O mundo afogado em dados

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 10 de junho de 2018.

Na última sexta-feira de maio, passou a vigorar na Europa uma legislação rigorosa sobre a captação e uso de dados, produzidos pelas inúmeras máquinas digitais que inundaram a vida de todos. Tudo o que é digital gera dados armazenados e analisados a exaustão. São ativos de valor inestimável que misturam indiscrição, marketing, segurança, economia e política.

Depois que cada página da web coloca lá seus cookies para monitorar pessoas, plataformas mais engenhosas e atraentes como Facebook, Google, Twitter, WhatsApp deixaram de ser empresas de comunicação. São agências de incerteza, distração e velocidade que, com suas conexões, estão produzindo um cidadão novo, uma comunidade de públicos vociferantes e ativos. São mitos fortes contra a onipotência da política. Fizeram do povo, essa multidão de miragens, sua plateia. Nem sempre é o melhor. A força desestabilizadora/criadora das quatro plataformas listadas acima foi logo compreendida pelo governo chinês de forma hostil. Lá não entram. Se pouco, o fazem clandestinamente. Há culturas que sabem que não são mídias que vão converter o povo na direção de novos conteúdos. Diferente do Brasil, cuja sociedade esfriou sua resistência a bobagens tecnológicas e, além de aceitar tudo, se orgulha de ficar distante do pensamento crítico, há países que sabem preservar seus códigos de analise à luz da sua civilização.

Na China, Renren, Baidu, Weibo, WeChat, respectivamente, fazem as vezes dos proscritos serviços americanos. E lá estão, escancaradamente, a serviço do Estado, o que também não é bom.

A China tencionou pelo nacionalismo estratégico, montando barricadas atrás de sua grande Firewall e se divertiu com a situação atual quando Donald Trump usou as armadilhas que os EUA montaram mundo afora para pegar os outros. Afinal, é como se uma Praça Taksim – a praça em Istambul de onde partem todas as manifestações, pacificas ou não, na Turquia – virtual inteira pousasse na Praça Lafayette em Washington.

Política à parte, a rápida revolução das empresas de tecnologia aponta para uma bipolaridade entre Vale do Silício e Shenzhen, polos usados por Washington e Beijing. A percepção de um mundo mau desafiante faz com que as pessoas, por medo, corram para construírem sua maldade e a terem sob seu controle. O problema é que a maldade construída é também indomável e sempre escapole das mãos dos que se acham bons.

A saída civilizada (e possível) da tradicionalista Europa foi seu “Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados”, implicando “todas as empresas ativas na UE, independentemente da sua localização”. A iniciativa europeia é apenas um primeiro passo de uma vasta discussão sobre mau uso de dados em análises e algoritmos que podem ter impactos destruidores nas vidas das pessoas.
Há um excelente livro popularizador desses palpitantes temas no mercado faz uns dois anos. Em tradução livre, se chama “Armas de Destruição Matemática”. Há uma clara alusão às armas de destruição em massa, porque os big data, com seus algoritmos, podem ser usados de forma maldosa, ou apenas por conta da inexorável falha humana. Sua autora, Cathy O’Neill, trata de forma didática desse assunto que para a grande maioria das pessoas é virtual e abstrato demais.
O’Neill aponta como modelos opacos, humanos e, portanto, falhos, ganham aura de inquestionável ciência deixando uma infinidade de injustiças e más decisões por onde passam.

Na política são o novo campo da guerra de guerrilhas. Uma bomba atômica que todos correm para ter a sua. Há uma diferença, contudo, pois a difusão da bomba atômica acabou se tornando um fator de equilíbrio da paz. Porque seu uso, de enorme consequência, é tão óbvio que a própria antecipação da retaliação freia o potencial agressor. A manipulação maliciosa dos dados e comunicação, por outro lado, é micro, difusa demais, faz a disputa se arrastar até a exaustão sem exigir um novo patamar de relações e realidade. Até quando?

Na política trata-se da nova oposição, espalhada, convocada sem custos ou agenda definida. É excremencial. Caldeirão de contradições marchando em sintonia com a falta de diálogo. Falsa democracia direta. Sociedade de guetos que podem se encontrar inesperadamente como meteoros sobre a terra.

A Europa acorda agora para a questão. A China, que tem quase 200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, não brinca em serviço, não deixa rede social surfar na cabeça do povo assim. Porque também sabe, por tradição e senso de dever com sua multidão de pessoas, que nenhum planeta novo tem o poder de alterar o horóscopo. O jogo no mundo atual tem oportunidades e desafios que, em poucas tacadas, mexem com gente demais. Criatividade vai bem, desde que não despertem nas pessoas formas baixas de energia social.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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