antes. Mas porque seria ilógico ver os EUA abrirem mão do que construíram. As organizações internacionais estão todas aí. É barato assumir. Como é barato comprar uma empresa que ficou sem caixa numa crise. E está podendo fazer isso avançando sobre Hong Kong. Porque os EUA querem simplificar a vida com cada um com seu quintal, sem essas reuniões chatas do condomínio multilateral da ONU.


O estranho é que como diz Jason Furman, que foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos dos EUA no passado, o custo da dívida é nulo para os EUA pois o mundo está organizado em torno do dólar. E a moeda real, no fim das contas, é legitimidade e credibilidade do poder de quem a emite. Abrir mão disso é uma idiossincrasia bem curiosa.

Estratégias políticas baseadas apenas em pesquisa de opinião podem parecer racionais, mas representam o fim da estrada para ações que promovam o interesse nacional. Por conta do próprio atabalhoamento do presidente na condução da questão, a oposição consegue colar nele a imagem de que os problemas sociais e econômicos resultantes da pandemia são razões para que ocorra uma troca de governo nas eleições deste ano.


Em tal contexto, simulações de pesquisas de opinião concluem que, de fato, a situação degringolou e só a ideia de um inimigo salva. A China está ali pronta para ser a responsável pelos problemas. Pensando longe, Pequim já decidiu apoiar  Trump. Ao custo de receber de mão beijada o que resta das estruturas que organizam a interdependência global.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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