O NOVO CHANCELER

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 25 de novembro de 2018.

A luta ideológica virou carreira que alimenta direita-esquerda. Foi o que me veio à mente quando a escolha do novo chanceler mexeu na estante errada do Itamaraty e surpreendeu os bibliotecários que controlam a leitura permitida aos brasileiros. O diplomata todo arrumado, fiel ao comando do condutor, é o tipo adequado para entender o político com problemas de simetria interna-externa. Sempre foi assim. E a diplomacia costuma ser o campo ideal para o impaciente empregar seu poderio. Infelizmente, o Brasil ainda não precisa balancear seu comportamento no mundo sob a pressão da realidade internacional. Basta agradar ao público interno e, agora, parar de abraçar tirano em Malabo. Continuamos um espinhoso país impreciso, que não consegue ver a vida com regularidade. A nova cara da chancelaria é mais um ciclo da força que tem, entre nós, a esperança e a desordem.

Não me desespero antes da hora. E aos que bateram continência submissa para o operário, sem força para confrontar o chefe em nada, e agora andam irritados com o capitão antes da posse, respondam a Freud : qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa? Claro que é pouco diplomático um embaixador brasileiro expressar maior fascinação, culturalmente, pela Europa e, materialmente, pelos EUA, do que pelo Brasil, multiculturalmente inimitável. Também não o comparo com os mais controversos formuladores que andam botando fogo na língua das nações. Mas de um modo geral, basta observar o mundo para saber que mesmo grandes conservadores veem uma baita manipulação nesse furor identitário, nacionalista e antiglobalização. Foi um erro da esquerda, com o incentivo de todas as minorias, nos dividir assim e fingir que não via virtude nenhuma no capitalismo. E, agora que as diferenças e os problemas econômicos foram apropriados pela direita, as maiorias, choramingando, querem ser lideradas como se fossem minorias. Esquerda e direita usam “as minorias” como uma plataforma de desculpa para formar governos autoritários. Existem sinais do mesmo erro no novo governo, o de fingir não ver defeitos no liberalismo.

Quem anda ganhando eleição no mundo é um campo ideológico que podemos chamar de anti-establishment, o qaul já foi um campo de centro-esquerda. Atualmente, o populismo anti-esquerdista cresceu porque os partidos de centro e de esquerda, governando de forma populista, desistiram de cuidar do longo prazo da vida dos cidadãos e passaram a não entregar o que prometeram. Usufruíram da globalização quando lhes interessava e quando as ondas econômicas favoreciam. Quando veio a crise, com a desaceleração sincronizada da economia global, não tinham mais moral para criticar o modelo que os beneficiava. Por isso, não vejo sinceridade na “perplexidade” que personalidades ligadas ao Brasil em Genebra, a capital do mundo multilateral, dizem estar sentindo com a indicação do chanceler brasileiro. Ora, ora. Herman Hesse subiu para as montanhas suíças quando percebeu que “o maior vício moral é a absolvição de si mesmo; ela torna inúteis todos os esforços de recuperação”. Quem não se espantou com as tolices que fizemos pela esquerda não tem porque se espantar com as que, pela direita, ainda nem fizemos.

O conservadorismo é um freio de arrumação no caminhar desgovernado da humanidade. Entretanto, só vale se for coerente, ilustrado e dotado de propostas que capturem as questões pungentes. Enfiar ideologia em tudo, num culto da ação ao estilo militante, leva à sobrepolitização de todos os aspectos da vida. Ótima forma de rejeitar a vida democrática. A mensagem tem que ser totalmente clara e compreensível, coisa difícil na diplomacia profética, onde é preciso recusar a política. Ao confundir tradição com tradicionalismo é certo o prejuízo à fé, à pátria e à família. Mas parece que a política externa é mais uma retórica do que uma filosofia.

Samuel Huntington, o guru do governo atual, cita 13 vezes o Brasil quando fala em civilizações. Somos um caroço fora da fruta. Acerta um pouco quando faz referência para a relevância dos evangélicos no caráter nacional. O Brasil, que já teve dois presidentes protestantes — Café Filho, presbiteriano; Ernesto Geisel, luterano —, terá agora um evangélico. Para Huntington, a hegemonia brasileira na região é dificultada pela diferença linguística entre português e espanhol, e compara nossa situação na América Latina com a do persa Irã no mundo islâmico, majoritariamente árabe, que o circunda.

Huntington acha que a dificuldade de unir a região levará o Brasil à esfera de influência direta dos EUA, e só assim faremos parte da Civilização Ocidental. Se o ministro da Educação não fosse colombiano, teríamos um Brexit ao sul do Equador.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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