O mau humor inglês

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 25 de outubro de 2020.

A Inglaterra venceu a 2ª Guerra Mundial, mas perdeu a Europa para os derrotados.  Em meados do século 18, Montesquieu publicou em seu Do Espírito das Leis uma análise curiosa sobre os ingleses. Para ele, seriam um povo “incapaz de suportar os atrasos, as delongas, os detalhes, e a frieza das negociações: nelas, eles teriam muito menos chance de sucesso do que qualquer outra nação; e, portanto, perdem através de tratados o que obtiveram através das armas.”

A julgar pela exasperação de Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, semana passada, Montesquieu segue guiando a estratégia do continente na relação com a ranzinza ilha. 

Boris avisou que tinha desistido de negociar os termos do Brexit com Bruxelas e que era para o Reino Unido se preparar para não ter acordo comercial com a União Europeia (UE). O ano de 2020 foi acordado como sendo de transição em que as partes negociariam como conviveriam a partir de 2021. 

Ou seja, o país tende a passar a seco da situação de membro da UE para uma relação comercial que Boris – tentando ser didático para seu público prevê ser como a que a Austrália mantém com o bloco europeu. No duro, o que a Austrália tem com a UE é o que as regras da OMC estipulam. Ou seja, relação à lá australiana é sair sem acordo comercial.

Neste domingo, negociadores da UE estão em Londres numa tentativa de demonstrar que levaram a sério a exasperação de Boris Johnson na semana passada. A UE tem tido muito mais margem de manobra do que o Reino Unido, mas ambas as partes preferem que pareça que a má vontade parte do outro lado.  Até então os negociadores do governo britânico estavam instruídos a pedir uma relação próxima a que o Canadá mantém com a UE. 

Os britânicos queriam duas coisas: exercer completamente a separação da UE em termos legais como votado no Brexit, mas selecionar algumas áreas comerciais de seu interesse que continuariam a funcionar comercialmente, desvinculadas do arcabouço legal europeu que rege as relações. Na cabeça britânica tal seria uma proposta simples e direta.  Mas Bruxelas, orientada por Paris e Berlim, insiste em não aceitar a ideia de que as regras europeias deixariam de valer no Reino Unido, enquanto que as regras britânicas seriam aceitas daqui para frente como se de fato fossem as regras europeias.

Por um lado, faz sentido o argumento da UE de que se o Reino Unido conseguisse o que queria, passaria a parecer a muitos outros membros da UE conveniente tentar uma relação semelhante. Ganhar os bônus sem levar os ônus. Por outro lado, a Europa, com frieza, atrasou e encheu de detalhes as negociações justamente para mais uma vez manter a sina: fazer os ingleses perderem através dos tratados o que eles obtiveram através do plebiscito.

Afinal, em larga medida é difícil imaginar a formação da UE sem a ocorrência da II Guerra Mundial que, no final das contas, foi vencida, no contexto da Europa Ocidental, pelo Reino Unido. Ao invés de se beneficiar de uma configuração europeia que obteve através das armas, o Reino Unido foi metendo os pés pelas mãos década após década de construção, através de tratados, da União Europeia. O bloco virou um projeto latino-alemão que gera formidável capital e projeta poder que só tem precedentes naquela parte do mundo na época dos impérios. 

Sem ser colocada para fora, a própria Inglaterra com seu “certo caráter impaciente que não permite suportar as mesmas coisas por muito tempo,” mais a “coragem”, que Montesquieu aponta “beirar a obstinação,” decidiu se despedir das controvérsias continentais e viver por conta própria.

Pois existe também o lado dos que lembram que durante muitos anos a Inglaterra, numa fase em que pouco se dava com o continente, manteve um tratado aparentemente desvantajoso para si com Portugal, em que se comprometia a absorver boa parte dos vinhos do país ibérico. Entretanto, observou Adam Smith, também no século 18, que o tratado, apesar da reclamação dos ingleses, era “uma obra-prima da política comercial” do país. Porque de fato foi o caminho para que Portugal transferisse para cofres ingleses o ouro em excesso que recebia do Brasil para financiar a revolução industrial. 

O que de fato acontecerá só observando o resultado daqui a uns anos na comparação do Reino Unido com o continente. Uma variável é clara a nosso favor: o Brasil voltou a se tornar muito mais complementar ao Reino Unido agora fora da UE. Os ingleses vão precisar diversificar para não ser explorado pela UE. Quanto ao Brasil, basta lembrar que é pela diversificação que temos que sobrevivemos. E ter boas relações com um país que preza a liberdade e a autoridade de seus costumes, não vai nos prejudicar. 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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