O verão antes da queda

Capital Político – 28 de janeiro de 2021.

Mantendo a tradição de descuidar do futuro o presidente pula carniça sobre as costas do Congresso na esperança de que a eleição da Mesa seja da mesma natureza do que a votação do impeachment. Volver a 2015: se o verão de Cunha custou caro, o inverno de Dilma fez-se impagável.

A eleição está claramente manipulada pelo governo para esconder o medo de um Congresso reformista que possa mudar a infértil política econômica. Pois do ponto de vista da sobrevivência da vida parlamentar está equivocado quem estiver focado nos 342 votos necessários à destituição do presidente, mesmo sabendo que ele necessita de somente 171 para engavetar o impeachment.

É só observar que se Collor e Dilma nem o mínimo tiveram, Temer, por sua vez, viu sua queda brecada duas vezes. Ou seja, queda de presidente não tem a lógica de dança de véus que é a eleição da Mesa Diretora. 

Especialmente agora. Como nunca foi muito convincente o governismo dos governistas, nem parece excessivo o oposicionismo dos oposicionistas, o presidente pode estar arrumando uma boa maneira de construir uma forte oposição contra seu governo.

O processo sucessório segue sua rotina sindical e de autoajuda parlamentar. O paradoxo da interferência presidencial, cujo método de governar é não governar, só confirma o vaticínio que domina nosso admirável país entorpecido pelo vergonhoso presidencialismo que temos: “vulcão subalterno, sem nome, dos muitos que aparecem na América: logo será extinto…Essa grande falta de capacidade política que mantém seu povo inquieto, sem objetivo preciso, sem norte fixo, sem saber por que não alcança um só dia de repouso.  

A força da Presidencia da República não consegue fazer com que o poder e a possibilidade que a contêm possam mudar as circunstâncias da economia e influenciar o estilo da política. Porque seu titular não tem a maestria, os princípios e as preocupações adequadas ao cargo que exerce. Se o Congresso deixar-se contaminar por seu estilo nem o Governo terá condições de entregar o que promete, nem os envolvidos enterrar o que dão em troca.  

Porém, as contradições em curso, mais a memória de situações passadas, permite supor que que a maioria dos deputados que não revela o voto, saiba melhor o que está pensando. Além do voto não ser oral, a virtude do voto secreto é justamente permitir que a decisão política possa contrariar interesses sem correr o risco de ser estigmatizada.   

É o governo que está brincando com fogo quando enfia seu próprio impeachment na sala para não ter que falar de reformas e mudanças na sua maneira de governar.  Se a Câmara engolir o jogo, a razão de ser da nova Mesa perde muito do seu significado para a conjuntura atual.

A ansiedade do presidente com sua estabilidade o está levando a errar na forma e no tom, especialmente considerando a Casa que conhece e a maneira “oposicionista” como atuou nela. Se ele continuasse liderando só a parte folclórica do governo, seria mais difícil derrubá-lo. Mas se quiser se transformar numa rainha da Inglaterra muito ativa, logo ficará claro para todos que ele é um péssimo presidente.

Como a expectativa geral é a de que a agenda regular do Congresso não para qualquer que seja o eleito – e são os dois candidatos mais fortes que andam dizendo isso – para dar tudo errado para o presidente é só ele continuar a empastelar a eleição da forma que vem fazendo. Tempestade perfeita quem provoca é raiva de aliado.

Talvez por isso a conta de quem vai ganhar nunca feche. E não adianta somente mostrar a foto com o candidato. Há nuances. Se alguém estiver usando máscara pode estar simbolicamente traindo o governismo atual. Se não, pode voltar a coloca-la na hora mais inconveniente para o governo. E esta hora fatal, governos não conseguem dizer quando começa.

Assim, falar de impeachment agora, contra ou a favor, é uma armadilha em que candidato independente não deve cair.  Os 257 votos para eleger um presidente são de um DNA mais inconsistente e menos emocional.

Entender a eleição como um subproduto do impeachment está provocando dissidência. Deputado profissional não fala fora de hora, nem trai com antecedência, é a realidade que informa sua conduta.

Há um tipo de ancestral do establishment dos políticos vitoriosos espalhados pelos três poderes querendo sempre jogar as cartas sobre a melhor hora de derrubar um presidente. No caso atual, a conversa já começou há algum tempo e as razões são todas originadas da própria conduta do presidente.

Outra vez ele ronda as eleições das duas mesas alimentando a precipitação e a indecisão. Porém não tenho dúvidas de que erra, tanto sobre as eleições de 2022, como a de segunda-feira próxima, quem votar pensando em impeachment.

Por fim, Lira, pragmático, está mais focado no sindicato, pobre em legisladores, uma forma de negar a realidade. Baleia administra desapontamentos, toda a realidade.  Quando o governo entendeu que seu candidato parou em 190 votos partiu como trator para cima do bloco de Baleia para abrir dissidência.

Domingo, pragmáticos e desapontados trocam ideias. O lado que escancarar melhor todos os alarmes e as ocorrências incomuns que viveram estes dias, vence. Eleição sem partido, sem nada, todos partidos. A borra grosseira e disforme que se forma tece mais um fio dessa crise alarmante. 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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