Sucata imunda de um coração

O Estado de S. Paulo – 10 de Março de 2021.

É um pouco repugnante o estilo difamatório do personagem que faz da grosseria investimento. O título do artigo é verso de W. B. Yeats, de poesia sobre deserções, fanatismo e ódio escravizando a alma. 

Tirar a roupa em público é como dizer que não sabe nada. Com inteligência inadequada ao papel e princípios morais incapazes de defender a sociedade da pandemia, é o principal fator de desequilíbrio e desestruturação da institucionalidade. Torto, de sentimentos violentos, só entende as coisas do seu modo. Tudo é impossível, só ele é possível. 

Cai por cima e põe por terra a sociedade civil, esgotada pelas sequelas sucessivas de frustração, inflação, baixa renda, identidades manipuladas, um sistema político deformador de cidadãos, juízes que burlam a lei, economia predatória, esgotamento da noção de destino, polícia arbitrária, desequilíbrio da noção de autoridade e reinfecção impulsionada por perversidade estatal impune. 

O povo, como Eleanor Rigby, junta o arroz que o poder joga sobre os noivos e aguarda na janela seu destino. 

Sem movimentos sociais a sociedade vê o imprevisível se tornar indesejável e suporta o improvisado contraveneno curiosamente virar o veneno. Porém, mesmo que a maldade ande mais fácil que a bondade, não lamente o sol por causa do eclipse. 

Querendo se fazer mordaz o libertino é repentino. Repentino costuma não ser bom. O bem, diferente do mal, tem outra velocidade, vem devagar e leva em conta o ritmo do outro. É possível ser bom sem ter bagagem cultural. Difícil entender alguém influente sem atitude moral, seja prima-dona culta ou arrogante asselvajado. O mal-educado deveria desconfiar quando alguém vai visitá-lo. 

As igrejas se dividiram, o Velho Testamento propagado aos berros exalta um Deus furioso, repetitivo, com ciúme da mansidão de Cristo. Impotente a oração, o ceticismo se acumula diante da fé. A riqueza perde mérito adquirida à sombra da virtude; a pobreza se alastra, a desigualdade se amplia. 

Parte da Justiça quer adular o príncipe. Não detém a tempestade, quer ser um pingo dela. Felizmente, um ministro atento pisa no freio e decide adiar o renascimento do Riocentro. Mas não basta frear o ventríloquo. A fonte do falante é a garganta maior. O novo desenho está esboçado pela cultura dos desenfreados. E se impõe sobre o nacionalismo, os sentimentos coletivos, as instituições culturais e a vida econômica desorientada, comprometendo a formação para o trabalho e o emprego. 

Hormônios fora do lugar, virilidade errada, armas em todo lugar, não é energia, é destruição. Sucata de um coração desumano, puxa o mundo para seu lado, aperta o pescoço aos palavrões. 

Não vai ser coisa boa quando a decadência da língua e a miséria do corpo se encontrarem na terra de ninguém que se anuncia. Há em curso a ideia da violência como forma de organização social. Lugar onde a propensão para a confrontação, a cultura da extorsão, o policial violento e a arma de fogo do cidadão sem limite já corroem as bases da segurança pública. 

O governante não deve levar em conta exclusivamente sua aflição. Se não respeita a democracia, manipula soldados, políticos e juízes, e quer impor sua vontade a ferro e fogo, seus costumes pessoais o denunciam e costuma vir dele mesmo a força que o aniquila. 

O silêncio social cria cidadãos arruinados, sem condições de reagir. A economia, tocada por ministério reticências, desassociado da vida real, continua desatenta à avalanche do que se está formando. Todos os caminhos já foram percorridos. Livre mercado sem lei e gabinete com antipatia pelo povo ajudam pouco ao liberalismo. A economia, cheia de pretextos de mercado, precisa das razões de emprego, comércio e indústria. Capaz de fazer uma gestão que olhe as razões dos atores produtivos sem preconceito, com visão positiva do trabalho e ciente dos efeitos do que faz. Fatores não econômicos estão prevalecendo e a confiança se assusta com a improvisação e a empáfia. 

Valores e fatos estão sendo esfarinhados. A futilidade estruturada na economia é de país das maravilhas. Melhor Alice, porque sincero é dizer que aqui é preciso correr o máximo que se pode para ficar no mesmo lugar. O governo é liberal como no Recife holandês o boi é voador. 

A atividade econômica defendida não tem relação com a necessidade social de crescimento. A crise é por causa desta mania de manter a vida econômica diária intensamente insegura, culpando o vírus, o Legislativo e o Judiciário por isso. A demora programada da vacina, a ruína da linguagem pública, a mansão paga com salário, o palácio cuspir nos mortos, tudo pode estar a serviço do recrutamento de um movimento violento contraditoriamente conduzido pelas vítimas do agressor. 

Se não há uma autoridade política central capaz de construir uma compatibilidade entre interesses divergentes, não há necessidade de presidente. E se é o governante que espalha como paina ao vento os conflitos e as divergências, ele é o desespero, que entretém o povo com insultos. Nada diz do que importa, arrasta multidões para o abismo ao invés de as proteger.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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