Parlamentarismo e a higiene nos ideais

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 23 de janeiro de 2022.

Se no mundo do esporte o arrogante tenista Novak Djokovic tirou o charme do jacaré da Lacoste, no mundo político a funcionalidade do sistema parlamentarista é o principal ensinamento que se extrai da enrascada em que se envolveu Boris Johnson. Pego – ele e sua equipe, juntos e separados – em inadequadas confraternizações durante o confinamento imposto pela pandemia, Johnson teve que explicar no Parlamento britânico sua falta de responsabilidade.

É uma ferramenta brilhante a regra de que uma vez por semana, estando funcionando o Parlamento, o primeiro-ministro precisa comparecer para responder a perguntas. Perguntas que vêm, por direito, principalmente do líder da oposição. A prática ocorre desde o governo de Harold Macmillan, nos anos 1960.

O questionamento no Parlamento é um dispositivo civilizatório, ainda que chame mais a atenção quando há escândalo desses que atiçam a revolta no cidadão. Às vezes parece balbúrdia, mas melhora a qualidade do chefe de governo e do Parlamento.

Ao minimizar a importância de ser rígido consigo mesmo no cumprimento de uma regra que estava sendo imposta sobre a sociedade, Johnson cometeu um erro comum. Tão comum que muita gente aponta para uma certa hipocrisia dos que querem usar esse pretexto para derrubá-lo. O problema não é o erro, mas a falta de compostura num momento de consternação nacional.

A imagem da monarca nonagenária acompanhando sozinha o funeral do marido na grandiosa capela de São Jorge, dentro do Castelo de Windsor, quando justaposta com a informação de que naquela madrugada uma festa tinha agitado a residência do primeiro-ministro, é devastadora. Pouco importa que Johnson não estivesse naquela festa, já que afinal teria participado de outros eventos que não respeitavam protocolo.

Todavia, Johnson tem uma qualidade que falta ao tenista: exposto seu equívoco não mente e pede desculpas repetidamente. Ou seja, tem mais higiene nos ideais. E tem uma sorte: não tem alguém como ele em seu partido ao mesmo tempo pronto para liderar e disposto a confrontá-lo. O que existe é o Partido Conservador, que manda, e o faz através da soberania do Parlamento.

Boris Johnson chegou ao poder numa onda que colocou gente muito esquisita no comando de países importantes. São líderes de uma popularidade que vinha em parte da falta de liturgia e que passavam a impressão ao povo de que acompanhariam a chefia do governo como quem acompanha um show de televisão. Como a pandemia equalizou o comportamento de todo mundo, o trote que o eleitor quis pregar no mundo político ficou sem graça. O líder – seja querendo proibir ou liberar tudo – entrou demais na casa da pessoa. Com a saúde em risco, ocorreu um retorno à ideia de que governante precisa ser competente, não constrangedor.

Com todo mundo submetido a protocolos sanitários, a quebra da regra por motivos fúteis passou a carregar uma ofensa pessoal. O público voltou a querer bom exemplo, especialmente de autoridades que pregam a norma que não cumprem. Afinal, tem algo no nosso tempo em que há maior tolerância com a cafajestagem honesta do que com a hipocrisia.

Ninguém gosta de confinamento e afins. Para a maioria das pessoas é ruim e mais cedo ou mais tarde se torna péssimo. Mais do que isso, ninguém gosta de ter a liberdade cerceada. As pessoas concordam com isso por pactos sociais. Pactos por amor ao próximo e a si mesmo, e para que a vida seja menos violenta e curta. Logo, quando as pessoas aceitam restrições por causa de uma emergência elas mais esperam de quem tem posição de poder e influência, única forma de entenderem a igualdade de direitos e a justiça.

É verdade que a pandemia não tem sido favorável para governantes em lugar nenhum. Mas, com todo mundo passando aperto, paciência com deboche diminuiu mais ainda. Situação tão crítica que Johnson mesmo já tinha sido convencido a mudar de ideia e de postura. Ele talentosamente transitou de negacionista para grande enfrentador da pandemia aproveitando a alta volatilidade da opinião pública no Reino Unido sobre a pandemia.

Os britânicos foram de 85% favoráveis ao confinamento geral em janeiro de 2021 até uma situação em que, no mês passado, apenas cerca de 20% apoiavam fechar bares e proibir encontrar com não familiares em ambientes fechados. Johnson se deu mal na confusão de proibir festas dos outros, mas não na residência oficial. O apoio público derreteu.

Ele, no entanto, só cai se receber voto de desconfiança iniciado por 15% dos congressistas conservadores e confirmado por maioria simples. Para evitar isso, está tentando fazer do limão uma limonada propondo o abandono da maioria das restrições relativas à COVID. É um camaleão simpático, domado pelas virtudes do parlamentarismo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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