QUALQUER UM, MENOS ELES

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 02 de setembro de 2018.

O mundo anda sufocado pelo excesso de pensamentos individuais que a abundância alimenta e, estressado, não está sabendo ressurgir econômica e culturalmente como sociedade de seres humanos educados. O cavalo humano já não sabe mais o que fazer com o dobro de feno que lhe deram, mas ao preço de tirar-lhe o controle do pasto.

Há um retrocesso na ideia da liberdade e da responsabilidade de todos. O sofrimento dos povos advém de estarem tolamente entregues e iludidos com a agenda dos grandes conglomerados de ideias e coisas, crescentemente ligeiros e concentrados em fazer de todos massa de manobra. Políticas nacionais estimulam pessoas perdidas a confiar tudo no Estado, o maior oligopólio de sonho e frustração dos países com problema. A busca por sucesso e independência deveria conter a ideia de que resolver problemas incluí o direito de outras pessoas também resolverem os seus.

E quais são os problemas no mundo de hoje? Por que tanta fascinação pela violência e os violentos, pela velocidade e a solidão? Desigualdade e abundância explicam algumas questões.

Se, por um lado, o acesso às coisas materiais aumentou para todos, por outro, a desigualdade de renda também aumentou muito. Animal complicado que é, o ser humano mede sua satisfação de forma relativa, não absoluta. E parece valorizar mais a relação entre ele e o outro do que comparar seu passado com seu presente.

No princípio do século 20, Corrado Gini, cientista social italiano, primeiro presidente do ISTAT, o equivalente ao IBGE naquele país, popularizou uma medida estatística que mostra a desigualdade de uma sociedade, com suas relações com diversos aspectos das interações sociais e do progresso.

O índice de Gini vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, mais desigual. Quanto mais próximo de 0, mais igualitária é uma sociedade. Quando a desigualdade econômico-social cresce, tarimbados estudos mostram que cresce junto o sentimento de revolta na população e a simpatia por confusões e confusos, que passem por cima de leis e espalhem direitos de forma irresponsável. Não é um líder honesto que as massas, quando estão agitadas, procuram; é um que seja qualquer um, menos eles. A observação histórica dos países mostra que 0,5 no Gini é a fronteira para grave possibilidade de insurreição popular. Caso único entre os países organizados do mundo é o do Brasil, que vive há mais de meio século acima de 0,5. Vale a pena listar o grupo de países que acompanha o Brasil hoje acima de 0,5: África do Sul, país mais desigual do mundo, seguido de vários outros países da África subsaariana e da América Latina o Haiti, a Colômbia, o Panamá e Honduras.

A outra questão é a da melhoria material de quase todo mundo. As comodidades estão aí nas casas das pessoas. O aumento do acesso material pode ser sintetizado por um aumento da renda média e da liberação dos cidadãos para querer mais do que apenas sobreviver. Nesse quesito, a observação histórica dos países mostra que US$ 10 mil de PIB per capita é a fronteira para aumentar a insatisfação popular.

Essa janela que se abre em torno de US$ 10 mil de PIB per capita é um perigo para os governos e os arranjos institucionais estabelecidos na relação da sociedade com o Estado. Onde, aliás, se encontra o Brasil. E, para todos os efeitos, também a China. Que hoje corre para passar por lá para não ter que arrancar os cabelos de desespero com a possibilidade de revolta social. O curioso de observar a China é que ela também passou a sofrer com uma desigualdade social altíssima e decidiu aumentar a força do indivíduo criativo. Sem tirar o olho da perigosíssima influência da demagogia na política espalhada pelas redes sociais.

No fim das contas, o que importa para o rumo da história é onde mora o heroísmo e a vontade de criação. Em todo o mundo, as partes mais estáveis contam com pessoas originalmente bem de vida, saídos dos extratos mais favorecidos da sociedade. Elites, mas mesmo entre os desfavorecidos, há elites. As principais nações do mundo são dirigidas por suas elites a vida inteira. Desde que vistas como legítimas e não privilegiadas. São percebidas como capazes de gestos heroicos de abnegação para o bem nacional. São compreendidas como originadas por enorme esforço produtivo e sofisticada compreensão idealista do papel da pátria e do povo de onde extrai seus frutos. Os quais se obriga a multiplicar.

A aridez infértil da atual encruzilhada global que se projeta com dor e vingança dentro dos países clama por uma visão iluminada de futuro para as próximas gerações. Não adianta querer pular o iluminismo e a ciência e partir para a confusão na rua. Boa fé da elite gera boa fé do povo. E sempre vale o ditado: se tu fores infiel ao anjo, ainda que por um fio de cabelo, o mal empacotará tua alma.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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