TRUMP MEXE NO VESPEIRO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 16 de setembro de 2018.
A expressão que fere é a certa, mas, se vem anônima, pode não ser considerada bem opinião. Mancur Olson, cientista social americano, falava do Estado como um “bandido estacionário”. Ele monopoliza de forma racional a subtração da riqueza individual em forma de impostos. Procura não tirar mais do que o que permite à sociedade continuar existindo e produzindo riqueza. Impõe caprichos reguladores, induz e domina de maneira menos custosa ao desenvolvimento do que sua alternativa anárquica, quando faz o que quer. Nesse caso, distorcido por se acharem regiões inatingíveis do Estado, comportam-se como “bandidos errantes” — aqueles que secam o leite da vaca a ponto de não sobrar nada para o bezerro.
Nessa trama sem anjos, apenas com seres humanos, o “bandido estacionário” defende a ferro e fogo seu quinhão dos ataques errantes que, de vez em quando, acertam em cheio o bolso de uma parte da nação.
Por outro lado, quando o bom cobrador de impostos se acha esperto demais e se mistura com os “errantes” para prevalecer em disputas internas de poder, fica difícil parecer mocinho. É quando a manutenção da sobrevivência vem como banho d’água fria e põe a boca no mundo.
O grito desse Estado ameaçado foi ouvido por trás de um capuz na forma de um editorial, no jornal The New York Times do dia 5 de setembro. Mas será somente uma história americana o tal presidente que pinta e borda?
“Eu sou parte da resistência dentro da administração Trump” foi o título escolhido. Com o tamanho de meio tuíte, o título em si já carrega a mensagem que se espalhou sobre o conteúdo do artigo. Há pessoas que fazem parte da administração Trump que agem para frustrar parte das decisões do mandatário, o qual consideram “amoral”. De modo singular, o autor secreto descreve a resistência não como “o trabalho do assim chamado Estado profundo (…), [mas] do Estado estacionário”, inadvertidamente expressão ampla, comum e identificadora do funcionário público de carreira.  Ou seja, não se trata do “fogo amigo” brasileiro, essa imoralidade política praticada por partidos contra seus próprios membros mais influentes.
Trump é um forasteiro na política. Um cowboy errante de luxo duvidoso da indústria da incorporação imobiliária sem fronteiras ou limites. Um cafona, o principal figurino da política. Além da mídia, a qual ele declara ser “inimiga do povo”, Trump luta sua batalha diária para desconstruir o que ele chama de “Estado profundo”. Basicamente, aquelas partes das instituições republicanas que direcionam as políticas de forma permanente, sem serem muito afetadas pela mudança de orientação significativa que pode ser consagrada pelo voto popular. Trump entende que foi eleito com o direito de mudar essas estruturas. Não lhe comove que muitas delas sejam os esteios da estabilidade americana e mesmo internacional. Trump se deu bem e fez fortuna no mundo de bang-bang. Cansa sua beleza a previsibilidade institucional.
Steve Bannon, seu mentor intelectual e atual líder globe-trotter do sectarismo, após servir um tempo como estrategista-chefe na Casa Branca, se afastou e foi correr mundo difundindo suas teses. Quando saiu o editorial do Times, Bannon deixou de lado um pouco seu atual foco na política europeia para declarar ser “um golpe” o que está sendo tramado contra Trump. De fato, a natural e resistente parte estacionária da estrutura de poder resiste a quem decide atacá-la.
O errante Trump não é nenhum Robin Hood, muito pelo contrário. Mas na burocracia do Estado existem os estacionários que gostam bem de dar uma de Xerife de Nottingham, agarrados a Washington, e também não causam nenhuma simpatia ao povo americano. Muito menos quando usam máscara e seguem se beneficiando do que dizem combater. No Brasil tem um pessoal parecido, que quer multar, mas quer ganhar um pedaço da multa. São as hipocrisias que fazem Trumps.
Racionalmente, lembrando Olson, as pessoas se submetem ao Estado para não terem que ser roubadas a torto e a direito num mundo selvagem. O problema e a revolta nascem quando a percepção é de que a violência se generaliza para além do controle do Estado, bem como de que agentes do Estado estão subtraindo além daquilo que a parte do leão contratada socialmente determina.
Agora que a internet criou a preguiça do cérebro, uma espécie de ignorância racional sustentada pela dificuldade de pensar por conta própria, será que a imprensa vai se entupir de denúncias anônimas, pela dificuldade de investigar governos autoritários e inconsistências morais nas carreiras públicas? Não parece justo que todos tenham de se refugiar na intriga, entregar a alma às redes sociais e parar de ler jornais, a última cidadela da liberdade de expressão.
Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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