UM FIM DE ANO CONFUSO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo,  08 de dezembro de 2019.

A era dos economistas não está dando certo. A Organização Mundial do Comércio (OMC), que somente foi fundada em 1995, depois do fim da Guerra Fria, vai parar de funcionar com suas plenas funções no dia 11 deste mês. Na trinca formada por Banco Mundial, FMI (Fundo Monetário Internacional) e OMC, a última é a mais democrática e representativa, fruto do distensionamento vivido nos anos 1990. Está sendo dirigida, desde 2013, por um competente diplomata brasileiro, Roberto Azevêdo.

A despeito da abrangência representativa do organismo, ou por conta disso, ele se mostrou incapaz de equacionar as tensões que crescem no mundo diante do desconforto que os Estados Unidos, vira e mexe, demonstram com ganhos relativos de outras nações. Há também crescente divergência de opinião entre os EUA e a União Europeia sobre o funcionamento do mundo, como mostrou o embaraçoso aniversário da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em Londres dias atrás. De todo modo, é por conta da decisão unilateral americana de vir vetando há alguns anos novas indicações ao Órgão de Apelação da OMC que esse suspenderá o seu funcionamento por ausência de número necessário de árbitros.

A deslegitimação da OMC vem numa hora em que a globalização e o comércio internacional se encontram numa encruzilhada.

A paixão pelo “não” move o mundo atual. A COP-25 está acontecendo em Madrid e fica claro que, infelizmente, não existe clima político no mundo para se evitar o aquecimento global. A principal causa das mudanças climáticas é a matriz energética de base fóssil. Sem sair do petróleo, carvão e gás-natural, não é possível evitar que o clima do planeta mude para pior. Todo o resto é paliativo. E o único paliativo mais honesto é aplicação de tecnologias que capturem CO2 dos locais que o emitem e também da atmosfera.

O problema causado pelos diferentes interesses relacionados à mudança climática é exacerbado por quem ganha ao culpar tudo o mais para não precisar enfrentar a necessidade de se sair do petróleo. Os grandes poluidores bem armados já se resignam ao preparo para um futuro de confrontos por conta da mudança climática.

Segundo a edição de 2019 do relatório do Centro de Pesquisa Conjunta da Comissão Europeia, o Brasil, apesar de ser o quinto maior país do mundo e de ter a sexta maior população, é apenas o 13º emissor de CO2 no planeta. O Brasil, como um todo, emite menos CO2 do que a Coreia do Sul, país que tem uma população ligeiramente maior do que a do estado de São Paulo vivendo numa área do tamanho do estado de Pernambuco. O Brasil é verde.

Depois de ilhas e dos grandes produtores de petróleo do Oriente Médio, os maiores emissores per capita são Canadá, Austrália e Estados Unidos. Considerando emissão per capita, o Brasil quase não aparece no mapa. Emite menos CO2 per capita do que a Guiana Francesa. O que dizer então da França, que emite, per capita, um pouco mais do que o dobro que o Brasil?

Curiosidade que muitas vezes escapa ao debate é que, fora o uso industrial e para o transporte, uma das principais emissões de gases de efeito estufa ocorre por conta do frio que sentem as pessoas que vivem nas zonas temperadas e subpolares. Quase que uma exclusividade de países ricos com invernos rigorosos, que precisam ficar com calefação funcionando boa parte do ano. Calefação altamente poluente.

Cerca de 40% de todos os gases de efeito estufa emitidos pela cidade de Nova York são decorrentes de calefação e de água quente obtidos pela queima de combustível fóssil. Quer reduzir para valer a mudança climática? Tem que começar parando de fazer calefação com combustível fóssil, não adianta parar de comer bife. O fato é que, até hoje, é principalmente a parte fria do mundo que esquenta o planeta. E é a parte com mais capital disponível para ter seriedade e parar de esquentar. Entretanto, parte de sua população desinformada gasta mais energia criticando as áreas tropicais e subtropicais, que são justamente as que mais sofrem com as mudanças climáticas, porque são, já de início, mais quentes.

Entretanto, há mais gases causadores do efeito estufa. O metano corresponde a cerca de 16% das emissões de efeito estufa decorrentes da atividade socioeconômica humana, segundo relatório de 2014 do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. O Brasil é um dos cinco maiores emissores desse gás no mundo. Vem muito atrás da China, que é o maior emissor, mas também atrás da Índia, da Rússia e dos Estados Unidos. Isso com dados coletados mundialmente para 2012. Como a Rússia e os EUA não emitem muito mais do que o Brasil, pode ser que nosso país passe para a terceira posição.

É hora de o Brasil dizer sim à boa agenda verde do mundo e parar de alimentar os poluidores do petróleo com argumentos falsos.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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