REDE DE INTRIGAS

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A maior parte da vida é previsível e monótona. Dia após dia e seus contratempos. Já a desarmonia, após um determinado ponto, bloqueia a lógica de uma nação.  A ansiedade também desloca muitas pessoas que deixam de viver o presente — o único momento sobre o qual temos autoridade — para se remoer sobre o passado ou adoecer sobre o futuro. A preocupação com o futuro não pode tomar espaço da ocupação com o presente, sob pena de não se construir futuro algum, e viver mal o presente.

Há também organizações que ganham a vida por pensar sobre o que ocorreu no passado a fim de influenciar o presente, bem como aqueles que se dedicam a modificar a realidade projetando suas ideias sobre o desenho do futuro. Todavia, nada existe sem agências ativas, mesmo que a ação de um agente não tenha nenhum, ou apenas muito precário, controle.

Com a ciência e a indústria contornando grande parte da realidade, passamos à era em que a maior parte da população ganha a vida no setor de serviços. Hoje, 70% do valor adicionado do PIB mundial é  serviço. Em tal contexto, nos encontramos numa verdadeira encruzilhada. Envolvendo desde cada uma das pessoas, passando por suas organizações, até a vida na Terra como um todo. E tal fato decorre da diminuição espetacular, que é o custo de se formar redes.

O preço ínfimo de se formar redes — confrontado com o retorno que pode ser extraído de seu uso — é a mais relevante explicação sobre a existência de cada vez maior quantidade de fenômenos globais. Desde o resultado da vasta maioria das eleições que ocorreram nos últimos sete anos mundo afora até a posição de líder em faturamento das atuais empresas mais valiosas, passando pela forma como estão sendo pensadas as guerras. É uma coisa só: eleger, enriquecer, dominar.

Uma rapidez exagerada de mudança que deixa as pessoas perdidas porque faz com que instituições sólidas virem pó, sem que se saiba ao certo de onde veio seu fim. Esse mundo sem agentes, que usa rostos emprestados, é cada vez mais um mundo de testas de ferro ou, literalmente, robôs.

As redes são as formas mais efetivas de explodir as hierarquias. Sabe-se disso há séculos. Entretanto, sempre foi caro e demorado demais organizar redes, infiltrar redes, manipulá-las. As formas de organização social eram partidos, máfias, clubes, firmas, sindicatos, grêmios, burocracias, igrejas. A articulação entre tais entidades — ou seja, a tecelagem de redes realmente poderosas — era realizada por certos personagens-chave com habilidades específicas e raras.

O poder de colocar assuntos na agenda era filtrado pela mídia. As instituições de Estado só se viam ameaçadas por revoluções que se apresentavam como tais (e podiam ser combatidas como tais). Hoje em dia, cada uma dessas formas “tradicionais” de associação foram substituídas por um sem-número de redes baratíssimas de serem formadas e, em parte por isso, sem nada a perder.

Política, sexualidade, religião, dinheiro e esportes — as principais identidades de cada um — se tornaram justamente os tópicos reinantes em redes sociais. Exposições obscenas, rasas e ilógicas, acompanhadas de discussões sem fim que estão literalmente adoecendo as pessoas. Tudo isso só é feito porque é barato demais, sem custo material nenhum, na maioria dos casos.

A regra é simples, falar de tudo sem ser gigante. Buscar ganhar na base barata da tentativa e erro destruindo valores, hierarquia e instituições, atentando especialmente contra os próprios, fantasiados de “o outro”.

Estamos assistindo a um ataque tecnológico mundial à política e à sociedade analógica. O fungo cibernético que vai desmoralizar a medicina, pois mata dentro do hospital. Executado muitas vezes por grandes governos “desordeiros” e redes emergentes transnacionais. Um exército sem face, interessado, seja em puramente desestabilizar outros países, seja em testar balões de ensaio que os ajudem a melhorar sua própria defesa e posição relativa. Seu objetivo é minar a confiança das pessoas em si mesmas, cansá-las ao limite, e em regimes e instituições democráticas para tirar a capacidade do país de se organizar como verdadeira nação.O caso da indiscutível interferência russa na eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos é o que mais notoriedade alcançou. Os democratas americanos são obcecados demais com a Rússia para entender que de fato Trump não é agente originário e, por isso, não cometeu crime, mas, é sim, parte de uma rede que serve como meio inconsciente de difusão. A vítima é a coesão social e a saúde mental das pessoas que vivem nas sociedades abertas. O Brasil nada sabe do que essa rede de intrigas quer do Brasil.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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