O voto da guerra

O Boletim dos Cientistas Atômicos, fundado por pessoas que trabalharam no projeto Manhattan — aquele que desenvolveu as primeiras armas nucleares nos EUA —, criou, em 1947, um relógio que é ajustado como um símbolo de proximidade a um evento de grande destruição planetária. Ele é uma medida subjetiva, baseado na opinião de membros do conselho do Boletim, que é basicamente uma ONG. Serve aqui como introdução. No conselho, atualmente, tem desde um ex-governador da Califórnia por quatro vezes, até uma ganhadora do prêmio Pulitzer, passando por uma série de pesquisadores de várias universidades americanas, poucas estrangeiras, e, até mesmo, alguns cientistas atômicos.

A ideia do relógio é usar a metáfora da proximidade da meia-noite como sendo a proximidade do fim. Quando foi criado, em 1947, já foi logo ajustado para faltando sete minutos para a meia-noite. De lá para cá, a marcação foi alterada 23 vezes para mais e para menos distante da meia-noite. Desde 2018, a contagem é de dois minutos para meia-noite, a mais baixa da série e apenas igual ao ano de 1953.

1953 foi um ano especialmente perigoso para o planeta, porque, em sequência ao teste inaugural de uma bomba de hidrogênio pelos americanos, no fim de 1952, a União Soviética testou a sua bomba de hidrogênio, enquanto os EUA faziam 11 testes nucleares no deserto de Nevada. 

Nevada é hoje em dia muito mais famosa pelas festanças sem fim de Las Vegas. Quem sabe, por isso, talvez compreendamos mais por que o ano de 2019 é tão perigoso quanto 1953 por conta de outros acontecimentos.

Música alta, bebidas e clima festivo desanuviavam a noite de um Roosevelt Jr. querendo fazer história em Teerã. A alguma distância do imóvel que abrigava o estadunidense, residia Mohammed Mossadegh, primeiro-ministro do Irã. Naquela noite de 15 de agosto de 1953, Mossadegh tinha sua residência invadida por um grupo de militares decididos a lhe infligir um golpe de estado. Forças legalistas de prontidão impediram o golpe, prendendo dezenas de pessoas.

Já nas primeiras horas do dia 16, quando o rádio conectado no imóvel em que estava Roosevelt Jr. começou a tocar música marcial, celebrar Mossadegh e anunciar que um golpe havia sido reprimido, a ressaca da festa virou um funeral. Kermit Roosevelt Jr., descendente direto do presidente Theodore Roosevelt e também aparentado do presidente Franklin Roosevelt, era o homem enviado pelos EUA ao Irã com a missão de derrubar Mossadegh. Roosevelt Jr., ainda nos seus trinta e tantos anos, era um alto funcionário da CIA numa missão conspiratória secreta. É impossível entender a relação dos EUA com o Irã, e tudo o que tem acontecido e pode vir a acontecer, sem considerar essas ocorrências.

De fato, apenas 60 anos depois, ou seja, há cinco anos, a CIA admitiu sua participação direta nos eventos de 1953. Mais recentemente, em 2017, a CIA liberou um calhamaço de cerca de mil páginas de documentos a respeito da operação. 

Fazia parte de um esforço de apaziguamento dos EUA com Teerã, que ganhou corpo na administração Obama e foi fortemente boicotado pela administração Trump. Lendo-os, se aprende que, passadas 48 horas do fracasso do golpe, Roosevelt Jr. recebeu um telegrama de Washington com ordens para abortar a operação.

O desobediente Roosevelt Jr. solenemente desconsiderou a determinação e conseguiu completar sua missão. As relações entre EUA e Irã jamais seriam as mesmas, dando contornos estranhíssimos ao balaio de gato que se tornou o Oriente Médio, onde o petróleo virou um óleo de cobra.

A parte mais famosa dessa valsa fúnebre ocorreu em 1979. A primeira vez que o herdeiro e empresário Donald Trump veio a público para se manifestar sobre algum assunto de política internacional foi justamente durante a invasão e o sequestro de todos os funcionários da embaixada americana em Teerã. Irado com o que ele considerava uma humilhação imperdoável sofrida por seu país.

Desde antes de Trump chegar ao poder, o país para o qual o Pentágono reserva mais horas de preparação para a guerra que ainda não ocorreu, desde o fim da Guerra Fria, é o Irã. De todos os conflitos do mundo, é o dos sonhos de Trump. John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, informou neste 5 de maio ter deslocado um porta-aviões para perto da costa iraniana como um aviso. Um aviso que se mistura com os preparativos para as eleições presidenciais de 2020.

Desde o fim de 1986, um estudo publicado no Journal of Conflict Resolution mostra que, em média, a participação dos EUA nas cinco guerras em que esteve envolvido, entre 1896 e o princípio dos anos 1980, teve impacto negativo sobre o sucesso eleitoral do partido que enviava os EUA para cada uma das guerras. (Continua no próximo artigo)

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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