O paraíso artificial da política

O Globo – 23 de abril de 2018.

Um ciclo político de devoção e carpe diem morreu compreensivelmente. A foto revelada é sinal do tempo que já passou, mas sem foto não há mito. E a invisibilidade para o mito é o fim. Um partido de esquerda que adere ao poder que criticava cava seu próprio abismo. É inevitável: se quer cair, merece ser empurrado.

Fingindo nada ver, os partidos são cápsulas esterilizadas para autofecundação. Nada sabem da diversidade genética na evolução da espécie ao aprisionarem a eleição no estatuto da gafieira: quem está dentro não sai, quem está fora não entra. Querem recolher a seiva pública nas urnas para fazer fictícia a vontade do povo e consolidar a maior não renovação do Congresso no período democrático. Uma ditadura dos mesmos, ossário de ancestrais.

Os partidos morreram quando morreu a ideologia dentro deles. Se programaram para ficar ridículos e sem função social. Não são de classe, não representam forças econômicas, tecnológicas ou culturais modernas. Não creem no horizonte sagrado da conduta, nem mesmo das aparências. Acreditam na virtude empregatícia de administrar e preservar mandatos sem a necessidade de exercê-los. São indiferentes ao significado do desregramento moral, da dissimulação, do fato de repelir a crítica. Viciados em manipulação, confundiram valor de uso com valor de troca.

Abusam do ressentimento do povo diante das dificuldades da vida, não ajudam ninguém a organizar seu sofrimento, antes usufruem dele. Um ciclo inteiro se exauriu com o risco social se deslocando em direção à política. Ao se comportarem como não classe, sem nenhum interesse pelo real, vivem a obscenidade de propagar a cultura da amostra, do discurso, do vídeo, da incitação ao autointeresse. Demarcam territórios baseado em relações de força, exortações moralistas, como se todas as escolhas fossem morais e tudo se resumisse a política e poder. Operam no ocaso dessa época em que a busca de adeptos não está mais baseada nas relações do desejo humanitário de servir ao público, consciência do dever elevado de influenciar. Ser político não deveria custar nada além do compreensível, se verdadeiramente custasse a vida.

Quem se oferece como mito deveria saber que os salvadores da pátria estão submetidos ao alerta de Kafka: o Messias virá somente quando não for mais necessário. Só virá um dia após o seu advento. Não virá no dia do Juízo Final, mas no dia seguinte.

Ainda há tempo. Os partidos estão atrasados em relação às transformações por que passa a sociedade. Fuja do desonesto que erra por interesse cercado de ignorantes que só acertam por acaso.

Deseducam o povo, alimentam a fúria com a visão heroica de si mesmos. Estimulam a punição como vingança. Atravessaram a linha do apogeu e hoje rodam em torno do que já está ultrapassado.

O poder é algo que se dispensa ou se troca. A atitude atual mais relevante é a escuta da maioria silenciosa da sociedade. É ali que está a novidade e seus desafios que podem nos levar a um outro patamar, nova configuração, outras formas de sedução política e autêntica produção econômica.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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