O que fazer nos EUA

O presidente do Brasil está a caminho de Washington a bordo de um avião da Airbus, empresa europeia que celebrou uma vantajosa aliança com a canadense Bombardier. Já a brasileira Embraer se aliou com a Boeing, mesmo controlando a maior fatia do mercado de jatos regionais do mundo, com 28%, contra apenas 12% de presença da americana, de forma pífia. A “parceria” ficou em 80% para Boeing, e 20%, para Embraer.

O acordo, da forma como foi feito, deixou o presidente Bolsonaro com a pulga atrás da orelha. Não contempla o interesse nacional. As proporções estão equivocadas, sem nenhuma feição de aliança estratégica. As garantias, muito frágeis, e não há plano consistente e explícito de longo prazo. Em suma, negócio de curto prazo, de má economia, sufocou o interesse histórico que o Brasil mantém no setor da aviação e no desenvolvimento constante de tecnologia de ponta. Bolsonaro e Trump podem pessoalmente melhorar isso a partir de terça feira.

É justo um upgrade no acordo Embraer-Boeing. Precisa ser uma aliança real, continental, tanto no papel, quanto na realidade visível. Em comparação, a alquebrada Bombardier manteve 50% das ações em seu acordo com a gigante europeia Airbus. O controle da Airbus ficou explicitado por uma diferença de apenas 0,1%. Isso é parceria, sem submissão.

A indústria aeronáutica é uma das mais avançadas que o Brasil possui. É fundamental assegurar o aumento da participação brasileira nesse novo desenho de aliança com os EUA, de olho no que se passa no mundo. Por isso, é preciso ter clareza sobre as disputas em que os EUA estão envolvidos e saber defender, da maneira eficaz, o interesse nacional brasileiro.

Os EUA acabam de pedir à China que dê um tempo no desenvolvimento de novas tecnologias. Há um diagnóstico, com alto potencial conflitivo, sobre a possibilidade de que o mundo se divida em dois diferentes padrões tecnológicos. Grosso modo, um lado com tecnologias de base americana, e outro lado com tecnologias de base chinesa. Washington corre para deter os asiáticos, pois teme ter que agir, militarmente, para impedir tal cisão. Para que não tenha que hastear bandeira e ir às vias de fato, inicialmente tenta o explícito processo de contenção já em operação. Trump busca obter uma moratória tecnológica de Pequim.

Algo que transcorria atrás de portas fechadas veio à luz, tanto por conta do estilo Trump, quanto pelo fato de ser difícil boicotar um país tão fechado e protegido quanto a China. A China também deu a dica quando, mordida pelo bicho da bravata, resolveu dizer a todos, em 2015, que estava articulando um plano para que em 10 anos o país chegasse à ponta da inovação tecnológica mundial. Momento em que, então, poderia dispensar as compras de equipamentos americanos. “Fabricado na China 2025” chama-se o plano que Washington quer ver Pequim postergar, ou abandonar em parte.

Trump quer dar um jeito de manter a distância relativa de poder entre Washington e Pequim estável por mais um tempo. Até, pelo menos, a Casa Branca ter uma noção mais clara de como agir num mundo em que não é mais a gestora da maior economia do planeta. Para isso, quer frear o crescimento chinês exigindo deles que se abstenham de algumas áreas específicas. Esse é o cabo de guerra com a Huawei.

Tecnologia pura, a droga do progresso real. Muito mais importante do que tarifas comerciais e outras bobagens secundárias que levam países inviáveis a se digladiarem.  Os EUA querem impor barreiras não tarifárias para a tecnologia chinesa. Nem que seja com a ameaça de uma solução fora dos canais civilizados.

O calor do confronto se dá por causa de uma dúvida cada vez mais real: qual será o padrão tecnológico do mundo virtual e bioquimicamente transformador? Os EUA querem isso para si. Um pouco por instinto e cobiça, também por responsabilidade e culpa. Estamos no espólio final do que foi seu triunfo no século 20. Acham que merecem, por direito, tempo maior para aceitar uma transição tecnológica cujos termos desejam ditar do princípio ao fim. Se Bolsonaro não negociar com Trump a participação brasileira em um desses polos do futuro tecnológico do mundo, a viagem pode se desviar para a Disney.

Um ponto claro é selar um acordo para a fabricação de aviões maiores e de mais longo alcance pela Embraer, para que o presidente brasileiro possa vender o Airbus e, nos 200 anos de nossa independência, voar em um EB 7.09.2022 da Embraer-Boeing. Um avião de fuselagem estreita (narrowbody), de mais longo alcance, fabricado pela inteligência dos brasileiros. Política é convencimento e aliança, boa para ambos os lados. Para Trump e a Boeing, não seria problema. Para o Brasil, uma nova dimensão mundial.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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